Entrevista: Melissa Auf der Maur lança livro de memórias e fala de Smashing Pumpkins, Hole, misticismo e feminismo

entrevista de Bruno Lisboa

Nascida em Montreal, no Canadá, em uma família profundamente conectada às artes e ao pensamento crítico, Melissa Gaboriau Auf der Maur cresceu cercada por música, fotografia, literatura e política antes de encontrar seu próprio caminho na efervescente cena alternativa do início dos anos 1990. O que começou como a trajetória de uma jovem apaixonada por arte e cultura independente rapidamente a levou ao centro de um movimento que redefiniria a música contemporânea. Primeiro como integrante do Hole, banda liderada por Courtney Love, e depois como baixista do Smashing Pumpkins, Melissa participou de um dos períodos mais criativos — e também mais turbulentos — do rock alternativo, convivendo com artistas que ajudaram a moldar toda uma geração.

Mais de trinta anos depois, ela rememora esse período em “Even the Good Girls Will Cry: A ’90s Rock Memoir”, livro de memórias lançado em março de 2026 pela editora norte-americana Da Capo. Definida pela própria autora como “uma carta de amor à década que definiu a mim e à minha geração”, a obra vai muito além dos relatos tradicionais sobre os bastidores da música. Ao revisitar sua juventude, Melissa reconstrói um período marcado por descobertas artísticas, amizades transformadoras, sonhos, excessos, luto e reinvenção. É também uma reflexão sobre o que foi perdido ao longo do caminho. Em suas 432 páginas, Melissa descreve a ascensão e a transformação da cena alternativa dos anos 1990, um ambiente que, segundo ela, possuía uma “verdadeira magia independente” antes de ser absorvido pelas engrenagens da indústria cultural. Entre memórias pessoais e observações sobre seu tempo, o livro se torna igualmente um retrato do fim de uma era e da perda de um certo espírito criativo que marcou a cultura jovem daquela década.

Nesta entrevista feita por vídeo chamada, Melissa analisa as mudanças na representação feminina dentro da indústria musical, fala sobre artistas que enxerga como herdeiras do legado construído por sua geração e reflete sobre o papel da arte em um mundo atravessado por guerras, desigualdades e polarização política. Entre lembranças de um passado que ajudou a construir e reflexões sobre o presente, emerge o retrato de uma artista que continua acreditando no poder transformador da criação. Não por acaso, a estrutura de seu livro é organizada em torno de três conceitos que, segundo ela, sempre determinaram sua existência: magia, música e morte. “Tudo começa com a magia, passa pela música e, inevitavelmente, termina”, filosofa.

Ao longo da conversa, Melissa fala abertamente sobre os temas que atravessam sua autobiografia e sua própria trajetória. Ela revisita sua relação com Courtney Love e explica por que sentiu que era hora de recuperar uma história frequentemente distorcida pela mídia. Reflete sobre a influência decisiva de Billy Corgan em sua formação artística, relembra momentos compartilhados com Dave Grohl e a sua vinda ao Rock in Rio 2001, comenta o impacto de viver em um ambiente marcado pela fama, pelo vício, pela morte e pelas pressões da indústria musical. Ao mesmo tempo, a conversa se afasta dos mitos do rock para explorar aspectos mais íntimos de sua vida criativa: sua paixão pela fotografia, a escrita como ferramenta de autoconhecimento, sua relação com os sonhos e o misticismo e a maneira como essas diferentes linguagens ajudaram a compreender experiências que a música, sozinha, nem sempre conseguia traduzir. Leia a entrevista na íntegra!

Seu livro de memórias revisita sua jornada por uma das décadas mais intensas do rock alternativo. Olhando para trás, o que os anos 1990 ensinaram a você sobre sobrevivência, tanto pessoal quanto profissionalmente?
Meu livro é realmente uma carta de amor à década que definiu a mim e à minha geração, de 1991 a 2001. Como digo no início do livro, eu nunca desejaria ter chegado à vida adulta em outro momento. Tornar-me uma mulher na casa dos 20 anos naquela época foi muito poderoso, porque era um momento extremamente forte para a cultura jovem e, especificamente, para a cultura da música alternativa. Aprendi tudo sobre o poder da música, da criatividade e de indivíduos únicos que sonham, vivem intensamente e assumem riscos. Mas também aprendi sobre perda. Nossa geração viveu uma perda de inocência quando as grandes gravadoras chegaram e assumiram o controle da cena musical. Perdemos nossa inocência e nossa cena musical.

