Entrevista: Marcelo Cabral fala sobre “Ramal”, disco solo sem contrabaixo e muitos amigos pelo caminho

entrevista de Fabio Machado

A essa altura, o nome de Marcelo Cabral não é estranho para quem acompanha os movimentos da música brasileira nos últimos vinte anos. O contrabaixista e produtor não apenas foi parte essencial do Passo Torto – em parceria com Rômulo Fróes, Rodrigo Campos e Kiko Dinucci – , mas também tocou e gravou com nomes tão diversos como Metá Metá, Criolo, Gui Amabis, Thiago França, Juçara Marçal, Elza Soares e Lurdez da Luz (e essa é a versão reduzida do curriculum).

Mas se os graves do contrabaixo são o cartão de visita mais conhecido de Cabral, seu trabalho solo mais recente tem como principal característica a ausência do instrumento. “Ramal” (2026, YB Music) tem como base riffs de guitarra e levadas de bateria numa sonoridade instigante, que remete tanto às primeiras influências punk/hardcore como às sonoridades mais vanguardistas que permeiam a vida e a discografia do instrumentista paulistano. De tradicional, “Ramal” só tem a produção, feita de forma analógica e com poucos takes.

Aqui, Cabral assumiu as guitarras e vocais e chamou Biel Basile (O Terno) para compor o formato garageiro. Nas letras, contou com mais ajudantes de peso como Kiko Dinucci, Rômulo Fróes, Fernando Catatau e Negro Léo, além de Sophia Chablau – que também canta em temas como “Quem Vem me Acudir”, “O Herói Vai Cair” e “Sex Símbolo”. A variedade de letristas garante uma paisagem lírica variada e etérea, enquanto os instrumentos mantêm tudo bem amarrado ao chão. Vale lembrar que o show de lançamento do disco acontece no Sesc Pompéia(SP) dia 28/5 – ingressos aqui.

Mas o que leva um contrabaixista que gosta de tocar seu instrumento (e também de expandir os limites do mesmo, a exemplo do trabalho feito em “Boneca Russa” com Rômulo Fróes) preferir a guitarra em um trabalho solo? Nesta entrevista feita para o Scream & Yell por chamada de vídeo, Marcelo Cabral explica os caminhos para a construção de “Ramal” – que por incrível que pareça também passa pelo Test, outro grande combo de guitarra-bateria do subterrâneo brasileiro. Confira a entrevista a seguir.

Sei que você toca outros instrumentos e já explorou outras sonoridades em trabalhos anteriores, mas acho que a maioria das pessoas conhece você pelo som do contrabaixo – seja acústico ou elétrico – com muitos artistas que você já acompanhou. Então, o que te levou a deixar os graves de lado dessa vez e trabalhar nesse formato de guitarra, bateria e voz no “Ramal”?
A guitarra foi o meu primeiro instrumento. Eu nunca fui aquele moleque que toca desde pequenininho, mas eu tinha uma guitarra, e tocava um pouquinho, assim, ouvia muito… Eu ouvia praticamente só punk e rock. Foi uma coisa de moleque, minha infância inteira foi dentro do skate, competia e tal. A guitarra é o instrumento forte ali desse universo, que sempre me acompanhou, mesmo eu não tocando, mas ela (continuava) na minha cabeça.

Aí, depois, quando parei de competir nos campeonatos (de skate), em 1990, mais ou menos, comecei a tocar mais, e voltei pra guitarra. Em 1994, decidi ser músico, entrei numa escola super legal, todo mundo tocava lá, e eu só tocava guitarra e violão. Depois de um tempo lá dentro da escola, (o professor) falou: “Cara, pega o baixo ali”.  Eu já tinha tirado umas coisinhas (no baixo) só de curioso. E ele falou: “Cara, você tem um negócio com o baixo, segue com ele”. E eu fui empurrando os dois, levando… de repente, também tinha um baixo acústico lá, comecei a me experimentar com ele. Mais pra frente fui estudar com um francês, o Thibault (Delor), e mergulhei muito no baixo acústico. Foi o instrumento que eu estudei na minha vida. Mas (com) a guitarra sempre junto: a guitarra, o violão, todos juntos. Depois, o sintetizador, e fui aprendendo a produzir, fui produzindo intuitivamente na minha cabeça. Depois, (trabalhando) com outras pessoas, você vai aprendendo com as experiências dos outros, vendo como cada um trabalha.

Mas a guitarra e o violão – principalmente o violão – era meio onde nasciam as composições, sabe? Você falava assim: “Ah, vou fazer uma música”. Aí, naturalmente, eu pegava o violão e vou cantarolando alguma coisa, vou criando uma música, crio um pedaço, uma introdução, ou às vezes só um pedacinho de um acorde ou dois, e falo: “Ah, isso aqui tá legal, vou registrar”.

Durante a pandemia, eu estava ali querendo começar a levantar um disco como se fosse uma continuação do “Motor”, meu primeiro disco, que são as (primeiras) composições que quis gravar, tinha elas no computador. Na época, eu não tinha nem intenção de fazer show. Depois, fui me experimentando, comecei a cantar todas. No disco tem um monte de participação. (Mas) Eu falei: “Ah, vou experimentar cantar, mudar o tom, ver se elas ficam legais”. Fui curtindo isso pra caramba e pensei: “Vou fazer meu show, acho que vai ser legal”.

E aí (no período da pandemia), eu estava começando a fazer já isso, meio que uma continuação do “Motor”, com um estilo de canção, harmonia, melodia, fazendo uns arranjos, produzindo em casa. E de repente, me bateu: “Não, eu quero fazer um disco de guitarra, estou com mó saudade de tocar guitarra…”. Saudade mesmo, de voltar a ligar a guitarra no amplificador, pisar no fuzz. Já estava experimentando um monte de coisas, já era uma coisa que estava vindo. Mas eu já estava fazendo o show do “Motor” mais elétrico, já vinha fazendo esse show sem o violão, eu, Gui Held (fazendo) guitarras e a Maria Beraldo nos sopros, clarone e clarinete. Eu estava curtindo cada vez mais isso, mas pensei: “Ah, já que vou em busca das músicas na guitarra, então vou compor na guitarra”. E fui fazendo umas músicas, intuitivamente, e fui fazendo elas praticamente todas numa região do grave, acho que por já querer que saíssem umas levadas mais pesadas, sabe? Caçando elas, não assim, uns acordezinhos no agudo, uma coisa que normalmente na guitarra você vai mais pra esses lugares, desse registro médio e agudo.

Eu fui com elas pro grave eu falei: “Cara, já está soando mó bem, está legal aqui, eu sozinho”, e eu estava muito próximo do Biel (Basile, baterista) nos últimos anos, através do Sessa e de um monte de coisa que a gente tem feito junto. Falei pra ele: “Cara, vamos ver se de repente rola de ser só nós dois. Vai ser guitarra e bateria, e é isso, porque é uma coisa cerebral. Eu acho que vai dar certo e vai ser legal”. Meto o grave na guitarra, até aprendi depois um negócio com o Kiko (Dinucci), estávamos vendo um show do Test, que o João (Kombi), o guitarrista do Test, ele liga a saída da guitarra num ampli de guitarra e outro de baixo. Então o de baixo é a guitarra, mas é pesada, gorda. Pensei: “Acho que vai dar certo”. E deu super certo. Eu estava até aberto a gravar com o Biel, levantar (as músicas) ali, e se a música estiver pedindo um baixo aqui, eu gravo o baixo, ou chamo alguém.

Mas começou a ficar muito legal sendo nós dois, ter um espaço, a guitarra pesada do jeito que eu queria, e ele também, que é um cara que… não só toca pra caralho, mas que tem uma inteligência tocando. E vir nesses lugares de acompanhar, sendo guitarra e bateria, como fazer disso a maneira mais quente ali, que não fique assim: “pô, tá faltando um baixo aí, né?” Então começou a rolar bem e a gente seguiu, mas sempre aberto, e de repente ficou uma certeza: ”Cara, acho que além de tudo ainda vai dar um show super legal”. Tipo, nós dois, (um formato que) vai dar conta, vai ser divertido, fácil de tocar por aí, e vai ter uma autenticidade legal também.

