Entrevista: Vera Fischer Era Clubber e a arte de habitar as contradições

entrevista de Alexandre Lopes

O que exatamente é a Vera Fischer Era Clubber? Música eletrônica? Pós-punk? Pop experimental? Rock? Performance? Ao longo de quase duas horas de conversa, as próprias integrantes tentam responder à pergunta e uma resposta vai se desenhando: talvez a banda exista justamente para escapar dessas classificações.

Formado em Niterói (RJ) por Crystal, Malu, Pek0 e Vickluz, o quarteto carioca surgiu em 2023 entre festas, jams e encontros noturnos, transformando a estética clubber em matéria-prima para canções que misturam humor, desejo, ansiedade, ironia e vida urbana. Desde o lançamento de “Veras I” (2025), a banda se tornou uma presença bem particular na cena independente.

A exposição ganhou outra dimensão após uma apresentação no programa “Cultura Livre”, da TV Cultura. Trechos da performance circularam intensamente nas redes sociais e desencadearam debates. Houve quem tratasse a proposta como uma provocação vazia e quem enxergasse justamente a força do grupo: uma combinação de referências que atravessa o synthpop, o pós-punk, a música eletrônica e a performance, dialogando com nomes como Fausto Fawcett, Cansei de Ser Sexy e No Porn. Entre elogios e críticas, a repercussão tornou Vera Fischer Era Clubber em um dos nomes mais falados da cena alternativa brasileira nos últimos tempos.

“Quando receberam nosso som, acho que entraram numa confusão mental, sabe? ‘Como que isso pode acontecer? Como que isso pode existir? Ah, só pagando pra aparecer'”, avalia Vickluz. “Acho que as pessoas confundem qualidade de produção com qualidade de obra artística e isso para mim tem uma diferença clara”, diz Crystal. “Nas músicas, uma pessoa virtuosa de qualidade técnica é incrível, mas existem coisas simplérrimas que soam tão bem quanto, são tão belas quanto e isso é indiscutível.”

Esse olhar também atravessa a própria construção musical da banda. As integrantes falam sobre a recusa da técnica como valor absoluto, a defesa da simplicidade e a busca por uma estética própria, construída mais pela sensibilidade do que pelo virtuosismo. “O principal para você fazer qualquer arte é o ímpeto de fazer. Porque o mito do criador que chega lá e arrasa é mentira. Todo mundo se fodeu muito para chegar no básico que sabe”, comenta a vocalista.

Se “Veras I” apresentava o universo do Rio de Janeiro entre glamour, decadência e vida noturna, o próximo disco promete um mergulho mais íntimo. Segundo as integrantes, o novo trabalho volta a câmera para dentro delas mesmas e um país imaginário chamado Vulgaria, descrito como uma ilha com um vulcão, representando um estado de espírito de “excesso” e uma exploração consciente e inconsciente. “Enquanto o ‘Veras I’ é um filme em que a gente está ali como espectador, eu tenho a impressão de que o ‘Veras II’ é um filme que passa dentro das nossas próprias cabeças. E aí nós somos espectadores, produtores e atores do filme que está dentro da nossa cabeça”, resume Vickluz.

Em entrevista ao Scream & Yell, a Vera Fischer Era Clubber fala sobre o que deve vir nesse segundo álbum, o lugar da ironia na arte, a relação com o cinema, a repercussão nas redes sociais e a permanente sensação de existir entre o pop, o punk, a música eletrônica e a performance.

O que o nome Vera Fischer era Clubber significa hoje para vocês?
Crystal: Além do nome que a Pek0 trouxe pra nossa jam, acho que ele se tornou um descritivo e expansão do universo do primeiro álbum. O Rio de Janeiro, sendo esse lugar no Sudeste, onde tem o Projac, onde você é conhecido pelos outros estados por encontrar famosos na rua. E aí vem esse nome com a Vera Fischer para representar esse lado hollywoodiano da coisa e o Era Clubber para trazer esse lado do “Ah, então você também vive essa duplicidade caótica do Rio de Janeiro, essa beleza com decadência e sujeira”. Enfim, acho que traz esses dois lados da moeda da cidade. Um na imagem de uma mulher maravilhosa, loira, bronzeada, e a atriz que chega na casa dos brasileiros e que todo mundo conhece, ama e acha gata, ícone. E o outro lado, esse lado noturno do Rio de Janeiro, tão famoso por aí, tão underground. 

