entrevista de João Paulo Barreto
O fascínio pelo circo move “Mambembe” (2026). Porém, não somente pelo circo em um aspecto romântico ou idealizado, mas, também, encontrando formas de se conectar com as pessoas que fazem parte daquele universo distante de qualquer glamour e criando um elo de identificação com seu público tanto nas cadeiras sob a tenda do picadeiro, quanto nas poltronas do cinema. O filme do diretor Fabio Meira prima por criar esse modo de conexão com suas três figuras centrais, mulheres que vivem em um circo itinerante e se encontram na busca por um norte em suas próprias vidas.
Com Índia Morena, uma das figuras referenciais em relação à cultura circense no Brasil, a maturidade de uma mulher segura de suas convicções e afirmativa no que quer em termos de felicidade para sua própria vida é apresentada com altivez. Vivendo a si mesma como personagem do filme que mescla aspectos documentais com ficção, Índia capta e transmite com precisão a ideia de uma vida calejada na dedicação ao circo. Comanda a apresentação dos espetáculos com a mesma segurança que comanda seus próprios anseios e impulsos afetivos, demonstrados em alguns momentos do filme.
Junto a ela, Madona Show, também artista circense, tem na vida com os dois pés na estrada uma busca por seu próprio sentido de continuar atrás desse mesmo equilíbrio e lugar de pertencimento. “Mambembe’ traz Madona falando de sua trajetória, abordando uma renúncia pessoal perante a necessidade de cuidar de sua mãe doente. Fechando esse trio, a personagem também real Jéssica é vivida pela atriz e assistente de direção Dandara Ohana. Em sua abertura, a Jéssica real surge em cena, encantadora, e faz o próprio diretor comentar sobre seu magnetismo para com a câmera. Na juventude da Jéssica encarnada por Dandara, um reflexo daquela dos sonhos que Índia e Madona nutriram por toda a sua vida.
Ao refletir sobre a influência da cultura circense em sua própria vida e sobre o aspecto itinerante daquela vida na estrada, o diretor e roteirista Fabio Meira insere Rui, um personagem de um misterioso topógrafo, vivido por Murilo Grossi, e que espelha seu próprio pai, também topógrafo que viajou o Brasil a trabalho e que surge no filme em imagens de arquivo. Na sua narração, Meira desenvolve essa relação e como a perda o afetou. Projeto iniciado há quinze anos, “Mambembe” chega aos cinemas após dois outros longas de Fabio Meira, no caso “As Duas Irenes” (2017) e “Tia Virginia” (2023).
No papo com o Scream & Yell, Fabio Meira fala sobre o processo de criação de “Mambembe”.
Dentro de um processo de produção que durou mais de dez anos e de montagem que chegou a cinco anos, o roteiro do filme passou por muitas mudanças nesse período?
O roteiro era bem diferente. O filme que pensei era completamente diferente do filme que acabou acontecendo. Acabei tendo que me colocar como personagem. Toda essa parte da construção do filme, do processo dele sendo feito, não fazia parte da idealização inicial. Foram quinze anos do processo de construção desse trabalho. Por exemplo, eu já tinha gravado aquela narração da primeira cena em que eu comentava. No momento em que decidi que o processo também faria parte do filme, acabei me colocando mais como personagem. E a história do meu pai aconteceu durante o próprio processo de fazer o filme. Foram, no total, mais de cinco anos de montagem. E aí a história vai se transformando e a vida, também. Quando decidi que o processo ia fazer parte, também decidi que eu ia colocar um pouco da motivação para fazer o filme. Decidi falar que existia um paralelo entre aquele personagem e meu pai. Só que eu não sabia o que iria acontecer dois anos depois. Então, quando eu achava que a montagem estava fechada, alguma coisa me levava a voltar a ela e terminar de encontrar o filme, que foi se transformando ao longo do tempo.
No resultado final, vemos o processo de criação do próprio filme sendo trazido, com os percalços e atritos, comuns em qualquer produção. E tem aquela cena na qual Murilo Grossi acaba se irritando durante uma cena. Como foi esse processo de inserir no longa essa construção técnica?
