entrevista de Fabio Machado
O trabalho de Fernando Catatau à frente do Cidadão Instigado é fruto direto das vivências entre sua cidade natal, Fortaleza, e passagens por São Paulo (onde reside atualmente) e Rio de Janeiro. Foi através do Cidadão que Catatau cultivou não só uma forma particular de se expressar na guitarra – congregando diferentes estilos, do cancioneiro radiofônico ao rock clássico, passando por muitos outros timbres e matizes sonoras – mas também no próprio jeito de cantar, com uma voz singular desde o início mas que também passou por aprimoramentos nos últimos anos.
“Desde antes do ‘Fortaleza’, eu tenho me dedicado muito com esse lance de vocal, de cantar. Fui estudar, fui em busca de um lugar mais confortável, posso falar que essa é palavra, como artista e eu como cantor mesmo”, revela Catatau, ao falar sobre os caminhos que o trouxeram de volta à sua criação mais celebrada, o próprio Cidadão Instigado, que agora retorna com um álbum auto-intitulado, lançado pelo selo RISCO em parceria com a Nublu Records.
Ao mesmo tempo, Catatau também passou por um distanciamento das seis cordas que sempre o acompanharam nessa trajetória. Durante a pandemia, ele preferiu se dedicar aos samplers e beats aprendendo a operar uma MPC (dispositivo que permite capturar, reproduzir e editar trechos de músicas, bastante utilizado no hip-hop e música eletrônica). Essa nova abordagem musical já havia aparecido em colaborações com amigos e no registro solo anterior, mas agora parece mostrar todo o seu potencial em “Cidadão Instigado”, com uma sonoridade ao mesmo tempo distante e com ecos da sonoridade dos registros anteriores do conjunto – inclusive com as pazes feitas com a guitarra.
“Todas as vezes que eu fazia qualquer coisa com essa máquina no começo, ali na pandemia, todas as vezes eu disse: “Caramba, isso aqui é muito Cidadão, mas não é Cidadão do ‘Uhuuu!’, não, nem do ‘Cidadão Instigado e o Método Tufo de Experiências’. É o Cidadão antes do (primeiro) EP ainda, tipo embrionário”. A ponte entre o antigo e o novo surge não apenas no encontro de sonoridades, mas também nas parcerias que somaram no disco. Há caras novas e conhecidas com as participações de Anna Vis, YMA, Edson Van Gogh, Jadsa, Juçara Marçal e Kiko Dinucci, mas também há a colaboração dos parceiros de sempre do Cidadão Instigado com Clayton Martin, Dustan Gallas, Rian Batista e Regis Damasceno. Mas o resultado, acima de tudo, é um disco com cara de Catatau, como deveria ser. Confira abaixo, na íntegra, a entrevista concedida ao Scream & Yell.
SCREAM & YELL: Na entrevista anterior que você fez para o Scream & Yell (em 2025), você tinha comentado que havia encerrado o que tinha para falar como Cidadão Instigado. Pensando nisso, queria saber o que fez você repensar essa ideia e lançar um novo trabalho com o nome da banda novamente.
Fernando Catatau: Então, acho que (essa entrevista) foi na época do disco solo, logo após a pandemia, não foi isso? Muitas coisas aconteceram de lá pra cá. Inclusive, meu disco solo estava pronto antes da pandemia e eu esperei dois anos pra lançar. E nesse período, quando iniciou a pandemia, eu comecei a gravar essas coisas que agora estão nesse álbum novo. Comecei na pandemia, quando estava, a gente estava (com tudo) fechado, né? Sem poder (circular), sem perspectiva de nada, sem entender direito o que ia acontecer mais pra frente e tal. Eu tinha uma máquina que eu tinha comprado, uma Music Station da Roland, a MV-8800, que é tipo uma MPC. E quando fechou tudo, eu fiquei bem transtornado. E aí decidi me dedicar a estudar e tentar aprender (a máquina). Eu nunca tinha usado nenhum MPC, nem nada desse tipo de máquina que botava sampler. E eu fiquei obcecado. Assim, comecei a fazer vários testes, criar várias coisas nessa máquina, mas sem intuito de nada. Sem saber se ia virar disco, se ia ser simplesmente pelo lance de aprender o instrumento.
