entrevista de Alexandre Lopes
Durante quase uma década, a Trash No Star ajudou a criar as condições para que a música independente acontecesse no Rio de Janeiro. Enquanto organizava shows, mantinha um espaço cultural, tocava, trabalhava, estudava e passava por mudanças pessoais, deixando seu próprio disco para depois. Lançado finalmente em junho, “Existir é Resistir” (2026) é o resultado desse intervalo – ou da decisão de finalmente voltar a uma história que parecia ter ficado para trás.
O EP reúne sete músicas em pouco menos de 18 minutos, mas sua duração real não cabe em uma contagem de tempo linear. Algumas das faixas começaram a ser pensadas anos atrás, outras surgiram bem depois. Parte do material foi abandonado e reconstruído até que sobrassem apenas canções que ainda tinham algo a dizer para os guitarristas Lety e Felipe. “São músicas que atravessaram todo esse processo porque continuam fazendo sentido pra gente, tanto pelo que dizem quanto pela forma como dialogam com o momento que estamos vivendo”, conta a banda.
Formada por Lety e Felipe na Baixada Fluminense, a Trash No Star surgiu entre o noise rock, o grunge, o punk e o indie dos anos 1990. Sonic Youth, L7, Babes in Toyland, Dinosaur Jr. e Mercenárias ajudam a desenhar o mapa de referências da banda, que lançou os discos “Single Ladies” (2013) e “Stay Creepy: (no)Summer Hits” (2014), além dos singles “Por Nós” e “Bobagem”.
A música, porém, nunca foi a única frente de atuação. Lety e a atual baixista Hanna também fundaram o selo Efusiva e passaram quase oito anos dedicadas à Motim, espaço cultural que recebeu shows, encontros e artistas da cena independente do Rio de Janeiro. Mais do que uma casa de shows, o local funcionava como ponto de articulação para uma comunidade que incluía mulheres e pessoas LGBTQIAPN+, ajudando a sustentar uma cena que frequentemente depende de estruturas improvisadas para continuar existindo.
A conta dessa dedicação foi cobrada da própria banda: administrar a Motim ocupava tempo, energia e espaço mental. O disco era constantemente empurrado para um futuro que nunca parecia chegar. Em algum momento, a possibilidade de simplesmente abandonar tudo passou a fazer parte das conversas. “Chegamos a pensar em desistir do disco e da banda”, admitem. Foi preciso a Motim acabar para que a Trash No Star pudesse voltar a olhar para o que havia deixado em suspenso. O encerramento do espaço não significou apenas o fim de um ciclo profissional e afetivo, mas também abriu uma espécie de arquivo: músicas, ideias e experiências acumuladas ao longo dos anos.
É aí que “Existir é Resistir” deixa de ser apenas o nome de uma faixa do EP ou uma declaração de princípios; o título também descreve a própria trajetória do disco. Não há romantização da dificuldade, mas a constatação de que permanecer produz marcas e que algumas experiências continuam voltando até finalmente encontrarem uma forma.
As letras partem de questões concretas: precarização do trabalho, estruturas de poder, amizade, afeto e redes de apoio aparecem em músicas que não parecem interessadas em separar o pessoal do político. Sobre a faixa-título, Felipe fala em “uma crítica ao capitalismo e às formas de opressão que muitas vezes não são tão explícitas”. Já “Candy”, segundo Lety, nasce de outro tipo de sentimento: “uma celebração do amor entre amigas, do cuidado e da rede de apoio que construímos umas com as outras”. Se uma música olha para as estruturas e engrenagens que ao mesmo tempo empurram e esmagam a vida, a outra olha para as pessoas que ajudam a torná-la suportável. No conjunto, o EP entende que as duas coisas estão relacionadas.
O som continua reconhecível para quem acompanha a banda desde os primeiros trabalhos. Há ruído, peso, guitarras ásperas e a mistura de referências que sempre esteve no DNA da Trash No Star. Certas faixas chegam a lembrar os momentos mais brutais do …And You Will Know Us By The Trail of Dead nos anos 90. Mas existe também uma mudança de perspectiva: a banda passou a compor em português com mais frequência, numa tentativa deliberada de aproximar a música da realidade que a cerca. “Compor em português tem a ver com quem queremos alcançar e com quem queremos nos comunicar”, explicam.
