entrevista de Bruno Lisboa
Quinto álbum do Sepultura, “Chaos A.D.” (1993) é um álbum que redefiniu não apenas a trajetória da banda mineira, mas também os limites do heavy metal. Mais de 30 anos após seu lançamento, “Chaos A.D.” segue como uma obra atemporal cujo legado reverbera até hoje. É justamente essa reverberação, suas tensões internas e externas, e o impacto cultural que atravessou fronteiras, que o jornalista e músico Vinicius Castro (co-responsável pela site musical Sounds Like Us e integrante das bandas Huey e Throe) mergulha para revisitar em “Chaos A.D.“, volume que integra a coleção “O Livro do Disco“, da editora Cobogó.
Com a precisão de pesquisador e a sensibilidade de quem entende que discos também contam histórias sobre o mundo, Vinicius destrincha faixas, bastidores e desdobramentos de um álbum que levou o Sepultura a uma escala inédita para uma banda brasileira — e que, ao incorporar viola caipira, percussões de escolas de samba e ecos de tradições afro-brasileiras, ampliou o próprio léxico do metal.
Nessa conversa, feita por e-mail, Vinicius Castro conta sobre esse mergulho de mais de quatro anos entre recortes, arquivos, memórias pessoais e uma rede de colaboradores que ajudaram a reconstruir a atmosfera que deu origem a um disco que “é o retrato de uma energia raivosa, de revolta, de uma coragem e riqueza artística gigantes”. Para ele, “Chaos A.D.” está no mesmo patamar de clássicos como “Nevermind” (Nirvana), “Clube da Esquina”, “Black Album” (Metallica) e “A Love Supreme” (John Coltrane): “São discos que determinam o que aconteceria a partir deles”, explica. Leia a conversa abaixo.

O que te motivou a escolher o “Chaos A.D.” como tema do livro? Houve um ponto específico em que você percebeu que esse disco merecia ser destrinchado em profundidade?
“Chaos A.D.” é um disco definitivo não só pra música pesada daquele período, mas pra toda uma geração de bandas que foram formadas a partir dele. Eu acho que todo fã de metal tem uma relação de carinho com esse disco. Cara, tinha uma coisa engraçada nos anos 80 dentro do metal que era a expressão “esse som é muito gringo”, no sentido de que algo era tão bom, mas tão bom, que ganhava notas internacionais porque o que vinha de fora era sempre melhor, sabe? Eu acho que o “Chaos A.D.” derrubou isso! Não era mais uma banda no Brasil fazendo, ou tentando fazer, um “som gringo”. Era coisa nossa, com a nossa linguagem, com o nosso vocabulário. Toda sensação de que até ali o metal brasileiro estava sempre um ou dois passos atrás do resto do mundo, caiu por terra com a chegada de “Chaos A.D.”. Foi transformador. Então acho que o afeto que tenho pelo disco foi o que mais me motivou, porque vi essa mudança acontecer. Outra coisa é o fato de “Chaos A.D.” ser um álbum muito pesado, de uma banda com raízes no metal extremo, e que furou a bolha, conversando com um público muito diverso. Essa amplitude era algo que eu também quis colocar no livro.
O “Chaos A.D.” surge num Brasil recém-redemocratizado, com a juventude inquieta e novas formas de expressão política. De que maneira esse contexto atravessa o disco?
Criativamente a gente sempre é atravessado pelo que está em volta. No início dos anos 90, a redemocratização ainda era algo muito recente, então o trauma da ditadura ainda rondava por ali. O disco é de 1993, de certa forma, praticamente grudado na fase Collor, plano Bresser, plano Verão, e outras coisas que alimentavam uma raiva sentida no ar… Era uma panela de pressão de ódio e criatividade que explodiram de vez na virada daquela década. Ser jovem era um misto de revolta, alerta e medo, porque a gente meio que convivia com esses resquícios e com a possibilidade de alguém apertar um botão e detonar uma bomba atômica. Então acho que parte do caos e da voracidade que se ouve no disco é resultado desse contexto.
O álbum marcou uma mudança radical na sonoridade da banda, que passou a dialogar com ritmos brasileiros e grooves mais cadenciados. Como você enxerga esse processo de transição e experimentação dentro da trajetória do Sepultura?
Eu acho que isso foi um caminho natural pra banda. O “Arise” já trazia um certo groove. Sepultura sempre foi evolução e no “Chaos A.D.” a banda estava pronta pra tomar nos braços aquilo que era naturalmente deles, como brasileiros. Sonoramente, eles traduziram para o disco o que já viam funcionar muito bem no palco. Tipo, a levada da “Dead Embrionic Cells” já funcionava muito bem ao vivo. Coisas como “Desperate Cry” e “Altered State” a mesma coisa. A coisa da viola, dos batuques e da temática foi um processo que vinha sendo construído e por isso é algo tão sólido. A intro do “Beneath the Remains” (1989) já tem a coisa acústica, por exemplo. Ainda que fosse uma coisa mais conectada com as intros de discos de thrash metal, já era um espaço onde o violão aparecia.
