Em São Paulo, Men at Work inicia turnê nacional com viagem nostálgica

texto e vídeos de Bruno Capelas
fotos de Fernando Yokota

Toda vez que uma banda com décadas de carreira lança um novo disco ou começa uma nova turnê, uma pergunta sempre aparece nas entrevistas: “qual é a motivação para seguir em frente?”. Alguns respondem que a culpa é da necessidade de se expressar. Outros confessam o tesão em estar em cima do palco. Há quem diga que a amizade entre os membros é o que faz tudo acontecer. Mas é sempre necessário considerar que há aqueles, entre um boleto e outro, que continuam apenas porque precisam trabalhar. Na noite do último dia 6, no Vibra São Paulo, foi possível testemunhar uma banda cujo nome parece talhado para estar no último grupo: o Men at Work, que fez ali o primeiro de sete shows pelo País.

Surgido em 1979, na Austrália, o Men at Work de hoje é uma firma muito diferente da que gravou três discos nos anos 1980 (“Business as Usual”, de 1981; “Cargo”, de 1983, “Two Hearts”, de 1985), ganhou fama mundial e se separou rapidamente. Da formação original, resta apenas o vocalista e guitarrista Colin Hay, que permanece à frente do grupo com ares de veterano gerente.

Para o lugar dos integrantes originais, com a maioria dos quais brigou há quatro décadas, Hay arregimentou uma turma de novos funcionários na América – os cubanos San Miguel Perez (guitarra), Yosmel Montejo (baixo) e Jimmy Branly (bateria), além da estadunidense Rachel Mazer (saxofone, flauta, teclados e vocais). Além deles, há ainda a mulher de Hay, a peruana Cecilia Noël (backing vocals e percussão), que também serve como animadora de palco e tradutora para o português do cantor escocês criado na Austrália.

Logo ao subir ao palco, Cecilia não precisou nem de 30 segundos para vir à frente da ribalta pedir o apoio do público. Parece algo protocolar, mas era necessário: o show estava prometido para as 21h, mas atrasou para além dos protocolares 15 minutos, começando só próximo das 21h30. Impaciente e enfrentando filas para comprar bebida, o público protestou pela espera. “Vamos lá, galera, é quarta-feira, amanhã eu tenho que estar cedinho no trabalho”, chegou a gritar uma fã em meio à demora.

Apesar da animação da peruana, o começo do show é morno, quase protocolar, com lados-B do repertório da banda e canções da carreira solo de Hay – caso do genérico boogie “Broken Love” ou da setentista “Come Tumblin’ Down”, com ares de classic rock. Até aí, não dá pra culpar o Men at Work: quem nunca passou o primeiro trimestre apenas enrolando no trabalho até o Carnaval que atire a primeira pedra. Mas há quem salve o momento da mediocridade: em “Can’t Take This Town”, Mazer faz um solo de sax que faz o público levantar voo, como se estivesse numa happy hour.

É a senha para que a apresentação comece de fato, com uma versão bonita e climática de “Down by the Sea” – nela, Colin Hay mostra que sua voz segue no lugar, com bonitos vocalises agudos. Na sequência, vem um hit das FMs brasileiras – e só delas: “Into My Life”, canção solo do vocalista incluída na trilha sonora de “Rainha da Sucata” e até hoje executada nas rádios nacionais. “Vocês brasileiros gostam de cantar. E fizeram dessa canção um sucesso”, diz agradecido o vocalista. A plateia deixa as conversas paralelas de lado e urra em retorno, alçando não só a voz, mas também os celulares para registrar o momento.

Quando o ritmo do trabalho parece que vai engrenar, porém, o Men at Work tira o pé do acelerador, ao executar uma sequência de canções menores. É, contudo, o momento em que melhor se pode observar o que esta banda é hoje: distante do apelo new wave que os tornou famosos, o grupo é hoje uma banda de classic rock razoavelmente conservadora, mais próxima dos anos 1970 do que dos anos 1980.

Parte disso se deve aos arranjos mais festeiros executados pelo grupo – muitas vezes, influenciado pela verve latina de seus novos integrantes, que ganham espaço do compreensivo gerente Hay para apresentarem seu trabalho. É o que acontece, por exemplo, em “Blue for You”: com um solo caliente de Perez, ela perde não só seu caráter de espacialidade esparsa, mas também muito da melancolia que lhe dá nome. Já Montejo, por sua vez, esbanja virtuosidade em “No Sign of Yesterday”, mas o alto número de notas executadas por minuto faz a canção fugir da intenção original, soturna e seca.

Ao longo da noite, no entanto, o Men at Work vai encontrando o seu rumo, tal como uma equipe que descobre que as metas definidas pela alta liderança são possíveis de atingir. O trabalho também vai sendo melhor executado à medida em que a tarefa começa a ser executar os sucessos da banda, começando pelos semi-hits “Underground” e “Dr. Heckyll & Mr. Jive”. Assim, quando chega a hora da baladaça “Overkill”, todos já estão entrosados e sabem o que precisa ser feito, entregando um dos melhores momentos da noite.

O resultado é tão bom, tão convincente, que o time parece relaxar – a ponto de Cecilia Nöel começar uma bizarra coreografia imitando um robô em “Helpless Automaton”. É um momento tão esquisito que, na sequência, o grupo é forçado a reconhecer que errou e se redime com “It’s a Mistake”. É o encaminhamento correto para acabar o quarter – quer dizer, o show – , com uma trinca de hits sacolejantes: “Who Can It Be Now?” chega primeiro com seu sax deliciosamente safado; depois, é a vez do hino australiano “Down Under” e do encerramento com “Be Good Johnny”, colocando todo mundo pra cima sem direito a bis.

Ao final de quase duas horas, o que o Men at Work faz está longe de ser um daqueles shows que vão mudar a vida de alguém – e está tudo bem. Desde o primeiro acorde, o grupo é honesto em entregar o que prometeu para o público: uma viagem nostálgica, às vezes até a um passado que não se viveu, com direito a um hit aqui, outro acolá. Às vezes, trabalho é só mesmo… trabalho. Problema é quando a gente acredita que ele é mais que isso. Ou, para pegar emprestadas as palavras de um grupo contemporâneo ao Men at Work, mas de menor sucesso de público: “that’s entertainment”.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *