entrevista de Elsa Villon
2026 está sendo um ano prolífico para o artesão do som Kellven Praiano, que reuniu suas referências de mundo – como indígena pataxó e como jovem conectado às tecnologias – e lançou, primeiramente em abril, seu álbum de estreia, “SAL PRESO”, e, em junho, o EP “DIBAIKÁPABAIKÁ”. “Eu havia acabado de sair de uma internação e escrevi grande parte de ‘SAL PRESO’ no isolamento, entre as grades da clínica, dividindo espaço com outros dissidentes e esquizos”, conta Kellven.
Segundo rapper, “SAL PRESO” combina o “rap candango e baiano” tanto quanto “os cantos tradicionais que me cercam desde a infância: os marujos Pataxó, a esmola de São Benedito e o awê do meu povo”. Já o EP “DIBAIKÁPABAIKÁ”, de quatro faixas, nasceu da experimentação de um home studio simples: “Passei a testar métricas, cantos e flows sem amarras mercadológicas”, explica.
Com dois lançamentos no primeiro semestre de 2026, Kellven Praiano tem ainda mais o que falar: em parceria com o selo Mi Mawai, o rapper pretende lançar a mixtape “PINDORAMATRINCHEIRA”, que traz a faica “PRATIBÚ, inspirada na pesca de seu avô e tio, não apenas como subsistência, mas também como forma de arte. Confira abaixo três perguntas para conhecer Kellven Praieiro, suas referências e inspirações:

Quais foram as inspirações para o seu disco e para os seus recentes lançamentos?
Meu processo de criação é indissociável dos trânsitos e das fraturas da minha própria vida. O álbum “SAL PRESO”, lançado em abril deste ano, foi gerado em um momento de extrema delicadeza psíquica. Eu havia acabado de sair de uma internação e escrevi grande parte dele no isolamento, entre as grades da clínica, dividindo espaço com outros dissidentes e esquizos. Esse trânsito forçado entre o asfalto urbano de Brasília e Salvador e o retorno à calmaria da Ponta do Corumbau me fez absorver tanto o rap candango e baiano quanto os cantos tradicionais que me cercam desde a infância: os marujos Pataxó, a esmola de São Benedito e o awê do meu povo. “SAL PRESO” foi gravado aqui no território através do estúdio remoto da Sala da Toscaria, selo do meu parceiro Lenis Rino, e contou com beats de Nabuco (Aka nabs) e Denis Duarte.
Logo após esse lançamento, senti a necessidade de experimentar de forma totalmente livre e visceral, no celular e com instrumentais próprios. Foi quando montei um home studio simples na casa do meu avô e passei a testar métricas, cantos e flows sem amarras mercadológicas. Desse laboratório, nasceu o EP “DIBAIKÁPABAIKÁ” (junho de 2026), cujo título significa “de doido pra doido” e que está disponível no Bandcamp. Ele funciona como o elo, a ponte exata entre o desabafo do primeiro disco e a maturidade da minha próxima mixtape (ainda inédita) de 14 faixas, a “PINDORAMATRINCHEIRA”. É desse ambiente cotidiano, ouvindo os causos de pescador do meu avô Milton e do meu tio Honorato, que surgiu a faixa “PRATIBÚ” (também inédita). Gostei da sonoridade desse nome de peixe, que meu avô aprendeu com meu bisavô Domingos do Carmo, e fiz dele uma faixa-manifesto onde o mestre de cerimônias (MC) é o meu próprio avô, documentando oralmente a nossa história sobre uma base pesada de Boom Bap.
De que maneira a sua identidade indígena é inserida no seu trabalho artístico?
O povo Pataxó é um povo de primeiro contato. Lidamos com as engrenagens violentas da colonização há séculos, desde o massacre do ‘Fogo de 51‘ (nota: indígenas da aldeia de Barra Velha, localizada em Porto Seguro, na Bahia foram acusados de crimes que não cometeram e foram atacados pela polícia local com tiros em 1951) até a dispersão forçada causada pela criação do Parque Nacional do Monte Pascoal. Nossa língua, o Patxohã (do tronco Macro-Jê), foi violentamente silenciada no passado e hoje resiste de forma adormecida. Portanto, a minha identidade indígena não entra na minha arte como uma temática decorativa ou um adereço exótico para o olhar do branco (idxihi); ela é a própria raiz da minha estrutura de pensamento.
Me considero um “artesão do som”. Da mesma forma que os guerreiros do meu território moldam o artesanato tradicional, eu utilizo as ferramentas tecnológicas e as influências externas que nos atravessam para esculpir minha poesia. Para mim, ir ao mar pescar um peixe e garantir a nossa subsistência é um ato tão artístico e político quanto construir o mais complexo dos instrumentais. Minha arte é a linguagem que encontrei para costurar o abismo entre a violência do mundo urbano e a ancestralidade do território. Ela insere-se no trabalho ao recusar o estereótipo do indígena idealizado e estático, afirmando que estamos vivos, pulsando, lidando com nossas dores psicológicas contemporâneas e defendendo a soberania do nosso mar e da nossa terra.
O que as pessoas precisam saber sobre Kellven Praiano como artista?
Em primeiro lugar, as pessoas precisam compreender que eu não sou um artista isolado, operando no vácuo. Faço parte de um movimento efervescente de parentes que estão ocupando as cidades e os territórios, dominando novas ferramentas e linguagens para criar algo absolutamente singular e autônomo. Não estamos parados no tempo. Eu trago em meu sangue e em minhas rimas a responsabilidade histórica de dar continuidade à luta dos meus mais velhos. Sou neto de Milton Deocleciano e sobrinho de Honorato Poeta, homens que foram os pilares na batalha pela criação da Reserva Extrativista Marinha de Corumbau, uma vitória que garantiu a soberania do nosso povo no mar. A luta deles tem o mesmo peso histórico da de Chico Mendes.
Como criador, eu me recuso a ser trancado em caixas ou rótulos pré-formatados pela indústria. Estou em constante mutação, observando o comportamento dos ditos “normais” e traduzindo a minha própria loucura (baiká) antes que ela me consuma. Tenho trabalhado internamente para que minha poesia deixe de ser sobre o “eu” e passe a ser sobre o “todo”, servindo como um eco de proteção ao nosso modo de vida. Sou responsável por cada frequência e cada palavra que coloco no mundo.

– Elsa Villon é jornalista de dados, especialista em Mídia, Informação e Cultura e colecionadora de vinis que está sempre no garimpo nas horas vagas.