E dentro desse processo, dentro desses testes, desse aprendizado, eu ia, ao mesmo tempo, compondo, criava coisas, gravava, botava no celular, sabe? Tipo, ia fazendo várias coisas. Aí, quando passou um tempo, vi que já havia algumas coisas, alguns esboços levantados. E comecei assim: “Ah, isso aqui dá pra ser uma música, dá pra fazer alguma coisa”. E comecei a fazer testes e (ir) gravando. Eu sempre faço isso. Eu passo o tempo todo… quando vem alguma ideia na minha cabeça, eu gravo no celular, no computador, vou achando meus meios de guardar essas ideias. E como a pandemia foi um período muito extenso, eu criei muitas coisas. Inclusive, no meio do processo, eu tinha recebido o convite da Juçara e do Kiko para fazer uma música que acabou virando uma parceria nossa, que é a “Lembranças que Guardei” (lançada no disco “Delta Estácio Blues” de Juçara Marçal em 2021). E essa música, acho que foi a primeira que eu lancei a partir desses meus experimentos. Ela é do mesmo período do começo, quando comecei a mexer na máquina, a gente ainda estava – todo mundo – de lockdown. E a Juçara e o Kiko entraram em contato comigo para fazer essa música. Eles tinham um primeiro esboço que acabou não dando certo, aí o Kiko me escreveu e falou: “Cara, faz tu aí, cria do zero, vamos ver se dá certo” e tal.
Então, em “Lembranças que Guardei”, que saiu no “Delta Estácio Blues” com sua participação, já era dessa fase que você estava mexendo na máquina.
Exatamente. Eu sempre falava isso: eu considero essa a minha primeira música desses experimentos. A primeira que foi lançada com esses experimentos com a máquina. E ela é realmente isso, eu toquei todos os instrumentos a partir da máquina, fazendo beat e baixos, alguns synths, tudo dela. E aí foi caminhando, com o tempo abriu tudo (após a pandemia), as coisas voltaram a funcionar de uma maneira um pouco capenga ainda, mas voltando, aquela abertura de leve. Aí eu participei do Deb (sigla para “Delta Estácio Blues”), foi o primeiro show que eu fiz quando abriu tudo novamente, foi no lançamento do Deb. E eu continuei fazendo essas músicas, seguindo com elas, mas, assim, sem nenhum intuito de: “Ah, vou fazer um disco”. (Apenas) Fui fazendo, fazendo, fazendo.
Lancei meu disco solo no meio do processo, depois de dois anos da pandemia, era um disco que já estava pronto antes da pandemia. E ao mesmo tempo, fui fazendo e continuando a compor. Aí, o Alexandre Matias me convidou para fazer uma temporada no Teatro Centro da Terra. Eu até ia recusar, estava sem cabeça, sem entender direito as coisas, sabe? Não (estava) afim de fazer algo que eu já tinha feito, tipo: “Ah, vou aqui fazer meus shows tocando música do Cidadão” ou do não sei o quê, sabe, do meu disco solo. Aí eu disse: “Não, cara, já sei o que é que eu vou fazer: vou chamar um monte de gente massa, que eu sou fã mesmo”. Vou jogar essas músicas que eu tenho experimentado desde a pandemia na mão delas, e vamos ver o que é que sai. E foi assim que surgiram as parcerias desse disco.
