Lydia Lunch retorna ao Brasil e inspira programação intensa do CCSP na Virada Cultural

texto de Alex Antunes

Lydia Lunch está chegando pela terceira vez ao Brasil. A primeira foi uma apresentação memorável no cinema abandonado Art Palácio, na av. São João, com um palco montado no meio da sala imensa e vazia de cadeiras, e projeções mapping na arquitetura decadente. Um transe urbanoide digno da cena no wave de Nova York (com destaque para uma versão torturante da já torturante “Frankie Teardrop”, do Suicide: “Ele está apenas tentando sobreviver/ Todas as minhas lágrimas para Frankie/ Mas Frankie não consegue/ Porque as coisas estão muito difíceis/ Frankie não consegue ganhar dinheiro o suficiente/ Frankie não consegue comprar comida/ Frankie foi despedido/ Frankie está tão desesperado/ Ele vai matar sua esposa e filho/ Frankie pegou uma arma/ Aponta para um garoto de seis meses em um berço”). Foi em 2014, no Mês da Cultura Independente. E depois um repeteco no Sesc Belenzinho, sempre em São Paulo, as duas vezes com seu projeto Retrovirus.

Desta vez, a provocadora e workaholic vem com seu projeto mais recente, Murderous Again, de spoken word com acompanhamento musical, e também vai exibir um filme seu. Escritora, musicista, cineasta, Lydia atravessa décadas impressionando gerações com uma obra marcada por intensidade, experimentação e radicalidade estética. E inspirou a equipe do CCSP em um recorte curatorial que celebra esse espírito insurgente – com criações contemporâneas de forte presença feminina e experimental – em sua programação na Virada Cultural, na madrugada do próximo sábado para domingo (23 para 24 de maio). A produtora Angela Novaes, da produtora Brava, responsável por todas as vindas e pelo lançamento do disco “Retrovirus” no Brasil, combinou com a Lydia a impressão de um folheto com as traduções do texto do espetáculo. “Fizemos um livreto para distribuição na apresentação, com arte de Sandro Saraiva e tradução de Reuben da Rocha”, para atender o desejo da artista de se fazer entendida pelo público brasileiro.

Murderous Again traz o baixista/ sound designer Tim Dahl e o saxofonista Matt Nelson num psycho-ambient jazz noir visceral. A programação toda propõe uma travessia por territórios onde música, performance, poesia sonora, cinema, ruído e pista de dança se encontram. Um diálogo vivo com a tradição de ruptura explorada pela contracultura, que foi radicalizada nos anos 1980 por artistas como Lydia: uma constelação de vozes que tensionam linguagens. O duo Qmar, de Paula Rebellato e Cacá Amaral, em um trabalho que articula gesto, voz e paisagem sonora em chave ritualística e contemporânea. A veterana da cena electropunk carioca Leandra Lambert apresenta seu projeto Persephonyx, também de pegada ritualística, da “dança da presença e da impermanência, do prazer e da agonia, dos destinos e escolhas, das pulsões de vida e de morte”. E sim, o bicho pega.

O duo Fogo Fogo é formado por Jeanne Callegari e Anna Vis, e junta duas mulheres empenhadas, cada uma a seu modo, na pesquisa entre a voz poética e o processamento eletrônico. Às vezes nessa encruza comparece a canção, às vezes comparece o ruído (um dos instrumentos é a “máquina de pesadelos” construída por Jeanne), mas é sempre muito imersivo. O Meta Golova, usualmente um poderoso duo da russa Lena Kilina e do produtor Carlos Issa, aproveita a oportunidade para despir-se da eletrônica e mostrar sua versão mais punk, o trio em que Issa vai para o baixo e Guilherme Pacola vem para a bateria. E, de Belo Horizonte, chega Lucia Vulcano, a cantora e compositora que apresenta com sua banda as composições irônicas e intrincadas de seu disco Vim, Vi E Me Fudi.

