Gop Tun Festival 2026 por um jornalista desempregado cheio de amigos

texto de Yuri de Castro
colaborou Pedro “Peu” Vasconcelos

Tirei o fim de semana dos dias 12 e 13 de abril para encontrar amigos no (Mercado Livre Arena) Pacaembu. Quase sempre, estou mais por obrigação do que por vontade própria em festivais. Mas havia mistérios não resolvidos em meu espírito a minha espera no clima ensolarado, de calor ameno e atrações gringas no Gop Tun Festival. Chaos In The CBD, Takuya Nakamura, Sherelle, Mount Kimbie (destaque na foto de abertura), Jayda G, Yu Su, 1tbsp, Mad Professor, Felipe Gordon e Tama Sumo & Lakuti, por exemplo, formavam o primeiro pelotão da curadoria.

Quase todos esses nomes viveram em algum momento em minha construção do que é música eletrônica e alguns específicos dos citados me ajudaram a desconstruir também o conceito do que é —e aqui incluo amigos como os que eu encontrei no festival como responsáveis diretos também pela minha visualização de obras que, talvez, passariam direto por mim nos momentos em que me foram apresentadas: ao longo do texto, você terá a companhia de Peu e Tiago.

Antes, um pequeno resumo biográfico que me traz ao festival e ao S&Y

Em mais um dia de folga após perambular pelo jornalismo cultural, casa de aposta e um canal de televisão, resolvi pedir ao editor deste Scream & Yell espaço para um relato sobre um dos melhores festivais deste país. Para falar, então, sobre o óbvio e escrachado objeto principal de uma análise de um evento musical: amigos.

Principalmente quando este encontro não precisa ser dividido com o meu costumeiro labor neste locais: coletivas inúteis de artistas do lado de fora de camarins improvisados ou em conversinhas quase sempre irrelevantes de jornalistas musicais com artistas musicais em espaço de música e onde, hoje em dia, se fala de fama, dinheiro, sucesso, menos sobre música.

Eu sou um entediado apaixonado pelo meu trabalho porque trabalho demais em um sistema falido de jornalismo e não consigo ver mais beleza naquilo que lutei para trabalhar. Estou descobrindo isso, pela primeira vez, por meio do desemprego —que espero seja breve, temporário, o suficiente.

Como sempre, minha atenção em festivais é sempre dada aos brasileiros. Neste, tinhamos nomes como Omoloko, Capetini, RHR, Verraco, Paulete Lindacelva, Rafa Balera, Akin Deckard e Benjamin Sallum (Pista Quente). Ceres Yo e Diogo Strausz. Este último, por exemplo, me força abrir um parênteses depois de dois pontos antes que, de fato, entremos no cerne deste texto e falemos de música e amigos: (o produtor tornou-se atração de última hora do festival após cancelamento do ganês Ata Kak, ausência explicada pelo festival por “motivo que foge do nosso controle” em “momento delicado nas relações internacionais”). E, de repente, também, era lembrar que, se muito do que se espera da música eletrônica é um sossego do entendimento, em outras bandas não tão distantes como parecem, EUA, Israel e países da União Européia ainda concordam com e estimulam a miséria moral do século XXI.

Pista Quente, domingo, Danceteria

Pois bem. Com o tempo, a paisagem art-decór do final dos anos 1930 do Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, o céu azulíssimo e o som espetacular de dois dos três palcos do festival, iam deixando o amargor da consciência de lado. Eu lembrava, então, ao olhar minha gangue feliz com os movimento do público e das pickups, o que era estar em um festival sem motivos profissionais.

Peu e o primeiro dia de Gop Tun Festival no Pacaembu

Pedro “Peu” Vasconcelos é amigo de minha namorada Camila. Ambos entusiastas da produção eletrônica alternativa e da execução deste tipo de arte. Por tabela, tive muita sorte ao conhecer os amigos de Camila. Passei a amar Peu por sua curiosidade com qualquer assunto, mas especialmente por ser um fotógrafo capaz de tabelar em sua fala conhecimentos sobre o drama —pelas vias de uma ópera italiana montada no Theatro São Pedro ou pela emoção de estar vendo um japonês grisalho tocando trompete em meio a drum and bass.

Takuya, sábado, Não Existe

“Fiquei sabendo que ele estava triste com o tempo de set que teve porque foi um dos melhores que ele já fez”, ele me confidenciou no domingo sobre Takuya Nakamura, um quase sessentão que, em Nova Iorque, se apaixonou pelas vertentes londrinas durante a febre eletrônica underground dos anos 1990.

Nakamura foi um dos destaques do primeiro dia. Não houve muito tempo para o público entender o que estava acontecendo: a sequência de drum and bass e jungle empurrava a transição da tarde para o poente, fazendo com que os enormes planos de vidro esquentassem o ginásio e deixassem feixes dramáticos de luz e, do nada, o público já estava fascinado pelo soar do trompete em cima das bases. Foi curto mesmo, é o que eu entendo agora. Mas, lá, na hora, pareceu ótimo. O dia estava ainda por vir.

Omoloko, sábado, Danceteria

Antes, o sábado havia começado com Omoloko. Depois que de divulgado no Twitter que começaria às 13h com duas horas apenas de músicas africanas, alguns sortudos chegaram cedo. Faz algum tempo, bastante tempo, que o DJ se embrenhou no Kwaito, estilo sulafricano que mistura a house music a movimentos do pop dos anos 2000. No “palco do meio” do festival, chamado Danceteria, o único dos três a ser em céu aberto, foi de Omoloko um dos melhores (e ensolarados) momentos de todo o Gop Tun Festival.

Por ser mais democrático em termos de acesso, esse foi o palco constantemente mais lotado do festival. O que se viu no set da simpaticíssima dupla Tama Sumo & Lakuti foi uma catarse house. Elas olhavam para o front e sorriam sempre com a reação de uma platéia que parecia apaixonada ao ver duas DJs apaixonadas tocando músicas igualmente apaixonadas pela pista de dança.

Artistas felizes em um festival, quase sempre, mostra acerto da curadoria ao entender algo sensível: a vibe. Por exemplo, com o cancelamento de Ata Kak, o festival trocou os horários de Takuya Nakamura com o de DJ Babatr. Deu certo: entre eles, estava o b2b entre RHR e Verraco. Saia de cena o drum and bass e os contornos dos pancadões dali em diante seriam mais “nossos”: o paulistano de Diadema radicado em Londrina fez um baile com o colombiano e, pela primeira vez, aquele ginásio parecia ter os melhores e mais cuidadosos beats ali explodidos.

Quando o venezuelano Babatr entrou, ora sendo tribal, ora trance, ora tudo, eu já estava implorando por algo que me levasse para outra onda. Foi quando encontrei o oásis fresco e gay formado por Tama e Lakuti e por ali terminei minha noite, mais do que satisfeito.

Sherelle, domingo, Não Existe

Mentira. Acabo de me lembrar que teve também Sherelle, um dos nomes mais vibrantes da cena londrina. “Era doido ver como ela estava tocando tudo o que ela toca só que em 150, 160 BPM”, reparou Peu. Verdade. Os poucos que permaneceram no calor (inclusive o senhor Nakamura) viram uma DJ marrentíssima sendo muito foda: pesquisa e leitura de pista absurda, repetindo muito pouco do que se ouve em sua discografia. Mas nosso coração viajante, por mais fascinado que estivéssemos por ela, queria estar lá fora, onde estavam também nossos amigos, bailando com a dupla sapatona.

(Não vou omitir que ainda passei, com o pouco que sobrou de mim, no after –uma parceria do festival com a plataforma Resident Advisor. Mas, lá, faltou o que marcou o evento como um todo: vibe. A minha inclusa, pois cansada).

Tiago, o amigo que lembrei que perdi, e o segundo dia de festival

Muito do que aprendi de música eletrônica se deve à curiosidade e sabedoria de alguns amigos. Tiago é um deles. Não planejei ir ao festival em sua companhia, tampouco marquei e, em certa hora, acabei mesmo me esquecendo que poderia encontrá-lo. Faz algum tempo que brigamos. Tenho com amor seus convites guiados a palcos de festivais como o Dekmantel e o próprio Gop Tun, entremeados por pistas quentes onde quer que estivéssemos. Sabia que ele estaria lá, mas não me atentei à possibilidade de esbarrar com ele. Não queria.

Inclusive, minha última vez a paisana em um festival da Gop Tun batia já mais de cinco anos, e foi com ele. Para Tiago, a oportunidade de ir dançar momentos como esse eram oportunidades para se encontrar com outros muitos de seus amigos, de São Paulo ou da diáspora natalense, coisa que também me ensinava sobre como viver aqui: lembrar dos amigos.

O festival ainda se encaminhava para sua metade quando o avistei. Puxei o braço de minha namorada que sem saber caminhava em direção ao bolinho em que ele se destacava. Ela não percebeu.

Quem estava no palco era o carioca Rafael Capetini. “Ele é maravilhoso”, disse Peu. Mas, o mais doido, é que ele foi ainda mais sutil na doideira. Sem serem notadas, as transições iam se tecendo enlaçando ecos de dub com beats de estampido seco, causando uma sensação de abraço em um calor horroroso da tardede domingo ali dentro. Seus dois discos lançados no selo 40% Foda/Maneiríssimo estavam ali presentes em outro nível. A quentura do ginásio e a minha vontade de evitar um encontro com Tiago também.

Fumei ansioso um cigarro, minha pressão baixou, recorri às arquibancadas. Culpei o calor, a comida, o líquido, as drogas. Mas, de fato, acho que o motivo era outro, suficientemente pertinente para eu tê-lo abordado aqui. O preço de uma amizade relegada ao passado, como se fosse irreparável, me cobra em forma de um pesadelo que não costumo sonhar, mas que pode me aparecer –como todo pesadelo.

Felipe Gordon (Colômbia), domingo, palco Danceteria

Antes da rebordosa, um dos momentos agudos havia sido a formatação live do colombiano Felipe Gordon. “Ele é maravilhoso”, alertou Andrey, outro amigo de minha namorada, este fluente em experiências na Colômbia e em sets de Jayda G no Canadá. No palco, Gordon fez aquilo que mais gosto possibilitado por uma curadoria esperta: expandir essa percepção do palco, do DJ, da música eletrônica per se.

O tempo de cobertura que despendi recentemente da minha vida (em festivais como Lollapalooza, Rock In Rio, Time Warp, Só Track Boa) me ensinou que o objetivo da curadoria deixou de ser o ouvinte e perpetuou a experiência de consumo no local. No Gop Tun Festival, no entanto, não se vê publicidade no palco e a poluição visual é nula. Ativações de marca são discretas como em bons festivais a escolha do local é quase sempre exultante –os ingressos cobram um preço que acaba sendo possível de ser interessante diante dos praticados por concorrentes muito abaixo da qualidade deste.

Mad Professor (Domingo, Não Existe)

Peu, de novo

Este último dia de festival parecia ser o mais saboroso. Além de Capetini, tínhamos Pista Quente e Mad Professor concorrendo no mesmo horário. Evitamos nos distrair com a seleção maravilhosa da dupla Akin e Benjamin porque queríamos ver o já quase brasileiro londrino naquela tarde, em sua íntegra.

Esse era minha quarta vez em menos de dois anos assistindo ao mestre do dub. Tive o prazer de fazê-lo dormir durante uma entrevista para a Billboard Brasil, coisa que ele passou a se recordar e mencionar quando nos encontramos após. Na pista da Gop Tun, ele brigava com sua mesa de som, falava ao microfone para gastar tempo e, ainda assim, estávamos vibrando. Foi o melhor set que eu vi dele, muito até por essa questão técnica: a forma como ele ia contornado, cortando instrumentais, deixando as acapellas enquanto resolvia seus cabos era maravilhosa. Nunca vi erros tão parecidos com acertos assim. Peu estava enlouquecido.

“Cada palco tinha um mood que oscila de acordo com o estilo do artista. Eu vi que, especialmente neste segundo dia, sem um palco voltado para o techno, todos os outros ganharam vibes diversas, ecléticas. O techno ficou diluído e quando o DJ queria de fato meter um technozão, como foi o Chaos in the CBD, era groovado, não sei explicar, mas era muito sexy”, analisa Peu citando a ausência do palco Supernova, que foi deslocado para o after do festival, e que me causou uma espécie de tédio no dia anterior.

Chaos in the CBD, sábado, Main Stage

Antes de passar definitivamente mal, peguei parte do b2b entre Paulete Lindacelva e Rafa Balera, no palco principal do festival. Esse foi um dos raros momentos que consegui me desgrudar dos outros dois mais periféricos: em quase todos esses momentos, havia uma decepção minha com a sonorização do espaço, um ginásio muito amplo que parecia não ter um som à altura. Para apreciar, era preciso estar bem no front. Quem esteve, se divertiu muito com a simpatia e as flores distribuídas em forma de agradecimento no Main Stage.

Peguei o caminho da roça, enjoado e tristíssimo. Tinha muito para aproveitar no domingo e estava ansioso para ver Mount Kimbie (e também ansioso para entender onde meu corpo ia se situar: no inferno minimalista que eles, ingleses, provocariam no palco Não Existe ou se eu ia me deixar seduzir pela alegria contagiante da canadense Jayda G, atração do palco principal). No meio disso tudo, ainda havia o australiano 1tbsp, o irlandês Optimo e a chinesa Yu Su.

1tbsp, domingo, Não Existe

Felizmente, pedi a Peu que me dissesse uma breve resenha dos shows que não acompanhei.

1tbsp: ”Eu já esperava que fosse um pouco chocante mas que não seria TANTO. Vi que ele lançou uma música nova e no set recente do Coachella, uma cantora performou com ele. Daí, fui percebendo ele também tomando esse lugar. Não sabia que ele cantava. Pegou o mic e cantou algumas músicas, deixou tudo com cara de show. Em nível de referência mundial foi muito amplo, tinha timbres de vários lugares sem deixar de ficar queer. Isso foi muuuito bom. Passei um tempo com os amigos assistindo mas, de repente, um por um foi indo embora e me vi sozinho assistindo. Mas tava tão acolhedor que me senti abraçado. Vi a segunda metade inteira sozinho praticamente porque foram todas pra Jayda G (que eu já tinha visto em 2023). Queria muuuito tê-lo visto tocar num ambiente mais intimista também? Quem sabe…”

Mount Kimbie: “Aí, eu já tava sozinha e sabia que não ia trocar esse set por nada. Sou fã da banda há muitos anos, bote aí uns 15 anos. E foi interessante ver esse lugar da pista porque apesar deles serem conhecidos por músicas não tão dançantes, eles vieram dessa repaginação do dubstep lá por 2009/2010, com elementos orgânicos e sampleados. Mas como já tinha ouvido o DJ-kicks deles várias e várias vezes já sabia que seria ESTRANHO porém muito fino. Essa linha aí foi muito singular no festival. Ao mesmo tempo que a entrega de pista tava excelente, eles derrubavam, deixavam melódico, até ambient teve. Foi especial, quando começou a entrar as músicas e tools do Mount Kimbie do jeitinho old school deles, teve uma hora que a voz de King Krule percorreu todo o espaço da quadra em reverb. Mesmo tendo me perdido de todo mundo, acabei fazendo amizades na pista e conheci uma menina, a Milena, que também era fã da banda e grudaaaamos na grade. Cantamos todos os hits. Quando acabou convenci ela a ir comigo pro Optimo…

Optimo: convenci Milena a terminarmos no Optimo porque nunca tinha visto ao vivo, mas a grande surpresa foi ele não estar interessado em focar numa sonoridade “acolhedora”. Muita densidade, foi set pra amassar todo mundo que ficou até o fim. Teve fluidez mas tava pesadinho do jeito que as clubbers velhas gostam. Ele viu que o público tava engajando nos clássicos, tocou “Fuck the Pain Away”, da Peaches, e foi todo mundo à louca (eu inclusa). Mas aí lembrei que existia Yu Su e todos os amigos tavam lá. Corri.

Yu Su: …e peguei Yu Su linda finíssima encerrando, uma coisa gostosa mas sem deixar a marca dela de lado (estranheza e referências microtonais). Todo mundo tava babando pelo set dela e foi uma finalização digna. A Danceteria esse ano acabou sendo o centro do festival por estar entre os dois palcos, a gente passava ali o tempo todo então foi chic encerrar ali. Ainda teve um dropzão perto do fim do set que todas ficaram loucassss. Em 2022 ela tocou no peaktime no Festival Não Existe e pra quem ama a produção dela mais calma e tranquila foi lindo vê-la fazendo história encerrando dois dias de festival.

– Yuri de Castro é jornalista, estrategista, pesquisador e responsável pelo Bota Som

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