Cada semana eu tinha algum convidado diferente. O primeiro foi o Kiko Dinucci, aí no segundo foi a Juçara Marçal, aí o Matheus Fazeno Rock estava vindo para São Paulo, eu disse: “Cara, venha participar com a gente”, aí a Juçara achou massa. E aí na terceira semana foi a Anna Vis, que eu tinha convidado, e ela disse: “Ei, cara, vamos chamar a Jadsa”, aí a Jadsa também chegou junto. E no último foi a Yma e o Edson Van Gogh, que já eram pessoas que eu já tinha parceria, já tinha feito coisas. Isso tudo foi lá no Centro da Terra, na temporada que eu chamei de “Frita”.
É engraçado porque acabou virando um embrião do disco, no final das contas. Eu entrevistei a Jadsa no ano passado e o processo foi um pouco parecido com o “Big Buraco” que ela também fez uma temporada – acho que ela até convidou você para participar – e acabou sendo a base para lançar o disco “Big Buraco” mais tarde.
É, exatamente. Ele (o meu disco) não começou lá no Centro da Terra – começou na pandemia mesmo, porque eu já tinha várias músicas, mas lá eu acho que ele fincou as pessoas, fincou o caminho, sabe? Quando eu saí de lá, disse: “Cara, eu tenho um disco”. Não sabia nem o que é que ia ser, na realidade ele ia ser meu disco, o “Fernando Catatau” e tal, e o título dele ia ser “Frita”, que era o nome da temporada. Já tinha tudo meio na cabeça quando saí de lá. Aí as coisas foram caminhando, eu tinha chamado o Dustin Galas, que é meu parceiro e tal (no Cidadão Instigado), para vir em casa para gravar um piano para esse disco. E ele ouviu o disco, se empolgou pra caramba, achou incrível, não sei o quê, e foi-se embora e não gravou piano nenhum, só foi embora (risos).
Aí no outro dia ele me mandou uma mensagem falando: “Cara, eu tive uma epifania aqui, esse disco aí, ele é Cidadão Instigado! Você tem que lançar ele como Cidadão Instigado! Não, você tem, não, você deve lançar ele…”. E foi ele que trouxe (a idéia). Para as pessoas que me perguntam, eu tenho falado que o Cidadão voltou a mim; eu não escolhi ser Cidadão, porque na hora que ele falou, eu até achei ruim. Eu disse: “Cara, uma coisa não combina com a outra”. Mas é engraçado que todas as vezes que eu fazia qualquer coisa com essa máquina no começo, ali na pandemia, todas as vezes eu disse: “Caramba, isso aqui é muito Cidadão”, mas não é Cidadão do “Uhuuu!” (de 2009), não, nem do “Cidadão Instigado e o Método Tufo de Experiências” (de 2005). É o Cidadão antes do EP (auto-intitulado, de 2000) ainda, tipo embrionário, é a forma de fazer, entende?
É a forma que eu, quando decidi criar o Cidadão Instigado, ficava “fritando” sozinho em casa. Fiquei dois anos só compondo para o Cidadão existir! Foi 1994 a 1995 só compondo, só montei a banda em 1996. Então, o Cidadão foi a partir da minha primeira saída para morar em São Paulo em 1994, depois eu morei um ano no Rio e em 1996 voltei para Fortaleza, só aí que eu montei a banda, entendeu? Então ele é um projeto a partir da minha saída, e parecia muito daquele jeito, sabe? Aquela forma de ir pensando todos os arranjos, criava um riff que eu já tinha decidido fazer com zabumba na época – porque na época era dividido, zabumba e caixa e prato – e eu ia criando as linhas em casa, criando tudo. Só que agora eu tinha a máquina onde eu ia criando e ela já ia se transformando num instrumento. E automaticamente já ia fazendo o arranjo completo, ao invés de estar com fita cassete, que antigamente eu ficava com a fita cassete puxando de um lado para o outro. Então, assim, o Cidadão Instigado, na realidade, me chamou de volta. É o que eu acredito e que eu entendo.
