Eleni Mandell e os desafios de uma artista veterana em atividade: “Acho que estou me divertindo mais agora”

entrevista de Guss de Lucca

Em tempos de redes sociais, músicos que já estão na estrada há algumas décadas e que, em outros momentos, seguiam um caminho das pedras desenhado para a divulgação de um novo trabalho, podem encontrar dificuldade ao buscar fórmulas de promoção diante de tantas bolhas. Esse é o caso da cantora e compositora norte-americana Eleni Mandell.

Às vésperas de lançar seu décimo-segundo álbum de estúdio, “Tailspin” (2026), a artista compartilhou com os fãs, no seu perfil do Instagram, matérias publicadas em revistas e jornais que guarda em uma caixa de recortes – e, em tom de desabafo, perguntou aos seguidores onde consomem notícias sobre música atualmente, pois ela havia esgotado seus contatos e queria muito divulgar seu mais recente disco.

Foi exatamente essa publicação que me instigou a entrar em contato e propor uma entrevista com ela a esse site… e o resto é história. Ou melhor, um bate-papo descontraído sobre uma carreira prolífica que tem como pedra fundamental o lançamento, em 1998, do álbum “Wishbone” — que, a título de curiosidade, tem uma faixa chamada “Tristeza”.

Obrigado pela oportunidade de conversar contigo. Antes de começar, gostaria de saber como surgiu a ideia do post que nos fez estar aqui e entender como você encara hoje a divulgação de um novo trabalho, com a influência ou dependência das redes sociais — em comparação com cenários passados.
Há fatores bons e ruins sobre como as coisas funcionam hoje em dia. Eu diria que a parte boa é que posso ter mais controle e ser mais ativa na divulgação. Não tenho mais um assessor de imprensa que me coloque em revistas, mas é possível que eu esteja alcançando um público maior pelas redes sociais. E estou me divertindo bastante com isso. É legal ter uma comunicação direta com as pessoas. Um fã pode entrar em contato e dizer que gostou de algo que eu fiz, o que é muito gratificante, e posso ser meio boba, experimentar coisas novas. Ser artista é uma performance, ser músico é parte da performance. Tenho amigos que detestam isso e sentem muita falta do jeito antigo, de como era antes. Mas também havia problemas. Eu diria que existem muitos pontos positivos hoje. Então, estou me divertindo.

Nos anos 90, as maneiras de chegar a um novo artista, ao menos aqui no Brasil, eram lendo revistas especializadas, assistindo às faixas não-comerciais da MTV e xeretando nas lojas de discos. A internet facilitou essa busca, mas requer um misto de interesse pelo desconhecido e o acaso. O primeiro CD seu que ouvi, que foi “Country For True Lovers” (2003), surgiu de uma indicação em um site de discos usados. Eu havia comprado alguns álbuns do Tom Waits e ele me ofereceu uma lista de músicos cujos trabalhos tinham inspiração na obra dele.
Nossa, isso é bem legal.

Ouvi trechos de canções de todos e as suas músicas me instigaram a ponto de comprar o CD e querer saber mais sobre você.
Recentemente descobri três grupos novos. Um é o Pale Hound, de Boston. O outro é o Freak Slug, da Inglaterra. E o terceiro é o Slippers, norte-americano. Todas são bandas com vocal feminino de indie pop ou indie rock. Uma delas, a Pale Hound, eu encontrei na XM Radio [estação de rádio online que apoia artistas independentes]. As outras duas foram por causa do algoritmo do Spotify. Qualquer um pode reclamar que não está mais escolhendo o que escuta por conta própria. Porque as coisas não são mais como eram antes. Mas ainda é uma forma que tenho de me conectar com as pessoas e descobrir músicas novas. Acho que no momento estou olhando mais para o lado positivo das coisas. E não estou lamentando muito o passado porque, honestamente, eu nunca tive grandes oportunidades lá atrás. Sempre fui bem underground, então não mudou muita coisa. Acho que estou me divertindo mais agora. E me sinto bem menos estressada com isso.

“Tailspin” é seu décimo-segundo disco de estúdio.
Obrigada por me dizer isso. Porque as pessoas me perguntam e eu não faço ideia de quantos já lancei. [risos]

Foram sete anos entre o trabalho anterior, “Wake Up Again” (2019), e esse lançamento. Você nunca tinha ficado tanto tempo sem lançar um álbum. Como foi essa espera e de onde surgiu a inspiração para esse novo disco?
A pandemia aconteceu e o mundo inteiro meio que parou. E, naquele momento, eu via meu público diminuindo cada vez mais e oportunidades também. Então me senti um pouco aliviada. Não precisava ficar mal porque as pessoas não estavam indo aos shows ou porque ninguém licenciou uma música minha para um filme ou programa de TV. De repente, estávamos todos no mesmo barco. Ninguém estava fazendo nada. Então esse foi o primeiro motivo. Mas eu também não me sentia muito inspirada. Estava num relacionamento que não ia muito bem e pensei: talvez eu não seja mais musicista. Simplesmente deixou de ser uma prioridade. Eu tinha que trabalhar e cuidar dos meus filhos. E achei que havia acabado para mim.

