Crítica: Se “Foreign Tongues” for o disco de despedida dos Rolling Stones, os veteranos deixam o cenário em alta

texto de Matheus Henrique Pires

Muitas foram as promessas de um novo álbum dos Rolling Stones na década passada. Sessões em estúdio eram anunciadas, composições novas pareciam estar aparecendo (ao menos era o que sempre anunciavam em entrevistas), mas o máximo que chegou ao público foi o disco de covers (de blues) “Blue & Lonesome“, em 2016. As únicas canções inéditas lançadas nesse meio tempo foram “Doom and Gloom” e “One More Shot”, que saíram na coletânea “GRRR!” (2012), além de “Living in a Ghost Town”, lançada como single meio que de surpresa no início da pandemia do coronavírus, em 2020.

O marasmo foi embora com a chegada do produtor Andrew Watt, que se destacou nos últimos por trabalhar com vários nomes veteranos do rock, como Iggy Pop, Ozzy Osbourne, Pearl Jam e até Paul Mccartney – e por mais triste que isso soe, talvez a morte de Charlie Watts, em 2021, também tenha ajudado no sentido de fazer a banda parar de perder tempo. Com alguém mais jovem que vinte e um discos dos Stones tomando as rédeas, a produtividade em estúdio enfim foi retomada, e depois de “Hackney Diamonds” (2023) quebrar um jejum de dezoito anos sem um álbum de inéditas, a banda aparece em 2026 com “Foreign Tongues”.

Com uma capa que, por ora, não gerou lá muitos elogios – “uma versão melhorada de ‘Hardwired… to Self-Destruct’ (Metallica)” conta como elogio? – o novo disco soa como uma continuação do álbum anterior, o que não surpreende, visto que o produtor é o mesmo. As canções soam como um pouco de tudo que os Stones fizeram ao longo da carreira, desde rocks mais típicos até baladas, sejam elas com influências de country ou soul music. E como todo disco que Andrew Watt mete a mão (e ele participa de todas as músicas tocando alguma coisa), as participações especiais de grandes nomes estão lá, ainda que seja complicado notar o que Robert Smith ou Bruno Mars acrescentam nas canções que participam.

A diferença agora é que, enquanto “Hackney Diamonds” mostrava a banda engessada e ‘quadrada’ demais (algo que não combina com os Stones) e com composições que pareciam forçadas pra soarem como os Stones do passado, em “Foreign Tongues” as coisas fluem com mais naturalidade, mesmo em músicas que não apresentem grandes inovações, e a sonoridade também é menos pasteurizada. A competição é fraca, afinal são pouquíssimos os lançamentos nesse período, mas não é exagero afirmar que se trata do melhor álbum da banda no século 20 – “A Bigger Bang” tinha seus momentos, mas também muitos fillers.

O disco começa com a bluesy “Rough and Twisted”, o que por si só já causa surpresa. Não pelo estilo da composição – os Stones são uma banda vinda justamente do blues – mas por estar logo na abertura do track-list, quando normalmente seria o tipo de música que apareceria mais pra frente. Mas é um bom começo, e surpresas são bem-vindas quando bem executadas. Logo em seguida vem “In the Stars”, o primeiro single, e bem na linha dos rocks que a banda tem feito já faz um tempo (“You Got Me Rocking” é o primeiro que vem a mente), mas cujo refrão mais melódico e o piano bem encaixado dão um diferencial suficiente para colocá-la como algo acima de qualquer roquinho genérico.

“Jealous Lover” aposta num truque pouco usado pela banda até hoje: Mick Jagger cantando em falsete. E mesmo após os oitenta anos o homem se mostra capaz de entregar boas performances, numa balada que soa como algo vindo das sessões de “Black and Blue” (1976), quase que uma mistura entre “Memory Motel” e “Worried About You” (não lançada nesse disco, mas composta nessa época e encontrada em “Tattoo You”, de 1981). Já a divertida “Mr Charm”, que possui o melhor riff de guitarra do disco – daqueles tipicamente Keith Richards – chamou a atenção pela citação crítica/irônica a Elon Musk na letra. Mas nada que surpreenda muito, visto que Jagger escreveu “Sweet Neo Con” na época da invasão no Iraque e “England Lost” pós Brexit.

O disco segue com uma sequência que remete a fase entre o final dos anos setenta e começo dos oitenta da banda, basicamente a época da entrada de Ronnie Wood na segunda guitarra. “Divine Intervention” mostra energia, aliada a um refrão mais polido. “Ringing Hollow” é a balada country da vez, na linha de “Far Away Eyes”, onde brilham os backing vocals de Keith Richards. E há também uma faixa com participação de Charlie Watts, fruto da última sessão de estúdio com o baterista em 2021. “Hit Me in the Head” é quase punk rock, e poderia estar tranquilamente em um disco como “Emotional Rescue” (1980) – e seria um destaque daquele álbum, diga-se de passagem. E por mais que Steve Jordan faça um bom trabalho no resto do disco, dá pra notar quando é Charlie, e não ele, tocando bateria.

Além da já habitual balada com Keith cantando (“Some of Us”) e uma boa cover de “You Know I’m no Good”, de Amy Winehouse, “Foreign Tongues” abre espaço também para composições de gente de fora. Matt Clifford, que já participou de algumas turnês dos Stones como tecladista de apoio, é creditado junto à Jagger e Richards em “Never Wanna Lose You” e “Covered in You”. Ambas não se destacam tanto, mas também não comprometem – apesar do refrão fraquinho da primeira. Já o produtor Andrew Watt se saiu melhor, contribuindo junto aos Glimmer Twins o rockinho “Side Effects” e a balada “Back In Your Life”, a mais longa de todo o repertório, com mais de seis minutos de duração.

Uma versão acústica blueseira de “Beautiful Delilah”, de Chuck Berry, foi a escolhida para ser a faixa final do disco, repetindo mais ou manos o que foi feito no álbum anterior, que encerrava com “Rolling Stones Blues” (Muddy Waters) tocada da mesma maneira. E na verdade a sequência de músicas do álbum no geral é bem parecida com a de “Hackney Diamonds” – ambos também contém a longa balada que precede o cover de encerramento (“Sweet Sounds of Heaven” lá, “Back in Your Life” aqui), por exemplo. Por sorte as canções por aqui no geral são superiores, o que é curioso, visto que é falado que muitas delas vieram das mesmas sessões (ou seja, seriam as ‘sobras’) do antecessor.

A essa altura do campeonato, qualquer lançamento de inéditas da banda será tratado como um possível álbum de despedida, mesmo que não seja anunciado dessa maneira. Afinal, gente com menos idade tem se aposentado do meio musical, e todos ali já usaram de tudo e mais pouco por tantos anos que sabe-se lá como chegaram vivos até hoje. Mas se “Foreign Tongues” for de fato o último álbum dos Stones, ao menos eles saíram de cena em alta, e Andrew Watt enfim pode de dizer que conseguiu tirar desses veteranos um disco realmente bom. Agora que todos passaram de ano podem sair de férias (eternas?) sem drama.

Matheus Henrique Pires é jornalista e assina o blog Dark Horse

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