Mac McCaughan (Superchunk): “Ver shows, ver bandas ao vivo, isso me dá esperança”

entrevista de Bruno Capelas e Igor Müller, do Programa de Indie

Hoje em dia, quando um artista estrangeiro começa a frequentar constantemente o Brasil, a piada corrente é que ele já reúne todas as condições necessárias para tirar seu CPF. Se tal máxima for verdade, pouca gente merece mais o documento do que Mac McCaughan, vocalista e guitarrista do Superchunk – afinal, ele já tocou aqui quatro vezes, sendo três com a banda e uma em carreira solo. Além disso, já chegou a gravar (com seu projeto paralelo Portastatic) até “De Mel, De Melão” (2000), um EP com canções de gente como Joyce, Gilberto Gil e Arnaldo Baptista.

Blagues à parte, fato é que o Superchunk está pronto para matar a saudade do país: nesta semana, o grupo toca no Rio de Janeiro (dia 30, no Agyto, com produção da Rio Gold Soundz – ingressos aqui) e em São Paulo (dia 31, no Cine Joia, produção da Balaclava Records – ingressos aqui). No repertório, a expectativa é de tocar não só as canções de quatro décadas de carreira, mas também do recente “Songs in the Key of Yikes” – lançado no ano passado, o guitarreiro álbum traz em seu título um jogo de palavras com um clássico de Stevie Wonder. “É um trocadilho que traduz bem o momento do nosso país – e que aconteceu aí no Brasil antes, com a ascensão do fascismo e do nacionalismo branco. Todos os dias, há alguma notícia nos jornais que nos faz pensar ‘meu Deus, que porra está acontecendo?’”, comenta McCaughan.

Cofundador e até hoje à frente do histórico selo Merge Records, responsável por clássicos de Neutral Milk Hotel, Magnetic Fields, Lambchop e Arcade Fire, entre tantos, McCaughan também não vê um bom momento na indústria fonográfica. “Mais do que nunca, nunca tivemos tanta música boa sendo feita por aí. Mas tem sido muito difícil ganhar dinheiro com a música que fazemos. Os serviços de streaming foram criados para dar dinheiro para seus acionistas, não para os artistas – e agora eles tentam incorporar música de IA para não precisar pagar ninguém”, diz.

Apesar dos pesares, ele tenta manter o otimismo tanto na política (“As pessoas que apoiam Trump são uma minoria”) quanto na música (“Ver bandas ao vivo me dá esperança”). Uma das formas de manter o otimismo, aliás, é se colocar na estrada: “Tocar ao vivo é uma parte importante da vida de uma banda. Se você lança um disco, você precisa tocar ao vivo – e nós amamos fazer isso”, diz o vocalista do Superchunk, que virá ao Brasil ao lado do parceiro Jim Wilbur (guitarra), da baterista Laura King e da baixista Betsy Wright, responsável por substituir a cofundadora do grupo, Laura Ballance. “Para mim e para Jim, é muito divertido ter gente nova na banda”, diz.

No papo a seguir, gravado originalmente para o Programa de Indie e agora publicado no Scream & Yell, McCaughan fala de tudo um pouco: Steve Albini, Donald Trump, David Byrne, dos desafios de sobreviver ao streaming, da paixão pela música brasileira e da estranha sensação de envelhecer num mundo em que as pessoas assistem filmes inteiros na tela do celular. “Temos que nos adaptar ao jeito como as pessoas consomem música hoje. Felizmente, muita gente ainda quer ouvir discos de vinil e CDs”, suspira.

Ele também fala com carinho das primeiras passagens pelo Brasil, que incluíram visitas a Londrina, Recife e Brasília (“Que lugar maluco!), restaurantes de beira de estrada, shows em bares de metal, galinhada e até uma goleada do São Paulo sobre a Portuguesa no Canindé – ainda que nem se lembre de tudo isso. “O mais interessante foi ver que tínhamos público em todos os lugares – e um público que mora muito longe do lugar onde viemos!”, diz, como quem torce para que a sensação se repita no próximo final de semana. Com a palavra, Mac McCaughan.

