Entrevista: Brad Roberts num papo sobre os 35 anos do Crash Test Dummies

entrevista de Heberton Barreira

O que “Superman’s Song”, do Crash Test Dummies, e “Homem Primata”, dos Titãs, podem ter em comum? Se você se atrever a descer num batiscafo (cuidado com o casco, não vá pegar um tipo OceanGate!) e mergulhar nas profundezas oceânicas dessa rede em busca de uma relação entre as duas canções, pode esbarrar numa filosofia tão densa quanto a voz de Brad Roberts.

O eterno grave reverberante e reconfortante para qualquer ouvido transforma duas imagens da cultura pop em figuras opostas politicamente: de um lado, Tarzan, um personagem que não quer outra coisa a não ser se isolar na selva, recusando a vida em comunidade; de outro, Superman, um super-herói altruísta, porém desvalorizado pelo senso de responsabilidade cívica e preocupação comunitária. Mesmo no videoclipe, o retrato do funeral do super-herói e o clima da canção acabam gerando uma certa esperança na humanidade, ainda que melancólica, sob o mesmo olhar compassivo do alienígena. “O mundo nunca verá outro homem como ele” avisa a canção. E então fica a pergunta: Clark Kent, Superman… ainda está morto?

E o Homem Primata? Esse sim, está mais vivo do que nunca. Representando Tarzan (coitado) ou não, seja na selva do mundo competitivo ou simplesmente num retiro social, o rei da floresta não nos deixa de lembrar que “o homem ainda faz o que o macaco fazia.”

Mas a conversa com Brad Roberts vai além do “Pele Branca” e do kriptoniano. Ele conta como sua escrita evoluiu: da inversão de sua forma de composição, escrevendo a letra primeiro e depois encontrando a melodia, num processo poético baseado em contagem de sílabas e métrica. Hoje os agudos são mais difíceis, mas os graves ganharam novas notas. O frontman nunca deixou de lado uma lição simples: se não funcionar no violão, nem adianta seguir para camadas e arranjos.

Brad também fala um pouco de algumas influências casuais, como os Replacements, e os britânicos do XTC, com seus tipos de harmonia e mudanças de tonalidade. Fala com carinho também sobre sua colega de faculdade em Winnipeg, Ellen Reid: a backing vocal com uma habilidade natural para harmonias que complementa de forma precisa seu timbre. E sim, aquele “mmm mmm mmm mmm” que todo mundo lembra até hoje, era só um espaço em branco para refletir nos versos da canção. E cita ainda com orgulho, o álbum “Diva” da escocesa Annie Lennox, a eterna voz do Eurythmics, como responsável pela forma como foi realizado a obra de maior sucesso da banda, “God Shuffled His Feet”.

Os bonecos de teste de colisão nunca vieram ao Brasil. Mas deixaram para os nostálgicos dos anos 90 e para os fãs saudosos que também curtiram o filme “Débi & Lóide”, uma esperança de ouvir e redescobrir aquele refrão quase impossível de não cantarolar. Agora, com planos de turnê para 2026 (quem sabe América do Sul?), Brad Roberts segue compondo música instrumental para quarteto de cordas e piano. E, felizmente, continua com aquela voz que parece vir do fundo de um vulcão que nem sempre entra em erupção. Leia a conversa a seguir:

Existe uma história sobre você ter jogado ovos na casa da sua professora de piano na infância. Poderia compartilhar um pouquinho dessa história e falar como foi a transição para o violão?
Ah, você quer dizer a professora que costumava bater nos meus dedos com o lápis? Sim. O estilo de ensino dela não era algo que eu gostava muito. Ela costumava falar ao telefone enquanto eu tocava as peças para ela. Ficava com o telefone no ouvido, tagarelando, e de vez em quando eu cometia um erro e ela batia nos meus dedos. Então parei as aulas de piano. Mas não parei de gostar de música. Pouco tempo depois comecei a ter aulas de violão com um professor muito mais gentil, e fiquei muito mais interessado, então me saí bem melhor.

Você já disse que sua curiosidade musical começou com fontes improváveis, como uma revista do Archie. Teve alguma história em quadrinhos que te atraiu?
Essa é uma boa pergunta. Não tenho certeza. Sei que, com a revista do Archie, eu olhei um quadro que mostrava os Archies sentados em volta de uma fogueira, e o Jughead estava tocando violão. Naquela época eu fazia aulas de piano, e não gostava do fato do piano ficar parado em um único lugar para onde eu precisava ir tocar. Eu queria ter um instrumento que pudesse carregar comigo, algo mais portátil. Então aquilo me afetou bastante, porque me fez trocar o piano pelo violão e pensar muito mais sobre música.

