textos de Marcelo Costa

“Por Inteiro”, de William Bridges (2025) – AppleTV
Simon e Laura são melhores amigos desde a faculdade, daqueles unha e carne, prontos para os altos e baixos da vida. Eles são inconvencionalmente bonitos (Brett Goldstein e Imogen Poots), dividem um impagável e sarcástico humor britânico, mas nunca sentiram atração um pelo outro. Ou ao menos nunca confessaram isso. Laura está em busca de sua alma gêmea, e uma empresa, Soul Connex, promete encontra-la (num esquema meio Black Mirror de cruzamento de dados). Simon paga o teste para Laura, e os dados da garota são cruzados com o de Lukas e, então, temos um novo casal de almas gêmeas. E uma filha. A amizade de Simon e Laura permanece forte, ainda que eles não se falem tanto, afinal… tornaram-se adultos. Mas a rotina do casamento e uma duvidazinha que Laura tem em relação a Simon inserem um ingrediente na trama que torna “All of You” belo e doloroso: “Você pagou o teste para mim esperando que você fosse minha alma gêmea?”, pergunta Laura, e essa portinhola aberta apresentará um novo mundo para os, a partir de agora, ex-amigos, futuros amantes: o dos romances impossíveis. Sim, você já leu, ouviu e assistiu essa história antes (“Desencanto”, “Casablanca”, “A Época da Inocência”, “As Pontes de Madison”, “Cidade dos Anjos”, são tantos), ainda que o roteirista Brett Goldstein afirme que tenha trabalhado no projeto por mais de 10 anos ao lado do diretor William Bridges, referindo-se a ele como “meu bebê”. Brett, aliás, é o principal chamariz de “All of You”, pois uma das coisas que move a curiosidade do espectador é saber se o roteirista e ator irá conseguir se desvencilhar de seu personagem icônico na série “Ted Lasso”, o de Roy Kent. Quer saber? Não, não consegue, pois Simon é uma versão muito levemente suavizada de Roy, mas são almas gêmeas. E isso não atrapalha o filme. Brett tinha quase 15 anos de janela em filmes e séries, tanto como ator quanto como roteirista, quando passou a integrar o elenco de “Ted Lasso” em 2020, mesmo ano em que estreou a série “Soulmates”, da qual é co-criador, roteirista e produtor executivo (“All of You”, inclusive, integra o mesmo universo ficcional e futurista da série, que teve sua segunda temporada cancelada, o que abriu as portas para que o roteiro do filme fosse tirado da gaveta). Lançado pela AppleTV, “Por Inteiro” segue a cartilha dos filmes de amores impossíveis a risca, e merece ser visto tanto por isso quanto pelas atuações cativantes de Brett e de Imogen Poots, que transpiram química em cena, e deviam ter ficado juntos desde o primeiro minuto. Infelizmente, às vezes as coisas não acontecem como deveriam acontecer. Mas histórias assim podem render bons filmes… como esse.
Nota: 8

