entrevista de Gisele Barão
Em dezembro de 2024, um tributo à cantora estadunidense Sharon Jones se destacou na programação do Curitiba Jazz Festival. O vocal enérgico e cheio de personalidade de Priscila Nogueira, backing vocals de Gabriela Terzian e Brenda Calbaizer, e a refinada execução da Dinamite Combo celebraram o repertório de um dos grandes nomes do soul contemporâneo, que morreu em 2016.
A apresentação fortaleceu a parceria do grupo. Pouco antes, eles já tinham lançado o single “Tribute to Miss Elzee”. A sintonia durante os shows e as gravações serviu como incentivo para criar novas músicas e amadurecer a ideia de um disco. Criada em Curitiba (PR), Dinamite Combo é uma banda instrumental de soul, funk e R&B com 10 anos de atuação, formada atualmente por Yuri Vasselai (bateria), Caetano Zagonel (baixo), Ander Lima (guitarra) e Rodrigo Nickel (sax tenor).
Já o projeto “Priscila Nogueira e Dinamite Combo” é um trabalho à parte com a cantora carioca que morou alguns anos em Curitiba. “Quando a Priscila vem pra cá, a gente faz alguns shows e aproveita pra gravar”, explica Yuri Vasselai, um dos fundadores da Dinamite. Esses encontros já renderam quatro singles: dois lançados no início deste ano e dois que devem vir a público até dezembro.
O primeiro disco da Dinamite Combo, com 10 músicas instrumentais, também está programado para 2026. A produção, tanto do álbum quanto das faixas mais recentes com Priscila, é de Leonardo Marques, baterista da Black Mantra, banda paulista que mistura influências do soul e do funk. “O Leonardo tem um papel bem importante. Quando o Willie [primeiro vocalista e um dos fundadores da Dinamite] saiu da banda, a gente estava num limbo, pensando se continuava, se ia fazer instrumental, e o Leonardo foi o cara que falou ‘vamos gravar umas músicas’. Ele chamou a gente pra cima”, conta Yuri.
Sharon Jones e outros nomes da Daptone Records (gravadora de Nova York), como Charles Bradley e Menahan Street Band, são claras inspirações para a Dinamite Combo, além dos clássicos do soul e do funk das décadas de 1960/70, como James Brown. Mas na lista de influências também estão Toni Tornado, Tim Maia, Hyldon, Gerson King Combo e Charlie e os Marretas.
Um pouco dessa mistura de estilos aparece no single duplo lançado em março, “Pro vento te levar”, composição de Yan Lemos, e “Alguém como você”, de Rodrigo Nickel. As faixas mostram duas vertentes da Dinamite: a primeira é uma balada introspectiva e a outra segue um estilo mais vibrante.
Yuri Vasselai (que também toca n’A Gloriosa Fábrica de Grooves e integrava a Trem Fantasma) e Caetano Zagonel (outro integrante da banda A Gloriosa Fábrica de Grooves, que também participou das Criaturas e Central Sistema de Som) conversaram com o Scream & Yell sobre a construção de uma sonoridade própria, a parceria com Priscila e a sobrevivência dos estilos que a Dinamite representa.
Como vocês conheceram a Priscila Nogueira e o que a voz dela trouxe para a banda?
Caetano: Foi em 2023, uma coisa meio ao acaso. Na época, o Willie Dinamite era o vocalista da Dinamite, mas ele acabou saindo. E um amigo nosso falou da Priscila. Vimos um vídeo dela no YouTube cantando na Rua XV de Novembro [calçadão de Curitiba] com o Lucian Satan, e falamos: “É com ela que a gente devia tocar”. A gente entrou em contato e ela topou na hora. O que eu acho mais legal é que a gente tinha o interesse de seguir com a banda no formato instrumental. E ela também queria seguir a carreira solo como Priscila Nogueira. Então a gente entrou em acordo para uma parceria: Priscila Nogueira e Dinamite Combo. E surgiu a ideia de trabalhar o repertório inspirado na discografia da Sharon Jones, uma artista que gostamos muito, uma rainha do soul do século XXI. E aos poucos a gente começou a fazer o nosso próprio material.
Yuri: Fizemos algumas apresentações nesse formato tributo a Sharon Jones, e fizemos o convite pra que a Priscila gravasse “Tribute to Miss Elzee”. Essa gravação foi onde rolou a química máxima para querer continuar fazendo mais coisas.
Os dois lançamentos recentes com a Priscila são as primeiras músicas da Dinamite Combo em português. Até então, vocês só tinham gravado em inglês. O que essa escolha representa para a identidade da banda?
