Músicas de fogueira: Siso lança “Ferro e Fogo”, quarto álbum permeado pela essência e ancestralidade

entrevista de Elsa Villon

A palavra “siso” tem origem no latim sensus, e se refere ao bom senso, discernimento e sensatez, com o nascimento desse dente relacionado ao juízo. O artista Siso lançou seu quarto álbum em março, “Ferro e Fogo”, trazendo o seu processo de transformação e amadurecimento artístico e até espiritual por meio da ancestralidade, o legado de sua família, referências no candomblé e umbanda que podem ser resumidos em uma palavra: essência.

Com nove faixas, o disco traz parcerias com Luiza Brina, Virgo Virgo, Felipe Neiva, Brina Costa e Paulo Mutti, Alejandra Luciani na gravação de vozes, mixagem e masterização e produção de João Abtibol. Mineiro radicado em São Paulo, Siso traz o regionalismo não apenas de Minas Gerais, mas Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, emprestado das memórias familiares que o constituem.

Afro-Sambas, cumbia, pop, indie, eletrônico – tudo se soma para trazer as sonoridades de “Ferro e Fogo” e, em entrevista para o Scream and Yell, ele conta como foi o processo de um trabalho que remete às “músicas de fogueira”, com muito folclore tais como as missões de Mário de Andrade e Guerra-Peixe. Confira a conversa na íntegra abaixo:

Quais são as principais influências e referências de “Ferro e Fogo”?
Esse é um álbum que surgiu muito de um contato com a espiritualidade, assim como memórias de família. Acaba que há até uma função dessas memórias, que vieram em um tom de brasilidade muito grande nesse disco, mais do que em boa parte do meu trabalho anterior. As próprias histórias foram trazendo essas sonoridades. Vivo em São Paulo, mas sou mineiro. Minha família é parcialmente mineira, parcialmente de vários outros lugares. Um lado da minha família hoje tem como base o Rio de Janeiro, mas vem principalmente de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. E, pelo fato da influência dessas pessoas na minha vida, dessa família, dessas culturas, elas acabaram muito entranhadas dentro do meu afeto ao longo do tempo. É muito misturado: tem ao mesmo tempo influências de uma ordem mais eletrônica — cito até o DJ Shadow como um ponto de partida para esse disco em termos sonoros. Tem muita coisa de Maria Bethânia, muitas coisas tradicionais de Pernambuco, da Paraíba, do Rio Grande do Norte. Estava vendo esse fim de semana a Banda de Pífanos de Caruaru e fiquei absolutamente maravilhado, é uma coisa que, queira ou não, tem um eco disso dentro desse trabalho. Muita coisa de coco, de Umbanda, de Candomblé, muita coisa de Afro-Sambas, tanta coisa dentro desse trabalho, e isso misturado com essas coisas eletrônicas, indie, pop, rock, coisas que foram cruzando o meu caminho pessoal ao longo disso. E foi muito instantâneo, porque o processo de criação desse disco não foi nem muito bem pensado nem organizado: as canções foram surgindo e, ao longo do caminho, fui entendendo que tipo de sonoridade elas teriam. A maioria delas foi composta durante um período muito curto, novembro de 2024, muito especificamente, com exceção de “Palavra Furacão”, que tinha surgido antes. Tinha essas canções e surgiu o convite para fazer uma data no Sesc Pompeia. Não sabia exatamente qual seria a sonoridade que essas canções teriam, acabei levando-as ao palco num formato de voz e guitarra. A partir desse e de alguns outros shows, fui entendendo qual era a sonoridade do disco. Então tive essa mensagem espiritual mesmo de que esse disco deveria ser basicamente teclas e tambores. A partir dessa mensagem, dessa experiência de palco, cruzei coisas e a produção do disco também se resolveu de maneira muito rápida. O disco inteiro foi levantado, em termos de produção, em uma semana, e mais dois outros dias para gravar todas as vozes, incluindo as minhas, as de Virgo Virgo e as de Alejandra, que também canta no disco. Então, foi um processo fragmentado, mas, nos seus momentos de atividade, foi muito rápido. Muito no fluxo da coisa, muito na intuição, sem pensar muito, só indo.