A noite começa com a DJ Lary Violet, que toca faixas extraídas das playlists que ilustram “A Vingança das Punks”, da jornalista e musicista bissexta Vivien Goldman. O livro conta exatamente a história do protagonismo feminino no rock desde o final dos anos 1970, quando Vivien começou a escrever para o semanário Sounds, ao mesmo tempo em que se iniciava nos estudos acadêmicos. E foi lançado recentemente no Brasil pela editora Barbante. A editora promete sortear um exemplar em suas redes (@editorabarbante), a ser retirado no evento no CCSP. E termina com o baile antenAZero, em que a webradio traz quatro de seus apresentadores – André Abujamra, a jornalista e DJ Adriana Arakake, Jonnatha Doll e Wilson Farina para tocar ecletismos e obscuridades (Abu), punkices (Doll), jazz-grooves (Dri) e rock e soul classudos (Wilson).

Nas salas de cinema, acontecem os cineconcertos, o diálogo entre cinema e música experimental: a banda Anjo Gabriel, de Recife, sonoriza “Lucifer Rising” (1972), e o duo Vermelho Wonder, “Inauguration of the Pleasure Dome” (1954), ambos filmes de Kenneth Anger, um indo mais no viés psicodélico, o outro no eletrônico-performático. Já o duo de improviso Rádio Diáspora, com o trompete e efeitos de Rômulo Alexis e a bateria e eletrônica de Wagner Ramos escolheu sonorizar “Fausto” (1926), o clássico de F. W. Murnau, um encontro entre a mística expressionista e a música negra de ponta. E Lydia Lunch promove duas sessões de seu filme, dirigido em parceria com Jasmine Hirst, “Artists: Depression, Anxiety & Rage” (2024). A obra que investiga as relações entre criatividade e saúde mental tem duas sessões, uma na madrugada (após a apresentação de Lydia), e uma, comentada pela autora, na tarde de domingo. Após a segunda sessão comentada de seu filme Artists: Depression, Anxiety & Rage no CCSP, Lydia Lunch realiza uma conversa solo em outro espaço essencial da cidade, a biblioteca Mário de Andrade, ampliando sua presença na Virada Cultural com um encontro mais intimista.

Já a artista Keila Okubo conduz na gráfica do CCSP uma vivência que propõe a criação de cartazes a partir da técnica do cut-up, método de criação experimental popularizado pelo escritor William Burroughs. Durante a atividade, os participantes serão convidados a trabalhar com diferentes materiais de impressão, explorando combinações inesperadas entre palavra e forma, desenvolvendo cartazes customizado e exclusivo para a apresentação de Lydia Lunch, que ocorre na sequência. Ao reunir essas artistas e coletivos, o CCSP propõe um espaço de encontro entre gerações, linguagens e insurgências, a potência de uma cena underground que se mantém na experimentação, na autonomia e na multiplicidade de vozes. O curador do CCSP, Carlos Gabriel Pegoraro, comenta: “aproveitamos a chance para criar uma grade inusitada, experimental e até meio sombria; parte da programação acontece na sala Ademar Guerra, que já é underground por definição”, ri ele.

Em diálogo com essa programação, em outra sala da Virada Cultural – o Theatro Municipal, que volta à Virada com sua série de álbuns notáveis – recebe apresentações nesse arco histórico de ousadia criativa: Mercenárias tocam Cadê as Armas? (1986), Fausto Fawcett revisita Fausto Fawcett e os Robôs Efêmeros (1987) e o Mundo Livre S/A celebra Samba Esquema Noise (1994). Três álbuns de estreia fundamentais para a música brasileira experimental e alternativa. No mesmo palco, o Anjo Gabriel acompanha o veteraníssimo Eduardo Araújo em uma releitura de seu disco mais ousado, o psicodélico Sou Filho Desse Chão (1971), ampliando o leque de momentos decisivos da contracultura musical no país.
Após a segunda sessão comentada de seu filme Artists: Depression, Anxiety & Rage no CCSP, Lydia Lunch realiza uma apresentação solo em outro espaço essencial da cidade, a biblioteca Mário de Andrade, ampliando sua presença na Virada Cultural com um encontro mais intimista. Ela faz um relato autobiográfico: sua chegada ainda adolescente a NY, a formação da estética no wave, os “encontros e desencontros com arte, sexualidade e radicalidade – o testemunho catártico de sua vida intransigente e original”.

Informações sobre horários estão disponiveis nas redes sociais do CCSP

– Alex Antunes (@deathdiscomachine) é jornalista, escritor, pesquisador, curador e produtor.

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