Caetano: A gente queria fazer algo que ainda conversasse com as nossas influências, mas que fosse uma coisa nova e diferente. Não é uma competição, mas, banda de soul cantando em inglês, você já tem lá na origem, nos Estados Unidos. Eles sempre vão ser os originais. E a gente não queria ficar só fazendo uma coisa que parecesse uma cópia. O tipo de soul que a gente faz é diferente do soul que foi feito até então. Aqui, quando a galera pensa em soul no Brasil, pensa em Tim Maia, em Cassiano, Toni Tornado etc. E esse estilo que a gente gosta e trabalha, a gente nunca viu ninguém fazer em português. Foi um processo meio difícil, porque a forma de compor é diferente. Mas ficou bem legal o resultado.
Yuri: Acho muito interessante lembrar isso, porque, quando o Willie estava na banda, em alguns momentos essa ideia vinha de fora: “Por que vocês não gravam nada em português?”. E o nosso “modus operandi” na época era achar que não tinha nada a ver, justamente por esse fator que o Caetano disse, porque aqui não tem referência da vertente que a gente gosta, desse meandro do soul mais enveredado para a funk music. A gente não sabia como ia soar. Várias vezes a gente dividiu o palco com bandas de soul [a Dinamite Combo abriu um show da Banda Black Rio em 2017], mas um soul mais brasileiro, que misturava meio que um funk samba, um negócio mais latino. Por isso acho que demorou todo esse tempo para amadurecer a ideia e tentar fazer alguma coisa em português que soasse a nossa cara. A Priscila tem muita influência de jazz e música brasileira. Então talvez isso tenha colaborado também.
Caetano, você falou do Tim Maia, do Cassiano, que são sempre lembrados no soul brasileiro. Que outros nomes são referências brasileiras para a Dinamite?
Caetano: O DJ Hum. Como a gente trabalhou juntos, ele foi uma influência para nós, e acho que ajudou nesse caminho de buscar uma identidade em português. Ele curtia de tudo.
Yuri: Pensando no que mais se aproxima do que a gente gosta de fazer, ou já fez, talvez seja o Toni Tornado. Tem um disco dele, aquele que ele está de terno vermelho, que você escuta e parece James Brown [álbum “Toni Tornado”, de 1972]. É um absurdo, parece que os caras pegaram a banda do James Brown e colocaram o Toni Tornado pra cantar. O Hyldon é uma boa influência, o próprio Tim Maia. Por exemplo, a música “Alguém Como Você” que gravamos com a Pri, a primeira vez que a gente tocou, eu falei: parece um Tim Maia do futuro, é incrível.
Caetano: Tinha aqueles caras de São Paulo, mais atuais, uma banda de funk, Charlie e os Marretas (nota: eles acompanharam por dois anos o veterano Di Melo e lançaram dois discos autorais, “Charlie e os Marretas”, de 2014, e “Morro do Chapéu”, de 2016).
Yuri: O primeiro disco deles é sensacional. É o que a gente estava tentando fazer.
Caetano: E o Gerson King Combo. Um cara bem maneiro, que faleceu faz pouco tempo.
Com esses 10 anos de banda e tantas influências, hoje vocês acreditam que há uma sonoridade “Dinamite Combo”? Qual seria esse som?
Yuri: Eu acho que sim. A gente sempre tenta mirar em algum lugar, com as nossas influências, que também não vêm só dos Estados Unidos, tem muita coisa de europeia também. Mas a gente chegou num momento que colocamos tudo isso num caldeirão e surgiu o som da Dinamite. Nosso disco instrumental tem muita coisa, tem balada, tem uma influência de Mulatu Astake…
Caetano: Fica difícil falar se é um disco de funk music, de soul music, de R&B. Não sei exatamente dizer, na loja de discos, em que prateleira que estaria? Não tenho muita certeza.
Yuri: Mas, por exemplo, tenho percebido que essas bandas contemporâneas, tipo Surprise Chef, Karate Boogaloo, duas bandas muito boas da Austrália que a gente tem escutado bastante ultimamente, se caracterizam como funk. A gente é uma banda de funk, mas, se você escutar, mostrar pra alguém, a pessoa diz que não é.
Caetano: Eu já vi esse gênero musical ser chamado algumas vezes de cinematic soul, um tipo de soul instrumental meio desconstruído e minimalista. Dá impressão que você está ouvindo uma trilha sonora de suspense, sabe? Acho que a gente tem um pouco disso, mas ainda não é, soa diferente.
