Entrevista: Ducca Rios fala sobre “Meu Tio José”, animação baiana selecionada para o Festival Annecy 2021

entrevista por João Paulo Barreto

Havia um peso na vida do então garoto que viria a se tornar o diretor de cinema Ducca Rios. Tal peso era aquele da ausência de respostas pelo assassinato de seu tio, o artista gráfico e ativista político José Sebastião Rios de Moura, morto a tiros há 38 anos, em junho de 1983, em Salvador, quando o menino tinha apenas 10 anos de idade. Tal ausência de respostas ainda permanece. Porém, existe uma perceptível sensação de diminuição do peso carregado por anos após a perda de seu tio. “Larguei um peso que vinha carregando exatamente nesse momento. Ao soltar o filme para os festivais e, em breve, para o público, eu sinto um grande alívio. Por ter conseguido concretizar um objetivo tão antigo. Quando tomei consciência de que queria, realmente, fazer algo com o José Sebastião, foi por volta de 2010”, explica Ducca, salientando a importância da vitrine representada pelo Festival de Annecy.

Na história de seu tio, que conhecemos através da óptica da criança Adonias, figura infantil de Ducca aos 10 anos, vemos um homem que vai perdendo sua força motriz à medida que a ditadura militar, o autoritarismo e o fascismo avançam no Brasil de 1964 em diante. A partir das lembranças compartilhadas pela família de Adonias, conhecemos José na adolescência ainda em Teresina e, depois, desembarcando no Rio de Janeiro na efervescência cultural brasileira naquele começo dos promissores anos 1960. Após sua ida a Brasília, onde começa a atuar como professor da UNB, é quando envereda de vez na luta contra a ditadura, chegando a fazer parte do grupo que sequestrou o embaixador estadunidense Charles Elbrick, em 1969. Exilado e em fuga constante, José torna-se, também, exilado de si mesmo, sob o peso daquela roda viva. Retorna ao Brasil com a anistia, mas nunca conseguiu voltar a si mesmo. Torna-se introspectivo e silencioso, possivelmente ainda revivendo os dias de terror ditatorial. Em Salvador, é baleado dentro de uma farmácia por homens de terno e gravata. Morreria dias depois no hospital. Um crime que a polícia nunca buscou solucionar.

“A transmutação, digamos assim, do José começa a acontecer na UNB. Porque começa a repressão de um lado, com os setores conservadores encampados pelos militares. Eles começam a dar mostras que não vão deixar o Brasil seguir pelo caminho democrático, e acabam dando um golpe. E aquilo ali é um golpe, realmente. Uma cisão, em 1964, na personalidade do José. Eu não sei como me colocar na pele dele, mas imagino isso. Imagino que ele, vendo o povo sem saída, viu a si mesmo sem saída. Porque você não ter democracia é você não ter saída. É você não poder se expressar. É você não poder opinar. Não existe voto. Não existe direito. Então, você é o que?”, reflete Ducca Rios ao pensar na situação pela qual passou seu tio.

Ao optar por contar a história de seu tio José através da animação, Ducca Rios contou com uma ferramenta de liberdade criativa que o permitiu ilustrar o pensamento infantil e o choque de uma maturidade alcançada tão precocemente pela dor da morte de maneira ao mesmo tempo lúdica e calcada nessa dura realidade. “Usamos em ‘Meu Tio José’ momentos de ilusão, de delírio quando a animação vai para um ad libitum completo. Mas o mais presente é o real. A estética do real. E dentro dessa estética, imprimimos essa opinião a partir da escolha do preto e branco, que tem duas questões que eu gostaria de ressaltar. Uma é óbvia que é a ditadura militar. É um período preto e branco da História brasileira. Sem cor. E a outra é a força da mídia impressa. No filme, estampamos manchetes nos prédios, nas casas e em muros”, pontua o diretor.

