entrevista de Leonardo Vinhas
A “prole” de Heitor Villa-Lobos não em seus descendentes diretos, mas em músicos de diversas gerações que assimilaram seu legado musical e fazem uso dele para criar novas obras. A partir desse conceito, o pianista Amilton Godoy e o harmonicista Gabriel Grossi criaram o álbum “Os Filhos de Villa” (2026), lançado nas plataformas de streaming no dia 5 de março e com um vinil em edição limitada saindo logo mais.
Godoy e Grossi pinçaram sete canções de compositores tão distintos quanto Tom Jobim e Vinicius de Moraes, Guinga e Aldir Blanc, Egberto Gismonti, Mauricio Einhorn e Durval Ferreira, Johnny Alf, Paulinho Nogueira, e somaram a elas duas de safra própria, costurando um panorama precioso do legado de Villa-Lobos, com todas as obras interpretadas de forma muito pessoal em um duelo harmonioso de piano e harmônica. O resultado é um álbum delicioso e um show ainda melhor, conforme ficou comprovado no mesmo 5 de março, com a primeira apresentação da turnê na sala Jardel Filho do Centro Cultural São Paulo.
O material de imprensa apresenta o disco como um aparente paradoxo entre o erudito e o popular. Fato, mas não só: apesar de todo o conhecimento teórico que embasa a obra, ela é um terreno fértil para a improvisação que nasce da sensibilidade de ambos os artistas – que já haviam feito em 2012 o ótimo “Villa-Lobos Popular”, esse focado na obra do homenageado. O álbum mais recente, porém, vai além, trazendo uma música ainda mais fluida, que permite enxergar uma das obras mais ricas brasileiras por um prisma bastante diferente do qual ela é habitualmente apreciada.
Que esse disco tenha saído em 2026 tão tenso é um bálsamo. E o próprio Amilton Godoy explica, em entrevista exclusiva para o Scream & Yell, como “Os Filhos de Villa” vieram ao mundo.
Como você e Gabriel Grossi delimitaram a “genealogia” para chegar aos “filhos” do Villa-Lobos? E por que esses nomes, entre tantos possíveis, entraram no repertório?
Bom, antes de tudo, existe uma limitação natural nesse tipo de proposta. Muitos compositores brasileiros sofreram influência do Villa-Lobos. Pela importância dele, acabou dando uma identidade cultural ao país. A partir dele, o Brasil passou a ser reconhecido como um país extremamente musical, com uma sonoridade própria, resultado da nossa miscigenação. Nós temos influências africanas, portuguesas, europeias em geral — e cada região do Brasil tem sua identidade musical. Às vezes, com poucas notas, você reconhece: “isso é Nordeste”, por exemplo. A pulsação de uma bossa nova não tem nada a ver com a de um baião — e ainda assim, tudo é Brasil. Então, imagine a dificuldade de escolher quem seriam esses “filhos diretos” de Villa-Lobos. Dentro desse cenário, demos prioridade a compositores que tiveram uma influência mais evidente. Um exemplo claro é Antônio Carlos Jobim. Ele é, sem dúvida, um dos maiores nomes da música brasileira e sempre reconheceu a influência de Villa-Lobos. Inclusive, incorporou elementos de obras dele em composições próprias. Por isso ele é o único compositor com duas faixas no disco. Escolhemos “Chovendo na Roseira” e “Garota de Ipanema”.No caso de “Chovendo na Roseira”, o Gabriel quis muito gravar a música com uma abordagem diferente: em vez da valsa tradicional, trabalhamos com uma ideia de samba em três tempos, com uma levada que mistura o 3/4 com uma pulsação brasileira mais próxima da bossa nova. Fiz um arranjo baseado numa base que eu tinha bolado há muito tempo. Já “Garota de Ipanema” ganhou uma releitura mais madura. Ela não é mais aquela garota que ia à praia, que era admirada só pelo seu corpo escultural – ela ganhou vivência, ficou mais introspectiva, diferente, agora já é uma senhora (risos).
Apesar desse peso do Jobim para o conceito, o disco abre com uma do Egberto Gismonti.
Sim. “Loro” é muito marcante, muito brasileira, dá para improvisar bastante em cima dela, sentir o som do Brasil. O Egberto Gismonti é claramente influenciado por Villa-Lobos. A introdução que usamos foi uma ideia do Gabriel, baseada na peça “Dança do Índio Branco”. Essa é uma música que eu tive a oportunidade de tocar quando eu estudava música erudita. Toquei muito as obras do Villa-Lobos, tanto que cheguei a participar de um concurso para escolher o melhor intérprete dele, e acharam que eu devia ganhar (risos). Essas coisas todas me marcaram demais.
Um nome que me surpreendeu na seleção de vocês foi o do Johnny Alf…
Me perguntam bastante isso, “por que Johnny Alf?” Eu convivi particularmente com Johnny Alf quando ele tocava aqui em São Paulo. Tem um disco do Zimbo Trio chamado “Decisão” (de 1969) em que a faixa-título é uma música dele. Acho que quase ninguém sabe disso, ele conhecia muitas das obras do Villa-Lobos. A importância do Johnny para a renovação da música brasileira é muito grande. Quando ele tocava no Rio, Jobim não podia entrar na boate, então ficava ouvindo ele tocar de fora. O Johnny influenciou muita gente, por isso falei pro Gabriel que gostaria que ele estivesse no disco.