“Existir é Resistir” não soa como um trabalho feito para provar que a banda sobreviveu ou tenta transformar os anos de espera em uma narrativa fajuta de resiliência típica de coaches. É mais interessante do que isso: são músicas que sobreviveram ao processo porque continuaram necessárias. E talvez seja esse o melhor retrato da Trash No Star neste momento: uma banda que passou anos construindo lugares para que outras vozes fossem ouvidas e que agora volta a ocupar o próprio espaço. Não com a pressa de recuperar o tempo perdido, mas com a consciência de que algumas coisas só ficam prontas quando a vida finalmente deixa.
Em entrevista ao Scream & Yell, a Trash No Star fala sobre a longa gestação de “Existir é Resistir”, o impacto da Motim em sua trajetória, as mudanças de formação, a decisão de compor em português e os motivos que fizeram a banda continuar mesmo quando terminar o disco parecia uma possibilidade cada vez mais distante. Confira o bate-papo completo abaixo.
O EP começou a ser gravado há mais de uma década. Quando vocês escutam essas músicas hoje, elas parecem um retrato daquele momento ou as faixas ganharam novos significados ao longo do tempo?
Trash No Star: No passado, chegamos a iniciar a gravação das baterias, mas optamos por não aproveitar nada daquele material. Ao longo desse tempo, muita coisa mudou. Algumas músicas ficaram pelo caminho porque já não faziam mais sentido para a banda, enquanto outras foram criadas durante esse período e acabaram entrando no EP. Mas “Bobagem” (que foi lançada anteriormente como single), “Candy”, “Medo” e “Catch the Sun” permaneceram. São músicas que atravessaram todo esse processo porque continuam fazendo sentido pra gente, tanto pelo que dizem quanto pela forma como dialogam com o momento que estamos vivendo.
Durante esse período, muita coisa mudou na vida de vocês: trabalho, maternidade, estudos, a Motim, a Efusiva. Em algum momento vocês pensaram que esse disco nunca seria concluído?
Trash No Star: Sim, por muitas vezes chegamos a pensar em desistir (do disco e da banda). Mas depois que a Motim encerrou as atividades, percebemos que havia ficado uma lacuna e que seria legal pelo menos registrar o que a gente fez durante esse tempo. Foi um período muito louco, intenso, mesmo na correria surgiram momentos criativos para compor músicas que eram reflexo do que a gente estava vivendo enquanto administrava um espaço cultural na marra. “Existir é Resistir” é fruto disso: de fazer o que dava, com o que a gente tinha disponível, de energia, vontade, e uma certa esperança de que poderia dar tudo certo.
O que mudou na Trash No Star entre a banda que começou esse EP e a que o está lançando agora? Qual a formação que seguirá tocando nos shows?
Trash No Star: Além da formação, mudamos profundamente. Desde a forma como a gente compõe, até a maneira como a gente equilibra as expectativas em relação ao que queremos construir. Esse equilíbrio ajudou a entender quem somos, onde queremos chegar e, principalmente, como queremos fazer esse caminho. A formação atual conta com Lety e Felipe nas guitarras (um sonho antigo), Hanna assumiu o baixo e Bernardo a bateria. Mais do que ter as mesmas referências musicais, a gente faz parte um da vida do outro. Tocar com amigos torna todo o processo mais leve e mais verdadeiro. Existe uma confiança que vai além da música, e isso faz diferença tanto na criação quanto nos shows. A gente sente que encontrou uma formação em que todos caminham em direções parecidas, mas que preservam a individualidade de cada um.
A faixa-título critica padrões, moralismo, academia, Estado e estruturas de poder. Como essa letra nasceu? Ela veio de experiências específicas pessoais que vocês passaram ou é inspirada indiretamente pelo que vocês já tiveram contato pela cena?
Felipe: “Existir é Resistir” é uma mensagem punk, apresentada em forma de poema, de palavra falada, e veio da vontade de fazer uma crítica que fosse mais reflexiva. Ela tem a ver com a minha experiência no universo acadêmico, mas, no fundo, é uma crítica ao capitalismo e às formas de opressão que muitas vezes não são tão explícitas como a igreja, padrão estético e cultural. A ideia é falar dessas estruturas de poder de um jeito menos direto, apontando para violências e mecanismos do cotidiano, mas que nem sempre ficam evidentes à primeira vista.
“Candy” apresenta uma admiração por uma personagem que me lembra a letra de “Rebel Girl”, do Bikini Kill. Ela nasceu de uma história real ou é mais uma brincadeira com essa linguagem do indie rock dos anos 1990?
