Entrevista: Eduardo Kaze fala sobre a revista literária “Boca do Gato”, que está aberta para colaborações

entrevista de Leonardo Vinhas

O que leva alguém a lançar uma revista literária com inspiração de fanzine e colocá-la nas ruas, com boa tiragem, em plena era de hiperdisponibilidade digital? Foi essa a pergunta que me motivou a procurar o escritor Eduardo Kaze para essa entrevista. Mas não só. “Boca do Gato”, a revista em questão, é uma delícia. Compacta como um gibi em formatinho, com o preto e branco dos zines (salvo nas páginas de HQs), mas projeto gráfico clean e impressão digital mais que digna. E com muita coisa que vale ser lida.

A primeira edição foi lançada em julho e a segunda deve vir em setembro. Embora residente em Santo André, Kaze (pronuncia-se “Cazé”, apesar da ausência do acento agudo) não limitou a seleção de autores ao ABC, muito menos a seu círculo imediato de conhecidos, colocando uma convocação aberta online para quem quisesse participar. Valiam contos, crônicas, reportagens, poemas e histórias em quadrinhos – e nesse primeiro número, entrou um pouco de tudo isso.

Como toda coletânea, é irregular, com algumas coisas muito boas, outras nem tanto, e ao menos três excepcionais (na avaliação deste que vos escreve, os contos de Stella Maris, Mario Lukas e do próprio Kazé). No site de Kaze (eduardokaze.com.br), é possível comprar a versão física ou ler gratuitamente a digital, além de conhecer os outros trabalhos do autor.

Kazé conversou com o Scream & Yell para contar a gênese e os próximos passos da revista, mas o papo também transitou por produção literária contemporânea, editais, música e quejandos.

Mesmo diante da fissura pelo digital e a dificuldade das pessoas em prestar atenção diante da quantidade absurda de coisas que elas têm à mão, você se animou a lançar uma revista literária com forte inspiração na verve editorial dos fanzines. De onde veio essa doideira?
Existe um gosto pessoal. Sou uma pessoa do impresso, nunca consegui me desviar totalmente dele. O digital não é uma coisa que me conquistou, de maneira alguma. Mas, por exemplo, no lançamento que fizemos no dia 11 de julho [em Santo André], deu para perceber que tem bastante gente que também tem essa mesma pira. O digital traz muita facilidade, sem a menor dúvida, mas essa mesma facilidade também o transforma em uma coisa muito passageira. As pessoas não conseguem observar nada de uma maneira que dure, é uma coisa muito volátil. Você simplesmente toma uma informação e aquilo acabou. Eu mesmo salvo no Instagram um monte de coisas que eu jamais vou voltar a ver, é completamente diferente de ter uma estante com a sua própria biblioteca. E eu não diria que hoje existe um retorno a isso, mas sim um certo fetiche de alguma forma pelos antigos formatos, tem muita gente, principalmente da minha geração, voltando esse tipo de coisa. Estão imprimindo quadrinhos que a gente comprava em banca quando a gente era moleque! Então acho que existe um espaço bem definido ainda para esse tipo de publicação.

É interessante que, sendo revista, e com a qualidade de impressão que tem, ela precisa ser sustentável. Você conseguiu diversos anunciantes, o que imagino ter viabilizado a empreitada, mas é curioso quando a gente lembra que havia muito purismo quanto a ter patrocinadores no universo dos fanzines. Alguém chegou a encher teu saco por isso?
Na verdade, as pessoas até gostaram dos anúncios! Tentei fazer um pouco de curadoria dos anunciantes, porque eu queria que fossem legais para o universo da revista, que tivesse alguma relevância. Tem muitos anunciantes do universo da escrita, como gráficas, por exemplo. Acho que, se fosse há uns anos atrás, provavelmente poderia ter acontecido alguma reclamação, porque a pegada era mais punk rock, a coisa de não ficar “se vendendo”. Mas assim… colocar anunciantes na revista é muito menos “vendido” do que o tanto que a gente faz para se vender na internet, com toda a certeza,

