Entrevista: Metric reafirma sua essência em “Romanticize The Dive”. “Amo o quanto somos experimentais”, diz Emily Haines

entrevista de Heloísa Lisboa

Metric alcançou a marca de dez álbuns de estúdio com “Romanticize The Dive” (2026), projeto que celebra a amizade e a história da banda ao longo de mais de duas décadas de estrada.

Os ouvintes atentos podem ter notado que o riff de “Wild Rut” se assemelha ao de “Sick Muse”, canção incluída no “Fantasies” (2009), enquanto a guitarra que introduz “Moral Compass” lembra os sintetizadores de “Police and the Private”, do “Live It Out” (2005), por exemplo. As escolhas para o álbum não parecem apenas coincidência, mas, sim, uma ode em 11 faixas à própria trajetória do Metric.

“Acho que foi o fato de ser o décimo álbum e o sentimento de que ninguém vive para sempre, mas podemos arrebentar para sempre [em inglês, ‘crush forever’, em referência à nova faixa do Metric de mesmo nome]”, justificou a vocalista Emily Haines.

Ao Scream & Yell, a cantora explicou que, para resgatar o que acredita ser a essência musical do quarteto, nada mais justo que reunir um time de profissionais que já provaram ter química com o Metric.

Em “Romanticize The Dive”, Gavin Brown retorna à produção — ao lado do guitarrista Jimmy Shaw, Liam O’Neil e John O’Mahoney —, com “Fantasies” e “Synthetica” (2012) na bagagem. O fotógrafo Mark Hunter, conhecido como The Cobrasnake, também reencontrou a banda para fazer as imagens de divulgação do novo disco, resgatando a estética do início dos anos 2000 em cliques com seu flash ousado.

Além disso, é a primeira vez desde o disco de estreia do Metric que Haines aparece na capa. Josh Hassin, que assina as artes de “Old World Underground, Where Are You Now?” (2003) e “Live It Out” — na qual o grupo deixa a imagem da mulher que estampa a capa aberta para suposições —, cede a vez para Justin Broadbent em “Romanticize The Dive”. O artista visual é responsável pelas capas de “Synthetica”, “Art of Doubt” (2018), “Formentera” (2022) e “Formentera II” (2023).

Para completar o mergulho nos velhos tempos, a banda entra em turnê neste ano com Broken Social Scene — da qual Haines e Shaw também são membros fundadores — e Stars. No entanto, o Brasil não está na rota do Metric, que visitou o país pela última vez em 2023, quando integrou o lineup do Primavera Sound São Paulo (e fez um belo show).

Formado ainda por Joshua Winstead e Joules Scott-Key, o grupo abraça o chamado indie sleaze no novo disco com propriedade. Afinal, o Metric faz parte da criação dessa estética tanto quanto nomes como Yeah Yeah Yeahs e The Strokes, bandas com as quais dividiu o alvoroço da Nova York dos anos 2000.

Não é novidade que Haines, nascida na Índia e criada no Canadá, compartilhou o apartamento na cidade americana com Shaw, também criado no país vizinho, e Nick Zinner, guitarrista do Yeah Yeah Yeahs, no início da carreira do Metric. A vocalista lembrou, inclusive, que, após Shaw e ela retornarem de uma viagem frustrante a Londres, onde um empresário havia garantido o lançamento do álbum de estreia da banda, eles performaram um show aquém das próprias expectativas.

A dupla decidiu levar seu descontentamento para um bar que recebia a apresentação do Unitard, projeto de Nick e Karen O. Foi quando Emily e Jimmy conheceram Joules e, consequentemente, adicionaram um baterista ao Metric. Eles haviam deixado um CD caseiro em uma loja na qual Sam Fogarino, atual baterista do Interpol, trabalhava. A partir de sua então namorada, amiga da esposa de Fogarino, a gravação foi parar nas mãos de Joules, que se tornou um fã da banda e, mais tarde, levou seu amigo Joshua para fechar o quarteto que resiste até hoje.

Parte da trilha sonora de “Scott Pilgrim contra o Mundo” (2010), Metric tem muita história para contar. Confira a seguir a entrevista na íntegra.

Assista ao visualizer do novo álbum abaixo

Oi, Emily! Tudo bem?
Oi, tudo bem?

Eu estou bem, obrigada! Sou a Heloísa, de um website chamado Scream & Yell. Onde você está agora?
Estou no estúdio de novo. Nós estamos ensaiando para a turnê.