Wagner Moura é quem dá voz ao José Sebastião. O filme conta, ainda, com outros atores baianos, como Bertrand Duarte, Jackson Costa e Evelin Butchegger. Ducca Rios explica que Moura gravou sua participação em “Meu Tio José” no dia seguinte ao encerrar os trabalhos de direção em “Marighella”, seu filme de estreia como diretor.  “Ele já estava com a vivência atrás das câmeras como diretor, mas estava mergulhado naquele período, entendendo quem era o Marighella, e sabia o que era a clandestinidade. Imagine a clandestinidade, quando as pessoas não podiam falar com seus familiares, e não tinham acesso nenhum, porque não existia internet. No máximo, um telefone, se não presença física”, salienta o diretor, descrevendo a experiência com o ator. “Ele percebeu quem era o José. Foi muito fácil para ele entender. Eu já observei outros papéis do Wagner. Ele entra nos personagens e você não reconhece mais a pessoa. Ele tem essa capacidade de não rotular o personagem. Ele realmente constrói personagens diferentes. Ele imprime a sua personalidade, claro, mas não dá pistas de quem ele é quando está dentro do personagem. Isso é muito raro em atores”, elogia Ducca.

Idealizado em 2010, em um período cuja conjuntura brasileira era outra, a animação é lançada em um ano como o de 2021, década que se inicia repetindo as mesmas armadilhas de uma oportunista situação política que, agora, já não mais flerta com o fascismo, mas, sim, o assume completamente. “Eu nunca imaginei que lançaria esse filme em um momento como esse. É uma coincidência ruim para o país. Para o filme, acaba passando uma coisa meio profética que, para mim pelo menos, não existe em ‘Meu Tio José’. Acho que foi uma conspiração do universo para esse filme estar sendo lançado neste momento, quando estamos vivendo uma época que nos remete a momentos que aconteceram antes do golpe de 1964. Gente indo para a rua em ‘Marcha para a Família’, entendeu? Uma marcha para a família que, na verdade, escondem ideais super retrógrados. Gente pedindo cassação do STF. ‘Mais bíblia, menos constituição.’ Isso é uma loucura! Estamos dentro de um processo distópico de volta ao passado inacreditável. Acho que tem muita gente indo para a rua e pedindo intervenção militar porque não sabe o que é. Não sabe o quão ruim é isso. É um caminho perigosíssimo. Perigosíssimo! Para todos! É um caminho que leva ao abismo”, alerta.

Nas melodias das músicas de Chico Buarque, desconstruídas em versões instrumentais a dividir os capítulos do filme, além da pulsante versão de “Apesar de Você” na voz de Lirinha, “Meu Tio José” nos deixa introspectivos ao seu final. Mas esperançosos de que “apesar de você”, poderemos voltar a sorrir. Nesta entrevista ao Scream & Yell, Ducca Rios aprofunda essa experiência de levar às telas a história de seu tio e de sua família. Confira!

Ducca, eu queria começar esse papo lhe perguntando sobre o peso de contar essa história em “Meu Tio José”, um filme que tem uma ligação imensa com a história de sua própria família. José Sebastião, seu tio, teve uma importância crucial na sua formação como pessoa. A partida dele de maneira tão brutal representou um baque grande naquele menino que já era influenciado pelo tio e que enveredou pelo lado das artes gráficas, assim como o próprio José.
No filme, existe uma redação. E essa redação existiu em algum momento de minha vida. Eu condensei várias coisas que aconteceram ao longo de minha vida em uma colagem e em uma ficção que criei em torno desse fato real, que foi o do assassinato do José. Você fala de peso… Na verdade, acho que larguei um peso, digamos assim, que eu vinha carregando. Exatamente nesse momento, ao soltar o filme para os festivais e em breve para o público, sinto um grande alívio. Por ter conseguido concretizar um objetivo tão antigo. Quando tomei consciência de que queria, realmente, fazer algo com o José Sebastião, foi por volta de 2010. Foi quando comecei a pensar no que fazer. Então, esse processo de construção mais consciente, digamos assim, creio que vem dessa época. Posso dizer que o filme começou em 2010, a criação. Depois dele concretizado, que já tinha editais envolvidos, ANCINE e Governo do Estado, levou três anos de produção, até chegar nesse momento que é o de pré-lançamento, digamos assim. Porque ele está sendo lançado, sim, em festivais, mas ainda não no circuito comercial. E é uma felicidade muito grande já começar essa fase de festivais sendo aceito pelo principal festival de animação do mundo, que é o Festival de Annecy. Fico muito, muito feliz com isso. Fico feliz pela história do José, que é uma história pessoal, que é uma história familiar, mas é uma história, também, icônica para muita gente que teve seus entes queridos perseguidos por essa monstruosidade que foi a ditadura militar brasileira. E as ditaduras militares em todos os cantos. Isso fala, também, para as pessoas que são da Argentina, do Chile, pessoas de todo canto onde houve repressão às liberdades. Eu fico feliz que um festival como esse tenha sido logo um dos primeiros a aceitar o filme. “Meu Tio José” acaba sendo o quarto filme brasileiro a ser aceito em uma competição de longa metragem do festival de Annecy.  Fico feliz porque a história vai se espalhar. E o José, de um personagem invisível, acaba se tornando um personagem visível.