“O Drama”, de Kristoffer Borgli (2026) – Prime Video
Charlie Thompson é diretor de um museu britânico em Boston, nos Estados Unidos. O espectador, porém, não irá identificar isso de início, pois a interpretação de Robert Pattinson constrói um homem vacilante e inseguro, tal qual um Clark Kent real e atrapalhado. Num primeiro momento, ele parece estar tentando se aproximar de uma garota, numa tentativa tão desajeitada que o relacionamento entre os dois só se desenvolve porque Emma (Zendaya), aparentemente, foi com a cara do rapaz. Ainda que seja uma situação de flerte, a edição entre-cortada, que casa a perfeição com o que virá a seguir em “The Drama”, visa deixar o espectador incomodado, provocando-o. Dois anos após esse primeiro encontro, Charlie e Emma estão prestes a se casar, ostentando uma vida feliz juntos que aparenta ser inabalável. Porém, enquanto aprovam pratos escolhidos para o buffet do casamento sorvendo garrafas de vinho com o casal de padrinhos Rachel e Mike (Alana Haim e Mamoudou Athie), Charlie e Emma são convidados a compartilharem a pior coisa que fizeram na vida, e a revelação de Emma causa um caos no quarteto, com Rachel se afastando e ameaçando deixar o posto de dama de honra e Charlie surtando aos poucos conforme é confrontado com o passado de sua amada às vésperas da cerimônia. “The Drama” é uma bomba-relógio prestes a explodir. Impagavelmente e cruelmente sarcástico, o diretor e roteirista norueguês Kristoffer Borgli conduz a trama de forma metódica e sagaz como alguém que se delicia com a tortura psicológica de seus personagens – e, por conseguinte, do público. Ainda que vários momentos cômicos e de romance permeiem a história, “The Drama” é um suspense disfarçado, daqueles que aprofundam o tema que colocam em pauta ao mesmo tempo em que pisca os olhos para a cumplicidade do espectador, colocado-o na parede ao lado dos personagens. Sucesso de bilheteria da A24, com custo estimado de 28 milhões de dólares e renda na casa dos 130 milhões, “O Drama” está disponível na Amazon Prime e é daqueles filmes “ame ou odeie”. Faça o teste. Vale muito a pena.
Nota: 8

“Mensagens para Isabelle”, de Leah McKendrick (2026) – Netflix
Você já deve ter lido algumas vezes sobre comédias românticas no Scream & Yell, e percebido que, aqui e ali, defendemos que “Harry & Sally” (1989) é o auge do estilo, quase como uma métrica de qualidade a ser alcançada: um pouco para um lado e fica açucarado demais; um pouco para o outro e fica cômico demais; alguns exageram no drama, outros no romance, e por ai vai. “Voicemails for Isabelle” (título original), por exemplo, não tenta competir com os cânones do estilo, apenas homenageá-los. A diretora e roteirista Leah McKendrick estudou metodicamente o estilo, e, ainda que ultrapasse o limite da sacarina em alguns momentos, consegue chamar a atenção por um ponto de partida interessantíssimo: Jill e Isabelle (Zoey Deutch e Ciara Bravo) não são apenas irmãs, mas cúmplices, parceiras e amigas. Isabelle sofre de fibrose cística, uma doença genética rara e crônica que une ainda mais as irmãs, que, na impossibilidade de viverem uma vida normal brincando na rua com outras crianças, transformam a cozinha da família em um refúgio particular. Elas vivem em Austin, no Texas, e Jill cresce sonhando em ser chef. Uma oportunidade a leva para São Francisco, na Califórnia, mas ela não passa um dia sequer sem falar com a irmã, que alterna repouso em casa com internações em hospitais. As mensagens de celular são o diário que as duas constroem juntas, com Jill contando de suas aventuras na confeitaria de um chef abusivo e de seus casos de amor fracassados. Isabelle, porém, tem uma recaída, e acaba morrendo, e Jill, arrasada, cria o habito de continuar “conversando” com a irmã através das mensagens de telefone. O que ela não sabe, porém, é que o antigo número da irmã foi transferido para uma empresa, e que um rapaz bonito, galante e charmoso, mas com pouca sorte para relacionamentos e pouca fé no amor, está ouvindo tudo o que ela conta para a irmã (falecida). Wes (Nick Robinson) se encanta por Jill, e decide ir a trabalho para São Francisco para conhece-la (sem contar a ela que está ouvindo todas as suas confissões). Os dados da confusão e do romance foram lançados e, no meio do caminho, McKendrick irá aproveitar para encavalar citação sobre citação – de “Sintonia de Amor” a “Jerry Maguire”, de “Diário de uma Paixão” a “Simplesmente Amor”, de “Mensagem para Você” a “A Culpa é das Estrelas” – para não deixar um mínimo vestígio de dúvida de suas intenções. O resultado é um filme bonitinho e ordinário (número 1 na Netflix durante várias semanas em praticamente todo o mundo), que oferece doses cavalares de açúcar e de escolhas sonoras duvidosas em troca de sorrisos e despretensão. E, ainda que o trecho final seja excessivamente meloso, (quase) todos saem felizes.
Nota: 6.5
– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.