Então, dá para dizer que o disco tem dois elementos essenciais: a Roland MV, que como você citou, cria boa parte ali dos beats, dos elementos que tem no disco; e as participações. Pessoas bem diferentes entre si, mas acho que elas têm em comum esse espírito inquieto na música brasileira. Juçara, Ava Rocha, Anna Vis, Matheus Fazendo Rock, enfim, todos os envolvidos. Quando você começou a elaborar as canções em si, você já tinha visualizado: “Ah, essa aqui Juçara vai participar, essa aqui eu vou mandar para Jadsa, essa aqui para o Matheus…” ou foi algo mais orgânico?
Foi mais orgânico, né? É louco, assim, até porque essas pessoas chegaram, eu poderia ter chamado instrumentistas para participar da minha temporada, e ser uma coisa bem do instrumento. Mas nos últimos anos, desde o “Fortaleza” (álbum do Cidadão Instigado lançado em 2015), (na verdade) desde antes do “Fortaleza”, eu tenho me dedicado muito com esse lance de vocal, de cantar. Fui estudar, fui em busca de um lugar mais confortável, posso falar que essa é palavra, como artista e eu como cantor mesmo. Tanto que o meu disco solo é um disco que eu praticamente não toquei guitarra. Toquei pouquíssima guitarra, né?
Porque entrei numa crise existencial com a guitarra mesmo, assim, que eu olhava para o instrumento e não me sentia à vontade de tocar. Passei quase dois anos sem pegar na guitarra direito e isso que voltou agora, tipo, voltou de outra forma. Voltou que agora eu estou bem com a guitarra, eu acho até que esse disco agora que eu lancei é a minha volta realmente para a guitarra. Tipo, que eu voltei e achei um lugar muito legal que eu acho, de guitarra. Nesse disco, além da máquina, pra mim, a guitarra chegou de uma forma que eu acredito muito. Antes eu tentava preencher tudo com guitarras e tal, que era uma coisa assim que… É uma coisa de violonista frustrado, aquela coisa quando você vai tocar o violão, e o violão já preenche tudo. E a guitarra eu ficava tentando preencher tudo, porque eu sempre me senti muito violonista…
Eu sou violonista de cancioneiro, e a guitarra, ela deixa um pouco esse vazio, pelo menos da forma que eu utilizo a guitarra. Aí, para mim, eu tenho uma luta eterna com ela nesse lugar, entendeu? E eu acho que, nesse disco novo, eu achei um caminho muito legal como guitarrista mesmo, não como guitarrista cancioneiro, entende? Que está pensando que está com violão de nylon fazendo (imita uma levada de violão) “xango-xango”, né?
Mas encaixei ela nos lugares que eu achava massa, porque tem outras coisas que preenchem esse espaço que eu sentia falta. Inclusive, esses discos – tanto esse até o meu solo – também já era um caminho que eu estava buscando, que era de aceitar vazios, de aceitar o espaço que a música pede pra voz aparecer. E aí surgem todas essas pessoaa convidadas, que são pessoas que eu admiro muito, como cantoras, cantores. Até o Edson Van Gogh, que eu convidei também pro disco, ele é um guitarrista dos mais incríveis, toca com o Jonnata Doll, mas eu convidei ele pro disco pra cantar, tipo assim: “Não, Ed, não quero que você toque guitarra não, quero que você cante aqui, entendeu?”
Tem uma música que a Jadsa divide guitarra comigo, que é uma música nossa, ”Nuvem Movimento”. E tem os meninos (do Cidadão Instigado), que tocaram também, meus parceiros na segunda faixa. Eles estão lá, e é uma coisa muito emocionante para mim ter eles nesse lugar, porque na hora que entra você diz: caramba! Eu mesmo senti isso, assim: “isso aqui eu já conheço de algum lugar”, entendeu? Então, é quase uma mistura, uma passagem, por toda a história do Cidadão, né? Está lá, entra a galera e sai, aí ao mesmo tempo é como se eu estivesse voltando lá pra trás, entendeu?
É uma ponte, né?
