Entrevista: As muitas vozes de Jadsa em “Big Buraco”

entrevista de Fabio Machado

O que você faz diante do abismo? Parece esquisito considerar a pergunta (já que à primeira vista, um abismo é só um grande espaço vazio sem muito o que fazer), mas com um pouco de imaginação e boa vontade, existem algumas possibilidades. Você pode passar um templo contemplando o vazio, se acostumando com a ausência de luz. Ou pode brincar com a profundidade do abismo: conversar, gritar, cantar no intuito de testar os ecos da própria voz nesse ambiente. E talvez daí, nessa reverberação, tirar uma novidade. A metáfora do abismo não é exatamente uma novidade na história humana, mas representa um ponto de virada criativa para Jadsa em “Big Buraco” (2025, selo Risco).

A partir de uma série de apresentações no espaço Centro da Terra (SP) em 2023 com o mesmo nome do álbum, Jadsa começou a traçar os caminhos que culminaram nesse trabalho (a exemplo da participação do guitarrista Fernando Catatau). Também entram em cena outros elementos, como as parcerias com os produtores João Meirelles – com quem gravou o premiado projeto “TAXIDERMIA” em 2024 – e Antônio Neves – colaboração que começou em um show na Audio Rebel (RJ) também em 2023 e seguiu para o estúdio, onde trouxeram para o mundo temas e sonoridades nascidos com inspiração no jazz, mas que também agregam outras referências, como a música brasileira da década de 1970, o trip-hop e o R&B dos anos 1990/2000 (Antônio Neves também a acompanhou no show do Popload Festival).

Em entrevista ao Scream & Yell, a compositora baiana teve a oportunidade de detalhar o processo criativo, as influências e significados em torno de “Big Buraco” (que, no fim das contas, pode ser muitas coisas além de um mero buraco). “Eu acho que uma curiosidade do disco é que as músicas foram pensadas para serem autossuficientes. Então, cada música é um fragmento desse sentimento, sensações e momentos do ‘Big Buraco’, mas cada música foi pensada para existir sozinha. Dentro desse buraco, dentro desse disco, tudo pode acontecer no momento que quiser.”

Queria já aproveitar e perguntar do seu show recente no Popload. Eu sei que você fez a primeira apresentação deste álbum no festival, que é grande e em um lugar onde não é necessariamente o seu público que vai estar lá, com outras pessoas conhecendo o seu trabalho. Como foi essa experiência de levar as músicas do disco para uma plateia diferente e também com essa sensação de finalmente mostrar o disco ao vivo.
Foi muito massa o show. Para mim foi quase que uma comemoração do lançamento do “Big Buraco”. Na verdade, não foi quase: para mim foi uma comemoração desse lançamento. Também pude experimentar uma formação que eu nunca tinha feito. Sopro, percussão, voz e guitarra. E, de certa maneira, eu curti. Acho que desenhou muito bem as músicas. Pelo menos os arranjos próximos dele, assim. E a recepção do público foi incrível. A galera já estava cantando, assim. Quem não sabia também se jogava para cantar, sabe? Entendia que tinha alguns momentos que iam dar naquela palavra, naquela frase. Então, eu vi uma galera querendo estar por dentro também. Mas muita gente já estava cantando. Fiquei muito feliz.

E, pô, essa oportunidade do Popload foi incrível. Realmente é um público bem diferente. Shows bem diferentes que a gente não costuma estar vendo aqui em São Paulo, aqui no Brasil. E, foi muito legal, assim. Para mim, que produziu o disco, para Antônio (Neves, músico e co-produtor de “Big Buraco”) também que também produziu. Então, a gente estava muito feliz por poder mostrar pela primeira vez, entre aspas, entre aspas, essas músicas. E comemorar esse lançamento do disco. Foi bem em cima, acho que foi dois dias depois do lançamento do disco.

O Antônio, ele faz parte da banda ao vivo também?
De vez em quando ele faz.