Seus estudos universitários em Inglês e Filosofia influenciaram naturalmente o aspecto lírico de suas primeiras composições. Mas no processo de construção das canções, você costumava priorizar a melodia antes de escrever a letra?
Bom, primeiro, a abordagem que eu usava antes era escrever as letras depois de compor a música. Minha lógica era que, se eu conseguisse escrever uma melodia cativante o suficiente para que as pessoas quisessem ouvir mesmo sem palavras, então eu estaria no caminho certo. Com o tempo comecei a fazer o contrário: passei a escrever as palavras primeiro e depois colocar música nelas. Isso mudou muito minha abordagem, porque comecei a escrever pensando em métricas poéticas, sabe? Quando você analisa poesia, precisa contar o número de sílabas em cada linha e observar onde caem os acentos. Então comecei a escrever com esse método em mente, basicamente escrevendo poemas bem estruturados na página e depois transformando aquilo em melodia.

Quais leituras influenciaram o desenvolvimento do seu estilo narrativo nos primeiros anos?
Essa é difícil. Fui muito influenciado pelos romances de Thomas Hardy. Ele tem uma visão bastante sombria, que acho que acabou refletida nas minhas letras em certa medida. Ele também era um grande poeta, embora seja mais conhecido pelos romances. Na última parte da vida dele, escreveu apenas poesia. Ficou bastante desgostoso com o mundo dos romances por causa das questões de censura e tudo mais, e sentia que podia contornar isso melhor através da poesia.

Partindo para algumas de suas referências musicais: de que forma bandas como XTC e The Replacements contribuíram para a construção da sonoridade do Crash Test Dummies?
No caso do The Replacements, eles fizeram a música “Androgynous” (no álbum “Let It Be”, de 1984) com uma abordagem meio improvisada: só piano e voz, um jeito casual de tocar. Nós pegamos aquela música e fizemos nossa própria versão, com um arranjo diferente. Descobri essa música porque um amigo me enviou uma fita cassete no fim dos anos 80 com coisas que ele estava ouvindo, e quando ouvi aquela música pensei: que música incrível, quero muito tocar isso. Já com o XTC foi uma paixão de longa data. Descobri a banda quando tinha uns 16 anos, acho. Eles têm uma abordagem completamente diferente da do The Replacements. Claro que são muito mais polidos musicalmente, não quer dizer que sejam melhores, só muito diferentes na abordagem. Sempre adorei como o XTC escrevia músicas que te levavam por uma jornada harmônica diferente da maioria das músicas pop. Eles faziam mudanças de tonalidade interessantes e viradas que a maioria das bandas não faziam. Sempre fui fascinado por isso, e isso certamente influenciou a composição de “God Shuffled His Feet”, quando eu estava trabalhando com mudanças de tonalidade.

A química vocal entre você e a Ellen Reid parece ser o coração sonoro da banda. Nos ensaios, como vocês decidiam quando uma música precisava da pureza da voz dela para equilibrar com a aspereza da sua voz principal?
Eu conheci a Ellen na Universidade de Winnipeg. Tive muita sorte de conhecê-la, porque ela é uma backing vocal natural. A harmonia simplesmente transborda dela, e ela canta comigo como ninguém mais conseguiu. Eu não tinha nenhum plano mestre nem nada assim. Só me sinto muito sortudo por ter me conectado com alguém que tem essas habilidades e cujas qualidades complementaram tanto as minhas. Acho que minha voz ficaria um pouco cansativa se fosse só eu o tempo todo. A Ellen realmente ajuda a suavizar isso com um pouco de doçura.

Vocês estudaram juntos?
Sim. Na verdade não fizemos aulas juntos, mas estudamos na mesma universidade.

O uso da gaita e do bandolim por Benjamin Darvill deu uma textura bem específica ao álbum “The Ghosts That Haunt Me” (1991). Quando vocês caminharam para o estilo mais cheio de camadas de “God Shuffled His Feet”, como reposicionaram esses instrumentos tradicionais para que eles não soassem como referências celtas?
Boa pergunta. O Ben Darvill é um gaitista excelente, e acho que ele conseguiu se adaptar ao novo estilo do nosso segundo disco porque, como você mencionou, ele é muito mais cheio de camadas e bem menos folk. Também usamos bandolim em “Swimming in Your Ocean”, onde o bandolim toca a linha temática que acompanha a música e se junta à guitarra, criando uma textura diferente. Mas foi desafiador tentar encaixar esses instrumentos na nova direção, e nós nos esforçamos bastante para fazer isso. Para ser bem sincero, acho que o Ben não ficou muito feliz com a mudança de direção, porque ficou muito mais difícil para ele se encaixar.