É, exatamente. Então todo mundo aí faz parte desse rolê, inclusive essa galera nova que é a galera que eu tenho já me linkado nos últimos tempos.
Você citou essa questão da guitarra e naquela última entrevista do Scream & Yell, você também tinha falado que a sua fase roqueira tinha se encerrado após o “Fortaleza”. Então, é interessante você falar que só agora está reencontrando o instrumento, depois desse tempo. Eu também acho interessante que você sempre foi um cara que usou guitarras fora do padrão, instrumentos que o pessoal chama de “vintage”, mais antigos de marcas brasileiras. Isso, há 10 anos, era uma coisa meio incomum de ver. Mas hoje em dia, na cena, você vê muita gente que está usando instrumentos antigos, marcas nacionais e tudo mais. Você acha que influenciou de certa forma esse movimento, esse olhar para a guitarra nacional?
Ah, cara, talvez sim. Acho que não só eu, mas uma galera que nessa época ficava obcecada em achar os instrumentos – até porque eram mais baratos, hoje já não é mais, já virou um mercado muito forte. Mas a minha busca mesmo era pela sonoridade, não era muito pelo fetiche. Porque eu ia muito também pelo visual das guitarras, mas tinha que juntar com o som, tinha muita coisa, umas guitarras mais padrão, assim, me incomodavam, entendeu? Acho que a madeira mais seca (do instrumento) tem toda aquela fantasia e aquele mundo mirabolante da guitarra ali, que tem muitos caminhos. Eu consegui experimentar muitas guitarras, ter várias guitarras, não dava certo, eu passava pra frente, pegava outra, então eu consegui ter um fluxo muito grande para, tanto de saída e entrada, poder experimentar.
E tem muitas coisas que eu queria ver, mas é engraçado que hoje em dia, inclusive, eu tenho algumas guitarras que são novas, feitas agora, que estou amando. Então, acho que eu saí um pouco desse lugar, acho que isso foi importante nessa mudança, esse pulo da guitarra, da minha crise com ela. Hoje eu estou mais preocupado no que é que eu posso fazer com elas, entendeu? Tenho ainda várias guitarras antigas, tenho algumas novas, e acho que eu tenho meu som de guitarra, que é uma coisa específica minha, do meu jeito de tocar, dentro das minhas dificuldades, também, de tocar o instrumento, porque eu não sou o cara mais técnico, sabe, mas eu acho os meus caminhos ali, dentro do instrumento.
Acho que eu achei a minha técnica, de conseguir me expressar na guitarra. E hoje, pra mim, eu tenho dado muito valor a cada instrumento que eu tenho, como posso utilizá-los, como eles se encaixam dentro do que eu vou fazer, dentro da banda que eu vou tocar, ou dentro do som, pra ele aparecer. Então, isso aí acabou virando uma coisa… Mudou um pouco, antigamente eu era obcecado, sempre achava que a guitarra que eu tinha não ia ser a melhor, que era sempre uma ou outra, então eu ficava nessa loucura, tipo, uma obsessão louca de tentar achar, buscar o som perfeito. E na realidade eu passei por milhares de sons perfeitos, só não era aquele momento, entendeu? E eu quebrei um pouco isso, não estou mais obcecado de ir atrás.
Falando agora de algumas músicas do disco, há faixas como “Daqui desse lugar”, que é daquelas músicas que a levada e a melodia vão te pegando aos poucos, é bem pop. Ao mesmo tempo, você tem músicas como “Nuvem movimento” e “Frita”, que têm aquela batida que te pega, mas ao mesmo tempo tem momentos ali que são quase experimentais, com as vozes e guitarras. Como você tentou equilibrar essas partes que são mais viagem, que são mais experimentais, com as coisas mais pop do disco?
Cara, eu acho que essas coisas já estão já estão no meu rolê, já estão inseridas. Esse disco, como eu falei ali no começo, é um disco que eu saí fazendo sem pensar muito. Acho que ele saiu muito dentro do meu repertório de criação. O meu disco solo, ele foi um trabalho muito pensado, muito elaborado, então eu elaborava arranjos, fazia tal coisa… Não que esse não tenha sido, mas muito das coisas desse disco (novo do Cidadão Instigado), eu ia experimentando, entrando no flow da música sem pensar muito. Eu gosto de música pop, e você até falou daquele lance que eu encerrei a minha carreira de rock e tal, (mas) isso aí não se encerra, porque eu tenho o rock dentro da minha alma e dentro do meu coração, e é isso aí.
Mas era uma maneira de eu falar que, tipo, assim: “Ah, cara, fiz um disco que eu considero um disco do meu sonho de adolescência, que era o ‘Fortaleza’, com riffs de rock, aquela coisa bem bem fechadinha dentro do estilo”. Por mais que tenha experimentos ali dentro. Mas esse outro agora não, entendeu? Inclusive tem muito a ver com o meu resgate de dança, de pista, esse disco agora. Então, assim, nos últimos tempos eu voltei a escutar muita música pop que eu sempre ouvi, eu sempre ouvi de tudo, passei pelo forró eletrônico dos anos 80, passei pelo romantismo desesperado dos anos 70 (eu nasci em 71), passei pelos anos 80 e aquela música internacional, e quando teve o Rock in Rio 1 (em 1985) foi quando eu disse: “Cara, eu quero ser isso aqui”. Mais pela rebeldia do que pelo som. Era… ser roqueiro naquela época nos anos 80 era, tipo, “caramba”, sabe? Aí eu vi aquele lance do metal, mas passei por… eu gosto de muita coisa, gosto de sofrência, sabe, gosto dos piseiros, gosto de grime, de trap, não tudo, mas muita coisa de todos os estilos. Assim, sempre tem coisa massa, sabe?
Sempre tem artistas incríveis, mas eu me considero cancioneiro, só que eu sou um cancioneiro que, tipo, acho que hoje em dia não estou preso naquele lugar, não vou ficar só no cancioneiro de voz e violão, não é meu rolê (mais). Tanto que eu… Eu voltei a morar em Fortaleza em 2016, até 2020 vivi lá. Agora eu moro em São Paulo, voltei antes da pandemia, e nesse período, Fortaleza é um… assim, é muito peculiar, a gente escuta forró, a gente escuta… Eu sempre, desde sempre escutei de tudo, a gente ia pros shows de metal, tinha o show dos punk, ia pro forró, ia pra não sei o quê, era tudo ao mesmo tempo e isso é uma coisa que marca muito a personalidade de quem é de lá. Acredito que não seja só de lá; acredito não, tenho certeza que não é só de lá. Mas, assim, Nordeste em geral, Norte, assim, a gente tem essa riqueza.
Lógico, às vezes você vê a galera se fechar: “ah, eu sou do metal”. Então, se você se afirmou que você é do metal, você é do metal e pronto, você vai vestir a indumentária e está ali (nessa cena), mas, ao mesmo tempo, você é do metal, e você está saindo de casa e você está escutando o forró e, de repente, você começa a gostar, mesmo não querendo, você emociona naquele (fragmento de tempo)… Isso aí faz parte, entendeu? Eu sempre fui assim, sempre fui muito aberto, mas tinha minhas escolhas.
Queria falar também de “O Grande Vazio”, na verdade, citar um trecho aqui: “O Grande Vazio perambula pelas ruas sombrias dessa cidade fatal”. Quando você pensou nessa letra, você tinha em mente São Paulo, Fortaleza ou é uma cidade em aberto?
Visualmente, na minha cabeça, eu me imagino andando em Fortal. Mas esse disco é engraçado assim, porque eu imagino ele como se fosse uma cidade imaginária. É tudo dentro da mente. É dentro do que eu imagino de cidades, de vontades. Quando estou falando com alguém, às vezes estou falando comigo mesmo ou com esse ser que eu não consigo ver, mas ao mesmo tempo, né, tipo, não é só isso. Porque a gente vive uma realidade, a gente vive num lugar. Mas quando eu falava, eu falo até, primeiro, antes de fatal, eu falo “nessa cidade fenal”, né?
