texto de Davi Caro
Dave Grohl já foi chamado de muitas coisas: carismático, talentoso, inquieto, agregador, tagarela, insuportável, inescapável, repetitivo, brilhante e dedicado são apenas algumas delas. Mas se há uma característica praticamente impossível de negar do vocalista, guitarrista e líder do Foo Fighters, apesar de qualquer controvérsia, é transparência. Mais de vinte anos após deixar a pecha de ex-baterista do Nirvana para trás, Grohl não consegue esconder sua satisfação em ter se tornado uma espécie de avatar para o tipo de atitude “roquista” que sua geração inicialmente buscou contrapor. Seja dirigindo documentários, pipocando com participações em trabalhos de outros artistas, ou sendo o agente catalisador do tipo que faz com que ex-membros do Germs e do Sunny Day Real Estate se apresentem em tributo à Mariah Carey, o fato é que o mundo se (mal-)acostumou à onipresença de Dave, o bonachão, sempre disposto a aparecer – e transparecer – na busca de reafirmar o tal “poder transformador do rock and roll”.

Esta mesma transparência, naturalmente, faz com que o lançamento de “Your Favorite Toy” (2026), décimo-segundo álbum de estúdio do Foo Fighters, seja bastante peculiar mesmo em uma carreira repleta de lançamentos peculiares, para o bem ou para o mal. Para começar, o novo disco prova uma teoria tão antiga quanto divisiva: de modo parecido com o que acontece com outros artistas e grupos, o melhor do trabalho dos Foos parece surgir de momentos turbulentos – o que significa muito, pensando na tragédia (naturalmente conturbada) que precedeu origem deste projeto. “But Here We Are” (2023) era o som de Grohl e seus asseclas lidando com a perda súbita do talentoso e essencial baterista Taylor Hawkins no ano anterior (e, numa escala mais pessoal, da mãe de Grohl, Virginia, no mesmo 2022); o trabalho foi recebido como o melhor do grupo desde “Wasting Light” (2011) e, para muitos, o mais coeso da banda desde o clássico “The Colour And The Shape”, de 1997.
Já “Your Favorite Toy” possui um conjunto todo particular de dilemas com os quais lidar: seja no âmbito musical – com a contratação e subsequente demissão repentina do substituto de Hawkins, Josh Freese, em circunstâncias até hoje muito mal-explicadas – seja a nível pessoal – no caso do adultério de Grohl, que acabou tendo uma filha fora do casamento e manchou sua já desgastada imagem de “cara mais legal do rock” para sempre, além de causar o cancelamento de inúmeras datas na turnê de sua banda – o fato é que os últimos tempos tem sido bastante atribulados para o Foo Fighters. E, desde a primeira faixa, a nervosa e truncada “Caught In The Echo”, o novo trabalho (relativamente curto, com apenas 36 minutos de duração) mostra que não há qualquer tentativa de esconder o principal objetivo aqui: o de exorcizar traumas e encarar uma nova realidade. O quão este objetivo é alcançado, entretanto, é bastante discutível.
Algo que não é discutível, porém, é a diferença sentida na nova mudança de formação do sexteto. Além de Grohl (vocais e guitarra), Nate Mendel (baixo), Chris Shiflett (guitarra), Pat Smear (guitarra) e Rami Jaffee (teclados), a novidade aqui é o debut de Ilan Rubin na bateria dos Foos. Rubin, que serviu por anos como membro do Nine Inch Nails (e cujo posto ao lado de Trent Reznor foi ocupado por… sim, Josh Freese), contribui com um nível de musicalidade que sopra novos ventos na dinâmica instrumental da banda. Mesmo o single “Asking For A Friend” – originalmente lançado em outubro de 2025 e incluído no tracklist do álbum – já era prova da inerente diferença entre os estilos baterísticos de Rubin e de Dave, que foi responsável pelo instrumento no trabalho anterior. Neste sentido, portanto, a diferença é tão inegável quanto bem-vinda.
A mesma urgência que guia a faixa de abertura é amplificada em “Of All People”, ao mesmo tempo acelerada e com melodias que remetem ao debut da então one man band, de 1995. Enquanto isso, “Window” (e escolhida para clipe oficial do álbum), mais cadenciada, poderia facilmente estar no melódico “There Is Nothing Left To Lose” (1999), com a cozinha de Rubin e Mendel tendo seu momento sob os holofotes. No restante do repertório, no entanto, o destaque acaba ficando para as guitarras. Os teclados de Rami Jaffee terminam ficando em segundo plano (salvo pela ruminativa “Unconditional”, provavelmente a melhor do disco), enquanto os estilos rítmicos de Grohl e Smear dominam as novas músicas. “Spit Shine” é outra que poderia figurar em qualquer um dos dois primeiros discos dos Foos, apesar de com certeza se beneficiar de audições repetidas. Com “Amen, Caveman”, a estrutura melódica repetitiva pode tornar a experiência cansativa e um pouco mais maçante, mesmo sem estragar a experiência do trabalho como um todo.
“Child Actor”, embora protocolar na execução (e com letras que resvalam no “cringe”, pela falta de termo melhor) é passável. Uma clara fuga de protocolos, por outro lado, tem a ver com a forma como os vocais de Dave foram trabalhados. Ao contrário dos discos lançados a partir do decepcionante “Sonic Highways” (2014), as vozes aqui deixam de lado o aspecto “ultraprocessado” para, por vezes, assumir um aspecto ruidoso e comparativamente sujo; “Your Favorite Toy” pode não soar como o disco lo-fi que o Foo Fighters gosta de pensar que poderia fazer hoje em dia, mas, sobretudo na boa faixa-título e na pulsante “If You Only Knew”, tal ideia fica pelo menos um pouco mais próxima da realidade.
Colocado em perspectiva, “Your Favorite Toy” é uma adição mais do que válida a uma discografia mais extensa do que qualquer um poderia, um dia, imaginar que seria. Mesmo porque, até pouco tempo atrás, a mera existência de um novo disco do Foo Fighters foi colocada em dúvida por muitos. Porém, não deixa de ser sintomático pensar no caráter auto-referencial de tantos dos momentos de destaque aqui: é quase como se cada canção tivesse sido pensada como algo que poderia figurar em discos anteriores, como se com o objetivo de deixar de lado quaisquer rompimentos acrimoniosos ou escândalos públicos. Para alguém pouco ou nada familiarizado com o trabalho de Grohl e seus comparsas, esta é uma excelente porta de entrada. Para quem vem acompanhando o trabalho do grupo – em especial ao longo dos últimos quinze anos – a sensação é dividida entre momentos de pequenas surpresas e muitos clichês. Resta saber como o novo disco funcionará ao vivo (principalmente em se tratando de um grupo com um histórico de shows que é, em grande parte, sinônimo de “zona de conforto” ou de “previsibilidade”); ainda que seja difícil ensinar truques a um macaco velho, o fato é que o Foo Fighters deveria tomar muito cuidado com o longo passado que, ao que tudo indica, a banda tem diante de si.
– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.