Ele acabou montando o Son of Dave, né? A saída dele chegou a afetar a forma como você pensava sobre o trabalho da banda? Teve algum impacto na composição?
Não. Acho que o Ben tem uma abordagem de composição bem diferente da minha, e não havia muita troca criativa nesse sentido. Parte da razão pela qual ele saiu da banda foi porque queria ser o frontman, para ser honesto. Ele não queria ficar em segundo plano para outra pessoa. Então seguiu o próprio caminho e fez o que queria. O que ele faz é realmente interessante, a forma como combina instrumentos com loops e tudo mais. Eu acho bom, mas depois de uns 15 minutos eu já meio que me canso.

Boa parte da sua música tem uma carga melancólica. Você sente que precisa estar em um estado emocional específico para compor?
Acho que a ideia de que você precisa estar sofrendo para fazer arte é equivocada. Claramente você precisa estar com a mente alerta quando está sendo criativo. Não acho que sofrimento emocional seja um componente necessário para fazer boa arte. Se você vai trabalhar sofrimento emocional na sua arte, precisa fazer isso de forma reflexiva, não como uma reação impulsiva. É assim que eu vejo isso.

Muitos cantores perdem as notas mais agudas com o passar dos anos, mas barítonos frequentemente descobrem novas texturas nos registros graves. A mudança física da sua voz alterou sua relação com o material antigo?
O material mais agudo, as músicas cantadas em faixas mais altas definitivamente ficaram mais desafiadoras agora que estou mais velho. Mas eu ganhei novas notas nos graves. Então você acertou em cheio.

Músicas como a versão de vocês para ‘The Ballad of Peter Pumpkinhead’ do XTC e a sua ‘Superman’s Song’ lidam com figuras icônicas. Era sobre heróis poderosos mas frustrados, personagens fracassados? Você era fã de quadrinhos?
Primeiro, “Superman’s Song” foi a primeira música que escrevi. A razão de escrever sobre o Superman foi porque achei que poderia abordar um tema sério de uma forma que não fosse pesada demais. Usando personagens de histórias em quadrinhos, eu podia expressar coisas que poderiam parecer pesadas de um jeito mais leve. Eu não lia muitos quadrinhos, mas toda vez que ia fazer a limpeza dos dentes no dentista, minha mãe me deixava comprar uma revista. Havia uma loja de quadrinhos perto do consultório. Uma vez escolhi uma revista do Superman em que ele estava lutando contra um personagem chamado Solomon Grundy. O Solomon Grundy aparece em “Superman’s Song”. Na verdade, muitos fãs de quadrinhos vieram atrás de mim por causa dessa música e disseram: “Ah, o Superman nunca lutou contra um personagem chamado Solomon Grundy”. Eu tive que pegar exemplares da revista e enviar para críticos de jornais para provar que, sim, o Superman já tinha lutado contra o Solomon Grundy. (risos)

Em “Superman’s Song”, você retratou um Superman ético e desapegado do dinheiro. Em uma entrevista no início dos anos 90, você disse que ele é uma figura política de esquerda, contraposta ao Tarzan como um capitalista liberal isolado da comunidade. Então, para você, o Superman sempre teve uma essência política de esquerda?
Bom, claro que a imagem do Superman não seria manchada com algo como comunismo (risos), se dependesse das pessoas que escreviam aquelas histórias. Mas sim, acho que ele tem uma espécie de perspectiva de esquerda, no sentido de ser um outsider, bastante outsider. Veio de outro planeta. (risos)

E que Tarzan, o rei da selva, um individualista que quer viver na floresta, um capitalista liberal que rejeita a ideia de comunidade…
Eu contrastei esses dois personagens: um representando a cultura e o outro representando a natureza.

Aqui no Brasil, há uma música com o refrão ‘Homem primata, capitalismo selvagem’. No seu caso, talvez o Tarzan de “Superman’s Song” pudesse ser visto como esse ‘homem primata’ liberal.
(Gargalhadas!) Muito bom! Sim. Quando você tem essa força, pode se dar ao luxo de ser liberal.

