Três shows em Porto Alegre: Catto, Supervão, Carlinhos Carneiro

textos de Marcelo Costa
vídeos de Bruno Capelas
fotos: Catto, de Léo Salvador (veja galeria)
fotos: Supervão, de Bárbara Saft (veja galeria)
fotos: Carlinhos Carneiro, de Pedro Karg (veja galeria)

Catto no Festival Fronteiras, Praça da Matriz (15/5)

Realizado nos dias 15 e 16 de maio no centro histórico da capital gaúcha, o Festival Fronteiras reuniu mais de 50 pensadores em mesas de bate papo além de oferecer, na programação gratuita, shows na belíssima Praça da Matriz. No sábado, a grande atração do festival era Vitor Ramil (“competindo” com a Fresno, que faria uma apresentação histórica diante de 70 mil pessoas no Parque da Redenção), e na sexta foi a vez de Catto se apresentar ao lado da Edu Martins Ensemble, projeto do baixista, arranjador e compositor que embala o repertório da artista convidada da vez em arranjos com cordas, sopros e uma banda completa. O som, nos lugares certos, estava impecável. É muito difícil cobrir o espaço de toda uma praça lotada (e belíssima), com conversas paralelas e todo zum zum zum típico do local, mas próximo das caixas de som era possível ouvir com clareza a execução da Ensemble, numa equalização magnífica, permitindo ouvir detalhes de cordas e sopros em meio aos solos de guitarra e condução precisa de bateria. Catto, por sua vez, se mostrou completamente segura, colocando sua voz de maneira delicada, mas marcante, em canções como “Lua Deserta”, “Eu Não Quero Mais” e “Canção do Engate”, cover do clássico de Antonio Variações (as três do álbum “Catto”, de 2017), saudar Liana Padilha em “Do Fundo do Coração” (com trecho de “Xingu”, do NoPorn) e, ainda, celebrar Gal Costa com “Negro Amor” (versão de Caetano e Péricles Cavalcanti para o original de Bob Dylan, “It’s All Over Now, Baby Blue”) e “Nada Demais (Lately)” e mostrar alguns números de sua nova fase, como “Leite Derramado”, “Madrigal” e “Para Iuri Todos Os Meus Beijos”, três canções de “Caminhos Selvagens”, disco que entrou na lista dos melhores discos de 2025 do Scream & Yell, num show extremamente competente e classudo.


Supervão no Espaço 512 (15/5)

Presente na capital gaúcha para lançar o livro “Eu nem queria dar entrevista: O melhor do Scream & Yell, Vol. 1” na encantadora Rádio Agulha, a equipe do site foi surpreendida com um fim de semana abarrotado de shows em Porto Alegre, com quatro ou cinco grandes eventos acontecendo na mesma hora (no sábado, por exemplo, tinha Fresno no Parque da Redenção, Vitor Ramil na Praça da Matriz e Terno Rei e Projeto Shaun no Opinião, sem contar os shows de grandes nomes do pagode). “Não fiquem achando que é sempre assim”, comentavam amigos. “Acontece tudo no mesmo fim de semana e depois ficamos semanas sem ter nada”, contemporizavam. Fato é que logo depois de ver Catto na Praça da Matriz e comer um xis na Cidade Baixa, o destino era o Espaço Cultural 512, casa agradabílissima “há 19 anos no coração de Porto Alegre” (como salienta seu Instagram oficial) que receberia uma das bandas de rock mais bacanas da atualidade, a Supervão, lançando em vinil seu maravilhoso “Amores e Vícios da Geração Nostalgia” (2024), que, aliás, ganhou em 2026 uma edição digital deluxe que soma feats imperdíveis com Ottopapi e Carlinhos Carneiro. A noite foi aberta pelo pop dançante de Viridiana e climatizada com a discotecagem caprichada de Luiza Pads. Quando os Vãos entraram em cena, os indie sleazes foram saudados, logo de cara, pelos cavalos de batalha poderosos de “AVGN”: as strokianas “Love em Vicio Sunshine” e “Nostalgia” colocaram sorrisos bestas na cara dos presentes, que ouviram números inéditos (“Seda Azul”, “De Vez Em Quando” e “4 de 10”, uma reinvenção de “Hard to Explain!”, dos Strokes) e cantaram / gritaram a maravilhosa “Tudo Pra Dar Errado”. Foi um show mais solto e desencanado do que as apresentações matadoras que o quarteto andou fazendo em São Paulo tempos atrás, mas, ainda assim, foi de dormir sorrindo.


Carlinhos Carneiro e Deusolaivre no Ocidente (16/5)

Local histórico para a contracultura portoalegrense desde os anos 1980, quando foi fundado por seis sócios (dentre eles Fiapo Barth, pai de Júlia Barth, atual vocalista d’Os Replicantes), o Ocidente é daqueles lugares incontornáveis para todo fã de música. Neste fim de semana, a casa receberia a festa Blow Up, que teria como atração musical Carlinhos Carneiro acompanhado do trio Deusolaivre tocando clássicos do rock gaúcho e da música pop mundial. A apresentação estava marcada para a 1h30 da madrugada, e o casarão de 1879 situado na esquina da Avenida Oswaldo Aranha com a Rua João Telles estava absolutamente tomado, a ponto de transformar a tarefa de pegar uma cerveja em algo digno de uma escalada no Everest (mais tenso que isso só a disputa pelas rosas nos shows do Rei). Carlinhos foi pontual, afinal qualquer atraso poderia levar os presentes do show direto prum café da manhã matutino numa padaria (ou no Brique da Redenção), abrindo seu set com Erasure (“A Little Respect”) e emendando Pixies (“Here Comes Your Man”) e, um pouco depois, “Exagerado”, de Cazuza, “Menina Linda”, de Renato & Seus Blue Caps, “Bichos Escrotos”, do Titãs, e “Let’s Dance”, de Bowie. O trio, garageiro e extremamente competente, conduzia a apresentação com esmero bagaceiro, no que melhor o rock pode exemplificar. Entre os destaques de um set que foi de Black Eyed Peas (“I Gotta Feeling”) a Rage Against The Machine (“Killing in the Name”) e alguns rocks argentinos que só fizeram sucesso no sul (como Los Ladrones Sueltos), números de rock gaúcho como “No Calor da Hora”, do Papas da Língua, “Long Plays”, da Pública, “Tubarãozinho”, da Ultramen, e, ainda, canções da Bidê como “Bromélias”, “Melissa”, “Me Deixa Desafinar” e o hino “Mesmo Que Mude”, e uma inusitada e impagável versão de “Smells Like a Teen Spirit” com citações de TNT (“Não Sei”), Replicantes (“Sandina”) e Cachorro Grande (“Sinceramente”). Divertido e tosco, como toda festa de rock deveria ser.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

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