texto de Marcelo Costa
faixa a faixa de Vitor Pirralho
Vitor Pirralho é um artista inquieto. Seus dois primeiros discos, “Devoração Crítica do Legado Universal” (2008) e “Pau-Brasil” (2009), confirmavam a recomendação de Wado (em 2009) aqui mesmo no Scream & Yell: “Ele é um dos principais (nomes) da nova safra (de Alagoas)”. Não a toa, Ney Matogrosso colou nele, regravou uma canção sua (“Tupi Fusão”) e participou do single “Rumos e Rumores”, que antecipava seu terceiro álbum, “A Invenção é a Mãe das Necessidades” (2019), que contaria, ainda, com Zeca Baleiro, Pedro Luis, Ellen Oléria e Tonho Croco (Ultramen), entre outros.
A capa de “A Invenção é a Mãe das Necessidades”, uma garrafa jogada ao mar com um pendrive, se conecta em sua provocação tecnológica com “Refrãos – Esboços de canções que podem acontecer ou não” (2026), álbum experimental que dialoga com o ritmo acelerado da cultura digital: trata-se de um disco composto por 18 refrãos, trechos e esboços de canções em 12 minutos de música. “Assim como os modernistas criaram os poemas-pílula para dialogar com a velocidade do seu tempo, gosto de pensar ‘Refrãos’ como um álbum-cápsula. Ele não foi feito para ser consumido em doses homeopáticas, mas para ser engolido de uma só vez”, explica Pirralho.
Com formação em Letras e uma trajetória de 27 anos na cena cultural, Vitor Pirralho utiliza a música para discutir questões relacionadas ao tempo, ao consumo e à atenção. Em “Refrãos”, a rapidez imposta pelas plataformas digitais deixa de ser apenas tema e passa a determinar a própria estrutura da obra. Temas presentes no cotidiano das redes povoam o projeto: “Memento meme” joga com a expressão latina ‘memento mori’, que quer dizer ‘lembre-se da morte’, chamando atenção para a finitude do ser, e subverte a expressão para ‘lembre-se de que tudo vira meme’. Já “F.o.M.O.” parodia Timbalada enquanto avisa: “Olha, olha, olha, olha o algoritmo no seu scroll: você vai ficar igual”.
Os fragmentos de canções nasceram de registros acumulados ao longo dos anos em anotações e gravações de voz feitas no celular de Vitor. O resultado é um álbum que transforma esses fragmentos em produto final e propõe uma experiência diferente de escuta: em vez de canções concluídas, o público encontra possibilidades de canções que, a posteriori, podem se tornar canções finalizadas, ou não, como o próprio título sugere. “Para as plataformas digitais, tal formato sofreu uma pequena alteração, pois a maioria das faixas contabiliza menos de um minuto cada e as lojas de streaming não permitem o upload de arquivos com essa duração”, explica Vitor. “A solução foi compilar alguns refrãos em pot-porris, o que reduziu o álbum nas plataformas para oito faixas”.
Abaixo você ouve e assiste a um short film de “Refrãos – Esboços de canções que podem acontecer ou não” na integra e mergulha no projeto acompanhado de Vitor, que comenta o registro faixa a faixa.
01) “Memento meme / F.o.M.O. / Internet regret”: O álbum inicia com um bloco de refrãos que discute deliberadamente a era digital em que vivemos e como a atual geração se comporta utilizando os meios tecnológicos, principalmente as redes sociais. “Memento meme” joga com a expressão latina ‘memento mori’, que quer dizer ‘lembre-se da morte’, chamando atenção para a finitude do ser, e subverte a expressão para ‘lembre-se de que tudo vira meme’, isto é, ser meminável, como praticamente tudo é hoje em dia, significa ser infinito, eternizado em segundos compartilhados na nuvem. O bloco segue com “F.o.M.O.”, ‘fear of missing out’, sigla para uma síndrome contemporânea, que quer dizer ‘medo de ficar de fora’, o que é um comportamento facilmente observável na internet, todo mundo postando tudo sobre suas vidas e consumindo as postagens das vidas alheias de modo frenético. Tal faixa é uma paródia de “Água Mineral”, do grupo Timbalada. “Internet regret” deixa um recado para este F.o.M.O. insaciável, que se traduz basicamente em ‘todo mundo posta o que quiser na internet, só não se arrependa depois’.