Legal, eu não esperava essa conexão com o Test, mas faz sentido. Você falou do Biel, e ouvindo o disco dá pra perceber logo de cara que o “Ramal” é um disco onde tem esse elemento rítmico bem importante ali, não só na bateria dele, mas também nos riffs de guitarra, na sua voz, tem os padrões rítmicos ali. Era uma coisa que você já tinha em mente quando começou a trabalhar nos temas?
É, sabe quando você já vai… (pausa) Por exemplo, no “Motor” eu ia buscando umas harmonias, uns encadeamentos, espontaneamente arpejando [nota do redator: arpejo é uma sequência de notas referente a um acorde, portanto “arpejar” seria o ato de tocar esses arpejos] para achar uns caminhos melódicos, harmônicos, assim, bonitos. Na guitarra, eu já estava querendo exatamente o oposto. E aí, consciente mesmo, fui caçar uma levada assim, tipo (a música) “Ar”. [começa a cantarolar o riff inicial da música] “Tchugumdégudumgarumgudum…” Foi uma coisa meio “deixa eu ver o que que sai” e ficou legal.

Fui separando umas coisinhas. (Outra canção do álbum) “Quem vem me Acudir”: [cantarola o riff inicial] “Pém! Pém! Pém-pém-pém!” Tipo, não é nem um acorde amontoado, que eu seguro as notas tudo junto. O que importa é a primeira (nota) do grave que dá o [cantarola de novo, enfatizando as notas graves] “Pém! Pém! Pém-pém-pém!” O resto é uma maçaroca pra pesar mesmo. Fui indo atrás exatamente disso, de já buscar esse movimento de cara na música, e não depois querer trazer isso, sabe? Já nascer disso daí, assim, do movimento.

Além do Biel, eu vi que a Sofia Chablau é a presença mais constante no disco. Ela foi coautora da música”Sex Símbolo” e também colaborou em outras canções. Como surgiu essa parceria?
Eu já tinha escutado o disco dela e meio na época que ela lançou esse último (“Música do Esquecimento”, de 2023) com a (banda) Uma Enorme Perda de Tempo, fiquei super fã. Falei: “Pô, essa menina é demais”. Aí fui gravar com a Yma e o (Fernando) Catatau e ela estava lá.

E a gente ficou como aquelas amizades que… é meio raro, mas às vezes você fica amigo pra caramba em cinco minutos da pessoa, sabe. Tem algumas pessoas que acontecem isso. E ficamos: “Pô, a gente precisa fazer alguma coisa, não sei o quê”, “É, pô, já já vai aparecer”. Aí surgiu o disco do (Felipe) Vaqueiro. Não lembro se ela já tinha gravado a voz comigo (antes), mas foi uma coisa meio tudo junto e começaram a surgir coisas, porque você quer que aconteça alguma coisa que estávamos fazendo juntos. Ela me mostrou uma música nova. Começamos a ficar amigos de parceria, trocar ideia, rolou uma abertura de um com o outro.

E eu tinha na minha cabeça que queria uma voz que abrisse essas (minhas) melodias, assim, na ponta, algo que a voz feminina dá. Mas eu queria uma mina, e uma roqueira, sabe? Esse registro agudo (da voz), mas de alguém que já é dessa linguagem, que não precisa explicar nada. São intenções, né? Não adianta você falar pra uma pessoa que é de um outro rolê que “aqui é mais forte, aqui é a intenção mais… sei lá, mais profunda”, que às vezes não é a da pessoa, né.

A Sofia, no que eu a conheci, pensei: “Pronto, achei a pessoa que eu queria pra gravar as vozes”. E junto estava toda essa coisa já vindo ali, do disco do Felipe Vaqueiro com ela (“Handycam”, de 2025) e ela gravando no meu, e depois a gente começou a fazer um monte de coisa juntos. Aí já falei: “Tenho uma música aqui, posso te mandar?” E ela: “Lógico”. Fui lá na casa dela, depois ela veio aqui, mostrei como estava o processo. E ela se tornou parceira e amiga, entrou pro som de uma maneira fácil.

