texto de João Paulo Barreto
Notório por uma proposta de cinema que, mesmo grandioso em seus aspectos visuais e intricado em seus temas narrativos, possui seus caminhos de criação técnica cinematográfica calcados em efeitos práticos, o diretor britânico Christopher Nolan encontrou um desafio bastante específico na adaptação do texto clássico escrito por Homero, “A Odisseia”. Afinal, como manter uma construção cênica com o mínimo uso de efeitos digitais (uma das marcas do diretor) se os percalços de seu protagonista, Ulisses ou Odysseus (Matt Damon), incluem encontros com ciclopes, guerreiros gigantes antropófagos, criaturas marítimas repletas de tentáculos e feiticeiras capazes de transformar homens famintos em porcos?

Não que no caso de “A Odisseia” (“The Odyssey”, 2026) a maior das preocupações do diretor de “Oppenheimer” (2024) e “Tenet” (2020) fosse provar mais uma vez sua capacidade de alcançar resultados visuais impressionantes através de um modo de criação bem específico. Ao final das quase três horas de projeção (173 minutos para ser mais exato), fica clara a competência e maestria do cineasta em conseguir superar desafios técnicos com um uso mínimo de soluções digitais nas cenas em que tais inserções se fazem necessárias (basicamente as que envolvem os seres citados). Mas, ao subir dos créditos finais, o que fica como reflexão mais marcante para o espectador ciente da riqueza do texto original escrito provavelmente no fim do século VIII a.C. e adaptado pelo próprio Christopher Nolan é perceber-se diante do alcance por parte do diretor de um roteiro coeso que contempla em sua estrutura a intricada progressão do poema clássico de Homero e, ao mesmo tempo, a traduzindo de maneira atrativa para seu público.
Mantendo-se fiel ao texto original em uma narrativa que contempla quase todas as fases da epopéia ao descrever o retorno de Odysseus à ilha de Ítaca, na Grécia, após liderar o exército que venceu a guerra de Tróia, a versão de Nolan para a saga do herói ausente de seu reino durante anos acaba por utilizar-se de uma montagem na qual cada episódio fantástico da volta do rei ao seu lar é trazido em paralelo à espera de sua rainha, Penélope (Anne Hathaway). Em Ítaca, ela resiste às investidas de possíveis pretendentes ao trono e à sua função matrimonial, até que seu filho, Telémaco (Tom Holland), decide seguir em busca do pai em Pilo e em Esparta, locais por onde passou o rei em sua jornada bélica.

E são justamente nestes pontos que entendemos a proposta de manter o tom fantasioso de sua narrativa, mas primando por um senso de realidade que nos coloca dentro daquela jornada de Odysseus perante cada um dos seus desafios fantásticos. Por exemplo, em certo momento, o vemos passar anos sob o julgo apaixonado da rejeitada ninfa Calipso (Charlize Theron), até que esta é ordenada por Zeus para que o liberte após alerta da deusa Atena (Zendaya), que surge como espécie de consciência do herói. Odysseus, assim, constrói, dos destroços do seu navio de guerra, uma jangada que desafiará Posêidon em seus mares, sendo que, aqui, nenhum desses conceitos fabulosos da narrativa de Homero são destacados. O que vemos é pura e simplesmente um homem resolvendo partir após perceber o peso do tempo de seu cativeiro e se jogando ao mar em uma maltrapilha jangada. E isso basta na proposta de análise humana que Nolan traz a seu texto.
Da mesma forma na citada cena envolvendo a feiticeira Circe (Samantha Morton), que transforma os soldados de Odysseus em porcos em uma sequência ao mesmo tempo grotesca e fascinante, percebemos o teor fantástico e mágico do momento na narrativa, mas o modo como o diretor opta por representar graficamente tal transformação torna todo o efeito visual algo palpável, no qual mãos moldam e transformam corpos humanos como se fossem feitos de argila. Assim, é com surpresa que nos vemos diante da mais simbólica das cenas fantasiosas de “A Odisseia”, que é quando o herói e seu exército se veem diante de Polifemo (Bill Irwin), o ciclope gigante, e percebemos o quão real aquele momento nos parece, uma vez que Nolan opta justamente por representá-lo, apesar de incrivelmente grotesco, fisicamente crível em sua criação de maquiagem real.
E sendo uma obra que se utiliza de tons fantasiosos para refletir dramas humanos, ao seu final, percebe-se que são os traumas da guerra de Tróia que movem psicologicamente seu protagonista à frente em sua consciência diante de tamanhos percalços. E em um filme que prima pelo palpável, Christopher Nolan entrega esses momentos de percepção de modo sagaz, como quando vemos o encontro dos soldados de Odysseus com o exercito dos mortos na batalha de Tróia, ou quando descobrimos que a representação mental da deusa Atena trata-se, na realidade, de uma delírio oriundo justamente dos traumas bélicos vividos pelo general.
Em uma proposta narrativa que oferece uma profunda reflexão acerca do livre arbítrio dos homens versus a ingerência dos deuses em escolhas que esbarram no fantástico, mas que encontram consequências no real, a proposta crível e calcada em escolhas brutalmente humanas que Christopher Nolan traz para os personagens de seu roteiro acaba por servir como uma tradução precisa do que Homero buscou como uma reflexão antropológica de sua epopéia clássica.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.