Mac, essa vai ser a quarta vez do Superchunk aqui no Brasil, depois de passagens em 1998, 2000 e 2011. Do que você se lembra dessas turnês? Quais são suas principais memórias do Brasil?
Bem, as duas primeiras vezes que fomos ao Brasil, em 1998 e em 2000, foram alucinantes. Tocamos em muitas cidades! Claro, já tínhamos ouvido falar de São Paulo e do Rio de Janeiro… mas foi muito doido chegar em Belo Horizonte e de repente descobrir que era uma cidade gigante, da qual eu nunca tinha ouvido falar. A viagem nos fez perceber o quanto o Brasil é gigante. Aprendemos muito sobre o país indo a lugares diferentes. Tocamos em cidades de serra e na praia, muitas paisagens diferentes. Na segunda vez que viemos, fomos a Recife e a Brasília. Que cidade maluca é Brasília! Foi surreal, de verdade. O mais interessante foi ver que tínhamos público em todos os lugares – e um público que mora muito longe do lugar onde viemos!

Na terceira vez que vocês vieram, em 2011, vocês tocaram no interior de São Paulo. Como foi?
Sim! Lembro que foram dois eventos ao ar livre. Havia um festival de noite e depois um festival de dia. Como era o nome daqueles subúrbios?

Vocês tocaram em Sorocaba e em Jundiaí, que são duas cidades do interior. Era um evento chamado Virada Cultural Paulista, que tinha shows rolando 24 horas por dia.
Pois é, pois é, foi incrível. Lembro que o show que fizemos à noite foi muito doido, a plateia era enorme. O show de dia foi bom também. Acho que temos uma filmagem daquele show, que usamos para fazer o clipe de “Learned to Surf”.

Não é muito comum que bandas estrangeiras toquem em tantos lugares no interior do Brasil, como Recife, Brasília ou Londrina. Era ainda menos comum nos anos 2000. Você lembra como isso aconteceu? Por que vocês tocaram em tantas cidades?
Não lembro exatamente como as coisas rolaram na época. Mas sei que quem nos falou sobre tocar no Brasil foi o pessoal do Fugazi. Lembro de conversar com o Ian [MacKaye] e ele me falar sobre dois caras, chamados Marcos Boffa e Jeff Santos. Eles cuidavam da (produtora mineira) Motor Music na época. Lembro que o Ian me disse: “Eles vão dar um jeito de te levar para lá e os shows são incríveis, o público é excelente. Mas vocês precisam estar preparados: quando você sair de São Paulo e for tocar nas cidades menores, vai parecer que são uma banda punk fazendo turnê pelos Estados Unidos nos anos 1970. A infraestrutura é totalmente diferente”. O fato é que essa turnê do Fugazi fez o Marcos e o Jeff pensarem que poderiam levar outras bandas para lá – e funcionou conosco. Tocamos em Curitiba, Londrina, Belo Horizonte… Acho que tocamos em mais de 11 cidades. Hoje em dia, me parece que seria muito mais difícil fazer algo assim. Não sei o porquê – daria para achar que, graças à internet, seria mais fácil promover um show, mas não é. Enfim, o que sei é que o Ian estava certo quanto à infraestrutura. Tocamos num bar de metal. Tocamos num restaurante – e, quando chegamos, eles estavam mexendo nas mesas para abrir espaço para um palco. O que me deixou ainda mais impressionado é que sempre havia gente para nos ver tocar. Também lembro que nós dirigimos muito naquelas turnês. Não sei se chegamos a pegar algum voo, para ser sincero. Vimos bastante o interior do Brasil, paramos em restaurantes de beira de estrada e comemos também a maravilhosa comida que vocês têm aí. Fomos ver um jogo de futebol… deve ter sido no Rio de Janeiro, mas não me lembro exatamente. Era o time da cidade do Rio contra… outro time do Rio? Não sei. Talvez tenha sido em São Paulo. Sei que foi alucinante, por vários motivos. Lembro de achar que a cerveja que serviam no estádio era horrível – até alguém me explicar que era uma cerveja sem álcool, porque não podiam vender cerveja normal num jogo de futebol. E lembro também que, para dividir as torcidas rivais, havia uma fileira de caras enormes com armas. Achei aquilo tudo muito doido.