Em termos de arranjo, vocês precisaram repensar muita coisa ali? Eu sei que você toca também, canta ao mesmo tempo. Mas sempre tem coisas extras da gravação, como overdubs (faixas extras com outros instrumentos ou vozes incluídos posteriormente para complementar os arranjos de uma música), enfim, detalhes no instrumental. O que muda na prática?
Eu sinto que para cada formação que eu estou naquele momento, tem alguma coisa mudada. Algum arranjo diferente, alguma coisa ali realmente adaptada para aquela formação. Nesse caso do Popload, e nos casos que eu toco com o Antônio, a gente sabe o formato da música, mas também a gente troca muito no palco, tenta outras coisas em cima do palco. É uma proposta que meio que calhou da gente fazer, que é mais jazz mesmo. Se sentir no palco, entender a energia da música naquele momento. Então, sempre que toco com o Antônio, eu tenho alguma coisa um pouco mais voltada para o jazz. Eu acho que é uma característica que eu me sinto segura para experimentar com ele em cima do palco.

Essa ideia de experimentação, de ter mais liberdade, passou pela cabeça de vocês durante a gravação do “Big Buraco”? Pergunto mais para tentar entender se teve alguma mudança em relação aos trabalhos anteriores que você tenha feito, ao disco anterior (“Olho de Vidro”, de 2021) e tudo mais. Você chegou com o Antônio, com a pré-produção toda ali e seguiu à risca ou tem algum elemento desses improvisos também durante o momento de gravação no estúdio?
O jazz, as experimentações, enfim, eu já vinha meio que nessa busca em cima do palco e nos shows, nessa curiosidade, junto com a banda do “Olho de Vidro”, junto com Bianca Predieri (baterista) e junto com o Pedro (Emmery, baixo). Enfim, a gente se conhece muito em cima do palco e fora dele, somos amigos, começamos a tocar as músicas do “Olho de Vidro” e eu comecei a me sentir tão segura com elas que fui propondo em cima do palco novos momentos, enfim, esses momentos emocionantes que eu acho que a gente não sabe o que vai acontecer. E aí convidei o Antônio para um show que eu tive em 2023, lá na Audio Rebel, no Rio de Janeiro, e foi doido porque a gente não fez nenhum ensaio, mas ele topou.

Chamei ele para fazer três músicas e ele queria fazer o show inteiro, aí eu falei: então vamos! E parecia que ele tinha, sei lá, feito as músicas, sabe? De certa maneira, parecia alguma coisa que já estava escrita dentro dele, e foi tudo no improviso, tentativa e erro ali em cima. Na verdade, mais acerto do que erro. Depois desse show, fiquei muito emocionada com essa troca em cima do palco, com todo mundo, e convidei ele novamente para fazer o Coala (Festival) comigo. E aí já teve ensaio, botamos algumas coisas à prova, assim, desse primeiro show, e construímos mais algumas coisas para o Coala. Ainda não existia o “Big Buraco”. Mas o que ficou para mim foi muito essa coisa de que ali, naquele momento, podem surgir coisas incríveis, importantes e interessantes. E podem surgir outras coisas que a gente nem vai querer escutar de novo, meio que já deu, não quero mais isso.

E quando eu fiz o convite para o Antônio do “Big Buraco”, eu queria que fosse um disco rápido, que ele fosse emocionante, mas que ele fosse executado. Então, tipo assim, ao invés da gente ficar pensando e aí gravar, vamos já gravando e pensando, pensando e gravando. Então, sim, tem muito desse jazz dentro das músicas do álbum. A gente não tinha a pré-produção do “Big Buraco”, e o que aconteceu foi: vamos fazer o disco? Vamos. Fizemos uma pré-seleção das músicas que iriam entrar, tipo: tem essa e essa que combina com essa fruta, que combina com essa temática aqui. Quando chegou no primeiro dia de estúdio, a gente gravou as guias [nota do redator: guia é uma gravação simplificada de uma música que serve como estrutura inicial para outros músicos e produtores], e as músicas que Antônio tinha para tocar a bateria, ele já gravou a guia junto comigo. Então, a gente foi testando e gravando e ficou. Foi uma proposta de carregar um pouco dessa nossa vivência para um novo projeto, para esse projeto do disco, que tinha essa provocação de se jogar num lugar desconhecido, de se colocar nesse ambiente novo e profundo. Foi mais ou menos assim que foi pensado, e tem essa energia mesmo do jazz.