Gosto muito de comparar cada disco novo que escuto de um artista com alguma ação: “Onde, o que estaria fazendo ouvindo esse álbum?” E o seu álbum me remeteu a músicas de fogueira. Você falou da parte espiritual e do coco; senti muito essa parte quase folclórica, Mário de Andrade e Guerra-Peixe. Foi uma fruição?
Foi uma coisa assim — esse disco surgiu muito a partir das letras e, por conta delas, de muitas histórias entranhadas na minha família. Às vezes de maneira mais visível, outras de maneira mais escondida, menos direta. A partir dessas histórias, fui trazendo esse suporte musical, que já estava mais entranhado no processo. Então faz todo o sentido quando você traz Mário de Andrade, as missões, porque há um lado que é dessa ancestralidade, de um Brasil muito do interior e muito do canto popular, essas formas de canção que são muito ancestrais e muito entranhadas na nossa cultura.

O disco conta com algumas participações especiais, como Luiza Brina, Virgo Virgo, Felipe Neiva, Brina Costa e Paulo Mutti. Há alguma que você gostaria de destacar?
As composições surgiram a partir de letras. Num momento inicial, várias dessas letras não tinham ainda uma forma musical definida. Fiquei olhando para elas e pensei: vou colocar isso na mão de alguns amigos e ver o que desenvolvem em termos de ideia musical, e aí vamos trocando figurinha, entendendo isso ao longo do caminho. Uma das pessoas com quem fiz isso foi Virgo Virgo, cantora e compositora do Rio de Janeiro. Ela tem um EP de 2021 que amo de paixão, chamado “Vergine”. É uma amizade de anos, coloquei essa letra para ela, que me devolveu a canção quase completa. Ouvindo junto de João Abtibol, que também é diretor artístico e produtor executivo desse álbum comigo, fomos entendendo os arranjos ao longo desse processo. Ele veio e disse: “Ouço a Tiê cantando isso com você”. Ele já tinha trabalhado com ela antes e trabalha atualmente, então já havia uma relação, uma coisa ali rolando desde (meu álbum anterior) “Vestígios” (2022). Apresentei para ela e fizemos. É isso: uma canção da Virgo Virgo comigo, cantada pela Tiê, que traz um lugar muito suave dentro do disco, com “Sabiá Sabiá”.

Havia também “Palavra Furacão” e “Atraque”, elas são, de certa forma, a mesma canção: têm a mesma melodia, só que com letras e estruturas diferentes, mas partem da mesma semente de ideia. A intenção era que “Atraque” fosse uma espécie de reprise de “Palavra Furacão” dentro do álbum. E aí falei para Virgo Virgo: “Você quer fazer? Eu queria você cantando sozinha a faixa”. Ela disse: “Bora, vamos fazer”. E foi muito legal. Ao mesmo tempo, há também a participação de Alejandra Luciane dentro do álbum, que assina toda a parte técnica. Então, a produção é minha, a instrumentação e as programações são minhas, mas gravação de voz, mix e master — tudo foi a Alejandra. No processo de gravação, que foi bastante rápido, ela foi ouvindo as coisas e, em “Língua Fera”, tínhamos a ideia de fazer uma participação. Ela experimentou gravar sua voz dentro do estúdio e achamos ótimo. Ela disse: “Vamos nessa, é isso.” Ficou excelente. Era tudo que queríamos.

Conte um pouco mais das emoções que o disco despertou em você.
Esse disco tem um certo lugar que é isso: ao longo dos meus álbuns, sempre tentei articular o estar no mundo, que é uma coisa tão fugidia e incerta, e o processo de amadurecer, que é tão complicado, estranho, esquisito. Tanto que até o meu nome artístico faz menção a isso. Então, sempre parti dessa coisa da dor do amadurecer. Depois fiz “Vestígios” em 2022, que é um disco de releituras da cena independente brasileira dos anos 2000 e 2010, que é o contexto no qual comecei a atuar na música. E conforme fui fazendo shows desse disco, percebi que estava olhando com especial atenção àquilo que se perdia, havia um olhar nostálgico para aquilo, porque eram bandas que não estavam mais em atividade ou coisas que não tiveram sua devida atenção naquele momento inicial. E aí percebi: estou olhando muito para o que se perde, mas quero olhar para o que permanece. Quando fui olhar para o que permanece, fui olhar para essas tradições espirituais, olhar para a história da minha família. Venho de uma família comum brasileira, no fim das contas, uma família que não é de posses, não é de uma situação de privilégio cultural. É uma história completamente normal: o pessoal retirante do Nordeste vindo para o Sudeste, o pessoal vindo do norte de Minas para a capital mineira para construir suas vidas. São histórias absolutamente comuns, mas que ao mesmo tempo têm seu lado de força, e essa força me inspirou tanto na vida pessoal quanto na artística. Acho que há um eco disso dentro do álbum. Volta e meia, há dentro dele alguma imagética espiritual também, “No princípio era o Verbo”, como diz o trecho bíblico. Nesse álbum, no início de tudo, era o verbo. E ao mesmo tempo há várias coisas da ordem da tradição, mas a tradição no lugar do atemporal, não da convenção necessariamente, é o lugar daquilo que resiste, daquilo que pode passar qualquer intempérie, qualquer novidade, e ainda assim continua fazendo sentido. Quis fazer um disco que fosse sobre isso e que soasse dessa maneira também. Essência.

