Salve Jorge: “O ano em que falamos com o mar”, de Andrés Montero, é uma fábula sobre pertencimento

texto de Jorge Wagner

Quem cresce no interior, ou de alguma forma afastado dos grandes centros urbanos, aprende cedo uma coisa: você pode sair de sua terra natal, mas, de algum modo, ela nunca sairá de você.

Por mais que se afaste.

Por mais que nunca mais volte ao local que testemunhou seus primeiros passos.

Toda tentativa de rompimento reforça características que só existem porque você veio dali.

Não se vai embora sem deixar para trás uma parte de si. Ela fica lá, cristalizada, como um quadro num museu — mesmo quando esquecida num depósito, coberta de poeira.

É o Dary de Corumbá.
O Bazan de Phoenix.
O Jorge de Paracambi.

O ano em que falamos com o mar“, do autor chileno Andrés Montero (Pinard, 2026), que chega ao Brasil com tradução de Silvia Massimini Felix, é um livro sobre alguém que partiu e deixou para trás mais do que as lembranças da pequena ilha isolada onde cresceu: deixou também sua contraparte, um irmão gêmeo.

Cinquenta anos depois, ele retorna para encontrar quem nunca foi embora, um espelho que reflete não quem ele é, mas quem poderia ter sido.

Ao reencontro dos gêmeos Jerónimo e Julián — aquele que foi e aquele que não — somam-se os mitos da ilha, seus costumes, um novo isolamento e a impossibilidade de regressar ao continente devido à pandemia de COVID-19, chamada aqui apenas de “o bicho”.

A história da família é contada pelos ilhéus anônimos, desde o avô dos gêmeos, que teria enriquecido após um pacto com o tinhoso, até a chegada de Jerónimo e Julián. Depois vêm o encantamento de Jerónimo pela fotografia, as viagens ao continente durante a vida adulta e, por fim, a partida para nunca mais voltar — ou para voltar apenas cinquenta anos depois e, dessa vez, talvez nunca mais partir.

Em certo ponto, é Jerónimo quem assume a narrativa. Ao deduzir que não mais conseguirá voltar para o continente, “nem vivo nem morto”, dedica-se a escrever em um diário a sua versão da história: a descoberta da fotografia, o encanto pelo mundo lá fora, a partida definitiva, só para perceber, ao longo da vida, o seu não pertencimento a qualquer lugar que não fosse a pequena ilha que sequer aparece nos mapas.

Nessa fábula sobre pertencimento, brilha a sensibilidade de Montero, seja nas palavras dos ilhéus, atentos e curiosos, no diário de Jerónimo ou nas reflexões de Julián, ao chegar às últimas páginas. “Uma vida é uma vida. Não adianta olhar para trás”, mesmo que talvez tenhamos nascido para sermos outra coisa que não a que fomos, mas só percebamos quando já não existe mais tempo. Ou talvez ainda exista, quem pode saber?

Partimos para sermos outra coisa, mas só entendemos quem somos ao voltar. E então podemos, enfim, nos tornar alguém outra vez.

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– Jorge Wagner é jornalista, produtor do tributo “Ainda Somos os Mesmos”, ao álbum “Alucinação”, de Belchior, lançado pelo Scream & Yell. Lançou em 2023 o álbum “Toda Forma de Adeus“. 

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