Você já mencionou ser fã de estruturas complexas. Existe alguma música que você escreveu e que hoje sente que foi elaborada demais?Algo que gostaria de reduzir, por exemplo, apenas ao violão?
Eu escrevo todas as minhas músicas no violão. Minha teoria é que, se uma música soa convincente apenas com um violão, então você tem algo que vale a pena levar para um arranjo maior. Minhas músicas precisam passar no teste do violão acústico para que eu queira levá-las para a banda. Para ser honesto, não sinto que precise retirar nada para chegar ao núcleo das músicas. Eu gosto das camadas, gosto da produção. Mas tem uma música, agora que você mencionou, “Heart of Stone”. Ela apareceu em um disco que fizemos depois chamado “Ooh La-La” (2010). Hoje tocamos essa música ao vivo só com guitarra elétrica, minha voz e a voz da Ellen, sem banda. Acho que ela funciona muito melhor assim, mais enxuta.

A história por trás do refrão do seu maior sucesso é que você não encontrava as palavras certas, correto? Isso acabou facilitando a construção dos retratos das três crianças que se sentem deslocadas?
Quando escrevi a música, fiz uma demo para a banda aprender. Eu disse: “Olhem, o refrão, ainda não descobri as palavras, então só cantarolei a melodia. Aprendam a música assim por enquanto, depois eu coloco as palavras.” Então a banda voltou e disse: “Não, não faça isso. Nós gostamos do refrão assim, vocalizado. Não mude isso.” Então mantive daquele jeito. Na verdade, isso teve mesmo a ver com o fato de eu não conseguir pensar em palavras. Mas, no fim das contas, não ter palavras acabou sendo o melhor caminho. Para mim, aquilo soa como um momento de reflexão entre os versos. Você tem um verso, que conta a história de uma criança, e depois o refrão vem como um cantarolar, como se refletisse sobre o que acabou de acontecer naquele verso,e então a música segue adiante. Não tem uma função narrativa no sentido tradicional de usar letras.

Um cantarolar mmm mmm para refletir.
Sim, obrigado por colocar dessa forma.

Weird Al Yankovic parodiou “Mmm Mmm Mmm Mmm” como “Headline News”, transformando seu retrato de crianças diferentes em um comentário sobre espetáculos sensacionalistas. Algumas pessoas acham que a versão dele fazia mais sentido. Na época, você pensou muito nas possibilidades de significado?
Bom, o Weird Al Yankovic fazer uma versão da nossa música foi um grande marco para nós. Eu nunca imaginei que isso aconteceria comigo, então fiquei extremamente feliz quando ele quis gravar a música. Tenho muito respeito por ele. Ele é um excelente acordeonista, o que não é um instrumento fácil de tocar, e foi uma pessoa muito agradável de trabalhar. Eu estava realmente tentando retratar uma situação bastante concreta. O Weird Al fez uma abordagem completamente diferente da letra, claro, isso é algo que ele faz muito bem. Nunca tinha pensado muito em comparar as duas versões.

Aquela referência renascentista na capa de “God Shuffled His Feet” (arte abaixo), com o rosto de cada integrante da banda nos personagens da pintura de Ticiano… Você sentiu que essa estética antiga, de alguma forma, serviu de contraponto para o rock alternativo dos anos 90?
O cara que fez a arte dos álbuns é um amigo muito próximo meu. O nome dele é Kevin Mutch. Inclusive, fui tomar café com ele hoje à tarde antes de falar com você. Foi ele quem tomou essas decisões. Fiquei muito feliz em colocá-lo nessa posição, porque, para ser sincero, eu não tenho tanta sensibilidade para o visual. Sou mais uma pessoa do som. Então fiquei feliz em delegar essa tarefa a alguém. Por algum motivo, esse era o tipo de imagem que o Kevin gostava de usar. Para ele fazia sentido, e olhando hoje em retrospecto, faz sentido para mim também, embora provavelmente eu não tivesse ido por esse caminho sozinho.