Pelo que entendi, você só foi conhecer Antônio mesmo nesse show específico da Áudio Rebel, e só aí desenvolveu a parceria, certo? Então, imagino que a relação durante o disco tenha sido positiva para os dois lados, já que nenhum dos dois tinham trabalhado juntos em estúdio antes, e as coisas acabaram ficando bem, foi isso?
Foi bem isso, foi bem isso. Eu acho que essas vivências do palco fizeram com que a gente se aproximasse legal, e conhecesse pelo menos 50% de cada um, assim, um do outro. E eu acho que essa onda de fazer um disco juntos, de produzir juntos, foi realmente uma tentativa de conhecer os outros 50%, de alguma maneira, e somar. E foi muito massa. A gente estava muito nervoso, de certa maneira; eu curto muito o som que o Antônio faz, sou fã dele enquanto músico, e pessoa. E ele também me admira, e admira minhas músicas. Então, estava meio que um nervoso com o outro, porque era um momento de se conhecer mesmo. E eu estava dormindo na casa dele nesse período da gravação, não era somente no estúdio, era em casa também, que a gente ficava trocando ideia, enfim, se conhecendo mesmo.

Me parece que o processo foi bem rápido mesmo, como você falou. Foram sete dias de gravação direto no estúdio?
Isso, foram cinco dias, na verdade; no primeiro mês que a gente foi, em fevereiro, em fim de janeiro de 2024, e aí eu passei um tempo sem gravar, escutando só as bounces [nota do redator: versões iniciais das gravações, ainda sem mixagem ou masterização], só as guias das músicas ali, me acostumando com aquilo, e tentando entender o que é que eu cantaria por cima. Depois, eu voltei para o Rio de Janeiro e fiquei mais dois dias, aí foi tudo de voz, eu e Iuna Falcão gravando vozes.

E nas suas partes de guitarra você também já tinha pensado e gravado a maioria das ideias?
Já. A guitarra foi no último dia dos cinco dias, nesse quinto dia eu gravei guitarras e violões também, algumas coisas assim.

E falando em guitarra, notei que o álbum também teve a participação do Fernando Catatau. Queria saber um pouco mais como rolou essa participação e se o trabalho do Catatau é uma referência para você, seja com o Cidadão Instigado ou solo.
Em abril de 2023 eu fiquei em cartaz com “Big Buraco”, num teatro chamado Centro da Terra, aqui em São Paulo. Isso foi uma proposta do Alexandre Matias (curador das segundas-feiras no Centro da Terra), e meio que me instigou, na verdade, a fazer alguma coisa nova a cada segunda-feira, durante um mês. Quatro segundas-feiras diferentes. E aí, na última segunda-feira eu convidei Alessandra Leão, Juçara Marçal e Fernando Catatau, porque eu queria fechar, meio que fechar ou abrir esse buraco, né, de uma maneira grande para mim.