Acredite ou não, ainda é assim!
O que sei é que foi incrível poder viver um pouquinho como um brasileiro por alguns dias.

(Nota da redação: como o leitor pode imaginar, não existe exatamente um time “da cidade do Rio de Janeiro” no futebol brasileiro. Além disso, nos anos 1990, era possível beber cerveja com álcool nos estádios cariocas. Em São Paulo, porém, a venda de bebidas alcóolicas em estádios é proibida desde 1996. Além disso, gastamos um tempo tentando descobrir em que jogo o Superchunk foi. Neste tweet, o jornalista André Barcinski publicou uma foto do grupo no estádio do Canindé, supostamente em 1998 curtindo um jogo da Portuguesa após comer uma galinhada do Bahia. Na foto, Mac e Laura aparecem ao lado de Barcinski, Boffa, Paulo Cesar Martin e Fábio Massari. Mas no período em que o Superchunk esteve no Brasil em 1998, a Portuguesa não jogou em casa. Um WhatsApp enviado a Paulo Cesar Martin matou a charada. “Foi quando eles vieram tocar em 2000. Era um jogo do Campeonato Paulista: eles comeram pra caramba na Galinhada do Bahia e depois emendamos com o jogo, um São Paulo 4 x 2 Portuguesa. O jogo teve três gols do atacante França).

O Superchunk mudou de formação desde a última vez que esteve aqui. Não só a Laura King entrou no lugar do Jon Wurster na bateria, mas também a Laura Ballance deixou de tocar com vocês ao vivo. Como essas mudanças fazem o Superchunk soar hoje em dia no palco?
Já estamos tocando com a Laura King há alguns anos. Ela definitivamente tem um estilo bem diferente do estilo do Jon. Ela toca pesado, como o Jon tocava, mas de um jeito mais selvagem. Nos nossos dois primeiros discos, nosso baterista era um cara chamado Chuck Garrison. A Laura toca como o Chuck – o que nos fez voltar a tocar algumas canções antigas, como o repertório de “No Pocky for Kitty” (1991). É uma característica interessante, faz com que eu e Jim voltemos no tempo e permite que a banda soe mais como nos discos de antigamente. Laura é uma baterista excelente, além de ser uma ótima companhia nas turnês. Além disso, teremos a Betsy Wright, do Ex Hex, no baixo, nessa turnê. Nós a conhecemos há um tempão e ela tem tocado conosco há algum tempo. Juntas, Betsy e Laura fazem uma ótima seção rítmica. Para mim e para Jim, é muito divertido ter gente nova na banda, gente que gosta de tocar ao vivo como nós gostamos. É um bom time!

O que os fãs podem esperar para os setlists aqui no Brasil? Como vocês criam um setlist, aliás?
Escrevemos um setlist diferente todas as noites. Hoje temos uma porção de discos, o que não nos permite mais tocar músicas de todos eles numa noite só. Mas tentamos fazer um set bem variado, colocando algumas canções de “Songs in the Key of Yikes”, mas também de “No Pocky for Kitty”, que está fazendo 35 anos agora. Vamos tocar algumas de “Majesty Shredding” (2010), de “Here’s Where The Strings Come In” (1995), de “On The Mouth” (1993). Tentamos percorrer todo o nosso repertório. Vou fazer um post nas redes sociais para que as pessoas possam pedir músicas. Se não forem pedidos muito lado-B, podemos tentar incluir algumas favoritas dos fãs. Mas tentamos sempre tocar o máximo possível do nosso repertório.