Quando as grandes gravadoras começaram a colocar dinheiro em tudo, muita da magia independente que existia entre 1991 e 1995 foi corrompida. Quando toquei no Lollapalooza de 1995 com o Hole, dividíamos o line-up com algumas das melhores bandas dos anos 90: Sonic Youth, Cypress Hill, Pavement, Moby, Jesus Lizard, Elastica, Beck e muitas outras. Todos eram únicos. Ninguém era parecido com ninguém. Cada um era simplesmente ele mesmo. Essa magia de um verdadeiro espírito independente pareceu desaparecer quando as gravadoras passaram a empacotar tudo e comprar tudo. Também foi um período marcado pela morte, pelo vício, pelos perigos da fama, do dinheiro e da corrupção. Meu livro fala muito sobre o fim de uma forma de vida, o fim de uma era analógica e o fim de um espírito jovem e mágico — literalmente o espírito de “Teen Spirit” (citando o hit do álbum “Nevermind”, do Nirvana — que acabou sendo roubado pela máquina da indústria musical. Além disso, perdi meu pai nos anos 90. Ele foi uma grande inspiração para mim. Era político e jornalista, mas tinha um espírito muito punk rock. Então vivi também um luto muito pessoal. Aprendi tudo: sobre fazer o que você ama, mas também sobre perder aquilo que ama.

Uma palavra que você mencionou na resposta anterior foi “magia”. Seu livro é dividido em três atos: Magia, Música e Morte. Por que você escolheu essa estrutura? E como esses três elementos definem sua vida durante aquele período?
Minha vida sempre foi determinada por esses três pilares muito poderosos. Acho que eles sempre me definiram. A magia é acreditar em algo maior do que você mesma. Algumas pessoas têm religião. Eu tenho sonhos, música e conexões especiais com pessoas da minha vida que parecem fazer parte de algo muito maior do que esta existência. Algo que faz parecer que já nos encontramos em outras vidas. Tudo o que faço começa com algum tipo de sentimento mágico, como se alguma coisa do universo estivesse me dizendo para seguir uma pessoa, um movimento ou uma ideia. A música está sempre no centro de tudo o que amo fazer. E então, como acontece com toda vida, a morte chega. Você vive muitas vidas dentro de uma única vida. Minha vida na música e na magia foi renascendo e morrendo várias vezes. Quando deixei o Hole, quando deixei o Smashing Pumpkins, quando deixei meu baterista mágico, Dave Grohl, eu saí porque entendia que algumas coisas precisavam terminar para que outras pudessem começar. Existe sempre um ciclo de vida e morte, mesmo dentro de uma única existência. Mas tudo começa com a magia, passa pela música e, inevitavelmente, termina.

No livro você fala que talvez seu primeiro amor tenha sido a fotografia, que teve um papel importante na sua formação artística. Como esse amor pela fotografia moldou sua forma de enxergar a arte, a performance e até mesmo a memória?
Eu tive muita sorte porque fui para uma escola de arte e música ainda muito jovem. Desde os sete anos de idade eu estudava artes visuais, artes cênicas e música ao mesmo tempo. Por isso, sempre acreditei que todas as formas de arte estão conectadas. Me considero uma artista multimídia. A música é uma das minhas maiores paixões criativas, mas a fotografia foi a primeira linguagem que me fez sentir que eu poderia fazer algo sozinha. O que eu gostava na fotografia era justamente isso: era só eu e a câmera. Depois, eu ficava sozinha no laboratório revelando as imagens e decidindo o que fazer com elas.

A música é algo muito compartilhado. Um baixista precisa de um baterista. Uma banda precisa de um estúdio. Um disco precisa de ouvintes. Para uma garota tímida que jamais imaginava estar diante de milhares de pessoas em um palco, a fotografia era um lugar seguro. Era estar sozinha atrás da câmera ou no laboratório. A fotografia foi a primeira coisa que achei que poderia fazer no mundo. Depois a música entrou muito rapidamente na minha vida. E entrou de forma inesperada. Eu não planejava entrar para o Hole. Eu sempre digo que o Hole me escolheu. Billy Corgan me encontrou, me recomendou para o Hole, e tudo aconteceu muito rapidamente.

