Ao vivo em Nova York, Brigitte Calls Me Baby soa como uma banda que já venceu

texto de Alexandre Malvestio
fotos de Elissa Mentesana

Nova York, quinta-feira. Em frente a um velho prédio de fachada comercial no Lower East Side, região historicamente ligada à cena alternativa e musical de Manhattan, meia dúzia de pessoas esperam em fila para passar por um detector de metais colocado na calçada. Depois do pórtico, uma escada leva ao subsolo, onde uma mulher confere os convites nos celulares de quem chega. Os bilhetes são da Ticketmaster, mas não há leitor de QR Code sendo usado naquele dia. Dentro do espaço, mais adiante, uma centena de pessoas conversam em grupos ou se espremem no balcão do bar para comprar cerveja.

Um segurança explica que o show será no andar de cima e aponta uma outra escada. Faltam menos de 10 minutos para o horário marcado para a apresentação do Brigitte Calls Me Baby, grupo indie de Chicago. Os ingressos para assistir à banda ali no Bowery Ballroom se esgotaram com meses de antecedência. É a reta final da turnê do segundo disco deles, “Irreversible”, lançado em março.

Com menos de 600 lugares disponíveis (575 para ser mais exato), o Bowery é um dos espaços mais emblemáticos da música ao vivo de Nova York. Em 2025, Paul McCartney escolheu o lugar para fazer um daqueles raros shows minúsculos, anunciados de surpresa na véspera. A casa já recebeu de Radiohead a Tony Bennett, passando por Metallica e Strokes. Patti Smith se apresentou ali na véspera de Ano Novo por 14 anos consecutivos (o Scream & Yell acompanhou um deles, em 2010, assim como jovens promessas como Lucy Dacus e Will Toledo dividirem duas noites em 2016).

Nesta noite no Bowery, o espaço parecia reunir um tipo muito específico de figura. Homens de quarenta, cinquenta anos, às vezes mais, carregando mochilas discretas nas costas, como quem tinha saído direto do trabalho e só desviou o caminho para dar uma passada antes de voltar para casa. Muitos deles ostentando aqueles casacos mais pesados, sem preocupação estética. Gente com roupa de quem pega metrô, atravessa Manhattan no frio e não está tentando fazer parte de nenhuma cena. Naquele pedaço de cidade onde todo mundo se mostra minimamente consciente da própria imagem, talvez fosse justamente isso que tornasse a cena tão nova-iorquina.

As coisas parecem ter acontecido relativamente rápido para o Brigitte Calls Me Baby. Eles fizeram o primeiro show da carreira em Nova York, em 2022. Pouco tempo depois, em sua quarta apresentação ao vivo, já estavam abrindo para o Muse. O primeiro EP veio em 2023 e, no ano seguinte, o álbum de estreia “The future is our way out”.

Foi o single “Impressively average” que colocou a banda em um outro patamar, alcançando o Top 10 das rádios alternativas americanas e acelerando uma ascensão que desde então não capitulou. Em quatro anos de carreira, eles já se apresentaram em festivais como SXSW, Lollapalooza, All Points East e Corona Capital. Também tiveram milhões de reproduções no streaming, apareceram na televisão dos Estados Unidos e transformaram turnês de clubes em sequências de datas esgotadas entre Europa e América do Norte.

Junto com cada lançamento vieram as comparações, a maioria delas indicando semelhanças com a sonoridade dos Smiths. Wes Leavins, o vocalista, canta com um dramatismo de barítono que inevitavelmente lembra o estilo de Morrissey —o inglês, inclusive, convidou a banda para abrir três de suas apresentações na Europa, em 2025.

O som do Brigitte Calls Me Baby traz linhas melódicas sentimentais e dançantes, e o baixo muito presente, que resulta em uma mistura de romantismo e melancolia que lembra tanto Smiths quanto Cure, mas também Interpol, Killers e Elvis Presley. No palco, Leavins não canta como um vocalista típico de banda indie, o que talvez seja aquilo que mais leve às comparações da banda com o estilo de Elvis. A semelhança está principalmente na postura do vocalista, no vibrato e na maneira quase teatral de sustentar certas frases, mesmo quando atrás dele as guitarras pareçam saídas de um disco do pós-punk britânico.

Por coincidência ou não, Leavins interpretou o próprio Elvis em um musical por cerca de um ano. Ele chegou a colaborar com o diretor Baz Luhrmann na produção do filme biográfico sobre o cantor, de 2022, estrelado por Austin Butler e Tom Hanks. Foi no set que ele conheceu o produtor Dave Cobb, com quem trabalhou em um álbum solo na sequência das filmagens. Algumas dessas músicas apareceram depois no EP de estreia da banda e também no primeiro álbum.

Poucos minutos depois das nove da noite, cinco homens bem-vestidos entram no palco do Bowery Ballroom e começam a tocar “Truth is stranger than fiction”, faixa do álbum novo.