Não sei se foi para a galera, mas para mim foi algo, sei lá, uma catarse mesmo, um estouro, um buraco, uma coisa gigantesca. E desse dia eu fiquei muito inspirada, fiquei muito feliz de ter conseguido juntar essas três cabeças, assim, sabe, num palco só. E acho que consegui me aprofundar no que eu queria de intenção para as guitarras desse disco. E o que é que me movia ali naquele som de guitarra. E eu pensei em gravar o “Big Buraco”, eu tocando a minha guitarra, mais como base, uma coisa um pouco mais acompanhando a voz. Na verdade, que a voz possa acompanhar. Tipo, está ali a base e a voz vai lá e acompanha. Já sabendo que eu ia chamar Fernando Catatau para fazer algumas músicas, eu já tinha comentado com ele, porque ele não tinha como não participar desse disco. Aí mandei para ele e foi muito legal, porque é meio que o timbre que ele usa na vida dele, uma coisa meio brega, meio rock, meio, sei lá, meio noise, era exatamente isso que eu queria e foi exatamente isso que ele trouxe. Ele não tentou trazer um outro lado de Catatau, ele não forçou nada de barra. Simplesmente existiu dentro das músicas o que basicamente eu queria, que tivesse um pedaço desse mestre ali dentro. E as músicas de Catatau, o Cidadão Instigado, as composições dele, o jeito que ele toca, tudo isso me inspira muito, demais. Para mim, ele é o Cidadão Instigado no caso.

Então, Catatau, sim, foi um cara que me inspirou, que esteve desde o iniciozinho ali do “Big Buraco”, junto, trocando ideia. E sou muito fã de Catatau. O massa é que eu também estava no pensamento querendo chamar um outro guitarrista, que é Chibatinha. Ele é guitarrista do ÀTTØØXXÁ. E eu estava muito querendo trazer. Chibatinha tem um lance muito, sei lá, ele toca pagodão eletrônico. E ele está muito por dentro dos R&B também, está muito por dentro da música baiana. Então é um cara que flutua, assim, por esses meios. Eu queria muito trazer essa característica também, mais minha, né. Então acho que teve um complemento muito legal de guitarras, assim, no “Big Buraco”, porque a galera meio que se jogou de corpo mesmo, né, se jogou sem forçação nenhuma, se jogou com os braços abertos, assim.

Falando ainda de instrumentos, a faixa “Um Choro”, tem um clima bem único no arranjo, por ter mais protagonismo no violão e a percussão mais marcada. Por que essa diferença em relação às outras canções do disco? É como se essa faixa tivesse um arranjo mais terreno, voltado para a terra, e as demais fossem mais urbanas, analisando à primeira vista.
Eu queria representar um pouco, realmente, essa alma da água, de Oxum, de Iemanjá, e a gente sentia que ter um baixo, bateria, guitarra, e teclas deixavam a música muito pesada. E basicamente ela é muito leve, na verdade. O peso dela está, na verdade, na homenagem, nessa dedicatória que eu faço a essas mães d’água.

E é um marco, é um rombo ali também; é um grandíssimo buraco dentro do “Big Buraco”, porque eu venho o tempo inteiro meio sendo concreta (no decorrer do álbum), estou sendo concreta, concreta, concreta, falo da mãe, falo de fruta, de gostos, de cores. Faço recortes do céu, do Sol, então é muito concreto. E aí vem um choro que traz um ar meio lúdico, assim, pra dentro do disco, e eu queria que realmente houvesse essa quebra pra que quem estivesse escutando entendesse que existe essa mudança de clima e de dimensão.

“Um choro”, ela vem um pouco mais terrena, ela vem com instrumentos mais orgânicos, tem uma coisa um pouco dessas, timbres mais orgânicos, enfim, eu queria, na verdade, era realmente dedicar e homenagear as mães d’água de uma maneira que fosse um pouco mais leve, mas um pouco mais firme, sabe? Coisa de ancestralidade mesmo, que eu entendo que você me entende, mas às vezes é muito difícil de explicar isso.

Sim, é muito massa saber dessa referência. E pensando também nas outras músicas do disco, me pegou muito a forma como você usa alguns efeitos e elementos de som, por exemplo: em “Sol na Pele”, lá no começo tem um reverb ali, um eco, que também aparece no final da música, outro reverb em “Mel na Boca”, “Your Sunshine”, em outros momentos do trabalho eu vejo esse reverb. E sendo músico também, além de jornalista, me bate um pouquinho essa curiosidade. Tem alguma coisa desses reverbs em especial que você achou interessante no contexto do disco?
Esses reverbs no começo, no meio, algumas vozes fragmentadas no início de “Mel na Boca”, a voz está bem fragmentada ali no início, está picotada. Eu queria que o disco em si tivesse uma sensação de queda, como se você fosse se aprofundando também, escutando e caindo dentro daquela amarração, daquele feitiço, daquele espaço. Então, esses reverbs estão até um pouco menos no “Big Buraco”, mais no “Olho de Vidro”, mas ele chega aí para trazer a gente de novo para essa queda, para essa profundidade, para esse espaço. Então, “Sol na pele” mesmo, como é uma faixa muito solar, muito felizona, eu fiquei pensando em começar uma coisa um pouco mais tensa para a galera entender que ainda continuamos no buraco, a gente ainda continua caindo. Na verdade, só começamos esse conhecimento do que é esse espaço. Principalmente no início do disco, tem esses reverbs. Do meio, de “1000 Sensations” para o fim, as músicas já começam meio que na cara, basicamente. Não tem muito floreio, não tem muito reverb, porque a gente vai começando a chegar no final, no final ou no começo desse buraco. Então, sim, os reverbs foram pensados para a gente continuar nessa ideia do buraco, nesse espaço grande, enfim, que se dilata.

Outra coisa que me chamou a atenção foi o uso de samples e do scratch, em “Big Luv” por exemplo. Dois elementos emblemáticos do hip hop. Aí, na verdade, eu desdobro em duas perguntas: teve algum artista que foi uma referência para você usar essa sonoridade de scratch e como foi casar isso com o outro aspecto que eu vejo no disco, que é essa coisa mais analógica, ou como você mesmo já disse em outros textos, mais anos 70, uma coisa mais orgânica.
Sim, com relação ao scratch, é uma parada que, não sei, acho que nos anos 2000 eu cresci escutando isso. Mas eu não sabia que era scratch, eu achava que, sei lá, era um beat, era alguma coisa de boca, assim, meio, não sei, não conhecia muito. E tem um disco, “Flying Away” (1997), de uma banda que eu escuto muito, Smoke City, a cantora é Nina Miranda, e eu sinto que esse disco, a sensação dele, quando eu escuto, parece que ele ainda não foi lançado de tão tecnológico e tão orgânico e tão bem gravado e tão hi-fi, sabe? E esse disco me inspirou muito a mixar, a fazer um mix de referências. Esse disco realmente é uma grandíssima referência para mim, assim, para isso, eu tomei muita coragem de misturar ritmos e instrumentos e técnicas nas músicas a partir dele.

E de scratch mesmo, tem Portishead dos anos 90 que é incrível, é bem pesado, é bem profundo. Tem, em algumas vozes também, eu meio que tento chegar próximo dessa cantora do Portishead (Beth Gibbons), tem um negócio bem soprado, bem sentido. E eu acho que a questão do scratch veio muito desse lugar, sabe? De Portishead. E instrumentos orgânicos, em 2023 eu estava escutando muito um disco da Elis Regina, de 1973. Que se chama “Elis”, e a capa dela é branca, e no meio tem uma fotografia dela meio de cabeça abaixada, uma coisa meio assim, é meio a silhueta dela. Esse álbum tem violão, bateria, teclas, e ela cantando demais, interpretando várias músicas de Gilberto Gil, e tem samba, e tem uma coisa mais melancólica. E esse disco meio que me inspirou a trazer um pouco desse som orgânico do Brasil. Você dá pra ver que os músicos estão trocando com a música. É uma conversa ali. Cada músico está conversando com a música. E aí, no fim de tudo, todo mundo se conversa, mas se você pára e escuta só a tecla, em relação à música, você vê que o cara está flutuando ali, na onda dele.

E naquela época, literalmente, era feito ali na hora. Tinha muito dessa interação mesmo do ao vivo, só que registrado na fita.
Algo aí, entende? Então, meio que essa energia a gente queria passar, e foi o que me pegou nessas referências, que é o “Flying Away”, que mistura o eletrônico com o orgânico muito bem, é super hi-fi. Portishead, por causa desses scratches, e o peso da bateria também, às vezes vem muito, sabe? Isso, não sei, me inspirou. Elis Regina, tudo o que a Elis Regina faz, mas esse disco (“Elis”, 1973) em específico é importante e interessante. E alguns timbres de Amy Winehouse. Eu pirei muito no timbre de voz, o timbre de bateria, principalmente, segundo as vozes. Então, a Amy Winehouse me inspirou também bastante.

E ao vivo, vocês estão colocando o DJ também para fazer os scratches? Como é que está funcionando?
Inicialmente, não. Alguns elementos vão vir em VS, né? Porque senão a banda vai ficar gigantesca. Mas eu quero fazer alguns shows com (as DJs) Sinara e Miya B, que foram as manas que gravaram no “Big Buraco”. Miya B gravou em “Tremedeira” e “Big Luv”, e Sinara gravou em “Sol na Pele”. E são as manas que representam muito bem os scratches aqui no Brasil. São DJs muito fodas mesmo. E eu estou querendo levar, com certeza, para o show. Mas é legal, porque eu consigo fazer um show de um jeito, outro show de outro. Eu não vou deixar isso para trás, assim, sabe? Eu quero poder instigar também, me instigar, né? Fazer coisas diferentes.

Falando também sobre a questão das letras, dá para ver que você passa do português para o inglês em vários momentos, seja nos títulos ou às vezes na letra de uma mesma música. Já notei também que você tem influências tanto de fora como daqui do Brasil, mas você pensou nesses idiomas especificamente pela sonoridade, para colocar ali de caso pensado, ou foi uma coisa que aconteceu naturalmente durante o processo de composição?
Olha, eu acho que minha cabeça conversa muito comigo, tem várias vozes, sabe? Então as músicas às vezes já surgem para mim assim, bilíngue, elas vêm se comunicando em português, inglês, e é muito doido porque eu estava até comentando com minha produtora essa semana que eu canto em inglês, mas falar inglês é muito difícil para mim. Entendo inglês, mas falar é difícil, e eu sei de muita gente que canta em português, mas que não fala, sabe? E é muito doido porque as músicas já chegam dessa maneira para mim, então eu não fico pensando, tipo: vou cantar em inglês para que quem não fala em português entenda, para que seja uma coisa que se espalhe melhor. Nunca penso muito nisso, mas acredito que tem algumas coisas e alguns ritmos que o inglês fica mais interessante, e alguns outros ritmos que o inglês não tem vez, só português. Então dá para fazer algumas brincadeiras e tal, mas eu tenho que ser um pouco fiel ao que aquela melodia, ao que aquele ritmo está pedindo também.

Capa de “Big Buraco”, disco de Jadsa

Eu pergunto até para essa questão que você falou, que às vezes é uma questão de mercado mesmo. Às vezes o artista decide fazer para aquele nicho, fazer um negócio mais internacional, ou então cantar em português para atingir o pessoal daqui, mas na sequência do disco é interessante porque ele começa com os nomes em português: depois de “Big Bang,” vem “Tremedeira”, “Sol na Pele”, “Mel na Boca”, e daí vai para “Big Luv”, “No Pain”, “1000 Sensations,” então é quase como se fosse um conceito olhando ali dentro da sequência do “Big Buraco”, e é legal ver que, de certa forma, isso sai naturalmente do seu processo.
Tem um lance dos Bigs, eu fui tentando abrasileirar os Bigs, e aí ele começa totalmente em inglês, que é o “Big Bang”, aí vem “Big Luv”, que é tipo uma gíria para amor em inglês, mas é mais fácil de falar, aí vem “Big Mama”, que já vai ficando mais português, termina com “Big Buraco”, então acho que, imageticamente, tem essa abrasileirada do Big, você começa a entender o Big, que é de alguma coisa de tamanho, de grande, você consegue entender no disco, mas a palavra seguinte eu acho que ela vai meio que se tornando português, entrando um pouco mais no Brasil.