A fotografia era algo que eu fazia desde os 14 anos e que estudei na universidade. Era algo totalmente meu. Eu não precisava de ninguém para fazê-la. Mas quando a música apareceu e eu recebi a oportunidade de tocar em bandas importantes e viajar pelo mundo, todas as minhas linguagens artísticas começaram a se misturar.

Antes do Hole, o assunto das minhas fotografias era eu mesma sozinha em um quarto. Depois que entrei na banda, meus temas passaram a ser os shows, as turnês, os músicos e as plateias. Minha fotografia evoluiu junto com minha carreira musical. Sempre fui escritora também. Mantenho diários desde os oito anos de idade. Sempre escrevi sobre meus sentimentos e experiências. Então a escrita sempre esteve presente. Eu escrevia todos os dias. Fotografava todos os dias. E, quando entrei para uma banda, tocava todos os dias.

Para mim, tudo isso faz parte da mesma vida artística, embora cada linguagem tenha uma relação diferente comigo. O mais incrível sobre 2026 é que finalmente posso fazer tudo ao mesmo tempo. Meu livro de fotografias será lançado em setembro junto com uma exposição em um museu. Também estou fazendo música para acompanhar a exposição. Pela primeira vez, fotografia, música e escrita estão acontecendo juntas. E sou muito grata por ter chegado a esse momento.

Você acha que a fotografia ajudou a documentar sua vida emocional de uma forma que a música nem sempre conseguia?
A fotografia e a escrita me ajudaram a entender o que estava acontecendo comigo. Elas me ajudaram a processar experiências. A fotografia capturava sentimentos complicados e os guardava para mim. Demorei muitos anos para compreender completamente o que vivi aos 20 anos. Quando olho minhas fotografias, vejo alguém tentando mostrar à câmera aquilo que estava sentindo e enxergando. A música é muito mais imediata. E, de certa forma, até violenta. Ela é extremamente intensa. Não existe muito silêncio na música. Não existe muito espaço para observar o que você sente. Você simplesmente vive aquilo. Já a fotografia e a escrita são silenciosas. São pacíficas. Por isso, elas permitem sentir mais profundamente e entender melhor aquilo que está acontecendo dentro de você.

No livro você descreve sua relação com Courtney Love de uma forma muito humana e íntima, indo além das narrativas criadas pela mídia na época. O que fez você querer revisitar essa história agora?
Quando deixei o Hole eu também me afastei daquela parte da minha vida. O Hole foi uma experiência extraordinária, mas também muito dolorosa. Houve muita morte, muita dependência química, muito dinheiro e muita fama sendo jogados sobre a banda. “Celebrity Skin” foi um grande disco, mas também foi um disco muito difícil de fazer. Minha melhor amiga na banda, Patty (Schemel), a baterista, acabou sendo afastada do álbum. Muitas coisas aconteceram naquele período, inclusive a morte do meu pai.

Quando saí da banda, não queria pensar sobre aquilo durante muito tempo. Corri para muito longe daquela história. Eu e Courtney ficamos quinze anos sem nos falar. Mas nos últimos cinco ou seis anos voltamos a nos aproximar. Ouvi dizer que ela estava muito mais saudável, mais lúcida, que a dependência química já não controlava sua vida da mesma forma. Tive muita sorte de poder viver uma segunda vida com Courtney, uma nova amizade. Temos conversado muito, tentando compreender quem éramos para nós mesmas, quem éramos uma para a outra e quem fomos para as mulheres na música naquele período.

Quando a situação política nos Estados Unidos começou a piorar para as mulheres — quando começaram a ameaçar direitos reprodutivos ou quando homens acusados de violência sexual passaram a ocupar posições de enorme poder — senti que precisávamos nos reconectar com algumas das vozes femininas mais fortes dos anos 1990. Especialmente Courtney. Ela nunca teve medo do poder masculino. Nunca teve medo de enfrentar homens poderosos ou de exigir que mulheres fossem levadas a sério. Senti que o Hole e Courtney precisavam voltar à conversa cultural. Precisávamos lembrar o que estávamos tentando fazer naquela época.