Muito bom. E além dela, temos outros convidados neste trabalho, muita gente que você já conhecia de outros tempos como Fernando Catatau, Kiko Dinucci, Romulo Fróes, Negro Léo, Rodrigo Campos, Alice Coutinho e Douglas Germano. Você já tinha visualizado nesses convites qual música seria mais interessante pra cada um colocar a sua contribuição ou foi algo mais orgânico?
Tanto no “Motor” quanto nesse (novo álbum), eu normalmente componho e deixo as músicas respirarem. Aí dou um play e fico escutando, porque eu não faço letra. E deixo brotar quem eu acho que teria a ver com aquele universo. Tipo, a do Catatau. Eu já estava com “Tarde Azul” pronta fazia algum tempo. Eu fui assistir o Catatau numa temporada que ele fez no Centro da Terra (em São Paulo), ele estava lá toda segunda-feira. E aí, assistindo, eu falei: “Pô, aquela música minha é do Catatau, pronto, vou mandar pra ele”. Não tinha a menor dúvida que era pra ele letrar aquele ambiente.

E o resto foi exatamente dessa mesma forma. Quando eu estava fazendo “Quem Vem Me Acudir”, não era “Quem Vem Me Acudir” (ainda), era só uma melodia com a guitarra. Falei: “Cara, isso aqui o Negro Léo vai conseguir fazer um negócio legal”. E aí sempre vem algo que você não espera. Você não sabe que brisa que vai bater na pessoa, de assunto. (Deixei) em aberto, não falei nada pra ninguém: “Pô, essa daqui é a cara do Kiko, essa daqui é a cara do Rodrigo Campos, essa daqui acho que é do Romulo, essa daqui é da Alice Coutinho”… Deixei para ver o que que vinha, espontaneamente, sabe?  Algo que às vezes você não consegue explicar direito.

Tenho uma pergunta que é mais uma curiosidade porque quando fui ouvir, eu achei muito semelhante: A música “O Herói Vai Cair” tem uma introdução com uma virada de bateria que achei muito parecida com “Peaches em Regalia” do Frank Zappa, que também tem essa idéia da introdução da bateria e depois já entra no tema. Provavelmente foi só uma coincidência, mas existe alguma conexão? E aproveitando a pergunta, você teve alguma referência de outros artistas nessa música ou em outros temas do disco?
A gente carrega as influências que ouvimos desde criança, né? De tudo que a gente imaginar, vai ficando nos nossos ouvidos. E tem época que você está ouvindo alguma coisa mais loucamente ali no repeat, algum disco, alguém que você está pirando, aquilo lá vai ficar mais presente e tal. Mas, tipo, esse som que você falou do Zappa, eu nem sei qual que é. São coincidências da música e da arte que estão por aí, uma virada (de bateria) e cai na levada, é uma levada que é um ritmo, uma levada que existe, á aí no mundo.

Mas também foi um outro processo, como eu gosto muito de pensar com calma. Uma época eu estava: “Cara, quem que eu vou chamar pra gravar?” Já havia pensado no Biel, obviamente, mas também tinha pensado em chamar vários bateristas. “Essa daqui é mais a cara de não sei quem, vou chamar não sei quem…” E falei: “Não, acho que só o Biel vai ser legal pra caralho”, porque a gente estava fazendo muita coisa (juntos), eu vendo ele mandando muito bem em tudo quanto é tipo de onda, sempre dentro do estilo dele, com uma pegada dele, mas uma pessoa muito versátil.

E aí também foi legal que eu cheguei lá com ele, e já estava com as músicas prontas – letra, melodia, mapa, o que repete. Não (algo) preso… “Ó, se quiser, vamos repetir seis vezes aqui, cada um, vamos tocar”. Mas eu não falei nada pra ele, nenhuma música. Falei: “Ó, tem essa daqui, ó” [cantarola de novo o riff de “Quem Vem me Acudir”] ou puxava uma outra. Ás vezes falava assim: “Essa daqui tem uma cara meio…” tipo “Companheiro Estelar” com o Rodrigo (Campos), meio que poderia ser o nascer de um samba, alguma coisa assim. Mas falei: “Acho que ela tem uma coisa que pode ficar com um temperinho meio latino, de alguma maneira”.

Assim, sabe? Às vezes só uma coisa assim, mas não falava: “Quero que você faça isso, a referência é essa, vamos pôr isso, vamos tentar fazer algo bem na onda”. N ão foi por ai. Acho que é uma coisa que enriquece quando você já conhece a pessoa: “Vou chamar tal saxofonista porque é dessa onda, ele vai chegar, vai apavorar…” Já ajuda muito pro negócio crescer. Então, com ele foi a mesma coisa. Mas não levei nada que eu colocasse uma diretriz. Conheço muito bem ele (Biel), não sabia o que ele ia fazer, o que é mais legal ainda. Estava em aberto, mas sabendo ali no dia-a-dia, tocando com ele, que ia vir coisa boa daí.