Bom, eu ainda tenho uma última pergunta sobre essa diferença dos Bigs: em certo momento eu ouvi na sequência “Big Bang” e “Big Buraco”, e é uma experiência interessante porque tem um contraste grande. Na primeira tem essa tranquilidade, tem um groove ali, e a forma como você interpreta as letras, falando em “viver bem, comer bem, dormir bem”, ela passa um bem-estar, no geral. E aí no contraponto tem “Big Buraco”, que é aquela coisa para cima, aquele gingado de samba, é uma festa, mas as letras não são tranquilas. Tem essa coisa do “big descaso, big desdém, big escarro”, e por aí vai. No release também foi falado que esse disco te levou para um lugar confortável e desconfortável ao mesmo tempo. Então, eu queria que você falasse um pouco desse conflito aí que tem no “Big Buraco” como um todo, e principalmente entre essas duas músicas.
Eu já sinto que o conflito começa a partir do momento que eu não sabia que música iria começar ou terminar o disco. Então, fiquei na dúvida se “Big Bang” começaria ou se terminaria, ou se “Big Buraco” começaria ou terminaria. Acabou que coloquei “Big Buraco” para finalizar, ela ficou com uma cara de fim, né? Tipo, você escuta a música e fala: aí, velho, alguma coisa está terminando, os créditos estão subindo, sabe? Não sei, eu escuto o “Big Buraco” e me dá essa felicidade, porém tem essa tristeza do término, assim, do acabar. E “Big Bang”, ela ficou bem com cara de começo mesmo. O sopro anuncia o início das coisas, normalmente os sopros anunciam inícios, né?

Quando a gente, sei lá, vê alguns filmes clássicos, peças clássicas também, você vê algumas coisas super importantes, tipo, o rei chegou aí, e anuncia com o sopro. E eu fiquei pensando um pouco nisso, foi o que me tendeu a colocar “Big Bang” como a primeira e “Big Buraco” como a última. Também meio que assumindo o que a composição diz também, que “Big Bang” é uma explosão, mas é engraçado porque é uma explosão para o básico, tipo, se nem o básico a gente está tendo, imagina uma coisa completamente diferente disso, sabe? Então, eu acho que é uma crítica a essa mega explosão, essa grandessíssima coisa que todo mundo está esperando alguma coisa gigantesca – isso eu tô falando em termos de mercado, em termos artísticos, sabe? Todo mundo está esperando uma coisa enorme, gigante, e às vezes o básico presta, né? E a importância desse básico vai ser revelada lá na frente.

Então, em “Big Bang” eu falo basicamente isso, pelo menos o básico a gente tem que ter para que essa mega explosão aconteça, não precisa de nada além do básico. Então já é uma crítica. É uma crítica ao mercado, ao imediatismo das coisas, a não paciência com a arte também. A entender que a arte, que ela tem que ser criada o tempo inteiro, o artista tem que estar criando o tempo todo, sabe? A pessoa tem que estar ativa o tempo inteiro para que as coisas aconteçam. Mas às vezes é só você respirar um pouco. E já em “Big Buraco” não, é uma crítica mais generalizada, acho que ao próprio Big Buraco também. A música “Big Buraco” critica o próprio lugar onde está, e para além disso, onde estamos. Que aí eu sinto que esse lugar que a gente está é o Big Buraco, sacou? Então, para mim teve uma, como eu posso dizer, uma confusão de como é que eu começo, será que eu termino pelo básico, será que eu começo falando já tudo? Acho que essa noção de Big Bang/Big Buraco que você trouxe faz todo sentido para mim, sabe? Que são opostas, mas estão falando da mesma coisa ao mesmo tempo.