E em relação à curadoria, eu imagino que foi uma questão de chamar pessoas já conhecidas com se abrir para o novo. Como foi esse processo? Teve alguma limitação geográfica?
Não. Na verdade, tem um rapaz de Minas Gerais, inclusive, que é Mário Lukas. Ele mandou pelo formulário do site e entrou já na primeira edição. A grande maioria é do ABC, sim, porque para a primeira edição contatei todo mundo que eu conhecia e falei: “Ó, tô fazendo uma revista, quem quiser mandar material, manda”. Mas o formulário já estava online, e  recebi algumas coisas, A Stella Maris também chegou pelo formulário. Mas minha ideia nunca foi fechar no ABC, porque o que eu quero da revista é justamente que ela traga essa amplitude para as pessoas do ABC, mostrando pro pessoal daqui o que está acontecendo em outros lugares. Para a próxima edição tem um texto da Ucrânia, cara! Eu acho isso muito enriquecedor. Estou com o formulário aberto agora, já preparando a segunda edição e estou recebendo bastante coisa assim de vários estados: Rio de Janeiro, Ceará…

Bom, com mais e mais textos chegando, logo vai ter que entrar um critério editorial mais rígido para selecionar o que entra, não? Qual é a régua?
Cara, para ser bem sincero, a minha régua tem sido um texto bem construído. Aparece muita coisa que não tem muito pé nem cabeça, sabe? Então vou privilegiar um texto que está bem estruturado, que tem a coerência narrativa.

Os três contos de que mais gostei – os desses dois autores que você citou, Stella Maris e Mario Lukas, e também o seu – fogem muito dessa “autoficção”, ou “ficção autobiográfica” que a gente vê já há uns anos. Um texto umbiguista, incapaz de criar personagens, falando de si para si. Não é o caso. Esses três textos parecem carregar uma grande influência de autores dos anos 1970 e 1980, como Ignacio de Loyola Brandão, Marcia Denser, Luis Fernando Veríssimo…
Acho que, de um modo geral, a gente continua buscando as mesmas referências. Não surgiram novas referências muito bem estabelecidas, sabe? Essa época era quando as pessoas realmente se importavam em criar o texto, foi um momento muito rico para esse tipo de coisa. Como você falou, o que a gente tem hoje em dia é muito essa coisa da autoficção. Não se tenta fugir muito disso, mas você vê, não é à toa que Clarice Lispector volta e meia aparece entre os mais vendidos. O passado, e especialmente esse período que você citou, é a melhor base ainda para uma boa escrita, porque a escrita que tem se formado atualmente tem se adaptado aos formatos que se mostram mais rentáveis. Eu acho que, de cada de cada 10 textos que se escreve hoje em dia, nove provavelmente são em primeira pessoa. Tem muito pouca gente escrevendo em terceira pessoa, essa escrita que requer sair um pouco mais de si e se colocar como um observador, narrador. As pessoas estão muito autocentradas, e isso gera um texto mais fácil de se consumir, você conquista o leitor mais facilmente com a sua história de vida e talvez até receba menos crítica, porque a pessoa fala: “Ah, não vou falar mal do cara”, né? Poxa. E as pessoas não criticam mais o texto, o formato, se está bem escrito ou não. Criticam a história, criticam só o conteúdo da coisa.

Vira um julgamento moral, uma questão de identificação pessoal.
Acho que a gente está num momento difícil para a literatura, porque (parece que) tanto faz se o texto está mal escrito, pode ser qualquer nota, o que importa é a temática. Importa de onde vem o autor, o que ele representa… Porra, isso tem a sua relevância, claro que tem, mas isso não pode ser dissociado de uma primazia da escrita. A escrita precisa ser respeitada e bem feita. Não pode ser simplesmente “ó, eu tô falando sobre um tema que é importante de ser dito, então eu posso dizer de qualquer forma”, sabe? Na minha percepção, tem bastante disso e a gente perde muito quando a gente para de olhar pros textos como uma coisa que deve ser bem trabalhada, algo a lapidar. Não pode ser isso de “não critiquem porque essa é a minha expressão”.

Ao meu ver, esse tipo de postura tira uma coisa muito importante que é o delírio. A América Latina toda tem uma tradição maravilhosa com o realismo fantástico, escritores muito imaginativos, e essa é outra herança que não está sendo resgatada.
Li em algum lugar que o Matt Damon falou que, em roteiros de filmes para a Netflix, os produtores são obrigados a repetir informações, porque a pessoa fica com o celular, então a atenção é dividida. Ou seja, os filmes precisam ser expositivos ao máximo, porque você tem que ficar explicando a história para as pessoas entenderem. Imagina isso na literatura! Na literatura, muito dela é o que não está escrito, e muitas vezes é isso que é realmente importante. Naquele conto do [Ernest] Hemingway, “Colinas como Elefantes Brancos”, você tem um diálogo que você não entende porra nenhuma inicialmente, mas ele vai te levando para uma sensação, para uma uma pegada alucinante, justamente pelo que não está escrito ali. Não vira essa coisa totalmente descritiva. E essas novas literaturas, tipo esses romances de Kindle, o que eles abusam do verbo dicendi, essa do “ele disse”… Fazem isso de uma maneira tão brutal que fica um texto engessadíssimo. Então, perde-se muito espaço do que seria a sensação de estar dentro daquele universo, viajar dentro daquela coisa. Os diálogos humanos de verdade, normalmente eles também são assim: se perdem, ficam meio vagos, a gente compreende muito na expressão, no gesticular e o escritor, na minha opinião, tem a responsabilidade de fazer isso sem ser violento. Eu não gosto de descrever sentimento. Não gosto de chegar lá e falar: “Ah, então ela estava triste”. Não, cara, você tem que botar ação que determine a tristeza para que aquela tristeza seja percebida e não dita, senão fica muito pobre. E eu acho que a gente está indo muito para essa pobreza, até porque a gente hoje em dia tem que ser muito célere, as pessoas querem fazer a coisa ser rápida. Porra, cara, leva-se anos para escrever um livro!

Isso me leva a minha última pergunta, que é a periodicidade da Boca do Gato. É muito difícil uma publicação independente sair com regularidade, então queria saber como você pretende cuidar disso e da logística de distribuição das próximas edições.
A minha ideia imediata é fazer bimestral, porque fiz a primeira edição sendo vendida no lançamento, mas tenho plena consciência de que isso não se sustenta. A segunda edição já não vai ter o mesmo hype, e eu não vou conseguir juntar as pessoas num evento para comprarem a edição. Então quero que a revista seja gratuita, distribuída dentro da rede de bibliotecas da cidade, porque acho que vou conseguir atingir alguns leitores – pelo menos os que frequentam bibliotecas – e conseguir manter a revista a partir dos patrocinadores, aumentando a tiragem. Se aumentar um pouco o valor do anúncio, dá para bancar a edição. Cansei de ver revista que começa e nossa, o lançamento é sensacional, só que a segunda edição é mais difícil. Por isso a segunda, a terceira edição, elas são mais importantes. Da primeira todo mundo vai, compra, participa. Eu não quero uma edição só, também não quero só lançar ocasionalmente, porque aí também se perde muito, o negócio esfria. Então já estou fazendo parcerias para que a segunda tenha uma tiragem maior, tenha distribuição, acho que vou conseguir um bom valor ali para impressão… E não estou muito afim de ficar atrás de edital, não. Isso é um saco, cara. Se eu não fizer um produto que se sustente por si só, e dependa só de editais, a probabilidade disso acabar rapidamente é muito grande. É isso que acabou com os espaços musicais. Eu tenho uma banda, a TAKE 9001, a gente ganhou uns editais, veio uma grana, mas depois a própria galera fica na parada do “não vamos tocar de graça” e esquece do propósito da parada, que é fazer e mostrar a música. Os editais colocam os artistas como concorrentes, e deveria ser justamente o contrário. A gente deveria estar se ajudando, e não ficar todo mundo se batendo por uma verba ali de três, quatro paus, com todo mundo inimigo um do outro.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) é produtor e autor do livro “O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de José e Maria“.

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