texto de Fabio Machado
fotos de Natália Michalzuk
“Samba é sempre a mesma história / Nosso amor morreu na glória / A boneca foi embora / Não obstante, esqueceu o seu fantasma”. Foi assim, cantando sozinho, e longe do microfone os versos de “Boneca Semiótica”, do amigo (e parceiro) Jards Macalé (que nos deixou em novembro passado), que Romulo Fróes começou a apresentação de lançamento de “Boneca Russa” (2025), seu trabalho mais recente – e mais pessoal, nas palavras do próprio – na Casa de Francisca, em São Paulo. Faz todo sentido remeter ao trabalho de Jards que, na capa, já se anunciava como uma “linha de morbeza romântica”: a morbeza aqui é um neologismo que unifica morbidez e beleza, quase como um estudo sobre o samba de dor de cotovelo.

E assim, quase como se estivesse pedindo licença após referenciar a tradição, Romulo dá sequência às canções cheias de morbidez e beleza de “Boneca Russa” acompanhado apenas do contrabaixista Marcelo Cabral, também responsável pelos arranjos do álbum. E o trabalho de Cabral se mostra ainda mais essencial, executando as canções na ordem original com todos os detalhes da gravação: levadas de arco nervosas em “A Hora Mágica” e linhas de baixo que conseguem dar o ritmo mesmo sem qualquer percussão em “A Vida que já era”, além das camadas de loops e efeitos (com o auxílio de baquetas e até uma espátula) em temas como “A Casa de Pé” e “Boneca Russa”, por vezes fazendo o contrabaixo acústico soar como uma orquestra inteira.

Mas longe de ser uma demonstração de auto-indulgência, os arranjos de Cabral servem apenas como pano de fundo para a interpretação da própria história de Fróes ao longo das 13 músicas que compõem o disco. Sua interpretação não é sofrida e rebuscada como a dos sambistas de outrora, mas solene e tranquila, como se fosse um alívio colocar para fora coisas tão pessoais, mesmo com letras difíceis como “Renda Portuguesa”. Não é, porém, uma audição fácil e o clima obviamente não era de festa no salão da Casa de Francisca, mas volta e meia era possível flagrar as pessoas no salão balançando a cabeça, batendo os dedos na mesa no mesmo ritmo das canções ou simplesmente imersas na atmosfera criada por Romulo e Cabral.

Importante lembrar que “Boneca Russa”, apesar de ser um disco fruto de uma separação (e “de perda, de derrota, do luto e de frustração”, como pontuou Romulo em entrevista ao Scream & Yell), não é uma caixa de mágoas eternizada nem dor de cotovelo pura e simples. Romulo considera o trabalho como parte de um processo de cura necessário para que ele pudesse seguir adiante e observar tudo com o devido distanciamento. Dessa forma, o encerramento com “Olga”, canção feita em homenagem à filha do casamento desfeito, aparece como uma luz do Sol nesse repertório noturno. Mais significativa ainda foi a presença da pequena Olga assistindo a apresentação e abraçando o pai ao final da canção homônima. Ainda haveria mais um bis com “Cadê” (resgatada do disco “Barulho Feio”, de 2014, um disco irmão de luto de “Boneca Russa”), mas o abraço de Olga e Romulo já havia deixado o recado de “Boneca Russa” nas dependências do salão.
Se não é um show fácil, também não é uma apresentação para todos os espaços. Romulo vai além: ele quer tocar em floriculturas e livrarias. Para ele, as canções de “Boneca Russa” são para esses espaços em que a audiência está muito, muito próxima observando o “mágico construindo (com loops e efeitos no contrabaixo) a mágica na sua frente”. Então fique de olho na agenda dele, pois existem shows que lotam estádios, e existem outros que necessitam apenas de um pequeno espaço íntimo e de uma plateia atenta para acontecerem – quem sabe você numa próxima oportunidade.

– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos.

