Faixa a faixa: Violonista do Cordel do Fogo Encantado, Clayton Barros estreia solo com “Primitivo Atemporal”

texto de Marcelo Costa
faixa a faixa de Clayton Barros

Violonista e um dos fundadores da Cordel do Fogo Encantado, Clayton Barros estreia solo com “Primitivo Atemporal”, álbum que ganha lançamento em parceria com o selo Estelita. “Primitivo Atemporal” traz uma miscelânea de estilos musicais, com músicas que passam pelo samba, pelo rap, repente, baião, eletro, funk, além do rock e da MPB, ritmos base do artista, que tem o violão como espinha dorsal do novo álbum.

“O disco fala diretamente sobre o Sertão”, adianta Clayton Barros. “Desde os tempos primitivos até a diversidade do território, os povos originários, entradas e bandeiras, invasão, luta, miscigenação, a cultura e a relação com a natureza, instinto, misticismo, conhecimento autóctone e as personagens em desenvolvimento ao longo do tempo. O termo ‘Primitivo’ abrange isso tudo e muito mais. Já o termo ‘Atemporal’ busca evidenciar o resultado da nossa face primitiva nos dias atuais”, explica o músico.

Vindo da cidade de Arcoverde, local onde nasceu o Cordel do Fogo Encantado, o violonista viu de perto a transformação e a chegada da tecnologia em sua cidade. Localizada na Região do Sertão do Moxotó, a 256 km de Recife, Arcoverde é famosa por sua cultura, pelo comércio e é destaque na música “Rio De Janeiro/Moxotó”, uma parceria com André Zahar. Bnegão, Flaira Ferro, Jessica Caitano e Fernando Catatau também participam do álbum, que Clayton apresenta, faixa a faixa, abaixo.

01) ANCESTRAL: Fala sobre o amor instintivo, animal. Sobre uma volta a percepção e utilização dos nossos instintos diante um mundo tão virtualizado e digital, onde as emoções e sensações são cada vez mais sufocadas e deixadas de lado pelas limitações e ressecamento das sensibilidades que algumas tecnologias tem causado.
E também um baião ao meu modo, com violões dedilhados num riff constante e frenético. Tem um refrão mais ao pé do ouvido, quase sussurrado, como um cheiro no cangote.
Tem participação da potente Jessica Caitano nos vocais e padeiros, somos parceiros na autoria.

02) BARCO SEM RUMO: É uma referência a uma cena do filme de animação “Bicicletas de Belleville” (2003), quando a avó atravessa o mar num pedalinho em busca do neto, por isso a frase: “Atravessando o mar de bicicleta…”. Um dos autores dessa música contava a história de um fotógrafo que deu a volta ao mundo numa bicicleta, fotografando e contando essa aventura, e que ele queria criar uma bicicleta com vela pra atravessar o mar. Também traz o amor como a calmaria das tempestades e que quer enfeitar de flores o concreto das cidades. É uma capoeira tocada no violão,

03) PRIMITIVO ATEMPORAL: Título do álbum, esse tema aborda a invasão do sertão nas entradas e bandeiras, a luta dos povos originários e miscigenados sendo empurrados e exterminados sertão adentro, num dos maiores massacres que já aconteceram no nordeste colonial. Tem participação de Bnegão nos vocais, dividimos autoria juntos.

04) RIO DE JANEIRO/MOXOTÓ: Essa música traça uma ponte imaginária entre o sertão do Moxotó/Ipanema (região de Arcoverde-Pe) e o Rio de Janeiro, terra de André Zahar, parceiro com quem compus a letra. O arranjo vai se construindo a partir da voz e do violão até eclodir na percussão e beats eletrônicos e samples. Tem participação de Tonino Arcoverde nos backing-vocals e traz as paisagens do sertão sob estrelas de néon, uma visão onde a poeira e fuligem dos prédios, vão fecundando novos prédios e destruindo a paisagem histórica das arquiteturas que contam o que fomos e o que somos. A necessidade de senhas para adentrar os paraísos…

05) SERENA: Um baião mântrico, eletro-orgânico. Fala da entrega total em todos os aspectos, nossos sonhos e realizações. Da força que nos leva adiante e que atrai os frutos e resultados do que criamos e fazemos. Traz uma indagação sobre a imortalidade, de sermos plantados feito sementes de novos guerreiros.

06) TEMPO É AGORA: Uma reflexão sobre o tempo, as marcas que carregamos. Um samba inspirado nos tempos antigos. Tem presença marcante de bandolim, cavaquinho e violão, onde a voz grave e aguda se misturam criando texturas e um refrão que destina a continuidade da vida no balanço incansável e obstinado da humanidade.

07) CORPO INTEIRO: Com forte referência da música religiosa do Candomblé, essa faixa percorre o sertão, como um vaqueiro atrás do último boi em seu derradeiro gibão. O amor que se dá de corpo inteiro pra toda vida.

08) MAIS ALÉM: A visão de sossego, a paz de voltar a viver no interior, no sertão da futura infância. A fogueira, água em abundância. Também fala de companheirismo e luta. A visão paradoxal da chuva no deserto, simbolizando dias de fartura e a transformação constante da vegetação do sertão.

09) VENHA AO CAIS: Uma canção de desejo e paixão ainda não consumados, Os sonhos reais, ter o controle do tempo nas horas de amor, o poder do amor retardando o amanhecer. Fala também sobre a força do espírito em manter contato através de sonhos, ela foge do céu prum reencontro entre planos de diferentes existências. O amor e a saudade…

10) FAROESTE: Tema instrumental que busca retratar a expulsão dos invasores europeus, invertendo o fluxo da história, criando um sertão conduzido plenamente pelos povos originários e miscigenados, uma versão fictícia de vitória sobre os colonizadores e repaginação da sociedade.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

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