Lety: “Candy” fala sobre o amor entre amigas e é direcionada às mulheres que admiramos. A gente costuma associar o amor quase sempre às relações românticas e acaba deixando em segundo plano a importância dos vínculos de amizade, como se eles fossem menos significativos. A música fala sobre esse afeto, sem hierarquizar as relações. No fim das contas, são as nossas amigas que nos acolhem, nos fortalecem e entendem o que estamos vivendo. Candy é uma celebração desse amor, desse tesão que não deveríamos ter vergonha de expor para essas mulheres incríveis que estão do nosso lado, o cuidado e a rede de apoio que construímos umas com as outras.
“On Fire” traz uma letra curtíssima, mas bastante direta. Quem é esse “Beauty Boy” e o que motivou essa composição?
Lety: Essa eu queria ter feito em português. Mas como essa música fala do amor entre Trump e Bolsonaro, não consegui. Ficou em inglês mesmo. Mas esse “Beauty Boy” é o carinha loiro padrão que está destruindo o planeta desde sempre e que levou a gente pro colapso ambiental. É sobre poder, privilégio branco e como eles brincam de destruir tudo e construir muros o tempo todo. E “On Fire” é sobre tacar fogo neles.
O disco alterna letras em português e inglês. Essa escolha acontece naturalmente ou vocês pensam no idioma como parte da identidade de cada música?
Trash No Star: No início, a maioria das composições eram em inglês, muito por causa das nossas referências musicais e também porque, naquele momento, parecia mais fácil compor assim. Mas, com o tempo, e com uma consciência política maior sobre o que estávamos fazendo e para quem estávamos falando, isso começou a perder o sentido. Hoje, compor em português tem a ver com quem queremos alcançar e com quem queremos nos comunicar. A gente quer que as músicas dialoguem de forma mais direta com as pessoas ao nosso redor, com a nossa realidade e com as experiências que atravessam a nossa vida e a cena em que estamos inseridos.
“Medo” encerra o EP de forma mais introspectiva. Foi uma escolha consciente terminar o disco olhando para dentro, depois de tantas músicas voltadas para o mundo exterior?
Lety: “Medo” é uma das antigas que a gente sempre quis gravar. Ela foi propositalmente colocada como um extra, no final do EP, logo depois de “Não quero ouvir você”. É como dar uma prévia do que a gente tem em mente para o próximo disco (mas talvez não, tudo pode mudar hahahaha). Essa foi inspirada no meu pai que sempre dizia “ah, deixa como está” quando eu entrava em pânico por qualquer problema. É como confiar que vai dar tudo certo porque a gente precisa deixar fluir, não controlar tudo. Mesmo que não seja do nosso jeito, as coisas vão se encaixando… Essa é triste demais
A Motim ocupou quase oito anos da vida de vocês e acabou influenciando diretamente o ritmo da banda. Dá a entender que vocês colocaram muito tempo e energia em fortalecer a cena independente antes mesmo de fortalecer a própria carreira da banda. Foi uma escolha consciente? O que vocês aprenderam dessa experiência?
Lety: Administrar a Motim impactou profundamente a vida de todas as pessoas que passaram por lá. A gente estava construindo um espaço para o qual praticamente não existiam referências: um espaço gerido por mulheres e pessoas LGBT+, voltado para fortalecer artistas desses mesmos grupos, sem grandes investimentos, patrocínios ou apoio de empresas. Era um processo de tentativa e erro o tempo todo. Isso consumia muito da nossa energia e do nosso tempo, mas, enquanto existiu, a Motim era uma prioridade porque acreditávamos muito naquele projeto. Era o sonho de todas nós. Não foi exatamente uma decisão planejada; foi um caminho que fomos construindo aos poucos, tentando fazer o melhor com os recursos que tínhamos. Essa experiência também mudou completamente a nossa perspectiva. Antes, enxergávamos a cena apenas do ponto de vista de quem tinha uma banda. Depois, passamos a entender o que significa gerir um espaço cultural, produzir eventos, pensar curadoria, formar público e lidar com todas as dificuldades que existem nos bastidores. E talvez a principal lição tenha sido perceber como a exclusão de mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ da cena não acontece por falta de artistas talentosas, mas porque quem ocupa os espaços de decisão — quem faz a curadoria, organiza festivais e distribui oportunidades — muitas vezes escolhe manter tudo como está. A Motim nos mostrou que a desigualdade não é um acaso: ela também é produzida pelas escolhas de quem tem o poder de abrir ou fechar portas.
Se alguém nunca ouviu a Trash No Star e começar justamente por “Existir é Resistir”, o que vocês esperam que essa pessoa entenda sobre a banda?
Trash No Star: Saber que gostamos de distorção, microfonia, de experimentar coisas, de falar sobre tudo mas de um jeito não tão óbvio, pra abrir possibilidades. E que dá pra fazer mesmo com tudo indicando o contrário.
– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.