Com o filme, essa importância do José Sebastião na luta contra a repressão é bem ilustrada, mesmo.
O José é meio que um Forrest Gump brasileiro. Ele participou de vários momentos importantes entre a década de 1960 e 1980 do Brasil, inclusive com o próprio assassinato dele sendo um desses acontecimentos. Ele participou sem ser muito lembrado ou falado. Ele é lembrado rapidamente em um lugar ou outro com alguma citação de pessoas que participaram da resistência de esquerda. E quando se fala, também, do sequestro do Elbrick, ele é citado, mas de forma muito rápida. Ele funciona como essa relação que eu faço. Como uma espécie de Forrest Gump. Porque ele estava lá, mas pouca gente fala dele, ou não se lembra, enfim. E esse filme mostra um outro lado do José que quase ninguém conhece. Porque ele passou muito tempo na clandestinidade. E eu, quando criança, escutava muito as histórias do José criança contadas por minha avó. Ouvi muito de minha mãe histórias dele. Ouvi muito de meu pai, também. Enfim. Isso é muito retratado no filme, também. Condenso essas coisas que foram chegando na minha vida ao longo de muito tempo. Hoje, tenho 48 anos. Condenso isso no filme, também. Em um momento fixo, como parte dessa estrutura de ficção que dá sustentação para uma história em torno desse fato real que aconteceu.

Na criação do roteiro, como foi a opção entre apresentar o José através da relação dele com o Adonias, uma vez que fica clara a influência dele em sua vida, e a de criar a narrativa a partir do flashback?
É meio que uma linguagem de retrospecto o filme. Ele começa já com o assassinato. Então, segue um caminho meio que de retrospecto e avante. Vai para trás, vai para frente, então, eu me concentrei muito nessa busca do garoto, vou colocar na terceira pessoa, essa busca do garoto por saber, realmente, quem é o José. Essas perguntas… Sim, ele tinha a vivência pessoal, pois ele fala com a avó, por exemplo, no quarto, logo no início do filme: “quem é que a senhora acha que me ensinou a nadar no mar?” Essas coisinhas de relação pessoal estão ali. Empinar pipa, por exemplo. Coloco a pipa no filme, mas não digo que o meu tio José foi quem me ensinou a empinar e a fabricar pipas, algo que sei até hoje. Mas, me coloco empinando pipa. Coloco a criança ali empinando pipa com outra da favela em um determinado momento. Então, tem essas pequenas coisas que são desse convívio. Mas o filme é basicamente concentrado no aprendizado da criança sobre o que é uma ditadura militar, a partir da morte do José. Esse aprendizado fica em um subtexto ao longo do filme. Inclusive, parte do subtexto é o bullying ao qual eu coloco o Adonias submetido, e que é uma ficção. Agora, é uma ficção que construí para se ter um paralelo do que é uma repressão, do que é uma ditadura militar dentro do universo da criança. Então, o que seria a repressão dentro do universo da criança? A escola. Uma escola que parece um quartel. Uma diretora que parece um general. Um bedel que parece um sargento. E um colega de escola que fica ali o tempo inteiro rebaixando e humilhando a criança.

