Gabriela Biló: “Quando fotografo o poder, quero mostrar justamente que o rei está nu”

entrevista de Bruno Lisboa

Quem acompanha o caos político brasileiro nos últimos anos e os agitados bastidores do poder em Brasília já deve ter se deparado com o nome de Gabriela Biló, fotógrafa a serviço do jornal Folha de São Paulo que vem, ano a ano, se destacando na cobertura da política nacional, especialmente durante os anos do bolsonarismo, período em que acompanhou de perto manifestações, eleições, ataques à democracia e os desdobramentos do 8 de janeiro.

Autodidata, moldada pela urgência das ruas e pela ética do “do it yourself” herdada do punk rock, Gabriela aprendeu a fotografar na prática, enfrentando as dificuldades financeiras e estruturais de uma profissão “que paga muito mal e, ao mesmo tempo, é muito cara”, como afirma nesta entrevista. Seu olhar — ao mesmo tempo ácido, satírico e atento aos detalhes — nasce, segundo ela, de uma curiosidade quase obsessiva: “Eu sempre fui muito voyeur. Gostava de observar as pessoas”.

Em 2022, Biló lançou “A Verdade Vos Libertará” (Editora Fósforo), obra vencedora do Prêmio Jabuti construída em parceria com Pedro Inoue, Pedro Daltro, Cristiano Botafogo – os dois últimos responsáveis pelo “Medo e Delírio em Brasília”, podcast vencedor no prêmio Scream & Yell em 2024. Agora, o quarteto retorna ao debate político com “Juízo Final” (também lançado pela Fósforo), livro que reúne imagens e documentos sobre a tentativa de golpe no Brasil e seus desdobramentos. Mais do que um livro de fotografia, a obra se assume como um arquivo de memória coletiva diante das tentativas de apagamento e revisionismo histórico.

Nesta entrevista, Gabriela Biló fala sobre medo, fotografia, punk rock, estruturas de poder e o papel do fotojornalismo em tempos de inteligência artificial e desinformação entre outros assuntos. Para a fotógrafa, a imagem jornalística ganha ainda mais importância justamente em um momento em que a verdade passou a ser constantemente colocada em dúvida. “O fotojornalismo hoje funciona quase como um selo de realidade”, afirma. Confira a conversa na íntegra!

Gabriela, sua trajetória no fotojornalismo é marcada pela cobertura intensa da política brasileira e de momentos decisivos da nossa história recente. Como surgiu seu interesse pela fotografia e em que momento você percebeu que queria transformar isso em profissão?
Eu fui descobrindo a fotografia aos poucos. Não sabia que fotojornalismo era uma profissão, nem que fotografia podia ser uma profissão. Sempre gostei de imagem, sempre fui muito voyeur. Tinha lunetas, telescópios e gostava de observar as pessoas. Quando entrei no jornalismo, usei a faculdade para experimentar diferentes áreas e aprender coisas novas. Acabei conseguindo um trabalho freelancer no fotojornalismo e percebi que gostava muito de estar nos lugares, observar as pessoas e capturar imagens. Foi algo que fui descobrindo através das experiências. Acho que nunca houve exatamente um momento em que pensei: “Quero transformar isso em profissão”. Simplesmente aconteceu. Foi uma coisa que eu quis fazer cada vez mais, algo de que eu gostava muito. Aos poucos, isso foi tomando conta da minha vida e acabou virando minha profissão.

Quais foram os principais desafios no início da sua carreira como fotógrafa, especialmente atuando em um campo tão competitivo e muitas vezes hostil como o fotojornalismo político?
Acho que o principal desafio foi financeiro. É uma profissão que paga muito mal e, ao mesmo tempo, é muito cara. Equipamento custa caro. Eu tinha uma câmera semiprofissional, enquanto outros profissionais já tinham lentes e equipamentos mais avançados, além da experiência. Também havia toda a questão da estrutura. Eu não tinha carro e nem motorista que nem alguns fotojornalistas “profissionais”. Muitas vezes, precisava pegar transporte público para chegar às pautas, a pé ou de bicicleta. Depois consegui ter meu carrinho. Tudo tinha um custo para mim. Uma curiosidade é que o mesmo Pálio 1.0 eu tinha até outro dia, mas ele começou a dar problema e, infelizmente, tive que vende-lo depois de todos esses anos juntos. Foi muito difícil nesse primeiro momento por causa da baixa remuneração e dos gastos para se manter trabalhando. Como o fotojornalismo é muito competitivo, sobreviver nele é complicado. Então, meu primeiro grande desafio foi realmente o financeiro.