Então comecei a fazer terapia e logo na primeira consulta disse que eu fui musicista a minha vida inteira, mas que achava que não era mais. E, por acaso, a minha terapeuta é artista plástica. Ela disse: “Espere um minuto. Você precisa voltar a fazer isso. É muito importante.” Ela só repetia: “É muito importante”. Ao mesmo tempo, Inara George, com quem tenho um projeto paralelo chamado The Living Sisters — também com Becky Stark e Alex Lilly — me instigou a fazer um show com outras garotas, uma noite de mulheres cantando juntas, dizendo que eu precisava ser resgatada. Então Inara e minha terapeuta me ajudaram a voltar. Eu comecei a ter aulas de piano. Terminei o meu relacionamento. E as músicas simplesmente jorraram.

Agradeça a Inara e a sua terapeuta por mim.
Eu as agradeço. Geralmente descrevo como se elas tivessem me trazido de volta à minha vida, mas foi realmente um grande alívio. Acho que fiquei muito irritada durante aqueles anos porque não estava sendo eu mesma. E agora posso ser eu mesma novamente.

A primeira faixa de trabalho, “Music and Motion”, foi lançada com um videoclipe. Qual a importância deles para a sua música? A impressão que tenho é que você gosta dessa forma de comunicação, mas queria saber mais sobre a sua relação com essa maneira de apresentar uma canção de forma visual.
Eu fui adolescente nos anos 80, quando os videoclipes eram uma parte importante da cultura e da descoberta da música. Me sinto conectada a essa forma de expressão, porque assistia muito e era algo importante e divertido. Eu também quis ser atriz durante a juventude. Achava que esse seria o meu caminho. Então, quando me tornei cantora e compositora, percebi que ainda podia ser um pouco atriz. Estar no palco é atuar de certa forma, é uma combinação. Tudo para dizer que sim, adoro fazer vídeos. Às vezes parece trabalhoso, mas também é muito prazeroso. E estou num momento da vida em que ficou claro que meu propósito é fazer arte com meus amigos. É algo que me preenche de alegria, conexão e senso de comunidade. O vídeo de “Music and Motion” foi feito com o Manny Marquez, com quem colaboro há uns 20 anos e que vive em Oklahoma, a uns 3.200 quilômetros de onde moro. Um amigo dele, aqui de Los Angeles, me filmou cantando. E eu disse para o Manny: “Acho que você poderia usar imagens de pessoas em movimento e juntar tudo de alguma forma”. Então me filmaram, mandamos para ele e, de repente, tínhamos nosso clipe.

Voltando alguns bons anos lá atrás, em seu primeiro disco, “Wishbone” (1998), há uma faixa cujo título é “Tristeza”. Como jornalista cuja língua materna é o português, não podia deixar de perguntar de onde veio a ideia dessa canção e se o título está no nosso idioma ou em espanhol.
Eu amo idiomas. Amo palavras. Amo o som das palavras e o significado delas. Lembro de ouvir a música “Sodade”, quando Cesária Évora se tornou uma grande sensação em Los Angeles. Mas em que ano foi isso? Acho que foi depois… Me recordo de ouvir canções em diferentes línguas e pensar que “Tristeza” soava como um nome feminino, pelo menos em inglês.

Poderia ser um nome feminino em português, não muito bom pelo significado.
Sim, sim. Mas acho que eu estava brincando com a linguagem e com a ideia, essa metáfora de que a tristeza poderia se manifestar como uma mulher. E aí eu ficava pensando que sempre fui meio apaixonada por alguém que não me amava de volta. Então era tudo uma mistura de sensações… Mas agora eu definitivamente vou me concentrar no português. É uma língua realmente linda. Eu adoro.

