Entrevista: Na Flip, Susy Freitas fala sobre “No baile do juízo final”, livro que se passa numa Manaus queer e punk

entrevista de Gabriel Pinheiro

O livro “No baile do juízo final” é uma viagem. A escritora manauara Susy Freitas encerrou a programação principal da última Flip – Festa Literária Internacional de Paraty, em mesa com a catalã Eva Baltasar, no Auditório da Matriz. Ali, falou sobre este novo trabalho, o primeiro publicado pela Todavia Livros, uma narrativa desconcertante que recusa a linearidade e certo imaginário conhecido sobre a cidade de Manaus. Numa narrativa fragmentada, o desejo e o gozo se apresentam como forma de posicionamento político. Uma política dos afetos, uma política dos corpos.

Susy parece incorporar a confusão e a incerteza como método. Mais do que uma história linear, “No baile do juízo final” lida com sensações – sejam elas vividas por seus personagens ou pelos leitores com o livro em mãos. Uma viagem lisérgica, por uma Manaus de ballrooms, drags e intervenções políticas de um grupo que sabe o que não quer, mas não necessariamente sabe quais são seus objetivos.

Na conversa abaixo, feita na Flip, Susy Freitas explica como a cidade Manaus influencia a narrativa de “No baile do juízo final”, aprofunda seu método de escrita e revela que o livro busca desconstruir imagens muito cristalizadas sobre a capital do Amazonas: “Porque esse imaginário não foi construído exatamente pelos nortistas”, pontua, entre outras coisas. Leia a conversa!

Seu livro me tirou de um lugar muito confortável de leitura. Tenho a impressão de que ele não está preocupado em contar uma história com começo, meio e fim, mas em provocar sensações, nos muitos discursos que atravessam a narrativa. Como foi esse processo? Como você chegou a essa construção tão livre, que parece uma bagunça deliciosa e vai jogando o leitor para todos os lados?
Isso é uma coisa de que eu gosto quando estou escrevendo. Começo de uma forma muito intuitiva, trabalhando com temas que, por algum motivo, estão me chamando mais a atenção. Faço um pouco de pesquisa, mas tento deixar isso para um momento posterior. Primeiro, trabalho com essa camada da intuição.

Quando você escreve dessa forma, algumas conexões acabam surgindo por acaso. Eu passo por um processo, quando estou escrevendo, de que “Ah, isso se conecta com isso”, “Isso reverbera nisso”, e vai surgindo essa construção. Acho que é por isso também que o livro tem pontos que talvez não sejam totalmente compreensíveis, porque ele passa por esse caminho, até certo ponto, inconsciente. Eu trabalho primeiro com essa camada.

E essa é a parte que eu acho mais divertida também. Ligar pontinhos, a partir de coisas que inicialmente não estavam conectadas. Porque eu acho que isso se conecta também com a forma como eu vejo a cidade de Manaus. Eu gosto de transpor também, trazer para essa camada, porque é uma cidade que tem um forte processo de esquecimento, em que coisas vão sendo construídas em cima de coisas, hábitos vão sendo construídos em cima de hábitos. E vai regurgitando tudo muito rápido. A digestão é toda meio estranha do tecido da cidade. Então, é por isso que eu acho que a própria cidade acabou trazendo isso para a minha escrita.

foto de Walter Craveiro

Tenho a impressão de que seu livro escreve contra imagens muito cristalizadas sobre Manaus e sobre quem vive ali. É como se ele desmontasse esse imaginário, o regurgitasse e o transformasse em outra coisa. Você concorda?
Sim, porque esse imaginário não foi construído exatamente pelos nortistas. Não é uma coisa autóctone. Além disso, ele já é antigo. A vida continuou, a cidade mudou, então era natural que, ao escrever sobre o que Manaus desperta hoje, eu precisasse partir de outro lugar. Pelo menos para mim, não havia outro caminho. Não consigo imaginar outra forma de lidar com essas imagens já estabelecidas e, ao mesmo tempo, trazer algo que reverberasse em mim como autora e também em um leitor contemporâneo. Não tinha como ser diferente.

