Três perguntas: Com disco novo liberado, “Eldritch Magnificence”, o This Lonely Crowd elenca influências entre artistas e filmes

entrevista de Subsensor

Quinteto curitibano de shoegaze, post-rock e metal que mistura climas oníricos com guitarras altas, o This Lonely Crowd apresenta “Eldritch Magnificence” (2026), seu nono disco de inéditas em uma carreira ativa desde 2009. Trata-se de álbum sobre o vale da estranheza entre a realidade e os nossos sentidos, onde o terreno do impossível se materializa a partir dos nossos ouvidos.

Composto por 12 faixas autorais, “Eldritch Magnificence”, lançamento do selo Sinewave, alterna entre o shoegaze mais viajante de faixas como “The Joy of Exploring Gardens” e “Mourning Tiny Dears” até as guitarras mais nervosas de “Mimesis” e “Mercurial Fables” e o guitar pop radiofônico de “Melancholethe” e “Sibylina”.

Na conversa abaixo, publicada inicialmente no essencial Subsensor, um guia pelo universo do barulho editado por Elson Barbosa no Substack, o guitarrista Erasmo aprofunda o processo de trabalho do This Lonely Crowd, elenca influências (“ Temos que ter a poesia, mas tem que ter a tosqueira”, avisa) e lista filmes do cinema fantástico-sombrio dos anos 70 que poderiam receber o disco como trilha sonora. Leia abaixo!

Vocês são uma banda bastante ativa em estúdio, já chegando ao nono trabalho (décimo-terceiro se contar EPs e compilação de sobras) em 17 anos de carreira. Mas apesar disso, nunca fazem shows ao vivo. Qual o processo de composição e gravação da banda? Vocês se encontram pra ensaios ou o trabalho é todo remoto?
Desde o começo seguimos o mesmo método de compor/gravar, que foi sendo aperfeiçoado pela falta de tempo e necessidade. Tudo tem que surgir espontaneamente e levar o seu tempo, e muitas vezes coisas ficam guardadas para serem desenvolvidas anos depois. Por exemplo, durante o “Möbius And The Healing Process” (álbum de 2014) a gente já tinha em mente o tema do “Meraki” (álbum de 2015), e já havia até mesmo o nome do disco. Quando já temos o conceito do álbum, começamos a organizar riffs. Usamos o velho roteiro batido de “banda de riff”, pois no final das contas, O This Lonely Crowd  é uma colcha de retalho de noise/rock/pop/metal. Eu sempre fui o principal compositor, junto com o Luiz (bateria); depois, a Adriana (baixo), que sempre faz alguns riffs e que cria o peso conceitual e emocional. O Filipe (guitarra) e o Lucas (guitarra) ajudam nos arranjos e têm um papel imenso como contrapeso/senso crítico, a ponto de desfazer uma música inteira porque não está “de acordo com o tema”. Assim vamos montando o tracklist, tentando emular uma organização meio literária, de que tem algo sendo contado, com abertura e desfecho. Parece trabalhoso na teoria, mas nem é. Como somos extremamente metódicos, esse fluxo é delicioso de se seguir. Vai levando meses, meses e meses – até entrar na pós-produção, que é quando cai praticamente tudo nas costas do Luiz. Sempre compomos e gravamos de maneira remota e, quando fazíamos shows (lá se vão mais de dez anos), montávamos o setlist e ensaiávamos pra tocar ao vivo. Hoje em dia, ensaios continuam erráticos pela dificuldade de juntar mais que 3/5 do TLC (o Lucas, por exemplo, mora nos EUA desde 2019). Mas já temos a criançada participando cada vez mais ativamente (inclusive na hora de aprovar ou reprovar uma música!!).

Uma característica que chama a atenção no trabalho da banda é o quanto vocês misturam influências diversas, indo do dream pop ao metal extremo às vezes até numa mesma música (ex: “Mimesis”, “Wolves Inside Tora”, “Forlorn Hope”). Quais as influências da banda?
Bom, todo mundo aqui é apaixonado por rock, em várias vertentes. Fomos nos moldando para criar climas distintos numa mesma música, pra trazer o inesperado, sem rabo preso com nada. Temos influências bem aparentes do rock alternativo/independente dos anos 90, do shoegaze, noise; e há muito do post-rock, do art rock e de músicas contemplativas. Só que a gente mastiga tudo com um amor incondicional pelo metal obscuro, extremo, underground, maldito; e com a nostalgia de quando o pop era classudo e soturno. Vai tudo pro liquidificador. As influências dão uma variada de disco pra disco, mas a matriz é a mesma. Temos que ter a poesia, mas tem que ter a tosqueira. É Napalm Death com Depeche Mode, Abba com Conan, Bowie com GG Allin!

Nas notas do álbum vocês citam diversas referências de literatura e cinema dos anos 70. Podem comentar mais sobre isso? E aproveitando: que filme vocês colocariam uma faixa da banda como trilha sonora, e que faixa seria essa?
“Eldritch Magnificence” quis homenagear dois autores que adoramos: a Ursula K. Le Guin e o Jim Henson. Eles inspiraram praticamente todos os títulos e letras, com exceção do fechamento, onde retornamos ao R. L. Stevenson (que sempre é referenciado na nossa obra). Mas o que engrossou o caldo mesmo foi o cinema fantástico-sombrio dos anos 70. Então filmes maravilhosos como “El espíritu de la colmena” (“O Espírito da Colmeia”, 1973), “Valerie a týden divu” (“Valerie e a Semana das Maravilhas”, 1970), “Čarodějův učeň” (“Krabat – Aprendiz de Feiticeiro”, 1977), “Viy” (“Viy – O Espírito do Mal”, 1967), “Bröderna Lejonhjärta” (1977), “Watership Down” (“Uma Grande Aventura”, 1978), “Wizards” (“A Guerra dos Feiticeiros”, 1977) e “Stalker” (1979) foram vistos e revistos. “Duna” do Jodorowsky, que não chegou a existir, também foi muito contemplado (o documentário “Jodorowsky’s Dune” foi lançado em 2013) . Ou seja, caos absoluto. Escolher uma faixa seria impossível – teríamos que fazer a trilha inteira!!! Seria “Dark Crystal”, com certeza. É onde queremos a nossa música, em uma fantasia horrenda e maravilhosa, cheia de contradições, assustadora, reflexiva, apaixonada. Tem escuridão, mas há esperança. Podemos ficar horas e horas, discos e discos falando sobre isso.

https://subsensor.substack.com

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