textos de Marcelo Costa

“As Cores do Tempo”, de Cédric Klapisch (2025)
Tempos modernos: uma incorporadora planeja construir um shopping center no terreno de uma antiga casa, fechada desde 1944. Na pesquisa, encontra 30 descendentes da última moradora, Adèle (a ótima Suzanne Lindon), que decidem criar uma comissão para visitar o imóvel e avaliar seu destino. O grupo formado pelo professor Abdelkrim (Zinedine Soualem), pelo criador de conteúdo Seb (Abraham Wapler), pela executiva Céline (Julia Piaton) e pelo apicultor Guy (Vincent Macaigne) adentra a casa tomada por poeira e mato e encontra fotos, cartas e pinturas que remetem a história de Adèle e de sua família e iniciam uma viagem no tempo (não apenas metafórica). O roteiro alterna, então, de maneira cativante, a Belle Époque parisiense com os tempos atuais. No passado, mais precisamente em 1895, Adèle abandona esta casa na zona rural da Normandia após a morte da avó para ir atrás da mãe, Odette (a cativante Sara Giraudeau), que vive em Paris, e, como não poderia deixar de ser, encontra a si mesma – no percurso, conhece Sarah Bernhardt, o pintor Claude Monet (que “empresta” suas impressionantes Ninfeias, hoje expostas no delicado Museu L’Orangerie, ao filme) e o fotógrafo pioneiro Félix Nadar. Woody Allen amarrou sua história de maneira mais concisa no bonito “Meia Noite em Paris” (2011), mas Klapisch – que domina como ninguém a arte das comédias dramáticas leves, vide “Odeio Te Amar” (1996) e a trilogia de coming age “O Albergue Espanhol” (2001), “Bonecas Russas” (2005) e “O Enigma Chinês” (2013) – consegue contrapor de maneira elegante “a chegada do futuro” (“La Venue de l’Avenir”, o título original do filme, é um jogo de palavras com “La venue”, a chegada, e “L’avenue”, a avenida, que remete a uma cena encantadora com uma vista panorâmica de Paris a partir da colina de Montmartre no exato momento em que as luzes elétricas se acendem pela primeira vez na avenida Champs-Élysées) com o futuro dos familiares de Adèle, entre redes sociais, celulares e apps de conversa em grupo (a tela de um Teams, por exemplo, com familiares discutindo o destino do imóvel, soa uma versão moderna da parede da casa de 1944) tentando desvenda-la enquanto desnudam-se a si próprios num jogo agradável entre passado e presente que, paralelamente, reforça a premissa de Woody: as questões sérias da vida seguem as mesmas… em qualquer época.
Nota: 7.5

“French Lover”, de Lisa-Nina Rives (2025)
Você já viu esse filme antes, o que em se tratando de uma comédia romântica clichê (reforço na redundância) não é nenhuma novidade, mas, realmente, você JÁ VIU esse filme antes: de um lado temos Abel Camara, um ator famoso na casa dos 40 anos que está desencantado da vida, pois levou um pé na bunda da ex e está estrelando comerciais de uma linha de desodorante popular (French Lover é a marca, boa sacada do roteiro) quando, na verdade, queria atuar em filmes sérios que rendessem indicações ao César, o Oscar francês. Do outro temos Marion (perceba que ela não ostenta sobrenome), uma garçonete que acaba de ser demitida do emprego e está assinando a papelada do divórcio com o ex-marido, que é dono do apartamento em que ela vive (e está lhe cobrando os alugueis atrasados). Parece existir quase nada em comum entre ambos, mas o destino (ou melhor, o roteiro) trata de dar um jeito de colocar os dois pombinhos frente a frente, e a atriz Anna Scott (Julia Roberts) vai se apaixonar pelo livreiro Will Thacker (Hugh Grant)… Espera, esse é outro filme, mas tudo bem, porque Lisa-Nina Rives é tão dedicada na “recriação” que até copia uma cena inteira de “Um Lugar Chamado Notting Hill[“ (a do almoço em família) nessa produção francesa encomendada pela Netflix, que tentou disfarçar creditando a série israelense “Very Important Person”, de Shirli Mushoyef, como inspiração para “French Lover”, mas talvez a IA tenha tido dificuldade para adaptar o hebraico e preferiu o inglês britânico (tem cada IA preguiçosa por ai, fique atento). O resultado dessa cópia fiel só não é um desastre porque Omar Sy (de “Intocáveis”, 2011, e “Lupin”, 2021) e Sara Giraudeau (de “O Pequeno Fazendeiro”, 2017, e “As Cores do Tempo”, 2025) são completamente encantadores em seus papeis. Omar constrói um Abel ótimo como o rapaz de infância pobre que vira famoso, milionário e sem noção (ou seja, um babaca completo) praticamente esquecendo de suas origens humildes (a cena do hospital é muito boa). Já Sara é perfeita em transmitir uma mulher que sabe que está vivendo algo irreal, mas nem por isso vai deixar de ser ela mesma para se adequar a um universo em que não pertence. O resultado é um filme óbvio, clichê e divertidinho, um bom passatempo esquecível como quase todas as comédias românticas, com uma diferença: Paris. Eita cidade linda.
Nota: 5