Bem, nós temos um pedido especial: “This Summer”. Foi a primeira do Superchunk que tocamos no programa!
Ok, ok, vou anotar aqui! Vocês vão em São Paulo ou no Rio?

Vamos em São Paulo! Uma coisa que percebemos, Mac, é que o Superchunk sempre inclui um cover ou outro no setlist, de artistas como Sebadoh ou Magnetic Fields. Por que tocar músicas dos outros, ainda mais quando vocês têm um repertório tão extenso? Qual é a graça?
Sempre fizemos covers! No começo da banda, nós adorávamos pegar uma música como “A Hundred Thousand Fireflies”, do Magnetic Fields. A original é bem específica, com teclados, uma bateria eletrônica e um som bem tosco, bem rudimentar. Nós a transformávamos numa música bem diferente. O mesmo vale para o Sebadoh. A maioria das músicas deles que fazemos covers são acústicas, mas nós gostamos de tocá-las bem alto. De maneira geral, é divertido tocar músicas que a gente ama. Também é legal porque sabemos que muita gente na plateia pode conhecer essas músicas e gostar delas, mas não esperar que a gente as toque. É o tipo de coisa que pega a plateia de surpresa.

Vamos falar um pouco de “Songs in the Key of Yikes”, que vocês lançaram em 2025. O primeiro tema que eu preciso debater é, obviamente, o trocadilho no título com o disco de Stevie Wonder (“Songs in the Key of Life”, de 1976). De onde ele surgiu?
É um trocadilho que traduz bem o momento do nosso país. É um momento que também aconteceu aí no Brasil antes, com a ascensão do fascismo e do nacionalismo branco. São movimentos bem nocivos se consolidando no poder. Todos os dias, há alguma notícia nos jornais que nos faz pensar “meu Deus, que porra tá acontecendo?”. Quanto ao disco do Stevie Wonder, é um disco que sempre esteve na estante da minha família, ouvíamos muito quando eu era criança e adolescente. É uma expressão que sempre usamos. Mas acho que transformá-la em algo um pouco menos positivo encaixa bem no momento que estamos vivendo agora.

O que assusta nos Estados Unidos é saber que Trump voltou ao poder. É algo que não achamos que iria acontecer. Aqui no Brasil, agora vivemos a possibilidade não de ter Bolsonaro, mas sim seu filho na Presidência. Você tem algum conselho?
Nós é que devíamos pedir conselhos para os brasileiros, porque vocês conseguiram tirar Bolsonaro do poder e colocá-lo na prisão. Trump deveria estar na cadeia, mas não conseguimos fazer isso. Sinceramente, não sei. O que podemos fazer agora é saber que as pessoas que apoiam Trump são uma minoria. Precisamos entender como enfrentar um sistema que eles estão manipulando em benefício próprio.

Apesar de ter “yikes” – algo como “eca” ou “eita” em português –, ainda assim este é um título bem humorado para um disco. Como foi gravá-lo?
Parte do espírito do disco se deve à Laura King. Como disse, ela se juntou a nós alguns anos antes desse disco. Tocamos muito ao vivo juntos e o jeito dela tocar bateria foi uma das inspirações para que escrevêssemos as canções do disco, porque sabíamos que elas poderiam ter baterias marcantes. Com isso em mente, começamos a criar as primeiras demos. Foi uma direção diferente do que fizemos em “Wild Loneliness” (2022), um disco mais acústico, feito durante o período de isolamento social. É natural: depois de um álbum assim, queríamos ter um disco mais roqueiro e a Laura nos ajudou muito nesse sentido. Esse foi o nosso ponto de partida.