Só veio coisa maravilhosa. Acabava de tocar e ele levantava e eu falava: “Porra, Biel, foda!” Toda música que terminava, eu falava isso. “Caralho, muito bom, muito bom. Vamos gravar? Vamos gravar”. E já emendando para meio que outro assunto da gravação. A gente levantava, tocava um pouco: “Porra, tá legal pra caralho, hein? Será que a gente já não grava?” Tá, então já vamos gravar. E já ia assim, quente, sabe? Não fizemos dez ensaios, depois gravação… A gente já foi já meio conhecendo as músicas, tocando à vontade.

Montava a música e daí vocês dois já gravavam juntos ali na hora, é isso? E vocês gravaram de forma analógica, na fita, em vez de ser no digital, certo?
Isso. O Biel e o Sessa têm um estúdio juntos, e aí o Sessa tem esse gravador de rolo que é demais e que tem uma textura muito específica, muito bonita. Também tem uma coisa que a fita já leva você a não fazer dez, quinze takes. Fica ali, tipo, dois, três takes… a próxima música, não sei, acabou o rolo. O próximo rolo, não tem. Não estávamos no Abbey Road, né, pra você ficar gravando rolos e rolos de uma música só.

Então, foi tudo coisa que veio pra um lado bom, até pela experiência que a gente já tinha (tendo) gravado dois discos lá, os dois do Sessa, esses dois últimos, gravado mais umas outras coisas também, da Anelis… Já tinha gravado um monte de coisa em fita, aí falei: “Cara, eu acho que vai ficar legal em fita isso daí “. Porque a fita tem uma saturada e um “quente” que ela não clipa, não estoura, dá uma compactada, uma comprimida natural dela, de uma maneira quente. Em vez de estourar, o que iria no digital fazer aqueles barulhinhos chatos, assim, que você não quer, na fita isso daí vai pra um lugar legal.

Agora, falando também sobre as parcerias, mas não só no caso do “Ramal”. Queria falar um pouco sobre o “Boneca Russa”, que havíamos comentado um pouco antes da entrevista começar. Tive a oportunidade de conversar com o Rômulo e vi vocês lá na Casa de Francisca, e acho que fica bem claro que você é uma parte integral do trabalho, ainda que a história seja do Rômulo. Gostaria que você dividisse um pouco como foi a sua abordagem nesse álbum, em relação aos arranjos de contrabaixo acústico e uso de efeitos.
Quando ele me falou de fazer o disco só nós dois, já de cara achei como se estivessen me dando um presente. Falei: ”Porra, vai ser legal pra caralho”. Porque eu adoro, fico criando aqui, estou com uma ideia já faz um tempinho de fazer um disco só de baixo acústico, eu sozinho. Então, eu já tenho essa pira com baixo acústico há muitos anos e (é algo) profundo, de ficar experimentando coisas nele, passando por filtros, objetos, vendo o que eu posso tirar de sons diferentes, meio brincando, como se fosse uma coisa meio de criança. “Esse aqui com esse aqui, ah, esse aqui é legal, é, esse aqui mais ou menos…” e somando coisas.

Ele (Rômulo) veio com o violão no primeiro dia que fizemos (as músicas do disco), ficamos ensaiando aqui em casa nesse quartinho que é o meu estúdio… (ele) tocava um pouco só pra eu entender a música, sabe? Tipo: “Sol menor, ah tá, tararam tararam, pronto, acabou”. Só pra ficar com ela na cabeça. Aí eu já falava: “Agora, fica sem o violão porque aí eu vou soltar aqui pro lugar que eu quiser”.

E eu fiquei com uma coisa assim: “Cara, como esse disco tem esse tema todo, eu vou por um movimento nele”. Não vai ser uma aberração (risos) porque o tema já é na voz dele, nas letras, as melodias e as harmonias já são dele. Então pensei: “Acho que eu já vou ir tentando”. E também, como a gente tem uma abertura boa, acho que ele já veio pensando em mim, querendo que eu quebrasse isso. De novo, tipo, eu não fui na dele em nenhuma, assim, desrespeito absoluto (risos).