Essa é, geralmente, a primeira pergunta que aparece quando eu faço sessões de apresentação do filme. As pessoas se dividem na plateia entre os que acham que aquilo é encenado, e os que acham que aquilo, realmente, aconteceu. E eu tenho combinado com o Murilo (Grossi, ator do filme) que a gente nunca responde. Essa é uma resposta que eu nunca dou. Isso é exatamente o que me interessa no filme. Que as pessoas não saibam o que é ficção e o que é realidade. Foi isso que procuramos na montagem o tempo inteiro. Fico muito feliz quando uma plateia entra em debate, cada um com uma certeza, explicando o motivo de como aquela pessoa tem certeza de que aquela cena não foi encenada. E os outros, não. Assim como você falou. Você, por exemplo, tem certeza que ela foi real. Mas tem gente que faz teorias, falando sobre quando, depois, ele derruba o lixo. Isso era o que a gente mais queria que acontecesse. Que não soubessem o que é verdade e o que encenação no próprio filme.

Em paralelo ao processo de criação de “Mambembe”, você ainda dirigiu outros “As Duas Irenes” (2017) e “Tia Virginia” (2023). Como foi voltar a “Mambembe” durante todos esse anos?
É muito interessante essa pergunta, João. Porque é um filme feito por um diretor muito jovem, com muita energia, e montado por um diretor um pouco mais amadurecido, depois de ter feito outros dois filmes. Então, acho que o filme tem isso de interessante. Porque ele coloca o mesmo profissional, o mesmo artista, em dois momentos distintos da vida. Porque tem uma transformação profissional de 15 anos ali. O próprio fato de ter feito e lançado dois longas porque a gente aprende muito sobre o filme, também, quando o apresentamos para o público. Acho que amadureci nesse processo e consegui olhar para aquele material de 2010 com outro olhar. Mas também muito encantado com o diretor de 2010, e sua grande energia e sua grande vontade de fazer um primeiro filme.
De onde veio seu fascínio pelo circo, Fábio?
Na estreia do filme no Rio de Janeiro, eu, Índia e Madona fomos na Escola Nacional de Circo, um lugar que eu nunca tinha ido. E a diretora da escola me fez a mesma pergunta. E é um fascínio que vem desde a infância. Sou de Goiânia, uma cidade muito conservadora. Então, quando aqueles circos iam para lá, ocupavam aqueles terrenos baldios e faziam aqueles espetáculos, para uma criança já diferente em um terreno completamente conservador, era como se fosse um vislumbre de liberdade, sabe? Então, era como se eu pudesse vislumbrar outras vidas possíveis que não aquela vida monótona e vigiada que eu tinha em Goiânia. Então, acho que meu fascínio vem dali. Vem da liberdade daqueles artistas e de uma outra maneira de vida que o circo me mostrava. Que era possível ter uma vida diferente além daquela vida comum a que eu achava que estava condenado, sabe? Eu fiz aquela viagem que está no filme. Foram oito estados, quatro semanas e 63 circos. E fui conhecendo muita gente que tinha fugido com o circo. E é exatamente isso. O circo é fascinante. Ele é muito envolvente. Então, de alguma maneira, aquilo fica embrenhado na gente. Quem tem o espírito um pouco mais aventureiro, um pouco mais livre, acaba se encantando por esse universo.

E é curioso porque em cada personagem real do filme, como a Madona Show e a Índia Morena que aparecem já após tantos anos do começo das filmagens, não surge um sentimento de nostalgia, mas de completude tanto pelo trabalho como pela vida circense. Como foi esse reencontro para você?
