texto de Jorge Wagner
Quando eu tinha lá meus 20 anos, o mundo não tinha o mesmo ritmo de hoje. A ideia de influenciadores era diferente, o pronto acesso às produções não era tão pronto assim. Você lia uma pequena resenha sobre o “Kicking Television” num caderno do jornal impresso O Globo na sexta-feira, e aí no sábado lembrava de acessar um blog que postava links para discos de bandas alternativas, e aí achava por lá um “Yankee Hotel Foxtrot”, e, por hora, estava bom. O download demorava um tempo, mas vinha, era só descompactar e ouvir. E aí você procurava um faixa-a-faixa no Scream & Yell e antes de ouvir o “Yankee” você estava lendo sobre cada música do “Summerteeth”, então naquele momento você queria ouvir o “Kicking Television”, mas tinha baixado o “YHF” e enquanto ele tocava você lia sobre o “Summerteeth”, que você ia baixar também talvez em pouco tempo porque os versos de “A Shot In The Arm” pareciam legais.
Ou você conversava sobre livros no transporte público e a sua colega te emprestava o “Clube dos Corações Solitários” e você ia procurar saber mais e encontrava um texto do autor chamado “Literatura pop aqui e agora” e enquanto lia o “Clube” pensava que seria legal ler Alain de Botton ou Irvine Welsh, só que esse, naquele momento, nem tinha nada publicado no país ainda. E aí você precisava ir na Fnac ou na Cultura e ver o que achava, e achava a primeira edição da Rocco para “Alta Fidelidade” com aquela capa feia, depois ia na Estante Virtual e encontrava uma cópia capenga de um livro do Douglas Coupland e então já tinha mais ou menos por onde começar.

Fosse como fosse, levava um pouco mais de tempo do que só assistir a uma garota falando rápido numa rede de vídeos rápidos que você deveria, para ontem, ler todos os 59 livros que a Freida McFadden lançou no verão passado e que você encontra a poucos cliques no site da loja com nome de floresta. Levava um pouco mais de tempo do que só clicar num vídeo de um nerd afetado elogiando lombadas & capas & cores & falando A-DO-REI separando as sílabas sem dizer muito o porquê sobre o último livro da fulana que saiu lá fora semana passada, vai sair no Clube Famoso de Assinatura no mês que vem e já está em pré-produção para virar filme ou série ou algo do tipo no único serviço de streaming que você deixou de assinar esse mês.
Sem saudosismo barato. A mesma tecnologia que facilitou o acesso também criou ou pôs mais lenha na urgência de tratar arte — podemos chamar apenas de produto, produto cultural, entretenimento artístico, como preferir — como informação, a clássica hard news. O disco de sexta no Spotify estará velho na próxima quinta, então ouça hoje. O livro que saiu hoje vai virar filme no mês que vem, então leia agora e saia na frente e quando o audiovisual sair você vai poder falar para todo mundo que A-DO-RA-VA antes de ir para as telas.
O percurso mais lento, mais errático, dependente de conexões indiretas, deixa de ser uma caminhada por uma estrada repleta de curvas e bifurcações para se tornar uma corrida em linha reta, um tiro de 100 metros, onde vence quem viraliza, quem tem a assessoria mais sagaz e antenada, quem assina os melhores contratos antes mesmo de ter suas obras na rua. E se você apenas embarca nesse processo, sequer corre com as próprias pernas, mas se permite ser puxado por uma meia dúzia de pessoas falando sobre as mesmas coisas.
Quando me forcei a retomar uma rotina de leitura, logo na sequência transformei isso também em uma rotina de escrita. Havia falado sobre isso com poucas pessoas, mas depois de meia dúzia de textos prontos — sobre coisas que eu estava acabando de ler, sobre coisas que havia lido há tempos, sobre coisas que me aconteceram em algum momento, mesmo aquelas que aconteceram mais na minha imaginação que em algum outro lugar —, comecei a notar algumas coisas em comum entre esses textos. Veja, eu estava escrevendo praticamente em fluxo de consciência, sem pensar muito, digitando como quem fala depois de alguns miligramas de Venvanse com um amigo meio calado e minimamente atento. Empurrava referências, piadas cretinas, observações questionáveis, só deixando as frases saírem. Era um projeto de escrita, que era também um projeto de leitura, e ainda um projeto quase que de desabafo. Peguei ali uma voz que, depois de tempos escrevendo quase que só a trabalho, eu nem lembrava mais que tinha.

Reconhecendo algumas características em comum entre os meus textos e a tal da voz autoral se desenhando, recorri à inteligência artificial para pedir sugestões de novas leituras, novos nomes fora da lista daqueles óbvios e dos ligeiramente menos óbvios em quem eu já havia chegado e que pudessem me ajudar não só a aprofundar a voz autoral, mas também a expandi-la.
Entre uma recomendação ou outra de autores de ficção, a maioria ainda a ser lida, alguns ensaístas. Embarquei primeiro em Hanif Abdurraqib, com “Eles Não Podem Nos Matar Até Que Nos Matam”, tão impactante que escrevi a respeito antes de terminar a leitura — e demorei a fazer isso depois do texto pronto, porque Hanif emociona, Hanif provoca. Seu texto consegue divertir de vez em quando, mas, acima de tudo, consegue te pôr para pensar, consegue te impor o exercício da empatia.
Outro dessa leva foi Geoff Dyer.
Meu primeiro Geoff foi “Todo Aquele Jazz“, exercício criativo do autor sobre fragmentos biográficos de grandes nomes do gênero. Geoff brinca, inventa, relata, constrói. É ficção com um pé na realidade. Mas é, sobretudo, ficção.
Em “Ioga Para Quem Não Está Nem Aí”, você entende que Dyer não respeita muito bem esses limites. E ele faz questão de ser claro sobre isso ainda no prefácio: tudo aconteceu, ainda que algumas coisas só tenham acontecido na sua cabeça. A liberdade gonzo com um pouco mais de sobriedade, mas não de toda abstêmia.
Nessa coletânea de ensaios, Dyer se arrasta, com o leitor a reboque, por aeroportos entediantes, retiros de ioga onde ninguém quer meditar e monumentos que não mudam a vida de ninguém, fazendo da sua própria inadequação a matéria-prima para textos sobre cultura, viagens e comportamentos.
Tudo mais ou menos o que eu gostaria de fazer se tivesse mais talento e menos idade.

O ponto é que essa recomendação — essas, considerando Hanif e outros autores cujos livros ainda não cheguei a abrir ou mesmo a comprar — não chegou por meio de uma lista igual a todas as outras, não é sobre o que está saindo agora, um viral, um lançamento da TAG, um livro-mal-lançado-que-já-está-virando-série.
Assim como um “Yankee Hotel Foxtrot” aparecia quando eu procurava o “Kicking Television” e lia sobre o “Summerteeth”, Geoff Dyer surgiu numa curva. Não no destino, mas numa bifurcação.
Como quando o Takeda escrevia sobre autores que nem tinham sido publicados por aqui, e você comprava a ideia porque tinha gostado do livro dele e dos textos que ele e outros publicavam naquele site. Não porque alguém tivesse calculado que aquela seria a leitura PER-FEI-TA, mas porque uma coisa puxava a outra e, de vez em quando, o acaso acertava.
Eu quero esse tempo, eu preciso desse tempo. Algo mais próximo ao que era há vinte anos, ainda que as coisas sejam hoje diferentes e, em muitos aspectos, que bom que mudaram.
Quero tecnologia ao meu lado não pela urgência algorítmica, mas pela leitura de nuances. Pela busca lateralizada, pela indicação alternativa que me abre as portas para uma curadoria afetiva de fato pessoal. Quero a IA no papel de um livreiro para os dias e semanas em que não consigo ir a uma livraria, para quando não abro mais o jornal na sexta, entro num blog, clico num link, depois em outro e mais outro até aceitar encontrar justamente aquilo que eu não estava procurando.
I’d like to thank you all for nothin’ / nothin’, nothin’, nothin’, nothin’ / Nothin’ at all
Leia outros textos de Jorge Wagner no Scream & Yell

– Jorge Wagner é jornalista, produtor do tributo “Ainda Somos os Mesmos”, ao álbum “Alucinação”, de Belchior, lançado pelo Scream & Yell. Lançou em 2023 o álbum “Toda Forma de Adeus“.