O que você mais escutava naquela época?
Um dos discos que teve um grande efeito em mim quando estávamos fazendo “God Shuffled His Feet” foi um álbum da Annie Lennox chamado “Diva”. Ele tem uma música chamada “Why”. Ah… qual era mesmo o nome da banda em que ela tocava? Estou esquecendo…

Eurythmics?
Eurythmics, exatamente. Aquele disco solo dela (“Diva”) me influenciou bastante. Você usou a palavra “camadas” antes, e esse disco é muito assim. Tem texturas de sintetizador lindíssimas por toda parte. É tudo programado, o que foi um pouco decepcionante, eu teria gostado de ouvir um baixista de verdade naquele álbum. Mas, mesmo assim, foi um disco que ouvi muito. E claro, eu ouvia tudo que o XTC lançava, porque sou praticamente um fã obsessivo desde sempre. Eu não ouvia muita música contemporânea nos anos 90, porque estava muito ocupado fazendo a minha própria. Só fui absorver muita música dos anos 90 depois, com o passar do tempo.

Você poderia contar um pouco sobre a inspiração para o título “God Shuffled His Feet?”
O tipo de pensamento que estava me influenciando… eu escrevi um trabalho sobre os argumentos do David Hume contra a religião natural quando estava na universidade. Basicamente, ele desmonta todas as chamadas provas racionais da existência de Deus que eram comuns nos estudos metafísicos do período dele. Então isso foi uma das coisas que eu estava lendo e que me influenciou. Há também uma referência a “um garoto com cabelo azul”, que na verdade vem de um filme chamado “The Boy with Green Hair”, uma imagem da minha infância, em vez de algo que veio das minhas leituras. Achei útil transformar Deus em um personagem naquela música, alguém mais ou menos no mesmo nível das pessoas, porque isso combinava com o tema que eu queria explorar.

Na década passada, você lançou: em 2010 ‘Ooh La-La’, em 2011 ‘Demo-litions’ (uma coletânea), em 2015 ‘Promised Land’, em 2016 ‘I’ll Be Peaceful’. Já em 2023, saiu o single ‘Sacred Alphabet’. Você ainda está lançando singles sem compromisso com álbum?
Não, para ser honesto, não tenho escrito muita música. Existe tanta música por aí, é esmagador. São centenas de milhares de músicas sendo enviadas todos os dias para a internet. Sinto que qualquer coisa que eu faça simplesmente se perderia no meio disso tudo.

Conte um pouco sobre o trailer animado da graphic novel The Moon Prince. Ele mostra dois órfãos birraciais indo à Lua, encontrando habitantes fantásticos e piratas do céu, com uma mensagem antirracista. Nesse vídeo, “Mmm Mmm Mmm Mmm” ganhou nova letra…
O Kevin me pediu para fazer isso para ajudar a divulgar a graphic novel dele, “The Moon Prince”. Fiquei feliz em fazer isso por ele. Ele escreveu a nova letra de acordo com a história do livro. Foi algo que fiz porque ele é um velho amigo e eu queria ajudá-lo a promover o trabalho dele.

O mesmo cara (Kevin Mutch) que fez a arte de “God Shuffled His Feet”?
Sim. Nós nos conhecemos trabalhando em um restaurante chamado “Schmuckers”, em Winnipeg, muitos anos atrás. Conheço ele desde que tinha uns 16 anos, e continuamos muito próximos até hoje.

Você já descreveu o Crash Test Dummies como uma “banda que faz turnê vendendo camisetas”, por causa do declínio do formato de álbum. Com o streaming, você acha que ficou mais difícil o público entender o álbum como uma história contínua, tipo um livro em que cada faixa é um capítulo?
Não acho. Acho que está tudo bastante aberto em termos do que você pode fazer. Não penso isso de forma alguma. Havia referências literárias na última música que escrevi, “Sacred Alphabet”, e isso não criou nenhuma barreira para mim.

Você já disse uma vez que tudo em que está trabalhando sempre parece seu melhor trabalho naquele momento. Acho que muitos artistas se identificam com isso. O tempo costuma confirmar essa sensação ou você olha para trás e vê as coisas de forma diferente?
Eu olho para trás e vejo de forma diferente. Escuto nosso primeiro disco e não gosto muito. Ele foi mal gravado. Nosso baterista não era muito bom, e nós o demitimos. Eu consideraria aquelas músicas como “juvenilia”, coisas que escrevi quando era jovem e que hoje não significam muito para mim, exceto por “Superman’s Song”, que acho realmente uma boa música. Quando chegamos ao segundo disco, eu já tinha tido muito mais tempo para escrever músicas e estava ficando melhor nisso. Acho que nosso segundo disco ficou muito bom, e tenho orgulho dele olhando hoje. Muitas pessoas dizem que o primeiro disco é fácil porque você teve a vida inteira para escrevê-lo, mas o segundo é mais difícil porque precisa criar material totalmente novo. Eu acho isso um pensamento invertido. Se você presta atenção no que está fazendo, tende a melhorar com o tempo. Acho que foi isso que aconteceu conosco. Nosso segundo disco é muito melhor que o primeiro e fico feliz que tenha sido justamente ele que fez tanto sucesso.

