Três perguntas: “A bossa nova me fez valorizar as harmonias”, diz o músico francês Tristan Desrues

entrevistas de Carlos Lopes

O violonista e guitarrista francês Tristan Desrues, 34 anos, tem um pé no Brasil. Originário da região parisiense, durante o Festival de Jazz de Marciac de 2026 ele fez a curadoria das atrações musicais paralelas à cena principal do Chapiteaux, o palco onde as grandes estrelas se apresentam (que, neste ano, incluiam Sting, Pat Metheny, Keziah Jones e Samara Joy).

Sua proximidade com a arte musical brasileira se fez por meio da bossa nova, gênero ao qual foi apresentado pela dupla Antoine Tatich & Eric Gombart, em Paris há cerca de 15 anos. De lá para cá, cursou escola de música, conservatório, formou-se professor de teoria e prática musical e foi três vezes ao Brasil, conhecer de perto a riqueza da música que tanto o seduzia.

Tristan lançou na França o álbum “Paillettes” (2025), fortemente influenciado pela bossa nova, o qual vem divulgando em shows no país. Além da bossa, Tristan também toca choro no grupo francês Choro Viajante. Ele conversou com a reportagem do Scream and Yell nos bastidores do Festival de Marciac, deixando suas impressões sobre a música francesa atual e sobre a influência da bossa nova na arte feita por aí. Leia abaixo!

01) Como a bossa nova chegou até você? Qual a influência da técnica da bossa nova no seu trabalho?
Descobri a bossa nova entre os 20 e os 25 anos, por meio do guitarrista Antoine Tatich e do professor brasileiro Renato Velasco, em Paris. Em seguida descobri o Tom Jobim e o Romero Lubambo. Até então eu tocava violão clássico. Não conhecia acordes de jazz ou bossa nova. Aprendi escutando os discos. A bossa nova me fez valorizar as harmonias, me seduziu com bonitos acordes de jazz tocados invertidos, com o tempo mais lento. Em geral componho usando essas harmonias e acrescentando melodias. Parto das harmonias, explorando-as. É minha força. Gosto das minhas composições, a qualidade delas evoluiu. Canalizei a tristeza para superar meus limites de criação. Minha composição hoje está mais refinada.

02) A bossa nova influencia muitos artistas na França? Você acha que contribui de alguma forma para a atualização do gênero?
Acho que sim, pois na França a bossa é um clichê do Brasil. Como o choro, o samba, e o funk agora… Depende das gerações! De qualquer forma, o que faço é original. Tem o Jérôme Ciotti, mas não é muita gente que toca bossa nova na França hoje. Não tenho essa pretensão (de atualizar o gênero), mas certamente gostaria que minha música fosse mais difundida. Meu objetivo não é influenciar o gênero, e sim partilhar. As pessoas que escutam minha música dizem que ela faz bem, e isso me traz satisfação.

Divulgar e vender música é complicado. Encontrar maneiras de ser escutado, não é exatamente o que me interessa. Mas hoje em dia gravar disco não é suficiente…tem as plataformas, cuja remuneração é ridícula. Minha música é de nicho. Então tento fazer melodias acessíveis, mas com delicadeza. Minha música não é comercial, mas é legal tocar uma música que todos conhecem. Atrai pessoas para escutar minhas composições. No meu disco gravei “Totoro” e “Porco Rosso” , que são músicas conhecidas, pela abertura que representam junto ao público.

03) Quais são as perspectivas na França para um músico com o seu percurso?
O ideal seria explorar bem minha rede de divulgação, tocar em Paris, Marciac e no interior da França. Vender meu disco, tocar no rádio. Gostaria também que as pessoas tocassem as partituras e tablaturas. Estão na Plataforma Gumroad.

– Carlos Jack Dias Lopes é jornalista. As fotos dos shows são de Laurent Sabathé / Jazz in Marciac

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