Uma das músicas que mais me chamou a atenção em “Songs in the Key of Yikes” foi “No Hope”. O que te dá esperança agora no mundo, Mac?
Ver shows, ver bandas ao vivo, estar numa sala com um monte de gente que está tentando achar uma forma de manter uma comunidade ativa. Isso me dá esperança, ainda mais num momento em que há tantas forças tentando destruir as comunidades. Também tenho esperança quando vejo quantas pessoas vão às ruas para protestar contra esse governo, para protestar contra o ICE, a polícia de imigração dos EUA. Só uma minoria de pessoas apoia essas políticas e esses políticos. A força está do nosso lado quando conseguimos nos unir.

E que shows bons você tem visto ultimamente?
Bem, vi um show incrível esses dias. David Byrne tocou aqui em Durham com sua banda, incluindo o Mauro… (pensa um pouco)

Mauro Refosco?
Sim, é o percussionista que toca com ele há algum tempo. Foi um dos melhores shows que já vi. E olha que já vi Byrne outras vezes e já vi o Talking Heads, mas esse show foi incrível. O que mais… (pensa). Sabe o que é engraçado? Meu filho tem 18 anos hoje. Ele toca bateria numa banda, outro dia eles estavam ensaiando uma música do Built to Spill. Pude ver o Built to Spill ano passado, foi um baita show. Sempre é bom, mas agora eles têm uma cozinha que está muito forte. Todos os clássicos e as músicas novas funcionaram muito bem.

“Wild Loneliness”, de 2022, é um dos nossos discos favoritos do Superchunk. Nesse disco, vocês têm a participação de Raymond McGinley, do Teenage Fanclub. Como foi trabalhar com ele? É uma amizade antiga?
Quando começamos o Superchunk lá atrás, lançamos nossos três primeiros discos pela Matador Records – e o Teenage Fanclub também. Lembro que nos conhecemos naquela época, chegamos a fazer uma turnê juntos pelos Estados Unidos no começo dos anos 1990. Talvez tenha sido na época de “Bandwagonesque”. Lembro também que abrimos para eles na Inglaterra na turnê de “Thirteen”. Já viajamos bastante juntos. Além disso, a Merge Records lançou todos os discos deles aqui nos Estados Unidos desde o “Man Made”, de 2005. Já trabalhamos muito juntos! Quanto ao “Wild Loneliness”, preciso dizer que foi um disco difícil de ser feito. Ele foi gravado exatamente nesta sala onde estou agora, isolado do resto do mundo. Por outro lado, como todo mundo estava trancado em casa, com seus próprios estúdios, em meio à pandemia, todo mundo estava online. Graças à tecnologia, era fácil mandar arquivos pela internet. Assim, podíamos mandar um alô para o Norman [Blake] e o Raymond e pedir para eles colocarem vocais em uma música. Ou para a Tracyanne [Campbell], do Camera Obscura. Ou então pedir para o Franklin Bruno, do Nothing Painted Blue, tocar piano. Apesar de não estarmos perto das pessoas, foi muito bom colaborar com tanta gente – e no fim das contas, colaborar a distância é algo bem divertido!

É um disco que soa quente, mesmo tendo sido gravado com cada um em um canto…
Que bom! Bem, não foi tão sozinho assim. Quando começamos a gravar, o Jon vinha e montava a bateria de um lado da sala. Eu ficava aqui do outro lado, gravando com o notebook, apertando o botão de rec. Nós dois usamos máscaras, claro. Foi um processo bem… fragmentado, mas no fim das contas deu certo.