Pensando na Eleni desse período, a cantora em começo de carreira lançando seu primeiro álbum, como você avalia hoje essa experiência inicial e que paralelos consegue traçar com o lançamento de “Tailspin”?
Eu diria que a maior mudança é que estou muito mais confiante agora. Faço questão de trabalhar com pessoas de quem gosto e que respeito imensamente, tanto profissionalmente quanto criativamente. E com quem posso ter a liberdade de explorar a minha criatividade com conforto e diversão. Isso é extremamente importante. Quando comecei, eu pensava: “Talvez essa seja a minha grande chance”. Mas aí os produtores originais abandonaram o projeto sem dar explicações, antes do trabalho estar concluído, e Brian Kehew entrou em cena e me ajudou a terminar. Ele administrava o estúdio e nos tornamos grandes amigos. Levamos dois anos. E nesse momento veio a minha primeira lição: trabalhar com pessoas com quem você tenha amizade.

Nem sempre dá para ser assim, principalmente quando você está começando. Mas agora, doze álbuns depois, eu consigo fazer isso. Sei com quem quero trabalhar. Não quero que seja a pessoa mais bem-sucedida, mais famosa e com mais dinheiro. Quero trabalhar com meu amigo Sheldon Gomberg, com quem adoro passar o tempo, tenho conversas significativas e sei que se importa comigo, sabe? Então, sim, é muito bom me sentir mais confortável comigo mesma, mais confiante no que estou fazendo e saber de que tipo de pessoas quero estar rodeada.

Eu gostaria de repassar alguns momentos da sua discografia, também como uma forma de apresentar o seu trabalho para novos ouvintes. Depois da estreia com “Wishbone”, você lançou os discos “Thrill” (2000) e “Snakebite” (2001). Pouco tempo separa esses dois trabalhos. O que você pode dizer sobre esse período da sua carreira e sobre esses álbuns?
Demoramos dois anos para terminar o “Wishbone”. E aí, quando eu e o Brian estávamos conversando sobre fazer outro disco, eu disse: “De jeito nenhum quero levar dois anos”. E fizemos “Thrill” em três semanas. A mesma coisa com o “Snakebite”. Quando penso nesses primeiros álbuns, eu estava faminta, animada, triste e desiludida no amor — emoções juvenis muito intensas que simplesmente me impulsionavam.

Quando ouço esses discos, na maioria das vezes penso: “Nossa, eu fui tão corajosa. Não acredito que gritei daquele jeito em uma gravação. O que diabos eu estava pensando?”. Também gostaria de ter feito escolhas musicais diferentes em relação à sonoridade deles. Lembro-me de dizer na época: “Não quero nenhum reverb na minha voz”. E hoje penso que foi uma exigência insana. Não é assim que se faz para soar bem. Existem coisas que eu mudaria. Mas quanto à rapidez com que fizemos e à inspiração que senti para continuar avançando, era como se eu estivesse simplesmente vivendo a vida intensamente, cheia de desejo.

Discografia de Eleni Mandell

Na sequência, em 2003, veio “Country for True Lovers”, que é o meu favorito. De onde veio a ideia de gravar um disco inspirado por esse estilo?
Você conhece a banda punk X, de Los Angeles?

Sim.
A X foi minha primeira banda favorita. E quando os vi tocar, por volta dos treze anos, eles já eram um grupo bem famoso, e eu pensei: é isso que quero fazer. Alguns anos depois, eles lançaram um disco com o nome The Knitters (“Poor Little Critter On The Road”, de 1985). E essa foi a primeira vez que ouvi música country e entendi que também podia gostar desse gênero. Eu não precisava me limitar a um único estilo. Então comecei a ouvir outros artistas country como George Jones, Buck Owens, The Louvin Brothers, por meio de diferentes pessoas. Foi como se sinais estivessem apontando: vá para a esquerda, vá para a direita, vá para lá. E, no fim das contas, vários amigos me chamaram para ver o Mike Stinson tocar num clubezinho chamado Cinema Bar, em Los Angeles. Eu já conhecia o Tony Gilkeson, que tocava na banda do Mike. Comecei a ir lá toda semana e um dia eu simplesmente disse: “Tony, você produziria um disco country para mim?” E ele disse que sim. Aí eu escrevi um monte de músicas country e foi assim que aconteceu.

Um adendo que não posso deixar de falar: “Tell Me Twice” é uma música tão divertida e empolgante.
Sério?

Acho que não tem como ouvi-la e ficar parado.
Meu pai adorava esse disco. Eu costumava gravar em fita cassete mensagens de voz que as pessoas me deixavam. Eu ficava lá com meu gravador, apertava o play na minha secretária eletrônica e gravava alguns recados para guardar. E meu pai deve ter deixado umas cinco ou seis mensagens dizendo: “Nossa, eu amo esse disco country.” Acho que vou ouvir “Tell Me Twice” de novo, porque você é a segunda pessoa nos últimos dias que me lembra desta música.

Depois, em 2004, você lançou outro álbum que eu adoro, “Afternoon”. E isso, novamente, num intervalo de apenas um ano. Você estava em plena produção nesse período, não? O que pode me falar desse disco?
Eu conheci o Joshua Grange durante a gravação do disco country. Ele tocava guitarra e baixo para o Mike Stinson. Todos faziam parte dessa pequena cena que tinha se desenvolvido ao longo de alguns anos. E o Tony disse: “Acho que esse cara devia tocar guitarra no seu disco”. Então nos conhecemos, viramos amigos e eu acabei ficando apaixonada por ele. Aí eu perguntei se ele queria produzir um álbum meu. Ele já tinha trabalhando com a Victoria Williams e me convidou para gravar na casa dela, em Joshua Tree. E foi tudo feito num gravador DAT, bem simples. Não era um estúdio chique. Nem era à prova de som. Estávamos no meio do deserto, numa casa. E foi assim que fizemos.

Depois você lançou “Miracle of Five” (2007) e “Artificial Fire” (2009), seus últimos trabalhos pela gravadora Zedtone. Como foi fechar esse ciclo de quatro discos num mesmo selo e como você enxerga hoje esses dois álbuns?
Acho que “Miracle of Five” e “Artificial Fire” são os discos que, de certa forma, ainda fazem parte da minha vida. Acredito que foi porque eu finalmente tinha encontrado minha banda. Estávamos em turnê, ensaiando e parecia muito com o grupo que eu sempre quis ter.

“Miracle of Five” é um pouco diferente porque apesar de já contar com Kevin Fitzgerald na bateria e Ryan Feves no baixo, teve Woody Jackson e Nels Cline tocando guitarras em algumas partes. Mas quando Nels não pôde fazer a turnê comigo, ele indicou o Jeremy Drake — e ele se tornou meu guitarrista favorito. Nós quatro [Jeremy, Ryan, Kevin e eu] parecíamos uma família musical. E eu os amava muito. Me sentia muito próxima deles. Então fizemos a turnê do “Miracle of Five” e depois começamos a tocar e ensaiar as músicas que acabaram entrando no “Artificial Fire”. Esses dois trabalhos são simplesmente incríveis. Todos os meus álbuns são importantes para mim, mas esses dois permanecem muito especiais. Sempre digo que foi como se meu sonho de adolescente finalmente se tornasse realidade.

“I Can See the Future”, de 2012, marca sua entrada na Yep Roc. E também uma grande mudança na sua vida pessoal: a chegada de seus filhos. Eu li que você o gravou aos oito meses de gestação. É isso mesmo?
É verdade. Eu tive que voltar e regravar algumas partes porque eu estava tão grávida que minha voz soava diferente — não só pelos hormônios, mas também por causa do peso que eu tinha ganhado. Minha voz estava muito mais grossa. Por isso, precisei refazer alguns vocais depois que as crianças nasceram. Mas foi uma mudança. Eu não conhecia muito bem o produtor, Joe Chiccarelli. Me senti um pouco menos à vontade. Ele queria usar um baterista e um tecladista que ele gostava, e eu não os conhecia. No fim, parece que é um disco que não me representa tanto. Embora agora eu consiga olhar para trás e apreciar muito mais do que apreciei por vários anos.

Você foi obrigada a confiar nas escolhas dele, que era o produtor na época.
Como mulher neste ramo, houve momentos meio clichês em que senti que meus sentimentos não eram respeitados o suficiente. E nem sempre me senti confortável em ser assertiva e dizer: “Desculpe, mas é isso que eu quero”. Achava que tinha que ceder. E isso aconteceu também com o álbum “Let’s Fly A Kite” (2014), que gravei em Londres com o produtor Neil Brockbank. Eu sabia que indo para a Inglaterra, ele não seria gravado com a minha banda. Seriam as escolhas dele. E em uma faixa, sem a minha presença, ele adicionou uma seção de cordas. Eu disse que não gostava. E ele respondeu que tinha que estar lá, pois era um arranjo muito bom e ele achava que eu ia mudar de ideia. E eu pensei: “Meu Deus, eu gosto tanto dele. Quero preservar nossa amizade. Então, tudo bem, você pode ter sua seção de cordas na minha música.” Mas eu não consigo ouvir essa canção. Ela simplesmente me dá arrepios, sabe? Isso meio que influencia a forma como me sinto em relação a grande parte do álbum. De novo, eu não me sinto tão conectada a esse disco. Pois sinto que não fui ouvida e não me defendi.

Novamente você fez uma dobradinha lançando, em 2014 e 2015, “Let’s Fly A Kite” e “Dark Lights Up”. De novo um momento de alta produtividade — e com duas crianças pequenas. Deve ter sido puxado esse período.
Tudo fez sentido para mim na época. Eu tinha minha família por perto e não ficava horas no estúdio. Todo mundo estava trabalhando profissionalmente em alto nível e tudo foi feito com muita agilidade. O álbum “Dark Lights Up” foi gravado ao vivo, até a minha voz. Isso tornou o processo muito empolgante. Acho que fizemos um dia de ensaio e uns três dias de gravação — e foi isso. Então foi bem rápido e divertido.

“Wake Up Again” (2019) foi marcado por uma fase em que você dava aulas de composição para detentas em um presídio feminino. Como essa experiência influenciou esse álbum?
Eu estava ensinando composição para elas, mas não tinha um plano ou um currículo. Pedia, por exemplo, para que todas escrevessem o que viesse à mente sobre elementos como fogo, água, ar… E compunha enquanto elas desenvolviam suas ideias para mostrar o meu processo. Eu simplesmente pegava um violão e cantava algo de improviso, só para mostrar a elas que dá para se divertir. Que não precisa ser a coisa mais significativa que você já fez. Você só escreve e vê o que acontece. E aí, algumas delas me diziam coisas que ficavam na minha cabeça.

Teve uma mulher com quem conversei individualmente sobre o que escrever e eu disse que ela poderia falar sobre por que estava ali ou como se sentia em relação a isso. E ela disse: “Simplesmente aconteceu.” E pensei: “Nossa, ela está presa para o resto da vida. Não é algo que aconteceu por acaso.” Eu não conversava com elas sobre suas situações, mas captava pequenos fragmentos e, às vezes, elas diziam algo que me marcava. Essa conversa se tornou a música “Circumstance”.

Eu ouvi tantas histórias comoventes e tristes. Teve uma mulher chamada Evelyn, que era uma garota jovem, alegre e cheia de energia. Ela tinha uns 21 anos e chegava sempre feliz da vida, me contando o quanto amava a aula. Um dia perguntou se podia trazer uma amiga para quem havia escrito uma canção, pois a colega estava saindo da prisão. Eu concordei. A amiga veio, ela cantou e as duas choraram e se abraçaram — e eu pensei em como alguém tão legal e tão feliz acaba na prisão. Aí escrevi a letra da faixa “Evelyn” e, no último dia que estive lá, disse a ela que havia composto uma música com o seu nome. Não falei que era sobre ela, pois não tinha certeza de como reagiria. E ela disse: “Espero ouvi-la algum dia”.

Uns seis anos depois, notei que uma mulher chamada Evelyn começou a me seguir no Instagram. Então mandei uma mensagem e perguntei: “Você fez o meu curso?”. Não disse que foi na prisão. E ela respondeu que sim e que estava livre. E que as minhas aulas significaram muito para ela, que havia dado muita esperança. Contou que no dia em que saiu da prisão, o irmão dela estava lá segurando uma caixa de som tocando essa música. É tão devastador e tão lindo. Então posso dizer que foi uma experiência muito significativa poder dar algo a essas mulheres e ouvir que isso realmente teve um efeito, um impacto positivo. Pelo menos, com certeza, para a Evelyn.

Finalizando nosso papo eu volto ao lançamento de “Tailspin”, que aconteceu há poucos dias, e pergunto quais os planos de turnê e se nós, aqui no Brasil (e na América do Sul), podemos esperar por uma passagem sua pelo nosso pedaço.
Eu adoraria. Tenho um grande amigo com quem trabalhei por muitos anos em Montreal e ele recentemente deixou a gravadora que criou para se dedicar a trazer músicos da América Latina para tocarem no Canadá. Ele viaja para países como o Chile, a Colômbia e o México em busca de novos talentos. Acho que ele é a pessoa certa. Só preciso pedir que faça o processo inverso e me leve até vocês. Espero muito que isso aconteça. Se você puder me levar ao Brasil, eu aprendo uma música em português.

Vou te enviar algumas opções de canções brasileiras que acho que ficariam ótimas na sua voz. E você escolhe uma.
Eu adoro músicas antigas, como as do Gilberto Gil.

Deixo anotado aqui. E quando publicarmos a entrevista, envio o link a você. Mas vai precisar traduzir.
Em português está perfeito. Me faz parecer mais descolada.

– Guss de Lucca (@gussdeluca) é jornalista, historiador e no passado já foi cartunista do Scream & Yell. A foto que abre o texto é de Laura Heffington.

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