texto, fotos e vídeos de Bruno Capelas

FBC no Cine Joia (22/05)
Em tempos de Copa do Mundo, é comum ouvir que certos jogadores rendem mais no clube do que na seleção – ou vice-versa. Na música, há artistas que sofrem de problema semelhante: fazem grandes discos, mas parecem se perder ao transportar o conjunto de sua obra para o palco. Infelizmente, o mineiro FBC parece padecer desse mal – como pode testemunhar o público presente no Cine Joia no último dia 22. Para começar, um erro de planejamento: apesar de ter lançado o político, roqueiro e explosivo “Tambores, Cafezais, Fuzis, Guaranás e Outras Brasilidades” há algumas semanas, Fabrício Soares Teixeira decidiu focar o espetáculo em uma espécie de despedida de “Assaltos e Batidas”, de 2025. Não que a tacada não tenha surtido efeito: há um ano na estrada com uma banda afiada, o repertório do álbum de boombap alçou voo no Joia, com arranjos jazzísticos servindo de cama para os versos potentes do rapper, com destaque para os solos de Daniel Souza (guitarra) e Jackson Ganga (sax). O problema foi quando FBC parava para falar e o público pedia incessantemente as novas canções. Ao longo da noite, esse pedido aconteceu várias vezes, a ponto da banda até puxar “Bandido Bom” – e o mineiro ser incapaz de cantar a letra por não lembrá-la. Foi como se todo o timing ganho ao lançar o disco no Dia dos Trabalhadores se perdesse rapidamente. Além disso, ao sair do repertório de “Assaltos”, o show entrou numa sequência de altos e baixos: se por um lado havia hits (dos pancadões do já clássico “BAILE” às faixas dançantes de “O Amor, a Tecnologia…”, com boa presença da banda), do outro havia longos discursos movidos a cannabis do rapper e a participação caótica da rapper Amabbi, convidada para cantar dois números bem quando o espetáculo voltava a esquentar. Ao final, segue presente a sensação de que FBC tem talento para trafegar por diferentes estilos em álbum, mas parece afobado para unir tudo em um espetáculo coeso (algo que já havia sido percebido aqui). Em uma época carente de craques, para usar outro termo das mesas redondas e cortes curtos, talvez esse seja o elemento que falta para levá-lo além da categoria de “jogadoraço”.
Exclusive Os Cabides no Sesc Pompeia (28/05)
Diz o ditado que a prática leva à perfeição. Na música, muitas vezes isso faz sentido – especialmente para bandas iniciantes e independentes, aproveitando-se de qualquer oportunidade para mostrar seu trabalho. Certos palcos, porém, parecem ter o poder de revelar o melhor que há em cada artista. Em São Paulo, poucos espaços têm tanto potencial para tal quanto o da comedoria do Sesc Pompeia. É um lugar com uma combinação rara de excelente som, palco na altura certa, luz bem equipada e uma disposição espacial ao mesmo tempo aconchegante e espaçosa – além de ótima caipirinha a preços módicos. Quando isso tudo encontra uma banda redondinha, não é difícil imaginar que, como diria Claudio Zoli, “a noite vai ser boa”. A noite do dia 28 de maio, dentro do redivivo projeto Prata da Casa, foi uma das mais agradáveis dos últimos tempos com a catarinense Exclusive os Cabides. Aproveitando a passagem por SP para dar o pontapé inicial na turnê do EP “Feliz e triste ao mesmo tempo”, o grupo reforçou por que é uma das bandas mais legais da atualidade. Não são poucos os motivos: da excelente interação entre os vocalistas – e primos – Antônio dos Anjos e João Paulo Pretto (este, também na guitarra) aos ótimos solos noventistas de Eduardo Possa (guitarra), passando pela mão firme de Carolina Werutsky na bateria, o grupo repetiu os bons momentos da apresentação que fez em março, durante a sexta edição do Circuito, com direito à já clássica dobradinha de “AAAAAAA” com o hit “Luminária de Lava”. De lá para cá, duas boas novidades. Uma é a presença de Maitê Fontalva (baixo e vocais), trazendo tanto um sacolejo interessante aos arranjos como um bem-vindo reforço vocal para as letras mezzo nonsense, mezzo realistas do grupo. A outra foi a inclusão de mais canções do novo trabalho. Se, em março, “Bicicleta” e “Gaita em Formato de Trem” já tinham aparecido com graça, desta vez foi a chance da plateia se divertir com “Gato Chinês”, “Fazer Qualquer Coisa Hoje” ou a irresistível “Espirros Infinitos”, hino da alergia a pelo de gatos que mostra o quanto a virtude pode estar nas coisas simples. Saúde!
Nubya García na Casa Natura Musical (03/06)
Mais de um século depois dos primeiros fonogramas de jazz, é fácil pensar no gênero nascido nos EUA como um ritmo elitista e intelectualizado. Pode ser um raciocínio raso, é verdade, mas esse mesmo estereótipo acaba por afastar muita gente de uma experiência musical muito interessante. Felizmente, noite após noite, há músicos interessados em quebrar essas fronteiras nos quatro cantos do mundo. Falar em fronteiras é assunto especial para a saxofonista britânica Nubya Garcia: filha de imigrantes caribenhos, ela tem traçado uma carreira das mais interessantes ao unir o jazz (rótulo que rejeita) com sons da diáspora africana pelo mundo, entre a cumbia, a salsa, o dub e o reggae. Depois de excursões elogiadas em 2017 e 2023 (quando fez um dos melhores shows da estreia do C6 Festival), a artista fez sua terceira passagem pelo Brasil na primeira semana de junho, em uma turnê que incluiu Rio de Janeiro, Curitiba e até mesmo Rio das Ostras. Em São Paulo, a britânica subiu ao palco já se sentindo em casa, abraçada pelo calor do público que preenchia o local. “Vocês sabem celebrar até de manhã! Às vezes, é 4h da manhã de uma quarta-feira e ainda está todo mundo no rolê”, brincou a artista, lembrando das viagens anteriores. Bandleader de mão cheia, Nubya sabe dividir os holofotes com os companheiros Sam Jones (bateria), Max Luthert (contrabaixo) e Lyle Barton (teclados), dando espaço para que cada um deles brilhe. Mesmo sem tocar, ela já dá aulas: em vez de ficar parada durante os solos dos companheiros, Nubya não se furta em balançar o esqueleto e sorver um whisky enquanto aproveita o momento. É a velha escola de que o corpo completa o pensamento – não à toa, em algum momento da história os termos jazz e suingue já foram sinônimos. Quando toca, porém, o melhor vem à tona, como fica claro em temas como “Source”, “Dawn” e “Triumphance” – esta última, uma bela celebração da diversidade. Pra fechar, teve ainda uma divertida fusão: “Lean In”, lado-B que a britânica apresentou como “sua versão de um UK Garage”, botando todo mundo pra ferver. Era uma quinta-feira fria em SP, mas não foram poucos os corpos que saíram suados da Casa Natura.
– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.