Tem uma coisa, João, que era muito interessante. Porque teve esse processo que levou quinze anos. E tinha uma coisa que, claro, era muito difícil para mim, que era conviver com um filme incompleto. Porque, de alguma maneira, aquilo não deixa de ser um fracasso. Fazer uma coisa durante mais de dez anos. É uma coisa que te dói no peito. E com as atrizes, eu sentia um pouco isso também. Porque, por exemplo, o caso específico da Madona foi interessante porque as pessoas, os amigos dela, achavam que ela tinha inventado, que ela nunca tinha feito um filme. Eles falavam: “Ah, mas você fez um filme, mas cadê esse filme? Ele não existe.” Então, quando ligamos para ela, mais de 10 anos depois, para fazer a última entrevista, ela achou que fosse um trote. E a mesma coisa quando ligamos após eu ter sumido mais um pouco. Porque o processo foi sempre longo. E quando a chamamos para estreia no Festival do Rio, ela, de novo, achou que era uma brincadeira. Ma ela veio e foi muito bonito. Foi sua primeira viagem de avião. A Índia não, ela me esperava a qualquer momento. Porque a Índia é aquela sede de vida, aquela confiança de si mesma. Todo lugar que ela chega, ela é uma estrela. Na visita à Escola Nacional de Circo, ela puxou tudo. Fez uma encenação com as jovens estudantes de circo. Enquanto a Madonna achou que eu nunca mais fosse voltar, a Índia sempre me esperou. Nessa ocasião, inclusive, quando a Madona iria viajar para o Rio, antes, ela foi até a cidade da mãe, que ficava a uns 200 km de distância, falar para ela que estava indo ao Rio de Janeiro apresentar um filme. E isso a mãe, que já estava com mais de 90 anos, pediu à filha que não deixasse de visitar o Cristo Redentor. E ela foi. Agora, ela voltou para a estreia do filme, só que a mãe dela acabou de falecer. Isso fez com eu que eu lembrasse da história do meu próprio pai. Como, por ser um filme de um processo longo, ele acaba ganhando novos significados a partir da própria vida. Então, a viagem da Madona foi marcada por um pedido da mãe: “Não deixe de ir ao Cristo”. E essa segunda viagem ao Rio, ela já não tem a mãe. Mas, ao mesmo tempo, ela voltou até a casa da mãe, mesmo já falecida, porque, de alguma maneira, ela sabia que a mãe ainda estava lá. Acho isso muito bonito e tem muito a ver com o filme.
O filme transmite para a gente essa sensação daquelas pessoas pertencerem àquela vida circense e curioso fazer esse paralelo com a vida do artista como um todo.
Ser artista é uma sina. Então, se você for analisar, se for prestar atenção no que é o filme, e no que é o artista de circo e no que é o artista de cinema, só pode ser sina. Porque o mundo está o tempo inteiro dizendo não. O tempo inteiro são barreiras e dificuldades. São chuvas e tempestades no circo. São problemas de orçamento no cinema, ou são problemas de produção. Mas a gente não consegue fazer outra coisa. Só nos realizamos como seres humanos se estivermos exercendo a nossa profissão, o nosso talento. Então, eu acho que, realmente, ser artista é uma sina. E não é para qualquer um. É para quem é resiliente e para quem persiste. É preciso resiliência, persistência e muita coragem. Isso sobra em Índia Morena e, também, sobra em Madona e em Jessica.

Há uma química fica muito bonita entre as três, Índia, Madona e Jéssica, vivida por Dandara Ohana.
Sim. E Dandara foi apagar um incêndio, né? Porque a Jéssica real não pôde viajar. Então, acaba que quem faz o papel da terceira menina de circo é uma atriz, mas não uma artista de circo, como era o meu projeto inicial.
Sensação de dever cumprido após tantos anos?
Sim. Dever cumprido. Agora o filme chega ao cinema e cumpre o objetivo final dele. É onde o filme, realmente, se estabelece. Quando ele vai ter sua estreia comercial na sala de cinema. E é por isso que eu sinto que, agora, um ciclo se fecha. Não só o ciclo do filme, mais um ciclo na minha vida. E também acho que, agora, estou abrindo espaço para novos projetos. Porque esse, agora, eu estou entregando para o público. Dever cumprido.
E a escolha de “Mambembe”, do Chico, na voz e imagem e Elza Soares em um filme tão feminino tem um símbolo bem grande.
“Mambembe”, do Chico Buarque, fala sobre essa sina do artista. Sobre essa beleza, também. Por mais que seja ali de uma maneira improvisada, de uma maneira que não é a ideal, mas o amor pela arte está ali. E eu acho que essa música traduz um pouco o filme. E com a Elza cantando foi uma coisa pela qual eu batalhei bastante também. Então, fico feliz de ter conseguido isso para o filme. Ela e Índia se comunicam muito. São mulheres negras, fortes e apaixonantes. São mulheres muito cativantes. E com a letra do Chico, acho que fala um pouco sobre a liberdade do filme. Porque ninguém espera que naquele momento vai vir um arquivo dos anos 1960 para fechar o filme. E isso é justamente a beleza ali. E aí eu volto para a sua pergunta sobre o que me interessou no circo. Foi a liberdade. Eu quis que o filme também fosse livre.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.