Para essas releituras todas, como vocês fizeram para equilibrar a fidelidade à obra original com a identidade de vocês dois?
Acho que fizemos as duas coisas: buscamos respeitar a essência das composições, mas também imprimir nossa identidade. O Gabriel é um músico extremamente criativo, com grande capacidade de improvisação. Muitas vezes, eu me preocupava em criar a melhor base possível para que ele pudesse se desenvolver livremente. E ele realmente se soltou muito no disco. A minha opinião é que ele tocou muito melhor que eu. Isso que eu tô dizendo para você. Acho que ele aproveitou esse espaço e se soltou de uma forma que eu ficava bamba de ver. Eu, como pianista, tenho que pensar muito no que posso fazer para dar ao solista a melhor base possível para que ele se sinta bem. E conforme o Gabriel ia tocando, improvisando, eu ficava besta de ver a capacidade que ele tem, o jeito que ele usa a imaginação.
Outros dois “filhos do Villa” são vocês mesmos (risos).
Sim. Incluímos duas músicas autorais: uma minha e outra do Gabriel.

Como essas faixas próprias que vocês escolheram traduzem a influência do Villa-Lobos?
O meu “Choro” tem uma levada bem brasileira e nasce de uma preocupação antiga: a de renovar a linguagem do choro, que muitas vezes ficava presa a formas mais tradicionais. Eu sempre achei importante atualizar harmonias e estruturas. Fiz esse choro em uma época em que tinha uma excursão por um trabalho do Banco do Brasil, e muitos músicos se cruzavam nos eventos. Então, num palco às vezes estava o Arthur Moreira Lima, eu, o Egbert Gismonti, vários pianistas, o André Geraissatti –tudo gente que gosta de música brasileira. Nós conversamos um dia sobre o choro brasileiro não poder ser sempre daquela mesma forma, mais primitiva. O pessoal que toca choro, se você observar bem, toca sempre do mesmo jeito, que era a maneira que o Jacob (do Bandolim) tocava. Os tradicionalistas usavam sempre as mesmas harmonias. Era a época de ouro do choro, imagina eu me metendo na vida deles (risos). Me lembro que na época mostrei para ele um choro do K-Ximbinho, “Eu Quero É Sossego”, com uma distribuição de harmonia diferente que eu tinha feito, e eles gostaram. Eu achava importante que houvesse essa renovação. E o Wagner Tiso, o Hermeto, fizeram umas coisas lindas. Lembra o “Choro de Mãe”, do Wagner? Então, fizeram coisas muito bonitas nesse período. Foi quando eu fiz esse choro que eu dediquei pro meu filho, que tinha nascido havia pouco tempo. Isso tudo é coisa de mais de 40 anos atrás, 50 anos, talvez. Mas ele ainda é, pra mim, uma boa representação brasileira do choro, que é um gênero que sempre esteve presente na obra desses eruditos brasileiros. Você pega desde o Ernesto Nazaré até o Villa-Lobos, sempre uns choros muito bonitos, inclusive algumas peças para violão também; Eu achei que poderíamos dar uma colher de chá para nós, né, e assinar como filhos do Villa também (risos).
E o “De Coração”, do Gabriel…
O Gabriel produz muita coisa, sempre. Ele me mandou umas músicas dele assim já bem avançadas. Entre elas, veio essa daí, que tem uma pegada de bossa nova, mais suave. Eu gostei muito dessa música, e a gente encontrou uma uma levada boa para ela, é gostosa de tocar. Aí lá no concerto [de lançamento], puxa, eu dei graças a Deus na hora que essa música entrou! (risos) Eu já tinha tocado duas ou três bem difíceis antes, eu fui falar com o público e não conseguia, não tinha nem gás para falar (risos). Eu estava cansado, pensei: “Puxa, eu preciso tocar um uma balada, um refresco”. E essa música estava no programa. Eu falei: “É essa que vai agora” (risos). Porque você tem que pensar até nisso, né? Esses compositores exigem uma performance e há um desgaste físico – pelo menos no meu caso, um cara mais novo provavelmente tira isso de letra. Mas eu (aos 85 anos) já tenho que tomar um pouco de cuidado com isso. A “De Coração” traz um refresco que acho imprescindível em uma apresentação de música instrumental, sabe? O músico tem que ter uma hora em que ele assenta a poeira.
E sobre os compositores mais contemporâneos? Vocês optaram por não incluir nomes mais recentes?
Incluímos sim — eu vejo o Guinga como um nome recente (sorri). Para mim, ele é um representante importante dessa continuidade. Ele traz harmonias sofisticadas e uma linguagem própria, mas ainda dialoga com essa tradição. Também incluímos Paulinho Nogueira, com “Bachianinha”, que já no nome remete diretamente a Villa-Lobos.
Você acredita que ainda existem caminhos inexplorados na obra de Villa-Lobos? Por exemplo, releituras em outros estilos, interpretações mais elétricas?
Sem dúvida. Aliás, você tá dando uma ideia bom para produzir um disco, hein? (risos)
Bom, em Brasília, o projeto Esperando Rei Zula lançou um EP só com reinterpretações reggae e ska da obra do Villa-Lobos, “Jamaichianas Brasileiras”…
Não sabia disso! Eu acho que o Villa-Lobos é uma fonte infinita de pesquisa. Se você examinar cada obra dele, vai ver como ele foi pioneiro na na maneira de colocar as harmonias e as ideias musicais. Por exemplo, no nosso trabalho anterior, pegamos “Estrela do Céu É Lua Nova”, que ele fez pra coral, e nós fizemos, eu e Gabriel, um arranjo para gaita e piano. Aquilo originalmente é para coral, mas ô música bonita! Você sabe que eu a toco no piano até hoje, e às vezes eu toco em algum lugar onde todo mundo fica assim, “pô, mas que música é essa?” É tão legal tocar aquilo no piano, porque o piano tem esse poder de síntese, você encontra o jeito de adaptar o sinfônico para algo que você dá um jeito de tocar com as duas mãos, entendeu? Então, tem muita coisa ainda a ser pesquisada. Isso é um recado para mim também, para outros colegas meus e para outros músicos: por que não colocar outros tipos de instrumentos, eletrificar? Isso é importante. Estou sempre atrás de fazer música brasileira, desde a época do Zimbo Trio, estudar e descobrir outros jeitos. Agora, imagina a complexidade da obra do Villa-Lobos. Haja conhecimento para você poder mexer, saber que escala usar… Então, tem muito a ser pesquisado, muito a ser experimentado, mas quem se propor a isso precisa buscar o conhecimento compatível com a obra com que eles vão trabalhar para não descaracterizar.
Mudando um pouco de tema: você tem mais de sete décadas de carreira e acompanhou muitas transformações no mercado musical. Hoje, com o acesso facilitado à música, você acha que a apreciação ficou mais fácil ou mais difícil?
Vivemos uma fase de transição constante. O acesso é maior, mas existe o risco de perdermos nossa identidade. Muitas vezes, confundimos “música feita no Brasil” com “música brasileira” — e não são a mesma coisa. Há muita gente boa no Brasil fazendo música que não é brasileira, a levada não é brasileira, as raízes harmônicas não estão dentro daquilo que nós temos. A música brasileira conquistou seu espaço internacional por causa da sua originalidade, especialmente com a bossa nova. Isso não pode ser perdido. E um caminho para que isso não se perca é educação musical. Sem isso, não existe formação de público. As pessoas têm que ser incentivadas a estudar um instrumento. Está mais do que provado que isso faz bem pra alma, pra cabeça. Ouvir e tocar faz bem pras pessoas. Você não imagina o quanto: liga uns circuitos, umas conexões novas entre os neurônios, porque você tem que coordenar um monte de coisa. Daqui a pouco nós temos aí uma inteligência artificial que vai estar fazendo tudo, mas o sentimento é algo que só nós, humanos, temos. A inteligência artificial pode melhorar a base, mas como é que ela vai improvisar, interpretar? Quando se tem educação musical, a gente melhora o nível da plateia. Melhorando o nível da plateia, essa plateia não vai engolir qualquer coisa. E essa plateia que saiu de lá, que estudou, não aceita essas coisas. não vai querer só ficar fazendo ginástica num palco. A música, principalmente quando é instrumental, ela tem um mundo lá dentro. Se você começa a entrar naquele mundo, você começa a sentir aqui (aponta para o coração) uma coisa diferente, que você passa pra plateia.
Pra encerrar, eu queria falar algo que eu considero notável, e não por uma questão de etarismo, longe disso. Mas você está com 85 anos. E ainda está se expondo, procurando novas formas de expressão. Está com novos e antigos parceiros, o Gabriel mesmo é um parceiro de longa data, mas de outra geração, com outras referências. Mesmo quando revisita o passado, você faz de um jeito diferente.
(risos) Sim. Eu boto a cara pra bater, é assim que se fala?
A pergunta nem é bem uma pergunta. É mais essa constatação de que você não se conforma com o papel que a sociedade relegaria para você, ou com as expectativas do seu público.
Eu prefiro ser como eu sou. Porque tenho que estar bem em paz comigo mesmo. Fico me questionando o que é que eu tenho que fazer, querendo saber o que mais posso entregar. Eu tô conseguindo fazer coisas com essa idade, e ainda estou se eu perguntasse pro Altíssimo porque eu ainda estou aqui. Por alguma razão deve ser, entendeu? Eu sei que existe uma razão maior para todos nós. Estamos num processo de evolução. Eu quero que o meu espírito continue sendo enriquecido por verdadeiras propriedades, não pela matéria que eu vou deixar. Eu tenho que voltar pro lugar da onde vim melhor do que quando cheguei.
– Leonardo Vinhas (@leovinhas) é produtor e autor do livro “O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de José e Maria“. A foto que abre o texto é de Giulliana Dias.