Sim, e me chama muita atenção que mesmo nesse clima para cima que encerra o disco, você ainda fala do “big escarro”, “big desdém”, né? E pensando nessa coisa do fazer artístico, fica bem latente a crítica, no final das contas. Imagino que para você, sendo uma pessoa que está inserida nesse mercado, é difícil ter que trabalhar dentro disso e ainda assim tentar ter um pensamento artístico fora dessa indústria, por assim dizer.
Sim, total. E também essa enxurrada de informações, enxurrada de coisas. Quando falo “big fuzil”, é meio que essa metralhadora de informações. Muita coisa. E é doido porque o que me inspirou a compor “Big Buraco” foi a faixa “Bala Com Bala”, pois uma vez eu fiz um show dirigido por Kiko Dinucci e Juçara Marçal no festival C6. E aí eles me chamaram para cantar duas músicas. Uma delas era “Umeboshi”, de Gilberto Gil. Não sei se você já escutou, mas está naquele disco chamado ”Cidade do Salvador” se não me engano. Que ele está com um tambor indiano nas mãos (na capa). Incrível. E a outra faixa foi “Bala Com Bala”. E eu fiquei imersa nessa situação do “Bala Com Bala” porque é uma troca mesmo de tiro, né? É um tiroteio ali de informações. É um tiroteio de percepção do que estava acontecendo naquele momento. E quando eu compus “Big Buraco”, eu também quis retratar esse tiroteio que estava acontecendo no momento, porque é uma música mais atemporal. Um tiroteio que acontece a todo momento, no caso. Então é uma troca mesmo de… É uma enxurrada de informações.

É uma troca de balas ali. Você está batalhando com alguém, tentando conquistar um espaço com outra pessoa, outras pessoas, milhares de pessoas. Então “Big Buraco” foi baseado em “Bala Com Bala” e eu tento fazer essa brincadeira com rombo, com buraco, com poço. Eu tento fazer essas referências por um espaço muito grande e um… como é que eu posso dizer? Um concretismo brutalista. Ter uma coisa brutal, assim. Não é tranquilinho. Não falo do buraquinho, o círculo. Eu falo sobre um rombo, sobre um pedaço tirado, uma coisa que está faltando. É muito legal poder analisar, assim, as músicas. É porque às vezes, é muito difícil de pensar para além, sabe? E aí você perguntando essas coisas, Fábio, é interessante, porque aí eu começo a mergulhar de novo no processo. Vou buscando.

Acho que tem isso também do fazer artístico, que às vezes a gente solta a coisa para o mundo e aí também deixa exposto um pouco, não quer mais pensar naquilo, mas depois revisitando, também surgem outros insights. Também é parte do processo, né? Repensar essas coisas.
Com certeza.

Mas eu acho interessante porque você fala dessa coisa do buraco, e tem a parte crítica, séria, mas ao mesmo tempo, é um buraco como força criativa. Olhando o disco, você não fica com o sentimento pesado, mas com o sentimento de um fluxo de consciência, uma coisa que acontece. Tem elementos de amor ali, elementos de sonho, elementos de crítica e tudo está ali no buraco, né?
Tem um lance com o nome que, assim que eu pensei no “Big Buraco”, eu fiquei pensando o que é esse Big Buraco. Porque o título me instiga, eu fico curiosa de querer saber o que é isso, o que é que tem dentro desse buraco. E aí eu fiquei pensando que o Big Buraco, para mim, de certa maneira, é a boca. A boca que fala, a boca que diz, que experimenta, então acho que essa representatividade da boca, das palavras, do falar… De certa maneira, não ter muito receio de falar o que se sente. Eu acho que (a boca) é um Big Buraco mesmo.

– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos. 



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