texto de Marco Antonio Barbosa
fotos de Fernando Yokota
De 21 a 24 de maio acontece mais uma edição do C6 Fest. Em São Paulo. Para os cariocas, o C6 Fest possível se resumiu a um show solo de Robert Plant na quinta (21/05) e um programa duplo no Vivo Rio, na noite de sexta-feira (22/05). A banda inglesa Wolf Alice e a cantora sueca Lykke Li, atrações do (apenas mediano) line-up do festival em 2026, dividiram o palco da casa de shows no Aterro do Flamengo. O “puxadinho” foi o que sobrou para o Rio de Janeiro, depois do fracasso da primeira e única edição do C6 na cidade, há três anos.

Vistas em sequência, o que ensejou inevitáveis comparações, as atrações permitiram imaginar caminhos distintos para a presença feminina no picadeiro pop do terceiro milênio – com potenciais e entregas igualmente distintos. Mais fiel a convenções e clichês roqueiros, o Wolf Alice compensa a eventual falta de surpresas com uma energia surpreendente para quem só conhecia a banda pelos discos. Lykke Li, menos ortodoxa e mais aventureira, também surpreende. Mas nem sempre positivamente. A cantora vem sugerindo à imprensa que seu álbum mais recente, “The Afterparty”, pode ser o último de sua carreira. O que seria uma pena, pois Lykke em 2026 encontra-se em uma espécie de limbo entre o experimental e o populista… sem se decidir em definitivo por nenhum dos lados.

À espera do Wolf Alice, nota-se que a pista do Vivo Rio foi dividida por cortinas pretas, minimizando a falta de público. Foi o suficiente para evitar um vexame maior, ainda que a casa estivesse beeeeeem longe da lotação esgotada. Ingressos caros + atrações fora do óbvio + espaço grande demais = a maldição do C6 Fest RJ persiste. Difícil não imaginar como os shows ganhariam em calor e emoção se fossem realizados no Circo Voador ou no Sacadura 156. Mas aí perderíamos a bela cenografia montada para o primeiro show, com uma muralha de adereços cintilantes que remetia à era da disco music.

Por falar em anos 70, era o que rolava no som ambiente antes do grupo de Ellie Rowsell. Fleetwood Mac (citado pela banda como influência importante no último álbum, “The Clearing”), Paul McCartney & The Wings e Nick Drake constavam da playlist. E foi num clima setentista que o quarteto (mais um tecladista) abriu sua apresentação: a balada “Thorns”, que perde um pouco da imponência sem o arranjo de cordas da versão de estúdio. A excelência técnica da vocalista Ellie, no entanto, permaneceu intacta. Ostentando um conjuntinho de couro preto, barriga à mostra, Ellie parecia uma das Runaways. Mas Joan Jett nunca cantou tão bem.

Em 2026, o Wolf Alice é uma banda indie pop que esqueceu a porção indie. “The Clearing” pôs o grupo numa rota claramente voltada ao mainstream, apostando em sonoridades menos abrasivas e composições mais padronizadas. As referências agora, além do pop rock californiano dos 1970’s (“Just Two Girls”, “The Sofa”), passam pelo ABBA (“Bloom Baby Bloom”) e até pelo country (“Leaning Against the Wall”). As guitarras só se fazem notar na quarta música, “Formidable Cool”, com seu riff meio orientalizado.
Mas o grupo sabe dosar a dinâmica do setlist, preparando uma sequência bem pesada antes do encerramento mais adocicado. Em “Yok Foo”, Ellie aciona a sirene de um megafone para harmonizar com as microfonias do guitarrista Joff Oddie. A irônica “Play the Greatest Hits” vem ainda mais agressiva do que na versão de estúdio. E em “Smile”, a vocalista até arrisca um solinho em sua Gibson Flying V. (Pena que, apesar do peso, o resultado se assemelhe a um b-side da Alanis Morissette.) O mini-hit “Don’t Delete the Kisses” vira o leme de novo para o pop.

Um longo intervalo precede a headliner Lykke Li: os brilhos do cenário do Wolf Alice precisam ser cobertos com plásticos pretos, e o palco é invadido por mini-andaimes (!) também cobertos de plástico. Em meio a uma bruma de gelo seco, acompanhada por um baterista, um tecladista/baixista e um guitarrista/baixista, a sueca afinal entra em cena, trajando um capuz e manto pretos, mais um saiote indiscreto que revela seu derrière. Estamos em um território muitos graus mais gélido do que o do primeiro show, tanto em visual quanto no som: a primeira música, “Hard Rain”, é precedida de samples de sons de uma tempestade.

Ao vivo, Lykke Li é uma atração mais curiosa do que exatamente fascinante. Tudo no show sugere indefinição, ou mesmo indecisão. Estamos ali para ser entretidos, ou desafiados? Se o figurino deveria ter um apelo sexy, porque ela quase nunca remove o capuz? Devemos dançar, embalados pelos (poucos) momentos mais animados, ou prestar atenção em suas coreografias teatralizadas? A multiplicidade de elementos – letras melancólicas, beats dançantes, eletrônica minimal e solene, presença de palco ritualizada – nem sempre dá liga.

Falta vigor às composições, de modo que o som possa se equiparar à complexidade conceitual. Como esse vigor é apenas ocasional, o show carece de picos de emoção, mesmo alternando entre as lentinhas (“No Rest for the Wicked”, “Just Like a Dream”, “HIGHWAY TO YOUR HEART”) e as dançantinhas (“Lucky Again”, “Sick of Love”, “Get Some”). Antes do bis, o ápice possível foi “sex money feelings die”, que poderia ser uma música da Rihanna – o que não é, de modo algum, um demérito. Só necessitava mais coragem para entornar de vez o caldo: mete uns backing vocals e um arranjo mais parrudo, Lykke!

Quem ficou até o bis para esperar o sucesso “I Follow Rivers” ganhou de brinde uma versão acústica de “Sozinho”. É, aquela mesma, do Peninha e do Caetano, cantada em um português além do passável! É sintomático que um paradigma de sucesso brasileiro ultrapopular tenha sido a melhor canção do setlist. Sente-se no show de Lykke uma vontade de ser declaradamente pop, constrangida por um hermetismo conceitual que aprisiona a artista. Se ela chutar o balde, pode arrumar no mínimo um bico como cantora de churrascaria.
– Marco Antonio Barbosa é jornalista (medium.com/telhado-de-vidro), músico (http://borealis.art.br) e escreve ótimas pensatas no Substack.