E isso é muito Fortaleza. Fenal é o feno, sabe, quando você vai no centro de Fortaleza à noite e que não tem ninguém e é aquele lugar gótico, ao mesmo tempo de praia, saca? E eu sempre imagino, assim, sabe, o medo de estar ali, às vezes, né, tipo, de você não saber se vai vir alguém pra (cima de você), sabe? Você tem esse lugar aqui que a gente vive e que eu vivi uma grande parte da minha vida, e principalmente nesses quatro anos que eu morei em Fortaleza, ultimamente, eu morava no centro da cidade e eu ia, tipo, eu sempre imaginava: “Caralho, parece que estou numa cidade fantasma”, sabe? À noite no centro é isso, em outros bairros não, mas no centro era isso. E aí eu imaginava só o feno rolando, e falo sobre isso. Mas é o grande vazio não só da cidade que a gente vive ou que a gente caminha; é essa cidade também imaginariamente, que a gente cria os fantasmas, o medo do que você não vê.
Certo. E agora, com o disco lançado, quais os planos agora para o futuro? O Cidadão vai voltar a subir nos palcos? Como vai ser a formação? Ou você não pensou nada disso ainda?
Não, a gente já está ensaiando. Estamos organizando tudo, já tem alguns show em vista aí. A gente lança em Fortaleza no final de abril, dia 25 de abril, e depois em São Paulo. A formação atual sou eu, Dustan e Clayton da formação, pode-se dizer, um pouco antiga… a formação clássica, pode-se dizer isso. É porque muitas pessoas conhecem essa formação que veio a partir do “Uhuuu!”, todo mundo acha que é a formação lá do começo, mas não é. Até se transformar nessa que era eu, Clayton (Martin), Dustan (Gallas), Rian (Batista), Regis (Damasceno) e Kalil, né, foi depois do “Uhuuu!”
Mas é uma formação que reflete uma era da banda, certo?
É, exatamente. Depois do “Uhuuu!”, essa formação se fixou, mas eu sou amigo da galera, tirando o Clayton que veio depois do “Método Tufo…”, são amigos de muitos e muitos anos, de antes ainda de existir o Cidadão Instigado. Então, da galera que estava tocando (nessa formação) é Dustan, Clayton, aí Samuel Fraga entrou agora para essa nova formação, junto com Anna Vis – que também é minha parceira no disco – e Rubi Assumpção. Essa é a formação atual que a gente vai fazer nesses shows agora, pelo menos esses primeiros. E ainda estamos entendendo como vão ser os próximos passos. Mas é meio que isso por enquanto.
Muito massa. Bom, encerrei minhas perguntas aqui e meu tempo também está acabando, mas queria deixar o espaço se você quiser falar alguma coisa do disco que eu não perguntei…
Ah, cara, o que eu tenho para falar é que eu estou muito feliz e realizado, com esse (disco)… Com tudo, com as parcerias, inclusive com os selos, com toda a galera que está trabalhando, com todo mundo que participou do disco. Para mim, é massa essa troca, esse momento agora de parcerias com outras pessoas, de trocas com outras pessoas, principalmente nesse lugar de compositores e compositoras, que para mim é uma coisa que é (novidade)… (pausa) Ao invés de ser essa troca com os instrumentistas, com a galera que teve comigo o tempo todo, inclui esse outro lugar. (Porque) antes eu fazia tudo sozinho, fazia as composições só, e é muito massa ter essa troca real, agora, nesse momento. E estou muito feliz, agora ansioso para voltar aos palcos com o rolê todo. Vamos voltar com tudo, vai ter duas baterias (no palco), vai ser massa, um esquema bem legal.
– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos.

