texto e vídeos de Bruno Capelas
fotos de Fernando Yokota
Vivemos uma era em que muitos festivais empilham atrações sem ter uma identidade própria. Não é o caso do C6 Fest: herdeiro espiritual de Free Jazz e TIM Festival, o evento organizado pela produtora Dueto possui uma marca bem firmada de apostar na inovação sonora, na sofisticação e na diversidade de expressões. Justamente por isso, houve certa surpresa quando os Paralamas do Sucesso apareceram na escalação do festival de 2026. Não que o trio não possua as características citadas acima – afinal, basta olhar para discos como “Selvagem?”, “Severino” ou “9 Luas”. Mas é fato que cantamos há muito tempo as aventuras dos amigos de Vital, a ponto de ser difícil não achar, para roubar as palavras de outra banda dos anos 1980, que os Paralamas sejam “mais do mesmo”.
À primeira vista, outros dois fatores pareciam agravar ainda mais a situação. Um era a presença da Nação Zumbi como convidada especial – num encontro que não só não era inédito, como ainda colocava os dois grupos à mercê da moda (condenável) dos “feats”, tão comum em tempos de algoritmos. O outro é o fato de que um dos curadores do C6 Fest é ninguém menos que Hermano Vianna, irmão de Herbert, dando à escalação certo ar de nepotismo desnecessário.

Mas quando os Paralamas do Sucesso subiram ao palco no Parque do Ibirapuera e começaram a tocar “Vital e Sua Moto”, toda essa névoa de desconfiança se dissipou, tal como a chuva que prometia cair no domingo em São Paulo. Lançada em 1983 e tocada no arranjo cristalizado em 1990, a canção deu início a uma bela sequência de hits (“Ska”, “Lourinha Bombril”), num espetáculo muitas vezes já visto, mas sempre deliciante. “It’s only rock’n’roll”, claro, mas quem pode reclamar de ver dois mestres de seus instrumentos – Bi Ribeiro, no baixo, e João Barone, na bateria – em grande performance?
Na sequência, evocando a história em comum e as muitas turnês em conjunto mundo afora, Herbert convidou a Nação Zumbi ao palco. Foi uma dobradinha rápida, em que as alfaias do grupo pernambucano deram peso ao protesto de “Selvagem?”, que surgiu no já clássico medley com “Polícia”, dos Titãs. Depois, foi a vez de “A Praieira”, que mais uma vez deixou a gente pensando melhor.

Quando o motor estava esquentando, porém, a Nação voltou à coxia. A plateia soltou um muxoxo, mas o melhor estava logo por vir – a despeito de Herbert quase pedir desculpas por dar sequência ao show. “Essa aqui é talvez uma música mais chata do nosso repertório, reflexiva, mas vamos tocá-la agora”, disse o guitarrista, antes de atacar com “Cuide Bem Do Seu Amor”.
Principal hit do primeiro álbum dos Paralamas após o acidente de Herbert (“Um Longo Caminho”, de 2002), a canção é fácil de ser desprezada rapidamente – especialmente pelo refrão, que um maldoso incauto diria ser digno das prateleiras de autoajuda. Mas, naquele instante específico no Parque do Ibirapuera, foi difícil não se emocionar com ela. Não era só a interpretação emocionada de Herbert. Era também o contexto: tocando ao lado de um grupo cujo líder morreu precocemente, os Paralamas celebravam ali o poder e o milagre da permanência.

É fácil, nos dias de hoje, uma banda acabar e voltar pouco tempo depois, em uma turnê de reunião qualquer. Difícil é ficar. Mais complicado ainda é permanecer com dignidade. É o exercício que, sempre que sobem ao palco, os Paralamas fazem aonde quer que vão – e se neste domingo foi em São Paulo, na próxima semana poderá ser Maricá, Buenos Aires, Nova Lima ou qualquer outra parada. De tão frequente, é algo que pode até parecer corriqueiro, mas está muito longe da banalidade: mesmo numa tarde qualquer, com frio, som desnecessariamente baixo e sob o peso dos anos, os Paralamas seguem dando show.
E se alguém achar que o parágrafo acima tem qualquer tom de condescendência, Herbert surge logo para mostrar que não, conduzindo o público em outra balada inesquecível – “Lanterna dos Afogados” e seu belo solo de guitarra. Pode ser, claro, que em uma noite ou outra ele não mostre a mesma destreza da juventude para tocar o riff de “Alagados” (o que não acontece no C6, vale frisar). Ou ainda, que ele repita várias vezes o mesmo convite à plateia: “quando essa aqui saiu, vocês nem tinham nascido, quero ver quem se lembra”.

Haverá também o diminuto coro de que Herbert não é um grande cantor. Pouco importa: ele é o dono da melhor voz possível para representar as canções dos Paralamas em cima do palco, além de ser sempre generoso com os mestres – algo que se repete na menção à parceria com Gilberto Gil (“A Novidade”) ou na citação a “Sociedade Alternativa” em “Alagados”. Mais que isso: ele é o dono de sua própria história, como faz questão de frisar ao atualizar “Óculos” – “em cima dessas rodas tem um cara legal”, canta Herbert, enquanto o telão projeta um caleidoscópio de fotos antigas do trio feitas por Maurício Valladares na parede externa do Auditório. O resultado é de arrepiar, contagiando o ar e fazendo outra canção desgastada pelo uso, “Meu Erro”, virar ponto alto do domingo.
Ainda tinha mais: com a Nação Zumbi de volta à cena, os Paralamas tiveram tempo de outra dobradinha com os amigos pernambucanos. “O Calibre” surgiu vigorosa, com bons vocais de Jorge du Peixe. Para encerrar, o clima foi de festa com “Manguetown” – que o trio, vale lembrar, registrou em seu “Acústico MTV”. Podia ter sido mais? Claro: eis aqui uma banda que pode ficar três horas em cima do palco e ver o repertório sobrar. Mas, num festival que preza pela inovação, a novidade dos Paralamas é permanecer. É como o próprio Herbert cantou: se o bom de viver é estar vivo, que bom é poder ver os Paralamas em ação hoje. Não é algo que acontece todo dia.
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– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/
