texto de Marcelo Costa
faixa a faixa comenado por Eva
Muitas coisas podem inspirar um disco, e o fim de um relacionamento amoroso é um propulsor clássico, mas, além do fim do amor, Eva ainda teve outros motivos que culminaram em “Ritual“, sua primeira composição, faixa título de seu álbum de estreia: um diagnóstico de fibromialgia, que a fez rever a relação que tinha com a dança, e algo próximo a todos nós, a pandemia. Foi necessário chegar ao fundo do poço para que Eva se lembrasse de quem era e entender o que não cabia mais, seja nas relações com outras pessoas, como também na relação com ela mesma.
“Ritual” nasce desse exercício de autoconhecimento e percorre o caminho de uma mulher ativa em busca de seu poder próprio, passando por temáticas voltadas ao amor romântico e indo a um lugar mais íntimo e de autopertencimento. O disco leva este nome, porque “ritual é algo feito com fé, disciplina, trabalho, devoção e sangue nos olhos”. É algo que exige preparo, presença e constância. É algo que transforma, que amplia, que quebra com a ordem estabelecida”, explica Eva.
Entre a faculdade e o trabalho, Eva equilibrava as contas se apresentando no metrô de São Paulo e integrando espetáculos musicais e cênicos. E foi investigando discos que gostava que encontrou Amanda Magalhães, que divide a produção do disco com Dudu Rezende (Mari Jasca) e Marcos Maurício (Baco Exu do Blues), e conta com as participações especiais de Samuel Samuca e Zé Nigro. Abaixo, você ouve “Ritual” (um lançamento Boia Fria Produções) na íntegra e se aprofunda no repertório do disco lendo um faixa a faixa exclusivo que Eva escreveu para o Scream & Yell.
01) RITUAL – Essa música nasceu a partir do meu diagnóstico de fibromialgia e a separação de um relacionamento amoroso. Fala sobre os rituais/ebós que me muni nesse período para expurgar sentimentos de abandono, rejeição e me lembrar que não estou só: escrevo o que nunca disse, queimo o que não me serve e atravesso o silêncio até ele deixar de existir. Cuspo o que engoli, danço com o que temi e, das sobras, me refaço. É uma música para virar o jogo e fazer do caos uma celebração. O arranjo é quase mântrico, vai aprofundando suas nuances à medida que a narrativa se desenvolve, e se encerra com a junção de várias vozes que me compõem.
02) AMOR SELVAGEM – Um carimbó ousado que fala sobre ir atrás de quem se quer com desejo, libido e sem rodeios. A composição surgiu da minha vontade de abordar os homens com a mesma confiança que eles se permitem na conquista. A presença de Samuel Samuca, que participa da composição e também vocais, amplifica o poder dessa figura feminina: ela é exaltada e celebrada por expressar seus desejos e instintos, longe da necessidade de performar desinteresse, culpa pudor para ser desejada. Eu assumo minha intensidade e encontro no outro uma resposta à altura.
03) JEITINHO – É a “love song” do disco. É leve, sensual e bem-humorada – tem intimidade, mas também ironia. Parto do desejo, mas sem abrir mão do meu jeito. Entre carinho e provocação, conduzo esse encontro com liberdade: me abro por inteira, sem medo de sentir, mas também sem aceitar qualquer nome ou rótulo que diminua o que é intenso: “Pode até me chamar de ‘meu amor’, só não me chama de ‘afeto’”.
04) BOY – Essa faixa é um corte seco, sem anestesia. Ela nasce do confronto entre profundidade e superfície. Enquanto eu mergulho de verdade, o outro sempre teve a opção de voltar à tona sem se afetar. A música expõe esse desequilíbrio: quem sente mais, cria raiz. Quem sente menos, chama de liberdade. Ao longo da faixa, eu rompo com o lugar de devoção. O “altar” é desmontado, e junto com ele cai a idealização. O processo de cura é físico e ritualístico: colocar o corpo ao sol, queimar a pele, atravessar a memória. No fim, o que parecia dor se transforma em digestão. “Te mastigar pra te digerir” não é sobre vingança, é sobre deixar de carregar o outro como ferida e passar a carregar como aprendizado.
05) EMOCIONADA – Essa canção nasce de um encontro rápido, mas cheio de expectativas. Enquanto o outro vai embora sem nem beber um copo d’água, eu já imagino o que poderia ser. Entre ironia e vulnerabilidade, a música expõe um desejo claro: alguém que fique. Que não tenha pressa, que não fuja da intensidade, que encare o amor com presença e responsabilidade. É sobre carência, mas também sobre consciência do próprio valor. Sobre saber o que se quer e não aceitar menos.

06) AZUL – “Azul” é um mergulho na minha infância – um inventário de pequenas estranhezas, medos e descobertas que moldam quem a gente se torna. Entre fantasias, confusões e percepções muito próprias do mundo, revisito um tempo em que tudo era intenso, mágico e, às vezes, assustador. Um tempo em que imaginar era também uma forma de existir. Sem julgamento, a música, que é só voz, ressignifica essa “infantilidade” como potência criativa – um lugar onde cabiam todas as versões de mim. Dentro de “Ritual”, é o momento de olhar para trás e reconhecer: sem saber, eu já era tudo que queria ser.
07) CASULO BORBOLETA – Nessa faixa, canto a partir do medo – do tempo, da solidão, de não dar conta de mim. Tento controlar, prever, perguntar pros astros qual caminho seguir, mas entendo que a maior batalha sempre foi interna. Entre a procrastinação, as ilusões e as versões que criei pra caber em lugares pequenos, começo a reconhecer o que me limita. É um pedido de coragem. Pra pulsar o que eu desejo, pra me perder das expectativas e me tornar quem eu sou – não quem eu poderia ter sido. Dentro do disco, é o momento de entrega: confiar no tempo, atravessar o medo e acreditar que meu destino começa justamente onde eu mais hesito.
08) FESTEJO – Parto do meu corpo como território sagrado. Minha nudez não é exposição – é oração, presença e encontro comigo mesma. Ao me reconhecer como “corpo-casa-selva”, eu transformo minha história em paisagem: tudo que vivi – lágrima, suor, cicatriz – vira força, raiz, fertilidade. O que antes era medo, hoje é celebração. Essa faixa é sobre pertencimento. Sobre habitar a própria pele sem vergonha, sem recuo, entendendo que existir em mim já é suficiente – e revolucionário.
09) TIGRESA – Nasce de um sonho que tive: nele eu virava um quadrúpede selvagem correndo pela cidade após matar alguém que queria me ferir. Nele eu acesso minha força mais instintiva pra sobreviver e me reconstruir. A tigresa nasce das minhas próprias feridas. Entre sonho e realidade, eu viro bicho pra atravessar a noite, enfrentar o medo e devolver ao mundo a violência que um dia me atravessou. Aqui, não tem delicadeza: tem corpo, impulso e reação. Ao longo da faixa, eu também desmonto uma espera: a de viver o amor romântico. Entendo que o amor não vem de fora: ele é força selvagem, é presença, é algo que já habita em mim. É o encerramento do disco e um momento de libertação. Quando eu deixo de esperar e passo a existir com força própria.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.