Sem uma preocupação com a harmonia original ou com a forma?
É, (mas) com a harmonia meio que era, tipo, se é Fá sustenido, Si com sexta e tal, eu respeitei isso, só que abrindo (os arranjos) do meu jeito e me desconectando do ritmo que ele puxou, do andamento e da intenção que ele puxou. Fiz assim: “Ah, peraí, que acho que eu pensei numa coisa”, e aí, tipo, está só dentro do tom dele. O resto eu fui e falei: “Eu acho que vai ficar legal, que que você está… (achando)”? Aí fuçando, “Ah, legal isso aqui”. Aquela primeira (“A Hora Mágica”) que começa com o arco, espontaneamente fui falar: “Acho que vai ser um negócio legal, um arco aqui meio cortante” e ele falando (as letras), não exatamente uma coisa assim andando a harmonia, só uma coisa assim: [cantarola o início da música]. Meio indo nas intenções dele, como ele quisesse. Teve uma onda ali que a gente foi muito comprando a do outro assim, né?

Mas eu que fui super jogando pra onde eu achava que seria legal. De brotar pra não ter o perigo também, porque o tema já é denso, de não ficar um negócio assim, tudo meio pra trás e carregado, senão o disco teria que ter cinco músicas (risos). A pessoa já acabou com a pessoa assim (risos). Já cortou os pulsos assim, né? Mas eu fiquei pensando também e falei: “Tá, agora já veio pra cá, então vou tentar um negócio miudinho no arco…” Mais cerebral, no sentido de ficar tentando passar a perna em mim mesmo. “Agora eu vou tentar jogar o negócio lá pra frente”, então, com os baixos, socar aqui uma baqueta aqui… Teve várias coisas que eu nunca tinha feito, que vem da vontade: “Precisa de uma outra coisa, peraí”. [Faz onomatopéias como se estivesse batucando no contrabaixo] Taca, taca, tucaca, tucaca, taca, taca, taca.

Fiquei caçando ritmos diferentes ali e também já estava pensando em fazer de uma maneira que, do (mesmo) jeito que a gente grava, já está pronto o show, né? Porque depois, no estúdio, eu poderia fazer 10 takes de baixo, aí um outro arco, aí não sei o que. Depois, o disco vira um negócio gigante e no show você fala: “Putz…”. O que eu vou poder fazer, né? O que que eu consigo fazer sozinho e que tenha um drive legal assim, uma engrenagem boa pra cada música? “Agora aqui vamos se enterrar nas profundezas, então vamos pro arco, nem na névoa ali”. Brincando com várias paisagens…

É legal ter esse pensamento do ao vivo também, me parece que é uma cabeça também de produtor sua, certo? Não só pensar na parte de executar, mas também como tudo isso vai soar lá na hora?
Sim, acho que espontaneamente você já vai carregando essas coisas. Aí você fala: bom, já tem uma “fortona”, então essa daqui vai ser mais pra cá, aqui uma circular, agora eu vou fazer um negocinho bem meio caixinha de música na “Olga” (faixa do disco em homenagem à filha de Rômulo), sabe? [imita os sons iniciais da música] pim, tim, tim, tim, tim, tim, tim, uma coisa assim, sabe? Fiquei pensando nela e ela foi pra esse lado, e assim a gente foi criando cada uma.

Bom, estamos chegando ao final do tempo da entrevista, mas voltando ao “Ramal”: vocês fizeram um primeiro ensaio no Mamãe Bar tocando as músicas do disco, certo? Tem mais shows previstos com essa formação? Qual a expectativa para mostrar esse trabalho ao vivo?
Ah, tem sim. Estamos indo atrás agora dos shows, vai ter um lançamento no Sesc, em 28 de maio. Mas vai ter mais, com certeza. Marcar shows, lembrando de lugares pelo Brasil, conectando todo mundo, estou super afim de fazer.

A apresentação do Mamãe Bar já foi super legal pra testar o show e falar: pronto, era isso. Feliz pra caralho, deu certo, o Biel (na bateria), o repertório que eu estava na cabeça está rolando, vai ter a Sofia também no show, mas não só participação especial, ela vai estar na banda, fazendo guitarra e voz. Vamos criar mais ainda, eu quero pôr mais umas músicas que estou terminando, ter mais umas inéditas pra fechar um repertório inteiro novo. Fiquei experimentando umas músicas antigas minhas, trazendo pra uma outra roupagem.

Mas aí eu não estava curtindo e falei: “Ah, quer saber, vou fazer mais música nova”. Então, fiz mais umas novas também, que depois, mais pra frente, eu quero fazer um EP, sabe, com mais umas quatro (músicas). Então, já está quase tudo alinhado, vai rolar os shows, e aí vou vendo como as coisas vão se desenrolando. Mas com certeza, para o show do lançamento, mandei fazer um vinil, que eu espero muito que fique pronto (a tempo). Capaz que fique pronto logo mais, no começo de maio, se tudo der certo.

Para finalizar: se você pudesse elencar três trabalhos da sua discografia, seja solo ou como parte de outros projetos, quais seriam?
Os três discos que pensei, de trás pra frente: um que é bem forte aqui pra mim é o “Passo Elétrico”, o segundo álbum do Passo Torto (de 2013). Que até tem esse negócio: no primeiro do Passo Torto era tudo acústico, violões, cavaco e contrabaixo; aí, no “Passo Elétrico” a gente eletrificou tudo – o Kiko foi pra guitarra, Rodrigo na guitarra e o baixo acústico já estava com um monte de pedais. Um disco feito por nós quatro (eu, Rômulo, Rodrigo e Kiko) e só com composições nossas. Acho que é a primeira vez que tem uma música minha, se não me engano.

E tem uma coisa muito especial, porque eu comecei a compor justamente por causa deles, por estar em tanto contato com eles, que são super compositores. Os caras compõem pra caramba, alto nível. E ao invés de eu ficar ressabiado, tipo: “pô, nem vou compor, já tô com os caras aqui”, fui fazendo e eles foram me dando uma força, e quando eu vi já estavam nascendo as parcerias. Eu fui curtindo muito compor, e acabou entrando ali a “Isaurinha”, talvez mais uma, uma parceria com o Rodrigo. Mas eu canto em uma outra também, e eu nunca tinha cantado, gravado (em estúdio)

Depois, um outro que acho de 2014, é um trabalho que eu produzi do Vicente Barreto, eu amo esse disco, chamado “Cambaco”. Que são umas músicas incríveis de lindas do Vicente. Eu no baixo, Rodrigo Campos de guitarra e Serginho Machado de bateria. Um disco incrível, maravilhoso, o Vicente é um super cantor e compositor. A gente nem tocou muito ele por aí, mas é um disco que amo demais. E foi o primeiro disco que eu produzi sozinho – eu já tinha produzido o primeiro da Lurdez da Luz com o Daniel Bozzio, tinha feito o “Nó na Orelha” e o “Convoque seu Buda” do Criolo. Mas aí esse foi o primeiro que o Vicente me chamou e pediu para produzir.

E um outro que eu também gosto demais, é do MC Sombra, que se chama “Fantástico Mundo Popular” (de 2014). Esse eu produzi com o Daniel Bozzio, que é um grande parceiro, a gente já fez muita coisa juntos na vida. Esse disco tem uma coisa que a gente ficou mais ou menos um ano produzindo. E aí ficava recortando samples, ficava uma tarde inteira só fuçando beats, fazendo uns laboratórios no estúdio do Daniel, e o Sombra trazendo, finalizando músicas, ele já tinha algumas. E a gente foi decupando esse disco nesse processo, e eu acho um discaço. Fico muito feliz e honrado de ter feito, e também com um dos artistas que eu acho um dos maiores do mundo. Acho uma coisa descomunal o nível do Sombra, de talento, de ideia, super autêntico… é um dos grandes caras da história da música pra mim, um swing, um flow que não existe.

E esse álbum do sombra tem uma coisa luxuosa que é a mixagem do Scotty Hard, que é um cara de Nova Iorque muito foda. E várias participações também. Fui fazendo, sampleando, produzindo os beats, e também chamando pra participar, igual o processo que eu te falei das músicas (no “Ramal”) que eu ficava vendo pra quem mandar as letras, nesse disco (do Sombra) eu pensava: “Ah, aqui vou chamar o Kiko Dinucci pra gravar guitarra”. Ou fazia uma sessão de percussão com o Maurício Badé… Fui chamando um monte de gente assim, quando já tinha uns esqueletos bons de cada música, uns beats já montados. É um disco que gosto muito.

– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos. 

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