Yurii: O Menahan Street Band talvez seja o “pai” deles, inclusive o nosso. É praticamente a banda da Daptone Records, do Charles Bradley e parte da banda do Sharon Jones.
É interessante vocês falarem dessa diversidade e onde colocar esse disco na prateleira, porque tem uma outra questão que é: onde colocar essa banda pra tocar? O Paraná tem alguns festivais de jazz como Curitiba Jazz Festival, onde vocês já tocaram, e outros em cidades do Litoral do estado, por exemplo. Como vocês estão encontrando espaço para encaixar o tipo de som que fazem?
Caetano: A gente escuta tanta gente rasgando uma seda e, na hora de chamar para tocar nesses festivais, muitas vezes não acontece. Quando você vê, o line up já está anunciado e a gente ficou de fora. Não sei o que rola, acho que é um pouco da nossa parte também de não ser muito ativo nessa produção fora da produção musical. E a gente está muito inserido na cena independente, precisava talvez ser um pouco menos independente. E rádio, por exemplo, os caras não põe para tocar. Então falta, eu acho, um pouco desse carinho e incentivo. As pessoas adoram falar que tem que incentivar, mas quando você vê, no fim do dia só está ouvindo pop americano no rádio. Às vezes dá a impressão que você tem que ir pra fora, ser reconhecido, pra acharem bom aqui.
Yuri: No final das contas a gente acaba tentando aproveitar quando tem alguma coisa tipo festival de jazz, festival de blues, onde teoricamente a gente poderia se encaixar. Mas talvez o que a gente goste de tocar, e o que mais tem a ver com a Dinamite Combo, é a Funk You [festa em Curitiba criada em 2008 que celebra o hip hop, soul, funk e disco].
Esses estilos que vocês representam vão além da música, têm muito de dança, de moda, uma cultura. A participação da banda em festas tipo Funk You é uma forma de trabalhar esses outros aspectos?
Yuri: Apesar de que por muito tempo a gente tenha se preocupado mais com a música, a questão vem inteira. Além da música, tem movimento social, tem uma forma de se vestir. É óbvio que tem coisas que a gente não consegue na soul music por razões óbvias, é um movimento social negro, enfim. A gente começou essencialmente pela música, só que vai transparecendo, por exemplo, no jeito que a gente se veste, nas músicas próprias, a gente tentou ir para um lado de cunho social e político, principalmente na pandemia. Essas composições de agora falam de amor, mas a gente busca transparecer [o movimento], é questão de estilo.
Vi outra entrevista em que vocês falam que não existe necessariamente um “revival” desses estilos musicais hoje, porque, na verdade, nunca morreram. Eu queria que vocês falassem um pouco sobre essa capacidade do soul, do funk, R&B etc se manterem presentes e chamarem a atenção de todas as gerações.
Yuri: Isso é legal. Essa galera mais nova às vezes bebe muito do movimento hip hop, mais voltado para a música da cultura de DJs, que tem muita influência de jazz, por conta de sample, mas também tem bastante coisa de funk e de soul. Conheço alguns beatmakers ou DJs que estão achando músicas dos anos 60, funk e soul dos anos 60 e 70 até hoje. E trazem isso, falam sobre isso, eu acho muito importante.
E a internet é muito parceira nesse sentido. Eu sou bombardeado de vídeo de sample todo dia. Eu falo, cara, olha isso aqui, sensacional, como é que eu não sabia disso. Mas também tem a questão social. Sei lá, dos anos 90 ali, você pega essa galera do The Roots, D’Angelo, Erykah Badu, que foram pessoas que que beberam nessa fonte, mas trouxeram de uma outra maneira. O Voodoo, segundo disco do D’Angelo, que eles colocam como se fosse tipo um neo-soul, um R&B, mas pra mim é um super funk, só que com outra roupagem.
Caetano: É, mas é completamente diferente. E eu acho que isso mostra também a qualidade do estilo musical, que sempre tem um público interessado em ouvir e querer saber de alguma novidade. Não é uma coisa que não morreu. Se você olhar, por exemplo, o caso da disco music, não tô julgando a qualidade, mas é ficou meio datada.Agora, o soul, é uma coisa que nunca morreu. Sempre tem alguém surgindo ou fazendo o som com uma roupagem um pouco nova, criando um novo gênero, tipo neo soul ou realmente tocando como sempre foi tocado. Por exemplo, vai sair um disco em agosto das The Womack Sisters, que são netas do Sam Cooke, e está incrível.
* Gisele Barão é jornalista e vive em Curitiba (PR). A foto que abre o texto é de Alessa Berti.