Existe algum momento da sua carreira que pareceu uma decepção ou um desvio errado na época? O que você aprendeu com isso?
Quando lançamos nosso terceiro disco e não houve execução nas rádios, isso foi uma decepção. Nossos dois primeiros discos foram muito bem. O primeiro fez enorme sucesso no Canadá, o segundo foi bem internacionalmente. E o terceiro não aconteceu. Você coloca muito trabalho em um disco e depois ele simplesmente não acontece, e isso é muito decepcionante. Mas é assim que o mundo funciona. Não acho que tenha aprendido muita coisa com isso, porque quando escrevia as músicas que deram certo nos dois primeiros discos, eu escrevia para mim, fazendo o que eu achava que me agradaria e, portanto, talvez agradasse aos outros. Foi exatamente isso que fiz no terceiro disco também. Não tentei agradar ao público. Continuei escrevendo o que parecia verdadeiro para mim. Quando isso não resultou em um disco bem-sucedido, continuei fazendo a mesma coisa. Escrevi outro disco e segui meus instintos. Não mudei meu rumo por causa do fracasso. Fiquei surpreso por ter tido qualquer sucesso, para ser honesto. Eu simplesmente não contava com isso.

Na faculdade, você se considerava um nerd?
Eu não era popular na escola. Quando cheguei à universidade, fiquei completamente envolvido com o estudo de filosofia e literatura, enquanto muitos colegas estavam apenas passando pelas aulas sem tirar muito proveito delas. Eu certamente estava aproveitando muito aquilo. Então, acho que eu era nerd nesse sentido. (risos)

Você escreveu sobre heróis, sobre um Deus que arrasta os pés, sobre o estranho e o comum. Ainda há alguma pergunta que você busca responder?
Não, não há. Agora, na minha velhice, me voltei para escrever música instrumental. Não publiquei nada ainda, mas estou compondo peças para quarteto de cordas e para piano. Não sei se alguma delas será divulgada publicamente um dia. Mas não, não existe nenhuma pergunta que eu continue tentando responder. Na verdade, hoje eu prefiro muito mais escrever música sem letra. (risos)

Você teve um problema nas costas, certo? Está tudo bem agora?
Isso já está praticamente resolvido, obrigado.

Vocês estão se preparando para sair em turnê novamente com a reunião de 2026, certo?
Sim.

A formação inclui você nos vocais e guitarra, seu irmão Dan Roberts no baixo, Ellen Reid nos vocais e acordeon, e Mitch Dorge na bateria. Eu vi um vídeo do Lincoln Theater no ano passado e notei um tecladista que tinha uma certa vibe do Jack Black.
Ah sim.

Era o Lee Fleming Smith, certo?
Aquele é o Lee Fleming Smith, isso mesmo. Ele é a adição mais recente ao Crash Test Dummies. Sempre tivemos uma espécie de rotatividade de tecladistas ao longo dos anos. O Lee Fleming Smith está em turnê conosco já há alguns anos. Ele é um cara adorável e um baita tecladista.

Eu vi que ele trabalha também com outros artistas da cena roots canadense, como Dave Simpson e Dave Miles. Dentre os músicos desse circuito, algum outro artista que você considera ter uma sintonia parecida com a sua?
Temos outro músico tocando conosco — Stuart Cameron toca guitarra, e ele definitivamente é uma sintonia, assim como o Lee Fleming Smith. Não sei se me identifico tanto com as bandas de roots rock canadense que você mencionou. Eu gosto dessa música, e acho que as pessoas com quem estou tocando são ótimas, mas não sei se temos tantas coisas em comum musicalmente.

Vi no site de vocês que a turnê de 2026 começa no Canadá em julho e depois segue para a Europa em outubro. Por enquanto, é isso?
Esse é o plano por enquanto.

América do Sul?
Estamos analisando possibilidades na América do Sul. A gente está estudando fazer uns shows por aí, torcendo para que seja no Brasil, mas ainda não tem nada confirmado.Não posso dar datas, mas se tivermos algo, posso providenciar para que essa informação chegue até você.

– Heberton Barreira é estudante de jornalismo, bandolinista e animador stop-motion. Criador do @yayatedance

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