texto de Ismael Machado
Há despedidas que não dizem adeus, apenas se transformam em silêncio reverente. Assim é a saída de cena de Ozzy Osbourne e do Black Sabbath – não um fim, mas um eco que continuará a vibrar no subterrâneo da música pesada, nas paredes escuras da juventude rebelde e nos corações de várias gerações que aprenderam com eles a encarar o medo, a dor e a loucura com som, fúria e autenticidade.
Nascido das entranhas operárias de Birmingham, numa Inglaterra ainda marcada pelas cicatrizes da guerra, o Black Sabbath não apenas criou um gênero: fundou um rito. Em riffs arrastados e letras soturnas, falou-se da morte, do mal, da guerra e do delírio humano como quem escreve salmos profanos para um mundo que perdeu sua inocência. E ao centro disso tudo, a figura insólita e magnética de Ozzy – vulnerável e demoníaco, insano e doce, errante e eterno. Um homem que sobreviveu a si mesmo, ao mercado, aos vícios e ao tempo.
A banda nunca buscou o estrelato pelas vias convencionais. Não vestiam glamour nem vendiam sonhos idealizados. Pelo contrário: eram o pesadelo que nos lembrava que o mundo também tem sua face obscura – e é preciso encará-la. Com isso, construíram não apenas uma discografia, mas uma mitologia. Álbuns como “Black Sabbath” e sua capa icônica -com um dos mais assustadores inícios de um disco da história- “Paranoid“, “Master of Reality” e “Vol. 4” não são apenas clássicos: são marcos fundadores de uma estética sonora, política e existencial. Cada nota de Tony Iommi, cada batida de Bill Ward, cada linha de baixo de Geezer Butler e cada grito de Ozzy criaram pontes entre gerações, atravessando décadas e estilos.
Essa ponte encontrou seu clímax no show de despedida “Back to the Beginning”, realizado justamente em Birmingham — a cidade onde tudo começou. Transmitido ao mundo inteiro, o show que reuniu dezenas de bandas influenciadas pelo Black Sabbath, foi mais do que um concerto: foi um ritual de passagem, um agradecimento mútuo entre artistas e público. Nele, não apenas os integrantes da banda estavam conscientes do momento histórico; o mundo ao redor também estava. Diversos músicos e bandas que moldaram o rock e o metal nas décadas seguintes fizeram homenagens públicas comoventes. O tom era unânime: era o adeus de uma entidade fundadora, de uma força que havia aberto caminho para tudo o que veio depois. A reverência não vinha apenas do metal — era universal.
Agora, com a voz de Ozzy se calando dos palcos e a banda encerrando seu ciclo, não há tristeza, mas reverência. Porque quem escreveu sua lenda nos muros da cultura não precisa de permanência física. A influência do Black Sabbath é atemporal – vive nos riffs de bandas contemporâneas, nas camisetas pretas que jovens continuam a vestir, nas playlists dos que se encontram na dor e na raiva, mas também no afeto e na comunhão de quem ama o heavy metal (e sabemos que esses são talvez o mais fiel e alucinado tipo de fã).
Ozzy se despede como um sobrevivente de si mesmo, um herói improvável que nunca se propôs a sê-lo. E isso o torna ainda mais humano, mais lendário. Não haverá outro igual. E talvez não precise haver. Porque o que ele e sua banda nos deram foi mais do que música: foi um modo de resistir e de existir. E isso… ainda bem…isso não morre jamais.
Atualização: 15 dias após esse texto, Ozzy partiu. Ele tinha 76 anos
– Ismael Machado é escritor, jornalista e, por que não, cineasta. Publicou cinco livros e é ganhador de 12 prêmios jornalísticos. Roteirista dos longas documentários “Soldados do Araguaia” e “Na Fronteira do Fim do Mundo” e da série documental “Ubuntu, a partilha quilombola“.