Falando nisso, como foi retornar aos estúdios Electric Lady (criados por Jimi Hendrix em 1970, em Nova York, por onde já passaram artistas como Taylor Swift, Lorde, U2, Stones, John Lennon e David Bowie, entre tantos) para gravar o novo álbum? E o que chama a atenção de vocês no trabalho de Gavin Brown? Foi a primeira vez que colaboraram desde “Fantasies” e “Synthetica”, né?
Sim, sim. Bom, foi uma conversa que o Jimmy e eu tivemos — tipo: “Esse é o nosso décimo álbum. Qual é o conceito? Qual é o caminho?”

E aí pensamos: “Vamos ver se conseguimos reunir novamente aquela equipe que fez ‘Fantasies’ e ‘Synthetica’. Já faz mais de uma década desde que trabalhamos juntos — vamos tentar”. E foi realmente incrível.

E voltar para o Electric Lady também… É um lugar muito assombrado para nós, mas no bom sentido — como se fossem fantasmas bons que nos dizem o que fazer, que nos ajudam a seguir em frente e a mirar mais alto. Trabalhar com o Gavin é assim: ele realmente me desafia na parte da composição, me desafia a ir além do que é confortável, e, no fim, acabo ficando muito feliz com os resultados.

Por que este pareceu ser o momento certo para voltar à essência do Metric? Eu sei que o décimo álbum é um marco, mas houve algo mais profundo por trás dessa decisão?
Sim. Acho que foi o fato de ser o décimo álbum e o sentimento de que ninguém vive para sempre, mas podemos arrebentar para sempre [em inglês, “crush forever”, em referência à faixa do Metric de mesmo nome]. Se esse fosse nosso último álbum, o que gostaríamos que ele fosse?

Meio que surgiu o desejo de refletir sobre toda a vida que passamos juntos. E, sabe, eu amo o quanto somos experimentais. Fizemos muitos sons diferentes, vários projetos ao longo dos anos. Mas, no fundo, a pergunta sempre foi: se esse fosse nosso último álbum, ele seria algo com que ficaríamos satisfeitos? Algo com que ficaríamos felizes, caso fosse a última coisa que fizéssemos?

E vocês estão em turnê com o Broken Social Scene e o Stars, amigos e parceiros de longa data. Como isso aconteceu?
Meu Deus, esse é o sonho do Jimmy. Ele é realmente o cara que conecta as três bandas. Ele tem amigos no Stars que, na verdade, são os mais antigos — gente de quem ele é amigo desde os sete anos, esse tipo de coisa. Então, ele tinha esse sonho, mas o momento nunca era o certo, até que finalmente foi. Acho que vai ser muito especial para todos nós estarmos juntos.

O Metric em 2002

Pode me contar mais sobre aquele período — os dias em Nova York — e, talvez, compartilhar uma boa memória envolvendo a galera do Yeah Yeah Yeahs…?
Sabe o que é engraçado? Primeiro, a única razão pela qual o Joules, nosso baterista, chegou a ouvir nossa música foi porque o baterista do Interpol trabalhava numa loja de roupas chamada Beacon’s Closet, que era o brechó onde a gente comprava todas as nossas roupas e onde comprávamos suéteres para trocar entre nós. Eles tinham uma pequena seção de CDs, à qual você podia levar seu CD-R, que era como as pessoas registravam suas músicas na época, tipo um CD gravado em casa.

Jimmy e eu tínhamos essas demos, e eu entrei lá e perguntei ao Sam (baterista do Interpol) se podia colocá-las à venda na loja. Ele disse que sim. Aí o Joules, que estava namorando uma amiga do dono, encontrou esse CD, ouviu, gostou muito — e chegou até a aprender todas as músicas.

Depois, a gente estava na Inglaterra, vivendo todo um capítulo longe de Nova York, enquanto muita coisa estava acontecendo. Quando voltamos, fizemos um show em que o Jimmy tentou tocar bateria. Ele mesmo disse: “Isso está muito ruim”. Fomos a um bar pequeno chamado Black Betty, onde o Nick e a Karen, do Yeah Yeah Yeahs, estavam tocando um projeto deles chamado Unitard, só os dois.

Só fomos porque eles moravam no nosso loft. Acabamos indo assistir ao show deles por lá, deprimidos depois da nossa apresentação horrível. Foi onde conhecemos o Joules. Ele disse: “Eu amei o show”. E o Jimmy respondeu: “Como assim você amou? Foi terrível, a gente precisa de um baterista”. E o Joules disse: “Eu sou baterista”. Ele entrou para a banda naquela mesma noite. E agora, 25 anos depois, cá estamos.