Para espectadores de Salvador, geograficamente é curioso ver o filme e identificar na animação locais conhecidos, como o bairro de Amaralina, onde fica um quartel militar bem evidenciado pelo filme, além do Rio Vermelho.
Sim. Logo no início do filme, você vê esse caminho. O trajeto do carro passa por trechos conhecidos. Passa por trechos da Barra, Amaralina, Rio Vermelho. A igreja do Rio Vermelho está lá, no momento em que ele faz aquela curva, na praia da Paciência. Depois, segue para Amaralina e vai até a Pituba, retornando para a Amarlina, que é onde fica o edifício Quinerete, um prédio real onde eu morei e existe lá até hoje. Era amarelo e agora ficou azul. É um filme político, mas, também, é um filme afetivo. É um filme muito afetivo, um drama familiar. E tento aproximar essas lembranças, esses recortes de lembranças, tanto geográficos da cidade de Salvador, quanto de amigos do Quinerete, e familiares.

Em algum momento, houve qualquer dúvida entre contar a história pelo live-action ou pela animação?
Teve esse momento de dúvida no início. Mas optei pela animação. Sou diretor criativo da Origem, um estúdio de animação que, hoje, é um dos mais produtivos do país. Então, é natural a gente seguir sempre para essa linha de animação. Agora, algo que as pessoas normalmente não atentam em relação à animação, é que a maioria acha que a animação é um recurso a ser utilizado quando você tem algo que não é possível ou que é muito difícil, muito complicado, de se fazer com a câmera em uma situação real. Então, se recorre à animação para fazer voar, para aparecer um monstro gigante, enfim. Até os filmes que hoje misturam 3D e que parece real, 90% é animação. Filmes como “Avengers”, por exemplo, têm 80% a 90% em recursos 3D imitando o real. Mas a animação tem um outro lado que pouca gente atenta. O lado da força simbólica do traço. Da opinião. Do sentimento de quem desenha ao imprimir aquilo no papel. Então, isso tem uma força simbólica muito grande por si. Tem um filme que a gente usou como referência, também, que é o “Persépolis”, da Marjane Satrapi, e que conta uma história familiar e política. E, além disso, religiosa, que foi em cima da ditadura dos Mullah. Ela é forçada a sair de casa. Uma coisa bem real. É um filme muito forte. Uma coisa muito forte por conta do traço. É claro que a gente usa, em “Meu Tio José”, momentos de ilusão, de delírio. Que aí a animação vai para um ad libitum completo. Mas o mais presente é o real. A estética do real. E dentro dessa estética, imprimimos essa opinião a partir de uma escolha, por exemplo, do preto e branco. O preto e branco tem duas questões que eu gostaria de ressaltar. Uma é óbvia que é a ditadura militar. É um período preto e branco da História brasileira. Sem cor. E a outra é a força da mídia impressa. Porque nós, na época da década de 1980, éramos informados basicamente por ela. Claro que a TV era muito forte, mas a mídia impressa tinha uma força muito grande, também. Os jornais e as revistas impressas tinham uma força muito grande. E os jornais, na época, não eram coloridos. Os jornais só começaram a ser coloridos aqui na década de 1990, com o Bahia Hoje. Até então, eram todos preto e branco. Tinham as pichações, também, que eram sempre frases. O Faustino que pichava muito muro à época. E outros pichadores que colocavam frases anárquicas. O movimento punk estava ali na década de 1980. Então, tudo isso influenciou nesse traço que a gente chegou. O Concretismo, o Movimento Concretista, ainda tinha muita força na década de 1980. Esse traço mais angulado, com sombras mais marcadas, isso tudo vem com essa pesquisa que a gente fez de escolha por estar dentro da década de 1980.

Você citou o “Persépolis”, e eu, ao assistir ao filme, observei essa referência não somente na história, mas nas expressões. Aproveitando essa análise de estilo, em relação ao traço dos personagens, nota-se uma diferenciação entre os garotos que perseguem Adonias para com todo o restante. O pai militar de um deles, também.
Isso. Primeiro vem a história. Primeiro vem o roteiro. Vamos entender os personagens quando pegarmos o roteiro e fazer o animatic, o storyboard, que é quando começamos a imaginar as formas. Então, se você relembrar, também, as vozes da repressão são sempre uma voz. É o mesmo ator que faz todas as vozes. Existe essa preocupação, sim. Em diferenciar, em colocar como um bloco, digamos assim, a repressão e o outro bloco as pessoas. As pessoas normais. O hippie que nada na praia, o músico, o advogado, os profissionais que vivem aqui no dia a dia, independente dessa loucura fascista que aconteceu no Brasil.

Você citou as vozes. Como foi o trabalho com o Wagner Moura dublando o José Sebastião?
Primeiro, você tem que entender que o Wagner Moura é um ator incrível. Ele é muito bom. Muito bom, mesmo. Tivemos algumas conversas à distância, em videoconferência. Ele leu o roteiro duas vezes. Primeiro, foi o processo dele ter o tempo. De dar o tempo dele para filmar. Foi justamente no momento em que ele estava fazendo o filme dele, o “Marighella”. Eu esperei nove meses até ele terminar. Viajei a São Paulo e, em um hotel, gravamos durante uma tarde todas as falas dele para o filme. E a direção de arte foi essa de explicar quem era o José. Ele percebeu rapidamente. Foi muito rápido. Ele entendeu muito bem quem era o José Sebastião. E não houve nenhuma dificuldade. Durante o processo de gravação, foram ajustes pontuais no momento da fala. E ele percebia claramente tudo o que eu queria dizer através da fala dele. Tudo o que eu queria que o José dissesse através dele. Ele já estava com a vivência atrás das câmeras como diretor, estava mergulhado naquele período, entendendo quem era o Marighella. Ele sabia o que era a clandestinidade. Imagine a clandestinidade, quando as pessoas não podiam falar com seus familiares, e não tinha acesso nenhum, porque não existia internet. No máximo, um telefone, se não fosse presença física. Ele percebeu quem era o José. Foi muito fácil para ele entender. E, assim, eu já observei outros papéis do Wagner. O Wagner entra nos personagens e você não reconhece mais a pessoa. Ele tem essa capacidade de não rotular o personagem. Ele realmente constrói personagens diferentes. Ele imprime a sua personalidade, claro, mas ele não dá pistas de quem ele é quando está dentro do personagem. Ele é o personagem mesmo. Isso é muito raro em atores. Nós vemos muitos que não conseguem fazer isso. E são atores bons, mas que não conseguem fazer nesse nível. E eu tive a sorte, também, de ter outros grandes atores daqui da Bahia e de outros lugares, como o Tonico Pereira, que foi fantástico. Um dos melhores atores brasileiros. A Lorena Comparato foi uma gratíssima surpresa, mesmo. Uma atriz extremamente talentosa e filha do Doc Comparato, que é um amigo e um grande roteirista. Ela faz o papel da professora. Daqui da Bahia, tivemos o Bertrand Duarte, que é um grande ator. Tivemos a Evelin Butchegger e a Neide Moura, grandes atrizes daqui. Tivemos, também, o Jackson Costa, que fez o papel do Torquato jovem e adulto. Além das crianças, que foram 15 no total. Uma mais talentosa que a outra, e que eu tive a chance de dirigir. Foi um presente dirigir essa criançada nos estúdios. Todo esse processo foi muito prazeroso. Dirigir ator é muito prazeroso. Eu gosto pra caramba. Nunca dirigi live action de ficção. Somente documentário. Mas acho que vou adorar fazer ficção e dirigir atores com câmera. Deve ser muito bom.

É triste observar como o José se torna um exilado, também, de si mesmo. Como a ditadura, a perseguição e a repressão das liberdades tiraram dele a alegria que tinha na juventude. Aquele momento em que ele aparece solitário na França denota bem isso.
Sim. É um momento bem claro em que eu quis realmente passar isso. O José tinha todo o futuro pela frente. Ele chegou ao Rio de Janeiro. Era talentoso. Trabalhou como artista gráfico em estúdios conhecidos na época. Por exemplo, o logotipo do Leite de Rosas foi ele quem criou. Eu lembro dele construindo o logotipo em casa. Ele tinha uma pranchetinha no quarto em que dormia quando ainda morava lá em casa. Construía na massa de modelar primeiro e, depois, desenhava no papel. Ele fez vários exercícios. Eu tenho até hoje os exercícios gráficos que ele fazia até chegar em um resultado. Ele levava muito a sério essas coisas. E eu aprendi muito com ele sobre isso. Na época, eu já desenhava como criança, mas já me entendia como desenhista. Quando ele chegou, me deu muita dica. Também me ensinou muito em relação a isso. E aí ele chega ao Rio com essa ambição de entrar no mundo das artes. Eu o coloco junto com o Torquato, mas não necessariamente eles andaram juntos no Rio de Janeiro, apesar de terem sido conterrâneos e amigos. Mas coloquei isso em uma liberdade poética. Coloquei outros artistas. Coloquei o Hélio Oiticica. Quando exclamam: “Hélio!”, é ele quem está ali. Era a turma que andava junta naquela época. A turma das artes que estava toda no Rio de Janeiro. E, depois, o José foi para Brasília, para a UNB, indicado como professor assistente. É lá onde ocorre essa transmutação, digamos assim. Porque começa a haver a repressão de um lado, com os setores conservadores encampados pelos militares, que começam a dar mostras que não vão deixar o Brasil seguir pelo caminho democrático e acabam dando um golpe. E aquilo ali é um golpe, realmente, uma cisão em 1964 na personalidade do José. Não sei consigo me colocar na pele dele, mas imagino. Imagino que ele, vendo o povo sem saída, viu a si mesmo sem saída. Porque você não ter democracia é você não ter saída. É você não poder se expressar. É você não poder opinar. Não existe voto. Não existe direito. Então, você é o que? Você é uma pessoa que acorda, vai trabalhar, seguindo as regras que são impostas. Não pode falar, não pode dizer que não gosta. E volta para casa. Vira uma vida mecânica. Creio que o José, assim como outras pessoas que entraram para uma luta de esquerda na época, sentiram isso. Sentiram-se assim: “Olha, não tem mais como ir por outro caminho”. Fico imaginando isso. Costumo dizer, também: sou totalmente contra atos de violência radicais. Isso vai contra tudo que acredito. Mas consigo entender o que aconteceu na cabeça dessas pessoas, daqueles jovens daquela época. O que aconteceu ali dentro. Esse sonho louco de achar que podem transformar o mundo daquela forma. É a coragem absurda de querer transformar o mundo daquela maneira. São mártires! Mártires fantásticos e incríveis. Todos. O José sendo um deles.

Com a História do Brasil se repetindo, um momento no qual a desinformação é usada como mote, é importante que um filme como “Meu Tio José” lance à luz a trajetória de José Sebastião e alerte sobre os riscos de um novo golpe nesse Brasil que ressuscita fantasmas como a Lei de Segurança Nacional e que minimiza o horror ditatorial. No qual pessoas vão às ruas pedir intervenção militar e nada lhes acontece, mas uma faixa contra um presidente acaba em prisão.
Sim. O filme acaba tendo, também, esse objetivo que é o de mostrar o que é uma ditadura militar pelo ponto de vista de uma criança que viveu durante os anos 1980. Que viveu o final dessa ditadura militar. Nasci em 1972. Digamos que começo a tomar consciência e conhecimento de política a partir desse momento, quando tinha 10 anos. Acho que é muito importante as pessoas entenderem para que não entrem nessa viagem. Que entendam e não entrem nisso de novo. Exatamente o que você falou. Acho que tem muita gente indo para a rua e pedindo intervenção militar porque não sabe o que é. Não sabe o quão ruim é isso. É um caminho perigosíssimo. Perigosíssimo! Para todos! É um caminho que leva ao abismo. Então, o filme também tem essa questão. Foi uma coincidência. Eu nunca imaginei que lançaria esse filme em um momento como esse. É uma coincidência ruim para o país. Para o filme, acaba passando uma coisa meio profética. Acaba dando uma ideia um pouco profética que não existe no filme, para mim pelo menos. Acho que foi uma conspiração do universo para esse filme ser lançado neste momento, quando estamos vivendo uma época que nos remete a momentos que aconteceram antes do golpe de 1964. Gente indo para a rua em “Marcha para a Família”, entendeu? Uma marcha para a família que, na verdade, esconde ideais super retrógrados. Gente pedindo cassação do STF. “Mais bíblia menos constituição.” Isso é uma loucura! Estamos dentro de um processo distópico de volta ao passado inacreditável. E em meio à pandemia, torna isso ainda mais surreal.

