texto de Gisele Barão
O primeiro disco da cantora e compositora paulista Céu, de 2005, representa um marco não só pelo estilo, mas por ter seguido um caminho diferente do habitual na indústria fonográfica – em uma época em que o “jabá” ainda era muito forte como meio de divulgação. Esse é o argumento do livro homônimo, da jornalista Fabiane Pereira, lançado em 24 de julho durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).
A obra integra a coleção O Livro do Disco, criada em 2014 pela Cobogó para registrar histórias de trabalhos significativos para a cultura brasileira (e que chega a 2026 com novo design de capa). Na Casa Sete Selos, parceira da programação da Flip, Fabiane e Céu participaram da mesa “Disco: modo de ler”, ao lado da jornalista Laura Capanema e de Mateus Baldi — autora do volume sobre o “Transa” (1972), de Caetano Veloso.

Com influências de soul, trip hop e samba, “Céu” reúne faixas excelentes como “Lenda” e “10 contados”, e se tornou referência para uma geração de artistas que cantam as próprias composições, como Tulipa Ruiz, Tiê, Ana Cañas, Maria Gadu e Mahmundi, citadas no livro. “As gerações anteriores tinham Rita (Lee), Marina. A minha tem a Céu”, disse Fabiane no evento.
Céu considera o disco um retrato daquele período, que demonstra como a criação artística é coletiva. “Quando li o livro, falei: não sou eu, não é sobre mim, é sobre algo que eu fui captada para fazer no momento”.
Para ela, que tinha 24 anos na época, a obra remete ao que chamou de “impulso juvenil”, num sentido positivo. “Nesse lugar a gente faz as melhores coisas, quando está com medo, inseguro. Eu não tinha gravadora, fazia como dava”.
Além de situar historicamente o álbum e trazer análises da cantora para cada uma das faixas, o livro descreve a temporada em que Céu estudou e trabalhou em Nova York, enquanto buscava inspiração para a estreia. “Esse distanciamento clareou tudo que eu queria falar do Brasil, da paixão que tenho pela musica brasileira”, contou.
Também foi lá que ela se reconheceu como compositora, com incentivo do músico e produtor Antônio Pinto. “Ele começou a ouvir os rascunhos e essa validação foi muito importante. E me apresentou a muitas pessoas, uma delas o Beto Villares [produtor do disco]”. O álbum foi lançado nos EUA por um selo ligado à rede de cafeterias Starbucks, o que ajudou a consolidar a projeção internacional de Céu. Chegou a ocupar a 57ª posição no ranking Billboard 200 e rendeu indicação ao Grammy.

Fabiane já é habituada ao meio musical – ela apresenta o programa “Vozes da Vez” na Rádio Nova Brasil e é apresentadora do canal Papo de Música -, uma experiência que contribuiu no trabalho para a Cobogó. A produção incluiu dezenas de conversas com Céu e uma ampla pesquisa em reportagens, críticas e entrevistas publicadas na época. O material serviu como base para análises que tiveram participação ativa da cantora. “Céu é um marco porque ele ensinou que a música brasileira pode ser plural, urbana, sensorial, eletrônica e, ainda assim, profundamente brasileira”, diz um trecho do livro.
Com 32 publicações até agora, a coleção O Livro do Disco constrói um importante arquivo da música brasileira. Em especial no caso de Céu, que se envolveu no processo, a parceria com a autora enriquece a leitura.
Essa participação do artista, porém, não é necessariamente uma regra da editora. Cada autor desenvolve a pesquisa a seu modo. Mateus Baldi, por exemplo, não conversou com Caetano para escrever. “O bom é que o Caetano fala muito sobre a obra dele. E tinha muita coisa nos jornais da época”, contou na Flip. No caso dela, as entrevistas aconteceram com pessoas que participaram da produção, uma estratégia interessante para falar do álbum, produzido em contexto de exílio.
Céu, também fã do disco “Transa” – ela já incluiu uma versão de “Nine Out of Ten” em shows – defendeu que a trajetória de muitos personagens relevantes da música ainda precisa ser mais registrada e conhecida. “O Brasil não coloca os pilares de sua cultura no lugar que eles têm que ter”, disse, ao mencionar a influência de artistas como Chiquinha Gonzaga, compositora, maestrina e pianista que morreu em 1935. “É a mulher que abriu as portas do direito autoral. A história dela é muito interessante e ninguém sabe”.

* Gisele Barão é jornalista e vive em Curitiba (PR). A foto que abre o texto também é de Gisele Barão.