Para mim, escrever o livro foi um processo de cura pessoal, mas também uma forma de recuperar essa história e esse significado. Eu queria explicar o que vi acontecer com Courtney. Vi uma mulher extremamente forte, difícil, franca e poderosa sendo tratada de forma terrível por um mundo muito machista. Muitas garotas, pessoas queer e garotos sensíveis amavam Courtney. Mas muita gente a odiava. Sempre fiquei horrorizada com a forma como uma mulher tão forte era tratada. Achei que era meu dever contar o que vi, por respeito a ela, mas também por respeito às mulheres em geral. As mulheres continuam sofrendo violência, continuam perdendo direitos, continuam sendo vítimas de guerras e estruturas de poder. Eu senti que era hora de voltar a falar sobre aquilo que estávamos tentando fazer: encorajar mulheres a lutar, ocupar espaço e controlar suas próprias vidas.

Você sempre foi uma artista que não teve medo de se posicionar. Em um mundo marcado por guerras, divisões sociais e pela ascensão de ideias reacionárias, qual você acredita ser o papel da arte hoje? Você ainda é otimista em relação ao futuro da humanidade?
Acho que o papel da arte e dos artistas continua sendo o mesmo há centenas ou milhares de anos: tornar os seres humanos mais humanos. Fazer as pessoas sentirem seus sentimentos. Fazer as pessoas enxergarem amor, conexão, beleza e o poder da experiência humana compartilhada. É isso que a arte faz. À medida que o mundo se torna mais dividido e a ganância cresce, à medida que o capitalismo chega a extremos em que pode influenciar eleições, financiar guerras e concentrar poder, sinto que artistas têm uma responsabilidade semelhante à dos ativistas da paz.

Precisamos representar aquilo que existe de mais bonito na experiência humana. Precisamos lembrar às pessoas que existe algo que nos une. Mesmo quando o mundo está em guerra. Eu tenho sorte. Vivo na América do Norte. Não existem bombas caindo sobre minha cabeça. Mas existem muitas pessoas vivendo exatamente essa realidade agora.

Por isso, penso muito na importância da música. Eu acompanho aquele professor de música em Gaza que continua ensinando crianças a fazer música mesmo sem casas, sem escolas e muitas vezes sem suas famílias. Isso mostra o verdadeiro poder da arte. Quando tudo foi perdido, quando não existe mais casa, escola ou segurança, a música ainda pode criar conexão. Ainda pode fazer alguém sentir que não está sozinho. A arte é aquilo que mantém as pessoas unidas durante os momentos mais difíceis.

Em seu livro você descreve Billy Corgan quase como uma figura paterna. Qual foi a lição mais importante que ele lhe ensinou, como artista e como pessoa?
Em primeiro lugar, ele me ensinou através da própria música. Quando vi o Smashing Pumpkins tocar para cerca de vinte pessoas, por um dólar, em 1991, aquilo mudou completamente minha compreensão do que era possível fazer com música. Foi o que me fez querer pegar um baixo. Essa foi a primeira grande lição: a inspiração. A segunda foi observar o quanto ele trabalha. O compromisso dele com a música é incomparável.

Costumo brincar com uma frase que ele me disse quando entrei no Smashing Pumpkins: “As três regras são: sem erros, sem dias de folga e não pode ficar doente.” É uma frase meio louca, mas demonstra o nível de dedicação dele. Para Billy, a música sempre esteve acima de tudo. Mas acho que a maior lição foi simplesmente ser eu mesma. Quando me apresentei para ele aos 19 anos, eu era apenas eu mesma. Uma fã de música. Ele respondeu a isso. Ele sempre acreditou em mim porque eu mostrei meu coração.

Meu conselho para qualquer pessoa é: se você ama alguém ou ama alguma coisa, diga isso. Não esconda. Meu amor pela música acabou criando uma amizade e uma relação de mentoria que duram até hoje. Acho que fui a primeira fã do Smashing Pumpkins. E Billy me ensinou a seguir aquilo que eu amo.

Você me disse no início da entrevista que nunca veio ao Brasil para tocar com suas bandas, mas esteve aqui com o Foo Fighters no Rock in Rio de 2001. O que você lembra daquela experiência? Lembra que a Cássia Eller estava no palco contigo?
Sim, eu estava lá. Era aniversário do Dave. Levei um bolo ao palco e todo mundo cantou parabéns para ele. Essa é a principal lembrança que tenho. Também me lembro de o Rock in Rio ser o maior festival que eu já tinha visto na vida. Quando você mencionou a cantora brasileira que estava conosco naquele momento, infelizmente não consegui lembrar imediatamente, mas lembro daquela situação toda ser muito caótica. O que nunca esqueci foi a dimensão do festival e a paixão do público.

O Brasil é conhecido no mundo inteiro pelo amor ao rock. Quando faço eventos, lançamentos de livros ou encontro fãs em cidades como Londres, Los Angeles ou Nova York, frequentemente encontro brasileiros. Sempre os reconheço pela paixão que demonstram pela música. E sempre quis voltar ao Brasil justamente por causa disso. Lamento muito que o Hole nunca tenha tocado aí e que eu também nunca tenha ido com o Smashing Pumpkins. Mas espero que ainda aconteça um dia.

Você nasceu no Canadá, mas também viveu em diferentes cidades dos Estados Unidos ao longo da sua carreira. Você acredita que os lugares onde viveu influenciaram diretamente sua visão artística e seu processo criativo?
Com certeza. Sou muito influenciada pelo ambiente ao meu redor. Cada fase da minha vida em um lugar diferente acabou criando capítulos muito diferentes da minha história e também processos criativos muito diferentes.

Los Angeles, por exemplo, foi onde “Celebrity Skin” foi feito. E o disco soa como Los Angeles. Minha vida no Hole teve muito a ver com a Califórnia. Por outro lado, minha criação em Montreal foi fundamental para quem eu sou. Como você vê no livro, dediquei um capítulo inteiro à cidade onde cresci. Montreal realmente me formou.

Depois vieram Los Angeles e Nova York. E também existe um pequeno lugar à beira-mar em Massachusetts, ligado à família da minha mãe. Foi lá que escrevi meu segundo disco solo, “Out of Our Minds” (2010). Foi um período muito diferente da minha vida.

Meu primeiro álbum solo (“Auf der Maur”, 2004) foi escrito em Nova York. Então existem capítulos muito distintos. Mas, acima de tudo, esses lugares afetam quem eu sou como pessoa. Eles mudam a maneira como me relaciono com o mundo. Sou muito sensível ao ambiente em que vivo.

Falando sobre o mercado musical atual, quem você acredita que carrega hoje o espírito ou o legado do Hole, especialmente em relação à representação feminina no rock?
O que mais me chama atenção é a quantidade de mulheres tocando guitarra. Seja Olivia Rodrigo ou Gracie Abrams, que estão entre os maiores nomes do momento, ou bandas mais pesadas como Wet Leg e Die Spitz, há muitas mulheres empunhando guitarras. Quando comecei a tocar, isso simplesmente não existia nessa escala.

Minha filha tem 14 anos e está começando a fazer música. Recentemente tive a oportunidade de levá-la para conhecer Olivia Rodrigo depois de um show. E Olivia disse para minha filha que, sem o Hole, artistas como ela talvez não existissem hoje. Foi algo muito poderoso de ouvir. E foi muito importante para minha filha ouvir isso também.

Porque, quando eu estava no Hole, era exatamente isso que eu esperava. Eu trabalhava e me dedicava acreditando que mais mulheres fariam música e que mais mulheres se sentiriam convidadas a fazer música alta, baseada em guitarras. E isso realmente aconteceu. Isso me deixa muito feliz. Também me deixa feliz ver minha filha crescer vendo essa realidade. É muito bonito.