Como surgiu o convite da Editora Cobogó para escrever este volume da coleção “O Livro do Disco”? E como foi o processo de adaptação da sua pesquisa e narrativa ao formato proposto pela série?
Fui eu quem ofereci a possibilidade de escrever sobre o disco. A editora me deixou bem livre. Não teve nada muito engessado. Na questão do formato, eu tinha duas referências da própria coleção. O livro sobre o “Daydream Nation”, disco do Sonic Youth (escrito por Matthew Stearns), e o “Da Lama Ao Caos”, escrito pela Lorena Calábria. Ambos faziam sentido para o que eu queria fazer, que era dar contexto, com o máximo de detalhes possível, trazendo a coisa da reportagem com diversas vozes e poder me implicar na história, trazer memórias e tudo mais. Eu quis ir por esse caminho.
O livro revela um mergulho profundo em bastidores e contextos. Como foi o processo de pesquisa e de escrita — quanto tempo levou, e que tipo de material (entrevistas, arquivos, matérias da época) mais te ajudou a reconstruir essa história?
Foi tudo muito rico. Eu gosto muito de tudo o que envolve o processo de pesquisa, então pra mim foi incrível revisitar memórias, shows que eu vi na época, revistas, recortes, vídeos, livros. Minha companheira (Amanda Mont’Alvão) me ajudou com arquivos de jornais da época, isso foi primordial. O Walcir, da Woodstock, me enviou um catálogo do disco, daqueles oficiais que as gravadoras preparavam na época. O Djalma, um dos membros do fã clube oficial do Sepultura, tem muito material da época também, e isso me ajudou muito no processo de apuração dos fatos. Acho que todo processo levou pouco mais de quatro anos, por aí.

Como você definiu o recorte da obra e a seleção dos entrevistados ou vozes que aparecem no livro? Houve algum material ou entrevista que acabou ficando de fora, mas que você gostaria de ter incluído?
Desde o início eu queria tentar mostrar que o” Chaos A.D.” não era somente o “Chaos A.D.” em si. Existiu todo um caminho de aprimoramento individual e coletivo até que a banda chegasse até ele. Trazer isso pra superfície era também valorizar o trabalho de cada um deles nesse trajeto até chegarem ao disco que mudaria a direção do heavy metal mundial. Cara, isso é gigante! É um disco que virou referência no mundo! Agora, em relação ao que ficou de fora, eu queria muito ter falado com uma apresentadora da MTV inglesa, a Vanessa Warwick, porque ela era muito conectada com a banda na época do disco, e com o Andy Wallace, que na época (que escrevi) não estava dando entrevistas. Seria legal ter eles no livro, mas isso só não rolou por um capricho do tempo mesmo, então tudo bem.
Durante essa imersão, o que mais te surpreendeu nas reações da imprensa — tanto nacional quanto internacional — diante desse “novo som” da banda?
Eu acho que as entrevistas me surpreenderam mais do que o material de imprensa, porque eu basicamente já tinha tido contato com isso em algum momento da vida. Por exemplo, o que o Michael Whelan conta sobre o processo de criação da capa foi algo que eu gostei muito de saber, é muito interessante. A percepção de pessoas como Page Hamilton e Mitch Harris sobre o disco e a relação deles com a banda foi algo muito legal de entender também.
Três décadas depois, o disco ainda soa potente e atual. O que explica, na sua visão, essa permanência estética e política do Chaos A.D.?
Eu acho que clássicos estão além da compreensão de uma fórmula de por que ele é como é. Mas acho autenticidade é tudo. E a coisa do “Anger is an energy” junto a uma maturidade de saber onde e de que forma aplicar essa raiva criativamente. ‘Chaos A.D.” é o retrato de uma energia raivosa, de revolta, de uma coragem e riqueza artística gigantes. Pra mim, “Chaos A.D.” convive no mesmo ambiente que “Nevermind”, do Nirvana; “Clube da Esquina”, ‘Black Album”, do Metallica; “A Love Supreme”, do John Coltrane. São discos que determinam o que aconteceria a partir deles.
Você também é co-criador do Sounds Like Us, um projeto que valoriza a diversidade sonora e cultural alternativa. De que forma essa experiência influenciou o olhar que você lançou sobre o Sepultura e sobre o Chaos A.D.?
É uma pergunta interessante, mas eu não sei se consigo separar muito as coisas porque tudo vem da minha paixão pela pesquisa e escrita sobre música.
Por fim, o que o “Chaos A.D.” nos ensina hoje sobre o Brasil — e sobre a capacidade da música pesada de traduzir o caos social, político e cultural de um país?
Que a arte é um processo e que não existe atalho. Que o caos é importante e que clássicos são feitos com paixão.
– Bruno Lisboa escreve no Scream & Yell desde 2014. A foto que abre o texto é de Régis Bezerra.