Outra coisa que me chama muito a atenção no livro é o encontro de diferentes culturas. De um lado, há elementos ligados à tradição, à espiritualidade e aos saberes ancestrais. De outro, aparecem referências muito contemporâneas: a cultura ballroom, a cena drag e o vogue. Como esse encontro acontece? Como você aproxima universos que parecem tão distantes e faz com que eles confluam para criar algo novo?
Para mim, essa é a parte mais realista do livro, sendo bem sincera. Se você olha para uma cultura millennial em diante – não vou mais falar “jovem”, porque millennial já não é tão jovem assim –, essas misturas acontecem naturalmente.

Manaus sempre foi, e hoje mais ainda, um lugar em que é muito fácil transitar por diferentes cenas e se sentir pertencente a todas elas. Acho que isso fez com que eu pudesse olhar para a cultura ballroom ou, mesmo sem estar totalmente imersa, entender um pouco da cultura hip hop e, ao mesmo tempo, circular pela cena alternativa, pela música indie, shoegaze, rock e outras coisas de que gosto. O livro traz isso porque essa experiência é muito presente, especialmente para a juventude.

Quanto aos aspectos mais nativos, existe um movimento – que não acontece só no Norte, mas que ali é muito forte – de retorno às próprias ascendências, à tentativa de compreender as origens ligadas aos povos indígenas e às histórias familiares. É um movimento que a garotada tem abraçado de uma maneira muito bonita. Você vê as pessoas indo atrás da história de suas famílias, da sua ascendência e dos seus costumes.

Particularmente, acho esse movimento muito interessante, e não tinha como ele não aparecer no livro. Se eu queria mostrar o choque entre os elementos mais estranhos, mágicos e fantásticos da narrativa e a minha visão da cidade, essas coisas acabam se unindo justamente a partir desses pontos.

foto de Walter Craveiro

O coletivo do livro me chama a atenção porque, embora seja a força motriz de uma ação política, ele nasce de uma certa indefinição. Os personagens nem sempre sabem exatamente qual é o objetivo das próprias ações, mas sentem a necessidade de agir. O que você acha que essa indecisão do coletivo diz sobre nós?
Acredito que é uma coisa também muito forte, muito contemporânea, muito ligada à juventude, de querer ver mudanças, mas não saber exatamente quais são. Você sabe o que você não quer, mas você sabe o que quer? Acho que isso, apesar de associar a uma cultura jovem, a um imaginário jovem, é uma coisa, na verdade, atemporal

Outra coisa de que gosto no coletivo é como ele incorpora um pouco de práticas nativas, mas ao mesmo tempo as distorce. Isso também faz parte da cidade. Por exemplo, existem pessoas que preparam uma garrafada de ayahuasca e fazem um ritual próprio, diferente do ritual tradicional. Isso aparece no livro, e não por acaso. Gosto dessa ideia de uma busca por caminhos que você ainda não sabe exatamente quais são. Acho que isso também é uma experiência atemporal.

O desejo é uma forma de intervenção política? Tenho a impressão de que ele atravessa o livro inteiro. O desejo, a pele, o gozo, a vontade… tudo isso parece impregnado em cada página.
Eu acredito que sim. Em determinado momento isso foi inconsciente; hoje, penso nisso de forma mais consciente. Quando você reflete sobre o desejo, sobre essa experiência tão intensa e tão concreta, e pensa também no sexo, percebe que é algo que, em sua essência, é gratuito. Claro, existe a pornografia e outras formas mediadas por suportes e meios de comunicação, mas, no seu cerne, não é uma experiência mediada.

Então, quantas coisas no mundo hoje você pode dizer que te fazem sentir tão bem e são de graça? Acho isso muito revolucionário. Fico triste quando dizem que uma cena de sexo “não tem função”. Função, gente? Desejo precisa ter função? Talvez tenha, mas precisa ter sempre? Quando penso nisso em comparação com todos os estímulos sociais, midiáticos e de consumo que recebemos o tempo todo. Isso é de graça. Isso é revolucionário. No capitalismo, é.

– Gabriel Pinheiro é jornalista. Escreve sobre suas leituras também no Instagram: @tgpgabriel.  A foto que abre o texto é de Renato Parada / Divulgação

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