Jazz in Marciac 2026: O guitarrista Keziah Jones mostra seu blufunk (blues + funk) com direito a cover de Dylan (e Hendrix)

texto de Carlos Lopes
fotos de Laurent Sabathé

Na quinta-feira (23), a honra de encerrar a noite no Chapiteau, o maior palco do festival Jazz de Marciac, na França, ficou a cargo do cantor, compositor e guitarrisata nigeriano Keziah Jones, que inspirava-se certa curiosidade devido a história de que foi descoberto tocando no terraço de um café, na Londres dos anos 1990. De certa forma, sua escalação no Jazz in Marciac demonstrava certa ousadia da produção em trazer ao festival um artista com uma história “mambembe” (que inclui shows em estações de metrô – ainda hoje).

Eles têm seus queridinhos no festival, pois Marciac é também um centro importante de formação inicial de músicos. E o perfil dos queridinhos, tal qual o saxofonista Emile Parisien, que tocou na segunda noite, não é exatamente o de Keziah. Mas Keziah não decepcionou – ainda que a maioria  das pessoas questionadas pela reportagem sobre o concerto de Keziah tenha o achado, no máximo, simpático! Mas o que realmente conquistou em sua apresentação foi, justamente, sua espontaneidade. Já assisti a mais de 150 concertos em Marciac e Keziah foi o único músico que vi se abaixar para regular um pedal no palco do festival. Ele se apresenta num grande palco como se tocasse na esquina (ou em uma estação de metrô).

Sua banda, composta apenas por músicos negros, é enxuta e competente, com baixo (Mo Pleasure), bateria (Josh McNasty), sua guitarra e uma cantora de apoio (o release informava que o teclado seria executado ou por Silvan Rabbath ou Alban Legoff, mas nenhum deles estava lá. Na única faixa com teclado, o baixista Mo Pleasure fez duplo papel). Ele não precisa de muito para se sentir à vontade e soltar em vôo livre uma mão direita incrivelmente suingada, numa guitarra furiosa onde se fazem evidentes as influências de Hendrix e Prince.

“Beautiful Emily”, a sexta música de seu set, faz lembrar muito Prince. E no bis teve a dylanesca “All Along the Wachtower”, imortalizada em uma versão tão incrível de Jimi Hendrix que o próprio Bob Dylan passou a tocar o mesmo arranjo. É verdade que, para a grande maioria do público, sua mistura de blues e funk, batizada por ele de “blufunk”, pode não ser lá de fácil assimilação. Ainda mais que há músicas cantadas na língua Iorubá, de seu país natal. Ritmicamente, ela pode seguir múltiplas direções, sempre atreladas à mão direita de Keziah (Mo e o baterista Josh McNasty suam bicas para acompanhá-lo).

Assim, canções com groove mais “definido” como “Supreme Love” e “The Funderlying undermentals” dão alguma âncora para o público tentar acompanhar a desorientação rítmica que vem em seguida. Keziah não se preocupa muito em agradar os presentes, embora não aparente egolatria. Com uma hora de show, inesperadamente, acena para a banda e todos se retiram. A audiência pede mais, e o cantor volta só com sua guitarra. Toca três baladas com mensagens sobre as dificuldades de se viver num mundo hostil e cada vez mais racialmente limítrofe e dá seu adeus final. O público daqui adora esse tipo de auto-comiseração: a fragilidade das minorias.

Por cinco minutos, o público insiste para que Keziah volte, mas é como se jogassem moedas dentro de seu chapéu. Inútil! Ele já deve estar pensando na próxima boca de metrô em que irá se apresentar.

Leia mais sobre o festival Jazz in Marciac no Scream & Yell

– Carlos Jack Dias Lopes é jornalista. As fotos dos shows são de Laurent Sabathé / Jazz in Marciac

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