Você acha que uma mulher no rock ainda enfrenta o mesmo tipo de julgamento e pressão que Courtney Love e outras artistas enfrentavam nos anos 1990? Ou a indústria realmente mudou?
Acho que mudou. A indústria percebeu o quanto as mulheres são poderosas e o quanto as fãs mulheres são dedicadas. Eles construíram essa indústria para artistas como Olivia Rodrigo, Billie Eilish e Taylor Swift porque enxergaram a paixão do público feminino. Mas, para eles, isso é negócio. São empresas. E eu nunca espero que empresários façam alguma coisa por qualquer motivo além dos negócios. Eles sabem onde está o dinheiro. E o dinheiro está em mulheres bonitas fazendo música e em jovens garotas comprando essa música.

Há alguns meses assisti à entrevista que Billy Corgan fez com você em seu podcast. Se entendi corretamente, você mencionou a existência de um álbum inédito gravado com ele. Isso procede?
Na verdade, não é um álbum. São duas músicas inéditas. Nós gravamos essas músicas enquanto eu estava escrevendo meu segundo disco solo. Também tenho muitas demos inéditas dos meus dois álbuns solo. É uma boa pergunta. Preciso pensar sobre isso. Nem sei exatamente onde estão algumas dessas gravações. Tenho algumas mixagens antigas e estranhas guardadas. Talvez um dia elas apareçam. Talvez eu faça músicas novas. Veremos.

No seu livro você fala bastante sobre sua relação com o misticismo, que é outro tema forte do seu relato. Como essa dimensão espiritual influenciou seu processo criativo e sua compreensão sobre fama e perda?
Sim. Meus sonhos e minha crença em algo que existe além da experiência humana sempre tiveram uma influência enorme na minha vida. Tudo mudou quando eu tinha 19 anos e tive alguns sonhos muito marcantes. Esses sonhos me mostraram o poder dos espíritos e das mensagens que vêm de além da mente e da experiência humana. Eles mudaram completamente o rumo da minha vida.

Eu não estaria conversando com você hoje se não tivesse escutado esses sonhos e acreditado neles. Eles me ensinaram tudo sobre música, magia e sobre o tipo de conexão que eu teria com esta vida. Eu praticamente recebi a mensagem de que meu papel nesta existência seria me dedicar à música. Que seria através da música que eu encontraria a forma mais poderosa de me conectar com outras pessoas.

Talvez em outra vida eu volte como veterinária e cuidar de animais seja meu caminho. Mas nesta vida ficou muito claro para mim que, se eu quisesse aproveitar ao máximo minha existência, deveria me comprometer com a música.

Depois de revisitar tanto do seu passado enquanto escrevia este livro, o que a Melissa de hoje gostaria de dizer para a Melissa dos anos 1990?
Que ela já sabe tudo o que precisa saber. Que ela só precisa confiar em si mesma, ser ela mesma e continuar seguindo seu caminho. Na verdade, ela não precisa de nenhum conselho meu. É engraçado dizer isso, mas a Melissa jovem tem dado conselhos para mim agora, aos cinquenta anos. Escrever este livro me ajudou a reencontrar parte da magia e da beleza da minha vida na música e da minha vida com as pessoas. Então eu não tenho grandes conselhos para dar a ela. Além de: siga seus sonhos, escute quem você é e acredite em si mesma.

Você acredita que sua autobiografia ainda possa ganhar uma edição em português?
Eu sei que as edições em espanhol e francês acabaram de ser negociadas. Por enquanto, são as únicas confirmadas. Gostaria muito que houvesse uma edição em português. Cresci em um bairro português em Montreal e adoro o som da língua portuguesa. Mas, neste momento, não posso prometer uma edição em português. Espero que algum editor do mercado lusófono apareça e torne isso possível.

Antes de encerrarmos, gostaria de agradecer pela entrevista. Foi uma honra conversar com você.
Quando vi que havia chegado um pedido de entrevista do Brasil, eu disse imediatamente: “Por favor, por favor”. Quase nunca tenho a oportunidade de falar com o Brasil, e isso me deixa triste. Por favor, diga ao Brasil que eu gostaria de conhecer mais fãs brasileiros de música e que quero visitar o país.

Eu tive acesso ao seu trabalho porque minha esposa um dia, durante a adolescência, me emprestou os CDs do “Live Through This” e do “Celebrity Skin”…
Que bom que as mulheres do Brasil encontraram nossa música. Obrigada a elas.

–  Bruno Lisboa  escreve no Scream & Yell desde 2014. 

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