Seu trabalho é reconhecido pela capacidade de capturar imagens que sintetizam tensões políticas e simbólicas muito fortes. Como você desenvolveu esse olhar tão preciso para o instante decisivo?
Acho que esse olhar vem justamente do meu voyeurismo, desse gosto por observar as pessoas e os detalhes. Observar o jeito que alguém pisca os olhos, se movimenta, a maneira como a luz bate. Sou uma pessoa muito curiosa. Acho que isso vem da curiosidade e da observação atenta das pequenas coisas. Tento entender a beleza nisso, nas pequenas coisas. É um exercício constante de observação.

O livro “Juízo Final” funciona não apenas como um registro fotográfico, mas como uma espécie de documento histórico e político. Em que momento você percebeu que esse material precisava se transformar em livro?
Eu já sabia que seria um livro antes mesmo de começar a fotografar. Quando o julgamento começou a se desenhar, pensei: “Isso vai ser histórico”. Seria o julgamento dos golpistas, algo que nunca aconteceu na história do país. Inclusive, eu já havia fechado com a editora para fazer um livro sobre esse tema antes mesmo da história acontecer, porque sabia da importância histórica daquilo. Nesse caso, foi o contrário: o livro existia antes do material existir.

Como foi o processo de curadoria das imagens para “Juízo Final”? Deve ter sido difícil escolher, entre tantos registros marcantes, quais entrariam nessa narrativa.
Enquanto fotografava, eu já pensava no livro. Inclusive, quando fiz a última foto do Bolsonaro preso, pensei imediatamente: “Tenho a última foto do livro”. Era muito claro para mim o que precisava estar ali, porque fotografei pensando que aquilo era maior do que apenas o registro de um momento — era um registro da história. Então, enquanto fotografava, eu já fazia uma seleção mental. Eu sabia exatamente o que queria contar e como queria contar.

O livro cobre desde o governo Bolsonaro até os desdobramentos do 8 de janeiro e sua prisão (no começo do governo Lula). Ao revisitar esse período para construir a obra, quais sentimentos mais voltaram à tona?
Existe uma indignação muito grande, junto com uma sensação forte de impotência. Também aparece uma sensação de ignorância, no sentido de perceber que tudo aquilo estava acontecendo enquanto havia apenas um “clima” geral. Havia uma percepção desse clima, mas não havia certeza do que realmente estava sendo articulado. Foram coisas muito graves que foram feitas. Então surge essa sensação de impotência, de como nós somos cegos. É quase um sentimento de traição tão grande que gera isso: uma indignação profunda e um choque. Não é que seja totalmente inesperado, porque havia sinais e um ambiente em formação, mas ainda assim é impactante perceber o nível das articulações. Existiam planos muito graves, organizados, com hora, com pessoas espalhadas, com pessoas armadas. E isso causa espanto: como tanta coisa pôde acontecer sem que se tivesse dimensão disso? Fica então essa sensação de ignorância, de ingenuidade, de perceber: “caramba, eu nem fazia ideia de que isso existia”. Ao mesmo tempo, a percepção de que havia coisas acontecendo por debaixo dos panos que não eram imaginadas naquele nível.

Você acredita que “Juízo Final” também cumpre um papel de preservação da memória coletiva, especialmente diante de tantas tentativas de apagamento e revisionismo político?
Sim. “Juízo Final” tem esse papel de memória coletiva. A ideia era fazer um livro cheio de evidências, provas e documentos. Não é apenas uma narrativa: as coisas estão registradas ali. Quando as pessoas dizem “só quero ver os livros de história do futuro”, eu penso: que livros serão esses? A história é sempre reescrita a partir de quem está no poder. Nossa democracia é muito frágil. Foi por muito pouco que não sofremos um golpe. Então acho que precisamos escrever os nossos livros de história. Essa é, em parte, a proposta de “Juízo Final”: ser um livro de memórias.

Como foi trabalhar em parceria com Pedro Daltro, Cristiano Botafogo e Pedro Inoue na construção dessa obra? De que forma o diálogo entre fotografia, texto e projeto gráfico fortaleceu a mensagem do livro?
Foi muito bom trabalhar com a equipe. A gente já tinha trabalhado junto em “A Verdade Vos Libertará”, que ganhou o Jabuti. Então esse livro acabou sendo mais fácil, porque já nos entendíamos muito bem. Não tivemos conflitos. É uma equipe muito tranquila, horizontal e formada por pessoas em quem eu confio muito. Todo mundo sabe exatamente o que faz. Acho que todos nós entendemos a comunicação como algo plural. Quanto mais conseguimos reunir diferentes linguagens e informações, mais forte o livro fica. Essa mistura entre fotografia, texto e projeto gráfico fortaleceu muito a obra. Também foi interessante perceber como conseguimos criar trabalhos muito diferentes. “A Verdade Vos Libertará” foi uma experiência; “Juízo Final” é outra completamente diferente. Acho muito bonito poder transitar entre formatos.

