{"id":18171,"date":"2013-05-09T11:05:14","date_gmt":"2013-05-09T14:05:14","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=18171"},"modified":"2020-08-04T00:00:08","modified_gmt":"2020-08-04T03:00:08","slug":"no-prato-do-vlad-o-sabor-do-peixe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/05\/09\/no-prato-do-vlad-o-sabor-do-peixe\/","title":{"rendered":"Viagens do Vlad: O sabor do peixe"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-19192\" title=\"tanger1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/tanger1.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"454\" \/><br \/>\n<strong>Viagens do Vlad #1<br \/>\nO sabor do peixe<br \/>\nTexto e fotos por Vladimir Cunha<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se voc\u00ea est\u00e1 visitando o Marrocos pela primeira vez, um conselho: jamais aceite ajuda de ningu\u00e9m. Mal voc\u00ea coloca os p\u00e9s no pa\u00eds e uma enxurrada de guias, vendedores, taxistas, pedintes, crian\u00e7as e toda a sorte de golpistas partem para cima. Eles oferecem de tudo: transporte, comida, \u00e1gua, guias tur\u00edsticos, haxixe. E pedem de tudo tamb\u00e9m. D\u00f3lares, euros e at\u00e9 pe\u00e7as de roupa. Mas n\u00e3o desista. Visitar o Marrocos \u00e9 uma daquelas experi\u00eancias pelas quais vale a pena viver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tinha chegado ao porto de T\u00e2nger atrav\u00e9s de Tarifa, uma pequena cidade no extremo sul da Espanha, na Andaluzia, divisa entre o Mediterr\u00e2neo e o Atl\u00e2ntico. Trata-se de uma vila fortificada, um ponto estrat\u00e9gico que j\u00e1 pertenceu a mouros, franceses, romanos e at\u00e9 espanh\u00f3is. Por causa da localiza\u00e7\u00e3o, a cidade \u00e9 a\u00e7oitada diariamente pelo Levante, uma corrente de vento fort\u00edssima que sopra do Mediterr\u00e2neo para o Atl\u00e2ntico. \u00c9 o que faz de Tarifa um dos melhores lugares do mundo para a pr\u00e1tica do kitesurf. E \u00e9 o que d\u00e1 a cidade um ar relaxado e uma vida noturna animada, cheia de surfistas, hippies, ciganos, gatinhas mochileiras e m\u00fasicos de rua. Uma esp\u00e9cie de Saquarema andaluz localizada em um dos lugares mais bonitos do planeta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">T\u00e2nger fica a um pulo de Tarifa. Cerca de 30 minutos de ferryboat. No porto, o fluxo \u00e9 constante. Europeus, africanos, \u00e1rabes, norte-americanos de camisa florida e berberes. Japoneses, muito poucos. Franc\u00eas, swahili, espanhol, italiano, ingl\u00eas, portugu\u00eas, \u00e1rabe. A profus\u00e3o de l\u00ednguas \u00e9 imensa. Todo mundo ali est\u00e1 indo ou vindo de algum lugar. T\u00e2nger \u00e9 isso: um lugar de passagem, n\u00e3o exatamente marroquino, mas planet\u00e1rio. A porta de entrada para a \u00c1frica, que j\u00e1 viu dias melhores e hoje sobrevive de aspectos que fizeram parte do seu passado grandioso. Os pal\u00e1cios, os pr\u00e9dios coloniais, os caf\u00e9s, a Medina. Est\u00e1 tudo l\u00e1. Sem muito brilho, mas com um charme que remete aos seus tempos de gl\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-19193\" title=\"tanger2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/tanger2.