02) “Dispositivos explosivos / Formato físico”: Aqui, no segundo pot-porri, a discussão sobre internet continua com dois refrãos que questionam a materialidade daquilo que não é palpável. Os aparelhos celulares são palpáveis, sim, e muitas vezes explodem causando transtornos desagradáveis, flagrantes de incidentes assim ilustram esse trecho do short film. No entanto, a ideia lírica de “Dispositivos explosivos” é alegorizar o volume de postagens e compartilhamentos e cliques e uso excessivo das telas com uma explosão, essa reação em cadeia de conteúdos e informações, tudo ao mesmo tempo agora para ontem, tem uma mecânica semelhante à de uma bomba. Em “Formato físico”, o refrão é bem direto e autoexplicativo, “na internet, todos os formatos são suportados; exceto o físico”, e remete ironicamente ao aparelho celular em si, que é um dispositivo físico, palpável, mas tem como serventia ser apenas um servidor que armazena textos, imagens, vídeos, áudios e os mais variados formatos virtuais num só aparelho. Teatro, literatura, cinema, jornalismo, tudo é produzido para ser exibido e consumido através de uma tela.
03) “Ínterins”: “Ínterins” é um esboço que dialoga com a matemática musical e, naturalmente, com as métricas numéricas do espaço virtual, se assim for conveniente interpretar, entre ímpares e pares é possível entender também que ímpares remetem ao não convencional, enquanto pares remetem a convergências. Tanto no mundo real quanto no virtual, as pessoas se comportam assim, querem ser ímpares, mas sempre mimetizam algo/alguém em busca de pares. Utilizei na música desta faixa um sample do filme “Contatos Imediatos de Terceiro Grau” (1977), de Steven Spielberg, portanto, pessoalmente, minha busca por paridade é extraterrena, busco pares em outro mundo, mas não seria a internet esse outro mundo?
04) “Atuando ando / Andando e comendo / Como quero”: Costumo me referir a esta faixa como bloco do andar, as três faixas trazem o ato de andar como tema, não necessariamente andar com os pés, também, mas a ideia anda mais pelo caminho de tentar fazer as coisas acontecerem. Se costurarmos seus principais versos, é possível concluir a trilha entre os mundos real e virtual que elas propõem. Atuando, as pessoas andam interpretando papéis; ora estão andando no centro (no cerne), ora estão na janta (trivialidades da vida real, que através do canibalismo sociocultural se tornam conteúdo virtual); conteúdo produzido é conteúdo postado, o post flopa e elas se questionam por que as coisas não andam conforme querem.
05) “From To / Task me how”: Este pot-porri condensa em dois esboços de canções um momento de visível desilusão e decepção do Eu lírico no enredo. Desacreditado, sem saber de onde vem ou para onde vai, encarando problemas financeiros e desgostoso com os rumos da humanidade e das tecnologias, este bloco antecede o clímax do álbum.
06) “Mundo a um / Dirimir / Contra-plongée”: Em “Mundo a um”, o clima é bélico e hostil e ainda é parte da decepção apresentada na faixa anterior, o refrão é explícito: “mundo a um passo do colapso”. Mas a virada de chave começa a se desenhar no refrão seguinte, ainda aqui, neste pot-porri que compõe a faixa 6. Em “Dirimir”, há um plot twist no comportamento do Eu lírico, talvez por uma resignação, pois, mesmo contrariado, ele conclui que o que pode ser feito diante de tal zeitgeist é apenas dirimir o que o tempo lhe impõe, e parece fazê-lo aceitando dançar no ritmo das tendências. Assim, a última dança se avizinha e o refrão de “Contra-plongée”, termo que designa o ângulo de visão de baixo para cima, converge com a vontade de dirimir que ele sente agora: “você merece se ver num contra-plongée, observe tudo embaixo ser menor do que você”, ou seja, sente a necessidade de se engrandecer, de produzir uma imagem em que a perspectiva do observador seja a de olhar para cima, e em cima é onde ele está, olhando para baixo e entendendo que é maior que qualquer pessoa, que qualquer circunstância imposta.
07) “Beiço queimado / Gosto de / Nocturnal animals”: Então ele parte para a diversão e se descontrai em alto-astral ao som dos refrãos compilados aqui nesta faixa. Os três refrãos dialogam entre si, abordam temas festivos, de alegria e de embriaguez, os efeitos de entorpecer-se podem ser vistos como uma fuga da realidade, talvez, mas certamente é uma fuga da realidade virtual, essa foi a maneira encontrada por ele para dirimir as circunstâncias e se reconectar com a realidade que lhe é palpável.
08) ‘Cent’anni”: Ainda num clima contra-plongée e de entorpecimento, aqui ele atinge o clímax. Cent’anni é uma expressão italiana que se traduz como ‘cem anos’ e é proferida em brindes como desejo de vida longa. Essa referência foi extraída de outro clássico do cinema, O poderoso chefão, de Francis Ford Coppola. Entendendo que seu trabalho é relevante, mesmo que ainda não tenha as devidas métricas, profetiza com convicção que daqui a cem anos será objeto de estudo, entregando então a derradeira mensagem da obra com a certeza de que deixa uma contribuição, por que não um legado, através da sua arte.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.