O prefácio de Marcelo Rubens Paiva traz uma dimensão muito emocional e política sobre esse período. Qual foi a importância desse texto dentro da proposta do livro?
O Marcelo é uma figura histórica muito relevante e simbólica, tanto nas lutas do passado quanto nas do presente. O texto dele faz um apanhado poético belíssimo e dá um tom muito importante ao livro. Ele reforça ainda mais o peso histórico desse momento.

Durante os anos de bolsonarismo, o trabalho de jornalistas e fotógrafos esteve constantemente sob ataque. Em algum momento você sentiu medo real de exercer sua profissão? Como lidou com isso?
Sim, houve muitas situações tensas. Cobertura de 7 de Setembro em que quase apanhei, cobertura do acampamento golpista em que tive medo real pela minha integridade física, além do próprio 8 de janeiro. Manifestações da extrema direita contra a imprensa costumam ser muito tensas. Dá até um gelado na espinha. E, sinceramente, às vezes eu enfrento e às vezes não. Eu respeito muito o meu medo. Quando sinto muito medo, recuo, porque entendo que existe algo me alertando ali. Eu ouço muito os meus instintos. E isso não é algo do passado. Ainda continuo lidando com esse tipo de situação, principalmente em períodos eleitorais.

Qual você acredita ser o papel do fotojornalismo em tempos de radicalização política, desinformação e ataques à democracia?
Acho que é o mesmo, independentemente do tempo: a defesa do interesse social e da democracia. Não apenas do fotojornalismo, mas do jornalismo como um todo. Eu não acredito em jornalismo imparcial, porque ele tem um lado: o interesse social e a democracia. E acho que, principalmente na era da inteligência artificial, o fotojornalismo ganha ainda mais relevância e credibilidade. Vamos ver cada vez mais imagens falsas e fake news, e as pessoas vão perguntar: “Tá, mas quem fez essa foto?” O nome por trás da imagem passa a funcionar como um selo de credibilidade. Isso torna o papel do fotojornalismo ainda mais importante.

Muitas vezes uma fotografia consegue comunicar mais do que páginas inteiras de análise. Você acredita que a imagem ainda tem esse poder de ruptura e conscientização social?
Acredito, sim. Vivemos em um mundo em que as pessoas não conseguem assistir nem a 15 segundos de vídeo. A atenção é medida em segundos. Nesse contexto, a fotografia tem um poder enorme, porque comunica em milésimos de segundo. Historicamente, fotos já mudaram guerras. Então acredito, sim, nesse poder. Claro que, muitas vezes, você está pregando para convertidos. Existem bolhas muito fechadas, umas lavagens cerebrais em que não adianta mostrar imagens ou argumentos porque a pessoa simplesmente não vai acreditar. Mas ainda assim acho importante continuar tentando. Sempre existe alguém disposto a parar e pensar: “Não, espera aí, deixa eu pensar aqui.”

Em um cenário dominado pela velocidade das redes sociais e pela circulação instantânea de imagens, como preservar profundidade e responsabilidade no trabalho fotojornalístico?
Acho que, justamente por causa da velocidade e da quantidade de fake news, o fotojornalismo acaba se fortalecendo. As pessoas sabem que aquela imagem é real, feita por um ser humano identificado. É quase um selo de realidade. Então, ao contrário do que parece, esse cenário acaba fortalecendo o fotojornalismo.

Você tem ministrado cursos e seu trabalho tem inspirado muitos jovens fotógrafos que desejam ingressar nesse universo. Que conselho você daria para quem está começando e sonha em viver de fotografia documental e fotojornalismo?
Acho importante ter estratégia e estudar muito o trabalho de outros fotógrafos. Mais do que ver tutorial ou fazer aula, é importante pegar a câmera, fotografar e observar. Quando estiver em eventos com outros fotógrafos, observe o que eles fizeram, tente entender as escolhas de cada um e reflita sobre o que cada imagem pode significar. É uma profissão difícil de entrar, mas existe espaço, sim. Principalmente para novos olhares. Vivemos um momento de democratização da imagem e da informação. Hoje, com as redes sociais, é possível construir uma carreira de maneiras que antes não existiam. Então meu conselho é: trabalhe o seu olhar, estude o seu olhar e a sua própria imagem.

Existe alguma habilidade ou sensibilidade que você considera indispensável para quem quer atuar nessa área, além do domínio técnico da câmera?
Existe uma habilidade que eu acredito ser essencial na profissão, para além da técnica: não ser covarde. E isso não tem a ver exatamente com coragem, mas com um traço de personalidade. Não ser covarde no sentido do tipo de caráter que você tem. Isso, para mim, é essencial, porque é o que vai guiar sua ética, suas decisões e suas relações com as pessoas — tanto quando você está com a câmera na mão quanto quando não está. A covardia no caráter, um caráter covarde, é a pior coisa que você pode ter. Então, é não ser covarde. E é importante lembrar: não é o oposto de coragem, porque coragem é algo mais elaborado, é outra coisa. Aqui se trata dessa característica de um ser humano covarde, na vida, nas atitudes, nas posturas. Então, uma característica e uma sensibilidade que considero essenciais é justamente a ausência de covardia na personalidade de alguém.

Em entrevista ao Marcelo Tas, no programa Provoca ano passado, você comentou sobre sua relação com o punk rock. De que forma essa estética, postura ou filosofia de enfrentamento influenciam sua forma de fotografar e de estar no mundo?
Sou muito do “do it yourself”. Tenho essa postura de enfrentamento, de desmistificar o poder, de desafiar a autoridade. Aprendi a fotografar nas ruas, nas manifestações. Foi justamente essa postura que me trouxe até aqui. Também existe minha visão política, porque acredito que tudo é político. Acho que isso vem muito do punk: viver politicamente. Sou autodidata. Aprendi a fotografar sozinha, pegando a câmera e experimentando. Não tenho medo de experienciar coisas novas e tentar sair do padrão. Tudo isso o punk rock me trouxe.

O punk costuma carregar uma dimensão de urgência, contestação e inconformismo. Você enxerga esses elementos também no seu trabalho fotográfico?
Eu acho que falei um pouco na pergunta anterior sobre essa dimensão da urgência, da contestação e do inconformismo. É isso: a subcultura, a vontade de transformação, o inconformismo político, o entendimento de que dá para construir um mundo melhor e esse sentimento quase anárquico. IIsso tudo existe dentro de mim e é muito inquietante ver as estruturas de poder por cima. Eu sinto que essas estruturas de poder não significam nada para mim. A minha fotografia está muito ligada a isso. Eu me vejo como alguém bem irônica, com uma sátira, uma acidez nas imagens. Acho que isso vem desse deboche em relação às estruturas de poder — uma coisa de questionamento constante: “quem você pensa que você é?” Você é só um ser humano como eu. Você não é melhor do que eu. Isso não faz sentido nenhum. Você (classe política) tem apenas uma caneta na mão, foi eleito para estar aí. Mas quem é você sem o nosso voto? Quem é você sem as massas? Então eu acho que isso está completamente ligado à fotografia e ao punk rock. É uma linha muito clara.

Existe alguma conexão entre sua forma de observar o poder e essa formação mais ligada à contracultura e à resistência?
Como disse, as minhas fotos têm essa característica satírica e ácida. Gosto de “despir” o poder, mostrar que o rei está nu. Quero democratizar a informação para que as pessoas entendam que nada é inacessível. O poder está nas massas, está nas pessoas. Quando fotografo o poder, quero mostrar justamente isso: que o rei está nu.

Ao longo da sua carreira, houve alguma imagem específica que você fez e pensou imediatamente: “essa foto vai ficar para a história”?
Sim. A foto que fiz no 8 de janeiro, na vidraça do Palácio, com a rampa ao fundo cheia de pessoas. Naquele momento eu sabia que era uma foto histórica. Pensei que, se perdesse todas as outras imagens, aquela era a que eu gostaria de guardar. Também senti isso com a foto em frente ao Congresso no mesmo dia e com a foto do Bolsonaro preso.

Depois de “Juízo Final”, o que ainda te move como fotógrafa? O que você sente que ainda precisa registrar, denunciar ou contar através da imagem?
Hoje penso menos no que “precisa” ser feito e mais no que me toca de verdade. Não penso em legado. Sou ateísta e não acredito em algo depois da morte. Então, para mim, importa mais a experiência de viver. O que me move é pensar nas estruturas de poder e no potencial de transformação social, porque isso faz sentido para mim como ser humano. Mas atualmente também tenho vontade de explorar outras linguagens, me aproximar mais da arte, experimentar coisas novas pela fotografia e sair um pouco do hard news. Quero fotografar mais aquilo que tenho vontade de fotografar. Não penso mais em obrigação. Não tenho que fazer nada além de viver. O que vier é lucro.

–  Bruno Lisboa  escreve no Scream & Yell desde 2014. 

One thought on “Gabriela Biló: “Quando fotografo o poder, quero mostrar justamente que o rei está nu”

  1. Nossa, que maravilha. Gosto muito quando o screamyell foge da pauta comum Indie e nos faz mergulhar em algo ainda mais profundo. Conhecia as fotos, mas não sabia desse livro. Que já fico naquela de “vou correr atrás”. Parabéns pela entrevista, muito boa.

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