Já que estamos falando de colaborações, vamos falar sobre dois produtores com quem vocês trabalharam ao longo da carreira. Um deles é o saudoso Steve Albini. Do que você se lembra quando pensa em Steve?
Steve era um cara único. Creio que ele mudou muito ao longo dos anos que nos conhecemos. Ele sempre foi muito legal conosco. Quando fizemos “No Pocky for Kitty”, foi incrível trabalhar com ele. Estávamos muito nervosos, porque bem, ele já era o Steve Albini e nós estávamos apenas no nosso segundo disco. Mas ele foi capaz de reconhecer o que era importante na banda que estava gravando. Ele era muito intencional em capturar o que cada banda queria fazer. Mais do que isso, ele sabia fazer isso de um jeito muito eficiente – especialmente porque ele sabia que gravar era muito caro e as bandas pagavam com a conta. Ele realmente colocava o artista no centro do processo quando trabalhava. É muito especial trabalhar com alguém assim, em vez de trabalhar com alguém que está só tentando impor sua própria marca nas coisas. Entende? Claro, Steve tinha um som característico por conta do jeito que ele trabalhava, mas esse era o som que nós queríamos fazer. Ao longo dos anos, sempre o víamos quando estávamos em Chicago. Também gravamos várias vezes no Electrical Audio. Steve era um grande defensor de que os artistas fizessem o que tinham vontade de fazer.

O outro é o Jim O’Rourke, com quem vocês trabalharam no final dos anos 1990.
Gravamos “Come Pick Me Up” com Jim O’Rourke justamente no estúdio do Steve Albini. Jim também é um cara incrível. Adoro os discos que ele faz, adoro as ideias dele. Na época, sabíamos que ele seria capaz de trazer algo especial para aquelas canções. Lembro que nós passávamos o dia inteiro no estúdio, gravando sem parar. Quando acabávamos de gravar, Jim voltava para casa e passava a noite inteira escrevendo as partituras para cordas, os arranjos para metais, e depois voltava para o estúdio. Não sei a que hora ele dormia. Ok, ele às vezes tirava um cochilo ou outro no sofá. Mas era realmente sensacional ver alguém que estava a fim de trabalhar tão duro quanto a gente, fazendo horários malucos, para ver o disco acontecer.

Por falar em horas de trabalho malucas, você tem outro trabalho além do Superchunk, que é a Merge Records. É uma gravadora cuja história se confunde com a história da própria banda. Como estão as coisas agora para vocês?
Viver de música tem sido muito difícil hoje em dia. Mais do que nunca, nunca tivemos tanta música boa sendo feita por aí. Mas tem sido muito difícil ganhar dinheiro com a música que fazemos, porque os serviços de streaming nos pagam muito pouco. Os serviços de streaming, em sua maioria, foram criados para gerar dinheiro para seus donos e acionistas, não para os artistas. Isso chegou a um ponto em que eles agora tentam incorporar música feita por IA, para não precisar pagar ninguém. É contra esse tipo de coisa que estamos lutando hoje. Mas, como eu disse, há muita música incrível sendo feita hoje em dia, o que ainda faz ser divertido lançar discos no mundo. Acabei de ouvir o disco novo do Lambchop, que deve sair em breve. Outro disco que vamos lançar nos próximos meses é o do Ibibio Sound Machine. São artistas dos quais somos fãs – e sempre que eles lançam um disco novo, é muito legal poder ouvir o que eles estão fazendo. Hoje à noite, vou ver o The New Pornographers ao vivo. Lançamos o disco novo deles [“The Former Site Of”] em março, então estou bem animado.

Está mais difícil hoje do que quando vocês começaram, no final dos anos 1980?
Com certeza. Quando começamos, não havia nenhum jeito de ter acesso a discos de graça. Não havia uma forma de fazer streaming de graça. As pessoas apoiavam as bandas comprando LPs, comprando CDs. Quando o Superchunk fez sua primeira turnê, tudo o que nós tínhamos lançado era um compacto. Talvez tivéssemos dois. Mas poderíamos fazer uma turnê com base nesses dois compactos – e as pessoas descobriam o que fazíamos nas lojas de discos ou com ajuda do rádio. Agora, com o streaming e a quantidade de lançamentos que existem hoje, é cada vez mais difícil se destacar em meio a tanto ruído, é difícil furar a bolha.

