texto de Manoel Magalhães
Robert Plant retornou ao Rio de Janeiro depois de 11 anos, em apresentação no Vivo Rio, com a turnê de seu novo álbum folk “Saving Grace”. O show antecedeu a participação de Plant no C6 Festival, em São Paulo, e mobilizou um público considerável para uma quinta-feira outonal no Aterro do Flamengo, com ingressos custando entre 200 e 980 reais.
Acompanhado pela cantora Suzi Dian, com quem também divide o novo álbum, Plant ocupou com seu carisma, antes catártico e agora sóbrio, o palco em um cenário de tons terrosos, com canhões de luzes amarelas nas bordas, ressaltando os músicos em contraste com a silhueta de um touro marrom ao fundo, capa do disco lançado em setembro de 2025. Uma imagem que no telão se assemelhava ao cenário de um acústico da MTV. A plateia foi acomodada em cadeiras numeradas por toda a pista, na configuração tradicional de um teatro.
O show começou com “The Very Day I’m Gone”, música da jovem prodígio do banjo Nora Brown, em arranjo com a melodia acelerada. Foi seguida pela canção folclórica inglesa “The Cuckoo” e “Higher Rock”, a primeira que figura no repertório oficial do álbum e teve uma versão vertiginosa ao vivo (a faixa escrita por Martha Scanlan é originalmente arrastada por um violão grave). O lendário artista mostra estar atento a tudo o que é produzido nos nichos contemporâneos do folk e faz questão de destacar compositoras e cantoras do gênero.
“Ramble On” é a hora de começar a dar um pouco do que a plateia quer. Plant chegou a brincar em determinado momento do show: “Vamos voltar ao passado, mas não exatamente àquele passado”. Antes de tocar a faixa do Led Zeppelin, o cantor disse que já esteve no Rio antes, mas não se lembrava de muita coisa. “Tudo o que eu posso dizer é que é bonito e igual à Inglaterra. Só chove, chove, chove. Nós trouxemos o espírito do deus da chuva”, disse arrancando risos do público.
Nessa primeira leva de músicas, o guitarrista Tony Kelsey toca um set mais acústico, com violão e mandola. A banda tem ainda Matt Worley no violão e banjo, Oli Jefferson na bateria e Barney Morse-Brown no violoncelo, muitas vezes tocado sem o arco. Suzi Dian, além de dividir os vocais na maioria das músicas, toca acordeon e até contrabaixo.
É dela a voz principal na sequência, “Orphan Girl”, canção de mais uma compositora norte-americana pinçada por Plant, Gillian Welch, que foi indicada ao Oscar por “When a Cowboy Trades His Spurs for Wings”, faixa presente no faroeste “The Ballad of Buster Scruggs”, dos irmãos Coen. O arranjo com Kelsey na guitarra elétrica é mais lento e delicado que o original. O trabalho instrumental, no geral, mostra a exuberância da banda montada para essa turnê.
“Let the Four Winds Blow” e “Four Sticks” formam um bloco do cancioneiro de Plant. É o momento com mais ecos de rock da apresentação e movimenta a audiência nas cadeiras. Dian assume o baixo na primeira e a sanfona na segunda. O público acompanha com palmas a levada do clássico do Zeppelin e é incentivado pelo vocalista a continuar. Aqui todos já estavam satisfeitos, muitos gritos e juras de amor são ouvidos.
O momento alto do show é também a melhor música do novo álbum, “It’s a Beautiful Day Today”, versão da banda sessentista norte-americana Moby Grape, que aborda com otimismo o começo de um novo dia. Aqui quem se destaca é Matt Worley, com um solo de violão e vocais de apoio precisos. A soma das vozes de Plant, Dian e Worley no final é o perfeito resumo da excelência técnica, mas sempre em favor da beleza do repertório.
A sequência final é um apanhado de canções conhecidas, seja da própria carreira de Plant, como “Calling to You”, ou versões de Los Lobos (“Angel Dance”) e Neil Young (“For the Turnstiles”), essa com um longo interlúdio de violoncelo com delay executado por Morse-Brown. A apresentação termina com “Friends”, do Led Zeppelin. O riff foi acompanhado por palmas do vocalista e do público, mesmo nas partes de difícil execução.
O bis teve mais uma da finada banda de Plant, “Going to California”, e uma versão de “Everybody’s Song”, do grupo indie Low, que faz parte do repertório do álbum atual. Parte da plateia largou seus assentos e colou na beira do palco para ver o artista de perto. A catarse de poder se aproximar tanto de uma figura mítica na história do rock deixou os sorrisos largos nos rostos e os celulares levantados nas mãos dos que se espremiam no pequeno vão entre o palco e a primeira fila de cadeiras.
A lista de canções foi praticamente idêntica a da apresentação em Porto Alegre, realizada dois dias antes, diferindo justamente no bis, que na capital gaúcha terminou com o medley “Bron-Y-Aur Stomp / Black Dog”. Apesar de ter tocado apenas quatro faixas do álbum, a seleção de músicas traduziu o clima da nova fase, repassando músicas importantes da carreira e apresentando algumas novidades.
É renovadora a sensação de assistir a um artista da relevância de Robert Plant, depois de tantas décadas na estrada, em turnê divulgando um disco lançado há apenas oito meses, sem um pingo aparente de nostalgia, apresentando novas compositoras, novos arranjos executados por um banda em sintonia, alquimizando referências da tradição oral da canção folk com clássicos de seu próprio repertório. Tudo o que foi visto nessa noite parece novo, é de agora, é um olhar esperançoso e íntimo para o futuro. É de quem canta: It’s a Beautiful Day Today.
– Manoel Magalhães (@manoelmagalhaez) é músico, jornalista, documentarista e produtor. Toca na Harmada e dirigiu o curta-documentário “Abreu/Prazeres” e “Nada pode parar os Autoramas“.