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Localizado no in\u00edcio da Escallier Waller, uma das muitas entradas da Medina de T\u00e2nger, Saveur De Poisson (Sabor de Peixe) foi a grande surpresa do meu primeiro dia na cidade. Chegar at\u00e9 l\u00e1 n\u00e3o foi f\u00e1cil. O restaurante fica em uma das \u00e1reas mais movimentadas de T\u00e2nger e fazer esse percurso demanda uma boa dose de paci\u00eancia. Mal ponho o p\u00e9 para fora do hotel e um garoto come\u00e7a a me seguir por tr\u00eas quarteir\u00f5es pedindo dinheiro. \u201cA Medina \u00e9 um labirinto, sem mim voc\u00ea vai se perder l\u00e1\u201d, insiste ele em um ingl\u00eas carregado. Outro garoto chega junto e descobre, n\u00e3o sei como, que sou brasileiro. Come\u00e7a com um papo sobre futebol (\u201cPel\u00e9! Kak\u00e1! Ronaldo!\u201d) s\u00f3 pra depois tentar me empurrar um bonequinho feito de arame (\u201cArtesanato local\u201d, insiste). Um africano de terno me p\u00e1ra e me entrega um panfleto de supermercado. Eu pego e, muito rapidamente, ele coloca em minha m\u00e3o um perfume Paco Rabane falsificado. Devolvo e ele n\u00e3o aceita, alegando que eu o havia comprado. Mal me livro do africano e dois rapazes colam em mim. Quando digo que n\u00e3o quero guia a resposta vem de imediato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cN\u00e3o, amigo, n\u00e3o somos guias\u201d, responde um deles, \u201cSomos estudantes, queremos praticar o ingl\u00eas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPorra, legal. At\u00e9 porque t\u00f4 sem grana. Mas podemos conversar, sim. T\u00e3o a fim de falar do que?\u201d, retruco enquanto os dois se afastam desanimados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E assim foi. Do Hotel Rembrandt, onde estava hospedado, at\u00e9 a entrada da Medina, fui me desviando de todo o tipo de prestador de servi\u00e7o, estudante de l\u00ednguas, guia tur\u00edstico, artes\u00e3o e comerciante de tapetes. Todo mundo no Marrocos est\u00e1 sempre pronto a vender qualquer coisa, mostrar a cidade, \u201cpraticar o ingl\u00eas\u201d ou, simplesmente, pedir dinheiro. Paci\u00eancia e firmeza nas respostas ajudam. Uma frase em \u00e1rabe, \u201cLa La, chucran\u201d (\u201cN\u00e3o, n\u00e3o, obrigado\u201d), te livra de qualquer ass\u00e9dio em dois palitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o papo aqui \u00e9 comida. De cara \u00e9 preciso saber que Saveur De Poisson \u00e9 o melhor peixe de T\u00e2nger. O lugar \u00e9 min\u00fasculo, apenas oito mesas e um gar\u00e7om poliglota que \u00e9 a maior figura. De acordo com a filosofia do dono de s\u00f3 trabalhar com ingredientes frescos e naturais, a despensa da cozinha fica na entrada do restaurante. Assim que voc\u00ea chega, d\u00e1 de cara com uma banca onde \u00e9 poss\u00edvel ver tudo o que Chez Popeye usa para fazer os pratos que deram fama ao lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-19194\" title=\"tanger3\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/tanger3.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chez Popeye \u00e9 um sujeito j\u00e1 bem velhinho \u2013 que fica andando entre as mesas falando sozinho, repetindo \u201cwafa, wafa\u201d sem parar \u2013 e que tem uma fixa\u00e7\u00e3o nos personagens criados nos anos 30 pelo cartunista Elzie Segar. Al\u00e9m de decorar as paredes do lugar com desenhos de Popeye e Ol\u00edvia Palito, ele aborda as clientes perguntando se s\u00e3o casadas ou solteiras. Se forem solteiras ele sempre manda essa: \u201ctem que casar, toda Ol\u00edvia Palito precisa do seu Popeye\u201d e depois as leva para os fundos do restaurante onde lhes presenteia com colheres e garfos de madeira e \u00f3leo de argan. E l\u00e1 vai ele. Chega na mesa, faz a pergunta, d\u00e1 a sua li\u00e7\u00e3o matrimonial de vida, leva pros fundos do restaurante e segue em frente. \u201cWafa, wafa\u201d, diz o tiozinho pela mil\u00e9sima vez ao passar por mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o \u00e9 que a comida do Saveur De Poisson \u00e9 diretamente proporcional \u00e0 maluquice do dono. Sem card\u00e1pio, o restaurante oferece apenas um prato composto de sopa de gr\u00e3o de bico, azeitonas temperadas com pimenta, am\u00eandoas assadas, p\u00e3o, casserole de camar\u00e3o e lula e linguado grelhado com ervas. Para beber, suco de frutas. \u00c1lcool no Marrocos ainda \u00e9 proibido. De sobremesa, frutos secos com nozes, cevada e mel. Ao contr\u00e1rio de outros restaurantes de T\u00e2nger, especializados em rapinar turistas desavisados, as por\u00e7\u00f5es aqui s\u00e3o muito bem servidas. A surpresa maior fica com a conta. Apenas 15 euros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 uma comida simples, local e caseira. N\u00e3o demanda um paladar sofisticado e nem grandes elocubra\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas. Talvez por isso mesmo seja excelente. O segredo, creio eu, est\u00e1 no cuidado com que \u00e9 preparada e seus ingredientes s\u00e3o escolhidos. Parece algo passado de gera\u00e7\u00e3o \u00e0 gera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e0 toa o Saveur De Poisson \u00e9 freq\u00fcentado tanto por locais quanto por turistas. Existe ali uma tradi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 exatamente de comida \u00e1rabe ou berbere. Provavelmente uma fus\u00e3o de h\u00e1bitos alimentares do Magreb com t\u00e9cnicas culin\u00e1rias europ\u00e9ias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas isso sou eu dando palpite. Basta andar e comer em T\u00e2nger, onde pizza \u00e9 um dos pratos mais consumidos e o McDonald\u2019s um dos pontos de encontro dos playboys locais, para sacar o quanto \u00e9 dif\u00edcil dizer exatamente onde come\u00e7a e termina uma determinada tradi\u00e7\u00e3o. Trata-se de uma cidade fundada por cartagineses cinco s\u00e9culos antes de Cristo. Um ponto de passagem para quem quer saber o que existe al\u00e9m do Estreito de Gibraltar. Foi um dos centros de espionagem mundial durante a Guerra Fria e j\u00e1 ofereceu abrigo a figuras como Giuseppe Garibaldi, William Burroughs, Allen Ginsberg, Truman Capote, Tennessee Williams, Jean Genet e Keith Richards. Um lugar que, ao longo da Hist\u00f3ria, j\u00e1 foi ocupado por romanos, portugueses, ingleses e mouros. E que, at\u00e9 hoje, se equilibra entre as leis do Isl\u00e3 e uma certa fascina\u00e7\u00e3o pelo Ocidente. Nada mais natural para uma cidade que \u00e9 globalizada desde sempre.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-19195\" title=\"tanger4\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/tanger4.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"454\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Vladimir Cunha \u00e9 jornalista e assina o blog <a href=\"http:\/\/tudojoia.blog.com\/\">Tudo J\u00f3ia<\/a>, um comp\u00eandio de cultura pop, gastronomia e vagabundagem disfar\u00e7ada de cool hunting. Vlad tamb\u00e9m \u00e9 um dos diretores do document\u00e1rio <a href=\"http:\/\/www.greenvision.com.br\/2009\/brega-sa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u201cBrega S\/A\u201d<\/a> e escrever\u00e1 sobre viagens e comida no Scream &amp; Yell.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Viagens do Vlad #1\nSe voc\u00ea est\u00e1 visitando o Marrocos pela primeira vez, um conselho: jamais aceite ajuda de ningu\u00e9m. 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