É um tema interessante. Crescemos usando a internet no Brasil – e acreditando que a internet era uma coisa boa. Graças a ela, pudemos descobrir bandas como o Superchunk, os Replacements ou o Teenage Fanclub. São bandas que não tocavam no rádio no Brasil. Mas agora, temos a mesma impressão que você: é muito difícil passar por cima do ruído e chegar a algo legal – e aí a internet virou um lugar chato.
Pois é. Constantemente, me pego tentando ouvir discos e consumir as coisas de um jeito moderno. Sei que tem gente que consegue ler o jornal no celular, ler longos artigos no smartphone. Para mim, não rola. Meus filhos assistem um filme inteiro na tela do celular! Mas é esse o mundo que nós vivemos hoje. Temos que nos adaptar ao jeito como as pessoas consomem música hoje. Felizmente, muita gente ainda quer ouvir discos de vinil e CDs. Mas é sempre uma dúvida: quando vamos lançar um disco, sempre nos questionamos. “Será que as pessoas querem CDs?” “Será que as pessoas querem vinil?”. “Qual é o jeito que as pessoas estão ouvindo música?”. E em muitos casos, acho que é no streaming, então… temos de estar lá.

No Brasil, muitas bandas estão lançando discos de vinil agora. E isso é bom, mas é curioso: temos amigo que é colecionador de CDs, e ele fica chateado que ninguém mais lança CDs hoje em dia. (risos)
Pois é, faz parte! (risos)

(Nota da redação: o amigo é ninguém mais que Marcelo Costa, editor deste site. Bandas do Brasil e do mundo, sigam fazendo CDs para continuar forrando a parede da casa do Marcelo!)

Além de ser mais difícil ganhar dinheiro com o streaming, também parece que está cada vez mais difícil fazer turnês. Tanto com o Superchunk quanto apoiando novos artistas na Merge, como as coisas estão funcionando para vocês?
É difícil fazer turnês – e é muito difícil ganhar dinheiro com turnês. Nem sei como as coisas vão ser, agora que o preço da gasolina aumentou consideravelmente por aqui. O que sei é que sempre achamos um jeito de rodar, porque amamos tocar ao vivo. É uma parte importante da vida de uma banda. Se você lança um disco, você precisa tocar essas canções ao vivo. Nós amamos fazer isso. Ir ao Brasil, por exemplo, custa muito caro. Não será uma turnê em que vamos ganhar muito dinheiro. Mas uma das melhores coisas de estar numa banda é poder tocar ao vivo. É poder conhecer lugares aos quais você não iria se fosse de outra forma. Vejo que muitas bandas estão tentando encontrar um jeito de fazer isso funcionar. Mas também consigo entender se uma banda disser que não vai para a estrada até que o preço da gasolina baixe, por exemplo, porque não pode correr o risco de perder dinheiro numa turnê.

Ainda falando sobre a Merge, vocês já lançaram muitos discos históricos – caso de “In the Aeroplane over the Sea”, “Funeral” ou “69 Love Songs”, só para citar três. Mas qual é o maior orgulho que você tem ao longo desses mais de 35 anos?
Temos muita sorte de poder trabalhar com todos os artistas que já trabalhamos. Uma das coisas que mais me orgulho é o fato de que temos relacionamentos muito duradouros com alguns artistas – e eles continuam querendo que nós lancemos os seus discos. Bandas como o Lambchop, The Clientele ou o Teenage Fanclub, por exemplo. É um privilégio poder ver esses artistas evoluírem, crescerem e se transformarem – e ainda poder participar disso lançando seus discos.