“Nouvelle Vague”, de Richard Linklater (2025)
Em 2025, o diretor Richard Linklater (da trilogia “Antes do Amanhecer”, “Antes do Por-do-Sol”, “Antes da Meia-Noite”) lançou dois filmes belíssimos, “Blue Moon” e “Nouvelle Vague”, num intervalo de duas semanas. Ambos foram ignorados pelo Oscar (apenas Ethan Hawke foi indicado a Melhor Ator pelo primeiro), o que diz mais sobre mercado e a Academia do que sobre cinema. “Blue Moon” traça um retrato melancólico e encantador do compositor Lorenz Hart (texto aqui). Ja “Nouvelle Vague” lança luz sobre a gênese de “Acossado” (1960), obra-prima obrigatória de Jean Luc-Godard. Linklater recria o período de maneira apaixonada e devota (e nem um pouco godardiana, para indisfarçável felicidade de alguns) amparado em um roteiro divertido de Michèle Halberstadt e Laetitia Masson (que empilham frases clássicas do crítico da Cahiers de Cinema e futuro diretor ao lado de citações antológicas), numa recriação de cenários impecável de Katia Wyszkop e na irresistivel fotografia em preto e branco de David Chambill. A trama começa em 1959, com Godard, Truffaut, Chabrol e Schiffman (todos devidamente identificados na tela, expediente que será usado para todos os “personagens” dos dois filmes, “Acossado” e “Nouvelle Vague”) assistindo à estreia de “La Passe du Diable”, que o crítico Godard irá destruir em conversa com seu produtor, Georges de Beauregard. Logo depois, em Cannes, quando “Os Incompreendidos”, de Truffaut, é lançado e celebrado, Godard e Beauregard fecham acordo para um filme, com o produtor exigindo que Truffaut assine o argumento e Chabrol seja o supervisor técnico. “Bem, se eles querem uma nova onda (Nouvelle Vague), vamos lhes dar um maremoto”, devolve Godard, que aproveita os momentos que antecedem as filmagens para colher conselhos de Jean-Pierre Melville, Robert Bresson e Roberto Rossellini, que provoca, rindo: “Primeiro dia de filmagem, fim do sonho”. A receita (que Linklater não segue), enumeram os amigos da Cahiers, é “ser rápido como Rossellini, malicioso como Sacha Guitry, musical como Orson Welles, simples como Marcel Pagnol, dolorido como Nicolas Ray, eficaz como Hitchcock, profundo como Bergman e, principalmente, insolente como ninguém”. Durante 20 diárias, Godard (Guillaume Marbeck, perfeito) irá enlouquecer produtor e atriz principal, Jean Seberg (a ótima Zoey Deutch de “Mensagens Para Isabelle“), mas irá conquistar a equipe e um lugar na história do cinema enquanto revoluciona a sétima arte. “Nouvelle Vague” reconta esse período de maneira reverente, emocional, despretensiosa e encantadora num filme, sobretudo, para apaixonados por cinema.
Nota: 9
– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.