texto de Carlos Lopes
fotos de Laurent Sabathé
Começou na segunda-feira, 20 de julho, a 48 edição do festival de Jazz de Marciac, na França. Até o dia 5 de agosto serão 38 shows numa cidadezinha de cerca de 1.200 habitantes, encravada na região da Occitania, no Sudoeste da França., com destaque para Pat Metheny, Marcus Miller, Keziah Jones, Kool and The Gang, Diana Krall e Thomas Dutronc, entre tantos. Marciac é também um elevador artístico, onde músicos em diferentes estágios da carreira entram e saem, sobem e descem, se cruzando entre eles mesmos e com o público, evidentemente.
Assim foi com Sting e Samara Joy, as principais atrações das duas primeiras noites do festival. O focado e septuagenário Sting começou no The Police com 26 anos. A idade de Samara hoje. Este ano completam-se 50 anos que o trio inglês veio à luz. A jovem e sorridente Samara apareceu para o mundo do espetáculo em 2019. Sting tem na prateleira de sua mansão nada menos que 17 Grammys, Samara, por enquanto, arrancou um, o de melhor artista revelação em 2022.

Quando ainda era mais Gordon Summers (seu nome) do que Sting (seu apelido) o britânico deu duro com seu trio, viajando apertado dentro de uma van pelos EUA, sem disco, mas com disposição única para mostrar sua música vigorosa ao mundo. Quando ainda era Samara MacLendon (seu nome artístico inicial), Samara Joy assombrou o mundo vencendo o Festival Internacional de Voz Sarah Vaugham, sem muito esforço dada a sua notável capacidade natural para emular aquela que foi considerada a voz mais maravilhosa do século XX.
A partir de 1977, com o The Police, Sting ía pessoalmente onde houvesse vaga num palco, fazendo concerto de tudo que era tamanho mesmo em países longínquos onde artistas ocidentais dificilmente botavam os pés, como o Egito… e o Brasil (pré-Rock’n’Rio). Em 2020, Samara teve a carreira turbinada por um video que chegou a 1,5 milhão de visualizações. E, devido a isso, ŕapidinho alcaçou a marca de 200 mil seguidores no Tik Tok.
A partir dos anos setenta, quando começou, Sting tocou em trio, passando nos anos oitenta a acercar-se de uma enorme banda jazzística, e voltando agora ao formato baixo, guitarra e bateria. Samara excursiona com um octeto multiracial jazzístico, onde o destaque é uma trombonista asiática. Ambos, aliás, estiveram em São Paulo em 2025: Sting superlotou a Arena Ibirapuera com público estimado de 15 mil pessoas em fevereiro; Samara Joy tocou em julho no recuperado e renovado Teatro Cultura Artística para cerca de 800 pessoas.
Chegamos então ao trecho em que tentarei justificar a platitude do título desse artigo: a “bête de scène” Sting reuniu 11 mil pessoas no palco principal de Marciac (cuja capacidade é 7 mil). Ficou gente do lado de fora, apenas escutando. Ele tocou por uma hora e meia e tinha o público tão à mão quanto seu velho e corroído Fender Precision (aquele mesmo do show de 2008 no Brasil).
A voz inconfundível demora a aquecer mas nem por isso a simbiose com o público é diminuída. Ela é imediata, intensa e transgeracional. Pais e filhos dançam a cantam tudo o que sai da lavra do trio. “Every Break You Take”, claro; “Wrapped Around Your Finger”, óbvio; “Message in a Bottle”, como não; “English Man in New York”, for sure; “I Cant Stand Losing You”, a minha preferida… Guitarrista e baterista não tem outra coisa a fazer ali do que seguir a conexão estabelecida há décadas entre Sting e a gente que o venera.

Samara, por sua vez, reuniu 1.500 pessoas. Ela também é compositora e mete material próprio aqui e ali entre standarts de jazz. Sua voz é incrível: aveludada, calorosa e envolvente. Um clichê maravilhoso! Mas ela comete os erros da imaturidade artística. É capaz de numa mesma música ir dos graves aos agudos, exagerando no alcance de ambos. Parece ser muita informação ao mesmo tempo prá cabecinha do público. Algumas centenas deixam o concerto antes do fim.
Uma nota em comum no encerramento dos dois espetáculos: O Brasil presente. Sting terminou sua apresentação com “Fragilidade”, cantada no mesmo português que ele falava em 1987. Ou seja, a pronúncia não melhora jamais. Samara, arrematou seu show com uma versão em inglês de “Chega de Saudade”. Foi a música mais suingada tocada por seu grupo e a que encontrou mais vibração na platéia.
E segue o elevador artístico de Marciac. Sting subiu até o terraço. Samara subiu da garagem para o térreo.
Leia mais sobre o festival Jazz in Marciac no Scream & Yell

– Carlos Jack Dias Lopes é jornalista. As fotos dos shows são de Laurent Sabathé / Jazz in Marciac