Bastam três músicas para entendermos o que reunia tanta gente aparentemente improvável naquela sala. O Brigitte Calls Me Baby canta sobre exaustão emocional, intimidade, envelhecimento e pequenas fantasias de fuga, mas nunca de um jeito pesado. Tudo vem embalado por melodias grandes, sentimentais e dançantes demais para soar derrotado. Na música que abre o show, Leavins canta sobre ligar para um antigo amor enquanto tenta sustentar alguma ideia de futuro.

Há poucos celulares apontados para o palco, muito menos do que se esperaria de uma banda em ascensão tocando para uma casa cheia em Manhattan.

Com a terceira música chega o primeiro grande momento da noite. Em “I wanna die in the suburbs”, do primeiro álbum, o refrão fala sobre medo da solidão e vontade de desaparecer ao lado de alguém, mas o Bowery Ballroom inteiro reage como se aquilo tivesse sido escrito para ser cantado em coro, cerveja na mão, em uma quinta-feira qualquer.

No papel, talvez se devesse gostar menos do Brigitte Calls Me Baby. Quase tudo ali já foi ouvido antes. Em cerca de uma hora de show, eles conseguem soar tanto como um fantasma dos Smiths quanto emular a limpeza nervosa de guitarra dos Strokes. Também lançam mão de um dramatismo no limite do cafona, meio Killers, e até de uma elegância calculada que lembra The 1975.

Ainda assim, em nenhum momento eles parecem uma banda tentando citar referências. A diferença aparece rápido, especialmente em uma casa relativamente pequena, onde não existe distância suficiente entre palco e plateia para esconder imperfeições. Um lugar com uma cara de bar onde você entra para ver “mais uma banda” e sai com a sensação de ter assistido algo maior do que o tamanho da sala.

O que pode soar derivativo em disco vira precisão de quem ensaiou obsessivamente até tudo parecer natural. As entradas são milimétricas, as guitarras nunca embolam, e Leavins sustenta o dramatismo todo sem cair na caricatura —e sem bagunçar um único fio de cabelo, em um penteado que mistura Elvis com Alex Turner, na fase “AM”.

A banda alterna músicas de seus dois álbuns, pouca coisa é rearranjada ou expandida. Já uma cover de “Is This It”, dos Strokes, é tocada com andamento e atmosfera um pouco diferentes da original. Antes de iniciar, o vocalista diz que eles vão tocar algo do Jeff Buckley, provocando gritos da plateia. E então volta atrás cinco segundos depois, para dizer que na verdade vão fazer uma cover de uma outra banda de Nova York que significa muito para eles. Aqui, curiosamente, Leavins soa mais como Brandon Flowers do que como Julian Casablancas.

Entre as músicas próprias, a que mais se transforma ao vivo é “I can take the sun out of the sky”, single mais recente de “Irreversible”. A faixa, que já é ótima, ganha mais peso, mais pulso e uma energia dançante, empurrando o lugar por alguns minutos para um território específico entre pista indie, bar de rock e catarse coletiva que Nova York parece conhecer muito bem.

É o tipo de show de onde você sai com a impressão de não ter ouvido nada exatamente novo. Mas também com uma sensação, bem mais difícil de explicar, de ter visto uma banda tocar esse tipo de música com uma convicção incomum hoje.

No fim, antes mesmo do início do bis, vários daqueles homens de mochila já caminhavam em direção à porta. Não parecia exatamente um sinal de pressa ou desdém, mas só a postura habitual de quem passou décadas vendo bandas surgirem e desaparecerem na cidade.

No Bowery Ballroom, tudo parece ganhar um peso diferente. Talvez porque existam poucos lugares na cidade tão ligados à memória recente do rock independente quanto aquele salão no Lower East Side. Ou talvez porque bandas novas demais ainda provoquem uma sensação rara: a de assistir a alguma coisa antes que ela se transforme completamente em outra.

O Brigitte Calls Me Baby ainda ocupa esse espaço estranho entre promessa e consolidação. A banda soa segura demais para parecer iniciante, mas ainda pequena o suficiente para caber em casas onde o público continua encostado no palco, segurando cerveja em copo plástico e observando tudo com atenção silenciosa.

Quando eles decidem tocar Strokes, a escolha faz sentido quase imediatamente. Não como homenagem óbvia ou gesto calculado de filiação nova-iorquina, mas porque existe algo familiar naquela combinação de urgência, melancolia e autoconfiança meio displicente.

Em uma conversa com fãs no Reddit, há dois meses, o Brigitte Calls Me Baby pareceu resumir bem essa contradição. Perguntados sobre que sensação gostariam de deixar em quem os ouve pela primeira vez, responderam: “honest hope” (uma esperança honesta). É uma boa definição para o que acontece ao vivo. Suas músicas, que passam por medo, desejo e cansaço, nunca soam vencidas. Há sempre alguma coisa empurrando para frente: uma guitarra mais luminosa, um refrão grande, uma bateria seca, uma vontade meio irracional de continuar.

E talvez fosse justamente isso que deixasse o ambiente tão peculiar naquela noite: a impressão de que o Brigitte Calls Me Baby já parecia confortável demais dentro dessa tradição para ainda soar como uma banda iniciante.

Alexandre Malvestio é jornalista e artista plástico. Vive em Brasília, onde trabalha com comunicação estratégica e políticas públicas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *