texto de Manoel Magalhães
fotos de Michelle Castilho (galeria)
Não é qualquer um que esgota ingressos em uma quarta-feira no Rio de Janeiro. Sendo o show de um artista que escreve e canta em espanhol, a façanha parece ainda mais relevante. Jorge Drexler fez sua estreia oficial no palco do Circo Voador totalmente abraçado pelos cariocas. Tocar no Circo foi um pedido do artista, que tinha passado por ali participando de um show de Caetano Veloso. Lançando seu 15º álbum, “Taracá”, nome que faz alusão ao som do menor tambor do candombe uruguaio, o compositor trouxe para essa noite especial uma banda numerosa e formada majoritariamente por mulheres, todas com suas próprias carreiras solo.
O show começou em ritmo de palmas e refletores piscando em contra-luz para introduzir uma canção da nova leva, “Toco Madera”, já cantada pela plateia como se fosse um clássico. Ela resume o espírito atual de Drexler: é carregada pelos tambores na célula do ritmo de matriz africana abraçado por nossos vizinhos uruguaios. Na sequência, um salto no passado com “Telefonia”, do álbum “Eco” (2004), coincidentemente ou não, o último gravado em Montevideo antes do atual. É impressionante a forma como a plateia acompanha as letras, do começo ao fim aos berros. “Polvo de Estrellas”, do mesmo álbum, fechou a dobradinha retrospectiva.

Drexler reuniu uma sequência de três candombes de fases distintas da carreira e convidou o percussionista Victor Aguirre ao palco. Primeiro “Bienvenida”, canção resgatada dos primórdios de seu trabalho de compositor, depois “Tamborero”, do álbum “Sea” (2001), inspirada no músico tradicionalista Lobo Núñez, e “Quimera”, já mais recente, lançada em 2017. É um bloco que repassa a trajetória do artista com o gênero e mostra que o disco atual é o desenvolvimento de um trabalho de décadas, não apenas mais uma tentativa de emular o que Bad Bunny tem feito. É necessário ressaltar o trabalho do baterista Marc Pinyol e de Julio Sanrizz e Eva Català na percussão. São eles que sustentam o show e trazem novidade e swing para o trabalho de Drexler.
O canhão de luz focado no cantor sozinho com sua guitarra semi-acústica adianta que é hora do sucesso “La Edad del Cielo”. A faixa é bastante conhecida no Brasil por conta da regravação em português de Paulinho Moska (e também ganhou uma versão de Vivian Benford aqui no Scream & Yell). Antes de começar a cantar, ele agradece aos artistas brasileiros que estão na plateia, como Lenine e Jotapê. O Circo Voador todo canta junto.

Em “Las Palabras” ele foi pra galera, literalmente. Desceu do palco e se enfiou no meio da multidão escoltado por dois integrantes da equipe. “Não sei se isso é uma ideia boa ou não, vamos saber agora”, comentou enquanto se posicionava. Ele foi acompanhado por Eva Català no vibrafone e as vozes de cinco de seus instrumentistas, todos de branco no palco, parecendo um coro de tragédia grega. As vozes de Flor Gamba, Miryam Latrece, Alejandra López, Vicent Huma e Julio Sanrizz respondiam “busquemos sutileza na falação / honremos cada letra do que se diz”.
Na canção seguinte, Drexler fica sozinho no meio do povo, apenas com um dispositivo de sampler preso às mãos, que dispara o acompanhamento de “Guitarra y Vos”. “Vou começar outra vez, não estava preparado para tanta gente, eu confundi a letra”, ele ri e recomeça a música. Os olhos dos fãs o acompanham em êxtase e as vozes repetem o refrão sobre a sina de todo compositor: “há tantas coisas e eu só preciso de duas: meu violão e você”.

Ainda no meio da pista, só com sua voz e o coro da plateia, Drexler canta “Al Otro Lado Del Rio” para Walter Salles, que estava pendurado no último degrau da arquibancada. A música, primeira em língua espanhola a ganhar o Oscar de Melhor Canção, foi uma encomenda do cineasta. “Amar y Ser Amado” é outra a ser tocada no chão do Circo, mas já com a cama do vibrafone e do violão.
Drexler retorna ao palco para uma parte mais dançante do show. Começa com “Movimiento” e baila com desenvoltura e figurino de sambista. Em “Cuando Cantaba Morente”, faixa do disco novo, Miryam Latrece participa dividindo os vocais e a apresentação caminha para o clima de um autêntico baile de candombe. “Universos Paralelos” e “Tocarte”, que Jorge toca em uma guitarra Fender Telecaster, lembram um pouco Caetano Veloso da fase “Circuladô”. A América Latina reverenciar suas raízes é uma tradição, não uma novidade.

Antes de “Tambor Chico”, o cantor faz uma detalhada explicação a respeito do padrão rítmico do menor tambor do candombe e sua função de contratempo. Isso ajuda a entender as referências que estruturam o novo trabalho, em que Drexler retorna ao Uruguai depois de duas décadas. Com quatro percussionistas enfileirados, ele fala e demonstra a levada nos tambores.
O clima de bailão chega com “¿Qué Será que Es?”, versão em espanhol para o clássico de Gonzaguinha. O público canta em português mesmo e a festa parece atingir o auge com dezenas de pessoas amontoadas fora da lona se espremendo para participar da farra. “Sea” encerra a lista oficial do show com os gritos de todos: “o que tiver que ser, será”.

O bis começa com “Ante La Duda Baila”, do novo álbum, com os tambores ritmados em um frenesi semelhante ao de batidas eletrônicas, e Drexler lê decretos de proibição de festas de manifestações populares relacionadas à cultura africana na América Latina, incluindo a de 5 de maio de 1980, produzida pela Câmara Municipal de Belém, proibindo “fazer batuques ou samba” e “tocar tambor, carimbó ou qualquer instrumento que perturbe o sossego”. É o momento da manifestação política do conceito do novo disco.
Em seguida, ele pega a guitarra para cantar sozinho “Me Haces Bien”, que é acompanhada pelas vozes satisfeitas na pista. O show termina com “Todo se Transforma”, completando a dobradinha de canções pop, como uma espécie de cafezinho e sobremesa depois do grande jantar com baile de candombe.
Drexler queria mais festa e ainda fez um segundo bis quase secreto. Saiu e foi cantar no samba do Cazota Bar, a uns 500 metros do Circo Voador. “Desde Que o Samba É Samba”, de Caetano, “A Rita”, de Chico Buarque, “Rosa Morena”, de Dorival Caymmi e “Morena Boca de Ouro”, de Ary Barroso, foram a saideira do compositor uruguaio no Rio de Janeiro em uma noite que não queria acabar.

– Manoel Magalhães (@manoelmagalhaez) é músico, jornalista, documentarista e produtor. Toca na Harmada e dirigiu o curta-documentário “Abreu/Prazeres” e “Nada pode parar os Autoramas“. As imagens foram cedidas cordialmente pela fotógrafa Michelle Castilho. Tem mais aqui.
