texto de Paulo Pontes
O show do Draconian no Carioca Club, em São Paulo, carregou aquele tipo de atmosfera que raramente aparece mesmo em apresentações muito aguardadas. Existia entusiasmo evidente no público, mas também uma sensação de recompensa depois de anos acompanhando uma banda que sempre pareceu distante demais, quase inacessível ao vivo.
A estreia da turnê de “In Somnolent Ruin” (2026) na capital paulista ransformou a apresentação em um evento importante por vários motivos: o retorno de Lisa Johansson, a execução de várias músicas inéditas ao vivo e a chance de finalmente ver a formação clássica da banda no Brasil depois de uma trajetória marcada por hiatos, mudanças e obstáculos que durante muito tempo limitaram a própria existência do grupo fora da Europa.
Antes do Draconian subir ao palco, Emma Ruth Rundle abriu a noite completamente sozinha, apenas com voz e violão. E justamente essa simplicidade acabou funcionando de maneira perfeita dentro do contexto do show. Sua apresentação criou uma espécie de desaceleração emocional no Carioca Club. Aos poucos, o barulho da casa foi diminuindo e a atenção do público começou a se concentrar completamente nela.
Emma conduziu tudo com uma presença extremamente íntima, quase vulnerável, transformando músicas naturalmente melancólicas em algo ainda mais próximo. Quando a bateria do violão apresentou problema e ela precisou trocá-la no palco, o momento não quebrou o clima. Pelo contrário. A situação acabou reforçando ainda mais o caráter humano da apresentação. Quem não conhecia, saiu fã; quem já estava habituado com o som da norte-americana, pode confirmar sua qualidade ao vivo.
Mas quando o Draconian entrou, a atmosfera mudou completamente de escala. Os primeiros acordes de “I Welcome Thy Arrow” imediatamente fizeram o Carioca Club mergulhar naquele universo melancólico, pesado e sufocante que a banda construiu ao longo da carreira. O impacto do som foi impressionante. As guitarras vieram enormes, encorpadas e extremamente definidas, criando uma massa sonora densa sem transformar tudo numa parede embaralhada de distorção. O baixo preenchia o ambiente com profundidade quase física, enquanto a bateria sustentava os andamentos lentos com precisão impecável.
O Draconian sempre trabalhou o peso de forma muito particular. Seu verdadeiro diferencial está na construção de atmosfera. Cada música parece crescer lentamente até envolver completamente o público, criando uma sensação contínua de tensão emocional. E ao vivo isso se tornou ainda mais evidente. No centro dessa experiência está a união entre Lisa Johansson e Anders Jacobsson.

Os dois entregaram uma performance tecnicamente impecável do começo ao fim. A combinação entre as vozes funcionou de maneira praticamente perfeita durante toda a apresentação, mas o mais impressionante era como cada um ocupava espaços emocionais muito específicos dentro das músicas. Lisa conduziu grande parte do repertório com uma melancolia serena, pesada e extremamente elegante. Sua voz permaneceu limpa, segura e delicada mesmo nos momentos mais densos instrumentalmente, mas sem soar frágil ou excessivamente etérea. Existe profundidade emocional real na interpretação dela.
Anders aparece como o contraponto absoluto disso tudo. Seus guturais vieram monstruosos durante a noite inteira, carregados de agressividade e tensão, mas sempre muito controlados tecnicamente. Em nenhum momento os vocais perderam força ou definição. E o mais importante: Anders não parecia simplesmente alternar brutalidade com as partes melódicas de Lisa. A parada entre os dois funciona mais como uma espécie de diálogo.
Em músicas como “The Wretched Tide” e “Heavy Lies the Crown”, essa dinâmica ficou especialmente evidente. Lisa conduzia melodias carregadas de tristeza contemplativa enquanto Anders surgia logo depois transformando a música em algo muito mais sombrio e sufocante. O contraste entre os dois nunca pareceu artificial ou apenas estético. As vozes funcionavam como partes complementares da mesma emoção.
“The Last Hour of Ancient Sunlight” foi um dos momentos em que isso atingiu maior intensidade. A construção lenta da música, combinada com o peso absurdo das guitarras e a interação vocal entre Lisa e Anders, fez o Carioca Club inteiro mergulhar num estado quase hipnótico. O público acompanhava tudo em silêncio respeitoso, completamente absorvido pela atmosfera criada pela banda.
E talvez isso tenha sido uma das coisas mais impressionantes da noite: o nível de imersão coletiva dentro da casa. O Draconian conseguiu manter o público inteiro emocionalmente conectado ao show durante apresentações longas, lentas e extremamente densas. Não havia dispersão. Não havia ansiedade por momentos explosivos. As pessoas pareciam genuinamente entregues à experiência.
As músicas de “In Somnolent Ruin” funcionaram absurdamente bem ao vivo. “The Face of God” ganhou uma dimensão gigantesca no palco, “Asteria Beneath the Tranquil Sea” trouxe uma atmosfera fria e quase fantasmagórica, enquanto “Cold Heavens” acabou se tornando um dos grandes momentos da apresentação graças à interpretação impecável de Lisa Johansson.
O mais interessante é que o material novo nunca pareceu deslocado perto dos clássicos antigos. Pelo contrário. As músicas dialogaram perfeitamente com faixas como “Heaven Laid in Tears”, “Seasons Apart” e “The Sethian”, reforçando como “In Somnolent Ruin” funciona muito mais como continuidade natural da trajetória do Draconian do que como tentativa de reinvenção. E ao vivo isso fazia ainda mais sentido.
O Draconian entregou no Carioca Club exatamente aquilo que transformou a banda numa referência tão respeitada dentro do gothic/doom metal: atmosfera esmagadora, composições emocionalmente densas, peso construído com paciência e uma combinação vocal que atingiu um nível impressionante de perfeição técnica e emocional.
Quando “The Sethian” encerrou a noite, a sensação deixada pela apresentação era a de ter assistido uma banda completamente conectada à própria identidade, executando músicas pesadíssimas com uma naturalidade quase assustadora.
Foi um show grande justamente porque nunca tentou parecer grandioso artificialmente. Tudo funcionou pela força das composições, pela entrega da banda e pela capacidade rara de transformar melancolia em algo monumental ao vivo.
– Paulo Pontes é colaborador do Whiplash e escreve de rock, hard rock e metal no Scream & Yell. É autor do livro “A Arte de Narrar Vidas: histórias além dos biografados“.