Como foi o processo de licenciamento para uso das músicas de Chico Buarque e o trabalho com elas para a inserção na narrativa de “Meu Tio José”?
Foi uma grande surpresa. Foi uma ousadia muito grande de nossa parte. Descobrimos que era a Marola Produções que cuidava dos direitos do Chico. O primeiro ponto foi saber como chegar a ele. Nunca tive um contato pessoal com o Chico. Espero ainda ter. Adoraria bater um papo com Chico Buarque sobre o filme e sobre o que ele quiser falar (risos). Mas, isso ainda não aconteceu. Ele sabe do filme. Temos uma amiga em comum, que é a nossa distribuidora, a Priscila (Rosário), que é amiga dele e, de vez quando, manda as coisas para o Chico. E eu ainda espero estar com ele algum dia para conversar mais longamente. Mas a gente chegou a ele através da Marola. E o primeiro ponto que eles pediram foi para ler o roteiro. Ler a história e saber do que se tratava. Mandamos o roteiro e eles ficaram com isso por mais ou menos uns 15 a 20 dias. E logo depois disseram que topavam. “Pode licenciar. Chico concordou”. E eu respondi: “Quero licenciar cinco músicas”. “Tudo bem”. “Cinco clássicos?”. “Tudo bem!”” (risos). “As cinco músicas que mais gosto do Chico!”. “Tudo bem. Não tem problema nenhum”. Aí veio “Construção”, “Roda Viva”… Músicas que vão mostrando… A gente tentou unir aspectos da história. A história é dividida em cinco capítulos e elegemos uma música por capítulo. Aí cada capítulo tem uma das músicas que foi desconstruída pelo Luciano (Silva), que é um craque baiano da gema. Ele desconstruiu as músicas e dentro da estética que eu lhe sugeri, achou que ia ficar genial. Acontece que nós tínhamos na época dos anos 1980 o movimento punk. Havia o Camisa de Vênus e outras bandas punks que surgiram no Brasil inteiro. Principalmente Brasília, Rio e São Paulo. Em Salvador tinha o Camisa, que era a melhor de todas as bandas da época aqui. Quando eu comecei a tocar violão, a primeira música que eu tirei foi do Camisa de Vênus. Para mim, aos 10 anos, eu já era fã do Camisa. Não podia entrar nos shows, porque eram censurados, mas eu adorava. Aí, por conta dessa coisa do movimento punk, a sugestão que eu dei a Luciano foi: “vamos desconstruir as músicas do Chico e reconstruir como rockabilly punk, naquele estilo bem Camisa de Vênus, bem ‘Simca Chambord’ e tal”. E aí ele fez isso com o Alexandre Vargas, que é um puta guitarrista que já tocou até com Jimmy Page. Saiu um resultado inacreditável, acho que ficou genial. E ao mesmo tempo, ele usa orquestra. Ele faz uma junção entre as músicas do Chico orquestradas, reconstruídas para dar a pontuação da cena da ação do filme. E em determinado momento ele lança o rock and roll. Em geral, é quando o Adonias tem aqueles delírios, aquelas viagens da mente dele, em que entramos em um ad libitum completo da animação. É quando ela fica mais solta. É quando entra a música do Chico toda assim na versão instrumental. E a última música é na voz do Lirinha, que canta “Apesar de Você”.