Quais as principais mudanças de “Saudade”, de 2017, para “Ferro e Fogo”, agora nesse início de 2026, quase 9 anos depois, uma realidade totalmente diferente do que era o mundo naquela época?
Nossa, realmente é uma mudança muito grande. “Saudade” é de 2016 para 2017, saiu em 2017. Mas na minha cabeça ela está muito entranhada também com o terceiro EP dos molares, o primeiro EP de 2016. É muito doido, porque no início desse projeto solo, pensava muito nessa história de que, como o contexto havia mudado completamente em 2016, quando comecei esse trabalho, eu tinha uma visão que era quase a de um pop brasileiro estranho. Não tínhamos ainda, para essa geração, uma cara muito definida do pop, Anitta ainda estava no começo de carreira, Pablo estava no início de carreira, Ludmila também e não havia o pop do jeito que ele se desenvolveu ao longo desses últimos 10 anos. Então havia uma espécie de lacuna nesse entendimento do que seria pop. Fiz uma proposta de um pop super específico, experimental e existencial, cruzando vários elementos de fora e do Brasil. Essa era minha visão naquele início de trabalho. Ao mesmo tempo, havia esse lugar da dor do amadurecer. E aí, ao longo do tempo, o macro foi mudando e o micro foi mudando também. Fui tendo outros tipos de experiências estéticas, pessoais e profissionais, fui explorando diferentes searas. Tem, por exemplo, o universo do “Terceiro Molar” e do “Saturno Casa 4”, meu primeiro álbum, ainda muito dentro dessa visão. Aí vem o “S2”, de 2020, um álbum mais eletrônico e mais pop no sentido tradicional, mas que considero muito um álbum de resgate pessoal. Diante de um momento de grande incerteza, a pandemia, perguntava: na ausência do outro, o que sou? Ele tem um pouco esse lugar de experimento. Foi gravado completamente em casa, uma experiência pandêmica mesmo. E aí vieram os “Vestígios”, em 2022, com esse olhar para o lugar de onde vim em termos de contexto, também como artista em início de trajetória. E aí veio “Ferro e Fogo”, com esse olhar para quem vinha atrás de mim e para essa essência, esse lugar da permanência. Vejo uma força diferente nesse trabalho agora, e acredito que esse olhar para a essência vai permear meu trabalho por bem mais tempo. Existe também um certo descompromisso com o lugar de necessariamente articular algo que seja de uma linguagem pop. É mais uma exploração do que é genuíno para mim e do que toca o outro, do que diz algo que é compartilhado enquanto história, contexto, sociedade, sentimento, não necessariamente uma linguagem estética. Acho que talvez isso aponte para próximos passos nesse lugar.

