C6 Fest: Robert Plant canta Led, mas também Neil Young, Low e novos nomes do country em grande show em SP

texto de Marcelo Costa
fotos de Fernando Yokota 

Como canta a grande banda Supervão, “a nostalgia é foda”. Um dos principais ativos do entretenimento moderno, a nostalgia encapsula fragmentos do tempo passado buscando transforma-los em algo… novo. Não é um movimento recente, basta relembrar que ao anunciar o primeiro disco do então desconhecido Foo Fighters, em 1995, a publicidade cravava: “O PRIMEIRO disco de uma banda que você SEMPRE amou”. Bem, os boletos chegam para todo mundo, o que não dá pra culpar bandas como, por exemplo, o Interpol que, com 20 anos de carreira, começou a fazer turnês cujo objeto novo era tocar discos velhos, mas é preciso entender que há outras possibilidades de vida criativa na arte, algo que Robert Plant expôs com sabedoria no C6 Fest.

Atração de encerramento do C6 Fest 2026 em sua formato arena (haveria, ainda, mais um show na programação, o do jovem prodígio Cameron Winter, para 800 sortudos dentro do Auditório Ibirapuera), Plant poderia deitar na rede com sua história e colher mais fama e lucros astronômicos cantando canções que já lhe deixaram de fazer sentido há décadas, mas segue resoluto em se afastar o quanto pode do cânone, apresentando-se (humildemente e divertidamente) como “oi, eu sou Robert, da Inglaterra” para uma plateia composta, em sua maioria, por velhos fãs do Led Zeppelin – assim como o público mais jovem do C6 abandonou a tenda no sábado deixando muitos espaços para Matt Berninger correr cantando The National, o domingo sold out do evento também presenciou uma leve debandada dos fãs de (Magdalena Bay de) cara pintada.

Acompanhado de Oli Jefferson (bateria), Tony Kelsey (guitarra), Barney Morse-Brown (cello), Matt Worley (banjo, guitarra e cuatro) e Suzi Dian (voz e acordeom), o mesmo grupo de músicos com quem gravou “Saving Grace” (2025), seu 15º álbum de estúdio (contando o disco com Jimmy Page gravado por Steve Albini e os dois registros com Alison Krauss), Robert Plant entrou em cena cantando “The Very Day I’m Gone”, uma música de 2021 (ausente de “Saving Grace”) da jovem artista novaiorquina Nora Brown, que vem se especializando em recriar a música tradicional dos Apalaches com foco no banjo. É uma introdução climática e esperta, pois antecipa, logo nos primeiros minutos, o ritmo que ditará o show.

Assim se seguem a canção tradicional “The Cuckoo” e “Higher Rock”, canção que Martha Scanlan, outro jovem nome do alternative country norte-americana, lançou em 2018, e que destaca, no show, a presença de Suzi Dian. “Ramble On”, do mítico “Led Zeppelin II”, é a primeira de quatro concessões que ele fará na noite a material de sua ex-banda, e uma das que ele vem tocando desde sempre nos shows. Ela surge numa versão poderosa, com dois violões, acordeom e cello, delicada nas estrofes, explosiva no refrão. Plant e Suzi sorriem enquanto parte dos presentes se belisca. “Orphan Girl”, de Gillian Welch (que, 15 anos atrás, era apresentada assim aqui no Scream & Yell: “A nova deusa do country norte-americano participa de sete canções de ‘The King is Dead’, do Decemberists) é o momento solo de Suzi no show, e ela brilha.

“Four Sticks”, outra do Led Zeppelin que Robert Plant fixou no seu repertório, surge encorpada, com o baterista Oli Jefferson se destacando. Um dos momentos mais bonitos da noite surge com Plant explicando que, quando era criança, se apaixonou pela cena da Costa Oeste dos Estados Unidos, citando nomes como Grateful Dead, Jefferson Airplane, Love e Buffalo Springfield, e cantando “It’s a Beautiful Day Today”, belíssimo número do Moby Grape. Do grande Los Lobos, “só mais uma banda do leste de Los Angeles”, eles pescam “Angel Dance” (do álbum “The Neighborhood”, de 1990). Com o set list em mãos, adianto: “A próxima é de Neil Young!”, no que Igor Muller, do Programa de Indie, complementa espertamente: “É tudo Neil Young!”. Gênio. A canção em questão é “For the Turnstiles”, do clássico “On The Beach” (1974), de outro estrangeiro (como Plant) apaixonado por música tradicional americana. “Friends”, mais uma do Zep (essa do “III”), fecha o show de forma irrepreensível.

No bis, Robert Plant resgata “Everybody’s Song”, uma canção do trio de slowcore Low, de um grande álbum lançado pela Sub Pop em 2005, “The Great Destroyer”, que surge em versão poderosa. Para fechar a noite, a dúvida: será que vem “Going to Califórnia”? Será “The Rain Song” no momento em que começara a garoar? Na hora que se percebe que tanto Tony Kelsey quanto Matt Worley estão recebendo guitarras dos roadies, a dúvida é sanada, e a bateria galopante do hino “Rock and Roll”, do álbum “Led Zeppelin IV” (1971), irrompe pelo Parque Ibirapuera, com alguns poucos jovens e muita gente com mais de 50, 60 e 70 anos fazendo air drums no finalzinho da noite de domingo, enquanto enrola a língua: “a long lonely, lonely, lonely, lonely, lonely time” encerra 90 minutos impecáveis de boa música em mais uma grande noite de Robert Plant no Brasil, um show cujo repertório soa uma pesquisa cuidadosa atrás de grandes canções de 1969, 1974, 1990, 2005, 2018 e 2021, sem ceder a nostalgia barata, mostrando que é possível viver dignamente na música sem ser apelativo.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br

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