Esses momentos de catarse do personagem do Adonias casam bem com as versões instrumentais das músicas de Chico. Nestes momentos, inclusive, pensei novamente em “Persépolis” e, também, em ‘Yellow Submarine”. Como foi esse processo de criação visual deles?
Primeiro, o que eu quis fazer ali foi uma coisa meio de giz. É um quadro negro, que aparece até o Adonias desenhando em algum momento do filme. Quando o bedel o vê desenhando “coisas subversivas” (risos), e aí vai chamar a diretora que está louca para expulsá-lo. Primeiro foi isso. Eu queria um quadro negro em que os desenhos de giz ganhassem vida. Ou seja, as fantasias do Adonias. E as referências assim de animação, sem dúvidas. A gente recorreu muito ao filme dos Beatles. Coloquei toda minha equipe para assistir. Porque animação não se faz sozinho. Eu não sou nem animador. Na verdade, eu sou desenhista, sou ilustrador, mas não sou animador. Sou diretor. Então, eu tenho uma equipe de animadores super competente. Estão conosco até hoje a maior parte deles. E um deles, especificamente, ficou com essas cenas que você está falando. Foi o Mário Alves, um craque. Um dos melhores animadores que existem no Brasil e trabalha conosco já há cinco anos, praticamente. Assistimos a esses filmes, eu mandei referências para ele de várias coisas. Mandei o “Persépolis”, também. É um filme que tem umas viagens assim, ad libitum, também, que acontece. Então, foi uma colagem disso tudo. De todas essas referências até chegarmos aonde queríamos. Tem um quadro que é muito importante dentro do filme, e que fica em cima do sofá, e que o Adonias olha para ele e mergulha. Um quadro de uma igreja. Então, tem a coisa da fé envolvida também ali. Principalmente depois do atentado, que é quando mostramos muito a avó rezando com outras pessoas em correntes de oração. E isso também entra nas fantasias. Elas são essa coletânea. Aí entra a imagem da avó rezando, como uma coisa pesada, uma coisa quase fúnebre. E as coisas da repressão que se via na televisão, que se ouvia nas histórias. As brutalidades como pau-de-arara, gente sendo jogada no meio do mar. Enfim. Nessas alienações, vamos chamar assim, a gente tem essa catarse simbólica, entendeu? Eu acho muito legal quando a gente faz isso em animação. Essas misturas de uma coisa gerando outra. A pipa mostra a favela; a favela mostra o processo de repressão sobre a favela. E dali sai um personagem, uma vitima, que é lançada ao mar. Enfim, é uma colagem do nosso dia a dia. Uma coisa meio surreal, mas bem real.

O filme apresenta esse impacto imenso que a morte de José teve em sua família. Como foi esse período de superação?
Foi um processo difícil. A família se reergueu. Minha família é muito forte. Mas a minha avó passou alguns meses e a gente a via chorando sozinha. Também a minha mãe. Mas conseguimos dar uma volta por cima. Eu acho que por conta da gente. Meus pais e minha avó ganharam muita força por conta daquilo: “olha, os meninos não podem sofrer tanto”. Eles reprimiram muita coisa para poder garantir que a nossa infância fosse boa. E a minha infância foi muito boa. A minha e a de meu irmão. Agora, claro que essa história ficou. A criança escuta e vê. Não adianta tentar se esconder a verdade, porque ela descobre. E foi o que aconteceu. Uma conversa ou outra. Uma coisa que escapava de uma conversa ao telefone. Coisas que eu lia. Histórias que a minha avó contava, antigas, de meu tio ainda criança em Teresina. E a morte dele foi exatamente esse momento, esse epicentro desse momento de aprendizado da noite para o dia de que o mundo não é o tempo inteiro lindo e sem problemas. Como para a maioria das crianças. Então, eu, com 10 anos de idade, aprendi isso. Logo cedo, amadureci nesse sentido sobre o que é possível acontecer na vida. E isso vem se amadurecendo ao longo do tempo. Amadureceu e o fruto está aí. O fruto é esse filme. Esse primeiro fruto. Nós vamos lançar, também, uma revista em quadrinho com essa história desenhado por cinco artistas diferentes. Cada capítulo do filme desenhado por um artista diferente, com traços totalmente diferentes. Total liberdade criativa. A maioria das artistas são mulheres. Artistas plásticas e artistas gráficas. São quatro desenhistas e eu que vou entrar com um dos capítulos. E taí. Esse é o processo de amadurecimento e de entrega. E agora vamos ver como é que esse fruto é deglutido.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog Película Virtual

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