O Metric em 2026: Jimmy Shaw, Emily Haines, Liam O’Neil e John O’Mahoney

É uma ótima história! Como conseguiram manter essa amizade tão firme ao longo dos anos? Vocês parecem deixar suas vidas bem privadas. Acha que isso ajuda a fazer com que a banda permaneça unida?
E é engraçado, porque, quando estávamos fazendo nosso primeiro álbum, esse produtor, Michael Andrews, disse algo que nunca esqueci. Lembro dele me dizendo: “Se você vender sua vida pessoal, nunca vai conseguir comprá-la de volta”. E eu realmente levei isso a sério.

Mal podíamos imaginar, em 2001, quantas oportunidades surgiriam para “vender” a vida pessoal, com a forma como, obviamente, as redes sociais mudariam completamente o cenário de tudo.

Mas é verdade. Todos nós somos muito reservados. O Josh e o Joules, por exemplo, têm famílias e seguem suas próprias rotinas — o Josh em Los Angeles, o Joules em Atlanta. O Jimmy e a esposa também têm a vida deles, eu tenho a minha. E, quando nos reunimos para a banda, aí sim falamos sobre isso.

Acho que isso também ajuda a preservar a nossa privacidade — inclusive a da nossa amizade. Nós quatro temos uma vida interna em comum, justamente porque não a expusemos para todo mundo.

Eu li que agora, já não mais nos seus 20 e poucos anos, você tem dito “sim” com mais frequência. Parece até um pouco paradoxal, já que normalmente associamos essa abertura às fases mais iniciais da carreira. Por que você acha que isso aconteceu?
Sim, é um bom ponto. Eu não sei… Quando eu tinha vinte e poucos anos, eu era muito rígida. Eu não bebia nem nada. A gente era muito pobre, trabalhando como garçonete, morando no Brooklyn, em cima de uma empresa de transporte, com monóxido de carbono… Eu vivia correndo, tipo fazendo jogging, meio obcecada, passando por parques com seringas no chão, sabe? Sempre pensando: “Eu preciso sair daqui”. Meio que um mantra — como em “Antigravity”. Eu só fui relaxar mesmo lá pelos meus trinta e poucos anos (nota: Emily tem 52 anos atualmente).

Quando fizemos “Old World Underground [Where Are You Now?]”, eu dizia: “Sem reverb”. Hoje, acho isso legal, porque, quando escuto, minha voz se destaca — era confiante. Eu era muito protetora com a ideia de não virar um produto ruim e me perder nisso.

Então, olhando agora para esse álbum e para as minhas imagens daquela época, eu dou risada. Eu usava três cintos, ou então a mesma roupa por, sei lá, cinco anos de turnê — ficava encharcada de suor, lavava na pia e usava de novo. Mas eu adoro que tenha sido assim. Eu não tinha estilista, era muito cautelosa, sempre em alerta, mantendo todo mundo à certa distância.

E agora… Agora eu penso: foda-se.

É bom ouvir isso, porque estou nos meus vinte e poucos anos também…
Eu recomendo muito! Você sempre pode dizer “sim” mais tarde.

“Old World Underground, Where Are You Now?”, de 2003 e “Romanticize The Dive”, 2026

É a primeira vez que você aparece na capa de um álbum desde o disco de estreia. Isso foi intencional? E você pode falar um pouco sobre como foi trabalhar com o Justin Broadbent novamente?
Sim, na verdade foi ideia do Jimmy que eu aparecesse na capa. Normalmente faço a arte junto com o Justin, como você percebeu. Em “Formentera”, por exemplo… A gente sempre trabalha juntos nesses visuais. Em “Synthetica”, obviamente, tinha aquela estética inspirada em 2001.

Então, quando o Jimmy disse isso, eu pensei: “Ok, ótimo… Mas não sei, não sei o que fazer”. E aquele ensaio para a capa acabou sendo um dos mais divertidos — e também um ótimo exemplo de por que o Justin é um artista tão talentoso. Eu estava tipo: “Não sei, não sei o que a gente vai fazer, só aluga um espaço, e eu descubro quando a gente chegar lá”.

Marquei com a minha maquiadora, que é essa mulher incrível, a Hailey [Roseland-Barnes], e falei: “Faça um delineado gatinho, sei lá”. Eu mesma fiz meu cabelo. Então tive a ideia da fita, porque eu sempre faço isso na bateria — escrevo mensagens usando fita quando a gente toca ao vivo, como se eu ainda tivesse 20 anos.

Então pensei: “A capa vai ser eu ‘vestindo’ o nome do álbum na camiseta, com o colar do Metric — tudo vai fazer sentido. Só que eu tinha, tipo, 20 minutos, então fiquei colando fita na camiseta, que na verdade era uma camiseta da Sinéad O’Connor do avesso. Inclusive, sinto falta dessa camiseta, porque eu adorava usá-la, mas meio que a estraguei. Mas gosto de pensar que ela está ali comigo, meio que me fortalecendo.