Dentro do aspecto técnico de “Ferro e Fogo” (instrumentos, composição), o que você destaca no álbum?
Esse foi um álbum em que as canções surgiram de maneira completamente peculiar. Quando fui produzir, depois dessa série de shows de voz e guitarra e dessa mensagem espiritual, pensei: “Beleza, vou sentar no meu computador e vou fazer.” Tinha conversado com alguns produtores pensando na possibilidade de fazer esse disco em formato de banda, mas depois dessas apresentações, fiquei num lugar mental de tipo: sei como isso tem que soar, mais do que saber, era um sentir. Não sabia exatamente como soaria, mas tinha a sensação de que me encaminharia para uma sonoridade específica. Sentei no computador, comecei a tocar e programar tudo, e em uma semana todo o instrumental estava levantado. É um trabalho que tem um quê de minimalista, de essencial,timbres simples, timbres básicos. Mas ao mesmo tempo tem uma textura que diz de algo que passou, que enfrentou um passar de tempo. Pelo menos essa era a minha intenção: um timbre de piano antigo, um timbre de bateria mais antigo, um sintetizador clássico e antigo que também pode ser futurista, dependendo de como se queira ler dentro da situação. Pensando nesse contínuo de passado, presente e futuro. A coisa foi muito intuitiva, muito no fluxo, não foi de ouvir referências e depois fazer; fui fazendo e depois fui entendendo: “Isso aqui me lembra DJ Shadow, isso aqui me lembra Maria Bethânia, isso aqui me lembra Baden Powell, isso aqui me lembra Ken, porque tem esse lado meio eletrônico, doido, esquisito.” Foi uma coisa muito solta e foi muito interessante me entregar a esse processo. Uma canção que foi muito específica dentro do processo de produção e que achei muito peculiar foi “Linha de Plutão”, que está bem no meio do disco. Ela não é exatamente um highlight do disco para a maioria das pessoas, pelo menos até agora, mas tem uma coisa que acho muito interessante: é uma canção que recebi em sonho. Sonhei com ela, acordei no meio da madrugada, peguei o celular, comecei a solfejar, voltei a dormir. No dia seguinte, fui ouvir e pensei: “O que é isso aqui? Tem alguma coisa aqui melodicamente.” Fui às minhas anotações (estou sempre coletando anotações para fazer letras) e tinha essa ideia de fazer uma canção que falasse sobre como a geografia dos lugares influencia o temperamento das pessoas, a partir de um trecho da escritora americana Joan Didion. Achei muito interessante pensar nisso e, ao mesmo tempo, minha cabeça fez um cruzamento com algo da ordem da espiritualidade: a Astrocartografia, que é uma linha da astrologia na qual se pega o mapa astral e se coloca sobre o mapa-múndi ou o mapa de uma cidade, formando linhas de energia que tornam determinado lugar mais fácil, mais difícil ou mais interessante para você. Fui estudando isso ao longo do tempo e percebi que, quando colocava meu mapa dentro das cidades onde vivi, sempre morava perto de uma linha de Plutão. E Plutão, dentro da astrologia, é o grande transformador: vida, morte, transformações profundas. Fui olhando para minha história pessoal e para a história da minha família, percebendo essas transformações profundas, entendendo que esse lugar das grandes transformações não me é estrangeiro, talvez porque sempre morei perto de uma linha de Plutão. A canção surgiu assim. Sabia que era uma embolada, porque era com isso que tinha sonhado. Na hora de produzir, no meio da canção, surgiu essa coisa meio eletropunk, e falei: “OK, vamos abraçar isso.” Foi uma coisa que o próprio processo de produção revelou. A deriva me mandou para lá, então fui.

Fale pouco de “Um Corpo que Cai” — é uma música bem dançante, com a percussão bem marcada. Você diria que tem o tal molho latino aí, dentro de uma identidade cultural?
Super, com certeza. E é uma música curiosa também, porque essa é uma das letras que vieram e eu não sabia o que fazer com ela. Mandei para Felipe Neiva, cantor e compositor de Niterói e Portugal. E aí Neiva me devolveu basicamente assim: “Olha, acabou virando uma cumbia, velho. O que você faz com isso?” Falei: “Cara, que coisa maravilhosa”, porque sempre gostei de cumbia, dessas sonoridades cubanas. A produção me levou para esse lugar e foi um molho super especial dentro do álbum, uma feliz coincidência, um acidente feliz, com certeza.

Momento freestyle agora — o que não perguntei, o que você acha apropriado, sinta-se à vontade.
Talvez valha a pena contar um pouquinho do processo de mais algumas canções. “Palavra Furacão” é uma meditação sobre o verbo definindo destinos, de alguma forma. “Quebrando” é sobre essa mesma energia de “Linha de Plutão”, tem esse cruzamento das grandes transformações e de como elas muitas vezes revelam algo de essencial sobre a gente que não era claro, mas que é importante para seguir adiante. “Tombo” é esse lugar de resiliência, e talvez seja a canção com a história familiar mais explícita, porque tenho a história do meu avô materno que, no interior da Paraíba, levou um tombo no meio da mata enquanto carregava algo para a família, perdeu a memória por 7 anos e a recobrou levando outro tombo. A canção é sobre essa coisa completamente mítica e improvável. Sobre a resiliência, mesmo que a pessoa não soubesse desse tipo de história, há outras histórias familiares embutidas ali na filigrana da canção, e ela faz sentido ainda assim nesse lugar de resiliência. “Um Corpo que Cai” tem essa coisa latina, mas é também uma meditação sobre o êxtase de alguma maneira. Aí vem “Linha de Plutão”, vem “Língua-Fera”, que é sobre o desejo e a autopreservação, essa dança que existe entre as coisas. Vem “Sabiá Sabiá”, que é uma canção linda.

– Elsa Villon é jornalista de dados, especialista em Mídia, Informação e Cultura e colecionadora de vinis que está sempre no garimpo nas horas vagas. A foto que abre o texto é de Rony Hernandes

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