Mas você tem discos favoritos? Tipo uma lista da ilha deserta só da Merge?
Meu Deus! Acho que não. Não quero citar nomes, não quero que pareça que estou favorecendo ninguém! (risos)

É justo, é justo! Vamos falar de outros favoritos então: você tem um relacionamento muito próximo com a música brasileira, até pelo que foi registrado no EP “De Mel, De Melão”, do Portastatic. Como esse relacionamento começou? Foi quando o Superchunk veio ao Brasil? Foi antes? Como a música brasileira chegou até você?
Quando eu era criança, meu pai tinha os discos de bossa nova do Stan Getz, como “Getz/Gilberto”. Eu não sabia bem o que era aquilo, mas era algo que nós ouvíamos muito, que sempre esteve no meu inconsciente. Em algum momento dos anos 1990, meu amigo Jonathan Marx, que tocava no Lambchop, tocou um disco do Caetano para mim. Era um dos discos mais malucos do Caetano, “Araçá Azul” (1972). Não sei se entendi bem o que estava acontecendo no disco, mas achei aquele som muito interessante. Jonathan também me falou dos Mutantes. Naquela época, era bem difícil achar esses discos nos Estados Unidos, mas comecei a procurar pelos CDs. Se havia algo de música brasileira nos EUA na época, é porque estavam relançando os CDs aqui. Lembro de falar sobre música brasileira com Jim O’Rourke quando estávamos gravando “Come Pick Me Up”. Quando finalmente fomos ao Brasil, eu tinha uma lista imensa de discos que eu estava procurando. Não vou conseguir lembrar o nome da loja, mas lembro de estar numa loja gigante de discos em São Paulo. Havia só CDs, mas era gigante. Passeei pelos corredores com o Boffa e ele ficava apontando os discos: “esse é bom, esse também”. Também lembro que fizemos uma noite de autógrafos numa loja de discos em São Paulo, era um lugar bem chique, parecia uma Tower Records – e aproveitei para comprar um monte de discos ali também. Espero que a gente tenha tempo de comprar alguns discos novos dessa vez.

Como foi escolher as músicas que você queria registrar no EP?
Escolhi as coisas que eu estava mais escutando na época. Também fiz um filtro para ver o que eu conseguiria cantar. Lembro que mandei algumas das letras para a Alê [Briganti], dos Pin Ups. Pedi a ela para traduzir as letras para mim, só para ter certeza de que eu entendia o significado daquelas músicas. Não é como se eu estivesse só cantando essas palavras sem que elas significassem algo para mim. Foi muito bacana fazer esse disco – mesmo que tenha sido muito difícil cantar algumas das músicas ali. Mas confesso que fazer os novos arranjos foi bem, bem divertido.

Há mais alguma música brasileira que você gostaria de gravar por agora?
Não sei! Ultimamente, ando bastante ocupado reaprendendo a tocar canções antigas para a turnê. Temos tocado muita coisa que não tocamos há um bom tempo, então não tenho tido muito tempo para pensar em gravar algo novo.

Faz sentido! Para fechar, Mac: temos uma pergunta tradicional para encerrar nossas entrevistas, que é saber os cinco discos que você levaria para a ilha deserta.
Ah não! Você não pode me perguntar isso no último minuto da entrevista, cara. Você tem que me dar três dias para eu poder pensar numa lista dessas! (risos) Vou tentar fazer algo rápido, com as primeiras coisas que vierem na cabeça. Vamos lá. “Power, Corruption and Lies”, do New Order. “The River”, do Bruce Springsteen. “Compilation”, uma coletânea do The Clean. Tenho três até agora, né? “Treasure”, do Cocteau Twins. E vou com uma coletânea da Joyce – em CD, porque tem um monte de canções nela!

Muito bom. A Joyce é incrível, ela fez um show do “Feminina” no ano passado e foi excelente!
Sabe que eu nunca a vi ao vivo? Muitos artistas brasileiros já vieram aqui. Vi Caetano algumas vezes, Gal Costa, Gilberto Gil, Jorge Ben. Mas nunca vi a Joyce. Ela sempre toca em Nova York e em Los Angeles. Ela toca no Blue Note de Nova York, mas nunca consegui ir lá para vê-la.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010. Igor Müller é locutor de rádio e um dos responsáveis pelo Programa de Indie. 

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