Pensei que precisava de algo tipo aqueles suéteres felpudos, meio Kurt Cobain. Então mandei mensagem para a minha amiga Lana, que trabalha comigo há anos. Ela mandou uma foto do suéter imediatamente e veio ao ensaio na hora. Eu pulei de um lado para o outro, trazendo essa energia para as fotos. No fim, chegamos à conclusão de que aquele visual mais cinematográfico, meio introspectivo, funcionava melhor. Justin fez toda a composição das Polaroids, misturando imagens do passado com as do presente. Ele é muito, muito bom de trabalhar.

Sim, eu estou realmente muito feliz com essa capa.

O Metric sempre transitou entre o indie rock e o synth pop, e esse álbum mistura muito bem esses elementos. Como vocês constroem esse equilíbrio entre diferentes sonoridades e ritmos?
Eu meio que sigo o Jimmy nisso. Ele tem uma habilidade meio absurda de transformar qualquer ideia em praticamente qualquer coisa. Quando escrevo, mostro as músicas para ele. As composições são sempre silenciosas e lentas. Eu as deixo meio inacabadas de propósito, quase como esboços bem minimalistas. Então, ele vem e diz: “Ah, eu ouço isso de outro jeito”. Ele cria os arranjos e, geralmente, uma das primeiras coisas que faz é encontrar o componente rítmico. Ele tem essa habilidade com sintetizador modular — com os patches e tudo mais… Ele consegue expressar emoção por meio dos sintetizadores. E eu fico tipo: “É exatamente isso que eu sinto”. Eu toco o Pro-One, mas mais nas melodias principais. E aí o Joules entra e dá vida a tudo com a bateria — ele traz uma energia absurda, o jeito que ele toca me traz muita energia. Então, eu sinto que é um esforço coletivo, sabe? É preciso todo mundo para construir o som. Mas, no fundo, ele nasce muito da cabeça do Jimmy.

” Romanticize The Dive” já na casa dos fãs

Em outra entrevista, você mencionou uma frase de “A Verdadeira Dor”, que diz que “dinheiro é como heroína para pessoas entediadas”. Como você acha que essa ideia se conecta com “Romanticize the Dive”?
É como se algo tivesse mudado. Não posso falar pelos outros, mas aconteceu comigo: percebi que estava começando a me impressionar com bilionários. Tipo, “Ah, legal, uau”… e um dia me peguei pensando: “Por que estou dizendo isso? Por que isso seria automaticamente legal?” No caso da Rihanna, tudo bem, faz sentido dentro da trajetória dela. Mas, no geral, eu ficava tipo: “Não sei se isso é tão incrível assim”. E eu não queria que essa fosse minha reação padrão — me impressionar automaticamente.

Quando dei um passo para trás, percebi que estamos vivendo num momento em que esse tipo de coisa é esfregada na nossa cara o tempo todo. E, sinceramente, não é tão legal assim. Na verdade, não acho legal.

Tem até uma fala ótima do Jerry Seinfeld sobre ser comediante em Nova York: ele diz que ninguém ficava pensando no dinheiro dos outros. Era mais: “Você é bom? Você é interessante? Está acontecendo alguma coisa ali?” Então, acho que isso ajuda muito, especialmente para quem se sente mal por não ser bilionário.

Nós somos o povo, estamos onde a diversão está. E existe essa pequena parcela da população que, por algum motivo, é obcecada com isso [ser bilionário] como se fosse o único propósito da existência. E talvez haja algumas pessoas boas ali, não sei. Mas isso não nos diz respeito, sabe? E esse é, com certeza, o espírito de “Romanticize the Dive”. Tipo, olhe ao redor: você tem amigos incríveis, esses lugares minúsculos e engraçados, bares, pequenos restaurantes, comércios familiares… É isso o que compõe o mundo. Você está num bom lugar quando está com todo mundo.

Infelizmente, temos que encerrar a entrevista, mas gostaria de saber quando vocês planejam retornar ao Brasil.
Eu também [risos]! Ainda não sabemos.

Também quero dizer que, há dois anos, assisti ao Metric pela primeira vez, aqui em São Paulo, com minha irmã mais velha. Foi ela quem me apresentou à banda… Foi um momento muito especial para a gente.
Isso é ótimo! Posso te dizer uma coisa? Conversando com você, com essas perguntas incríveis e sua presença… Quando eu estava escrevendo “Crush Forever”, que é essa carta — é igual a você que eu imagino. Então, muito obrigada por dedicar seu tempo para preparar perguntas tão legais. Foi incrível conversar com você.

– Heloísa Lisboa é jornalista com passagens pela Folha de S.Paulo e Rolling Stone Brasil

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