Pek0: Para mim, o que fica para além da história, é de registrar que a gente teve a nossa fase clubber e que hoje em dia a gente está muito distante disso. Eu pelo menos estou, Vick que ainda não. Talvez eu me reaproxime, quem sabe, mas no geral é sobre esse resgate e de tirar o club do lugar dele e de levar pro lugar de banda. É um outro formato para outros espaços. Sempre resgatando essas sensações e memórias do club, mas com esse formato de fazer som ao vivo mesmo.

Vickluz: Eu acho que esse nome traz duas coisas meio avessas. O Rio de Janeiro também vive essa dicotomia em diferentes sentidos; de como a noite pode ser glamourosa e como a gente pode encontrar algo decadente, ao mesmo tempo. Como que aqui do nada a gente pode encontrar uma global numa balada, já que aqui há uma certa democracia ilusória sobre ser clubber.

Quando estão fazendo as músicas, vocês pensam num limite entre ironia e verdade ou evitam fazer uma distinção? É uma coisa mais espontânea?

Crystal: Olha (risos), não sei. Esse conceito de verdade, ele é meio… difícil. A ironia não deixa de ser um tipo de verdade, é uma forma de você falar das coisas. Talvez ela não seja uma forma extremamente descritiva ou literal, mas é isso que é bom. E eu acho que na era que a gente vive, as coisas perderam completamente a seriedade. A gente está numa era da pós-verdade e de um distanciamento tão grande do fato humano. As coisas se distorcem muito chegando pra gente a partir de telas. E a ironia é meio que o tom do discurso do pós-contemporâneo, se é que isso faz sentido. Aho que por mais que isso dessensibilize o discurso de alguma forma, é importante ocupar esse espaço e usar dessa língua para falar alguma coisa, já que a gente foi letrado nesse alfabeto (risos). Acho que nem é uma coisa pensada; é a minha forma de falar sobre as coisas e a forma das Veras é essa. Acho que existe uma coisa na ironia que é algo inevitável na vida.

Vickluz: Como a Crystal falou, acho que é uma linguagem de todas nós. Crystal nessa questão da poesia, na performance do corpo e da voz. E acho que a gente também carrega isso no som. Para mim, como instrumentista, tem uma certa cobrança. Dentro de uma brincadeira que não é tão brincadeira assim, a gente tem uma hora para levar a sério. Mas o processo começa através de uma grande ironização de tudo. Um grande ‘foda-se’ pros formatos que nos foram apresentados, que era assim que se fazia ou se deixava de fazer. E aí é um start, mas no meio do processo a gente repensa tudo e vai buscando formas de se fazer irônica, mas ainda muito certeira e pontual, sabe? Bem precisa.

Crystal: Eu acho que a gente nasce de um lugar de ironizar a própria banda, né, Vick? Talvez seja isso que você esteja dizendo (risos). Da bandinha de rock também, nesse lugar do eletrônico e conceitual pra banda independente.

Pek0: Eu acho que o processo se dá muito a partir das letras de Crystal. O grande start são as letras. Na escrita de Crystal já tem muito dessa ironia, e eu sinto que como banda a gente embarca nessa ironia e fala: “Vamos embora, vamos esticar isso, como é que a gente consegue?”. Compramos essa ideia e eu acho que o bacana é isso, sabe? Por exemplo, quando a letra de “Altinha” estava sendo pensada e escrita, eu falei: “Pô, tem um beat de bossa lá na bateria que eu uso, a gente deveria usar para essa música”. Tipo, usar isso já é ironizado, sabe? A gente claramente não está fazendo bossa. A gente pega ali o cheiro, o símbolo e brinca literalmente com ele, ironiza realmente.

Crystal: Principalmente pensando na Pek0, que é bateria eletrônica. E bossa é afinação, instrumentistas, organicidade, acústico. Então tem várias canibalizações no nosso processo que são ironias.

Vickluz: Quando você fala isso, não tem como eu também não me identificar pela maneira como eu toco, né? O teclado do “Veras I” é de uma forma muito mais percussiva na maior parte das faixas. Em outras, eu vou trabalhar com harmônicos, com uma coisa que vai traçar a faixa do começo ao fim e vai usar pouquíssimas notas. Então acho que a ironia também está no instrumental. Quando a gente está compondo, acho que sai muito de um lugar que é desprezado e meio que visto como invalidado por ser simples demais; ridicularizado por conta de ser arranjos e acordes muito simples. Acho que a gente ironiza quando a gente pega esses códigos, esses valores, as coisas que também estão muito pautadas no nosso nível de tecnicidade e faz de uma certa maneira, sabe? Enfim, acho que a gente ironiza bastante esse propósito de música ser levada super a sério, o lugar do músico e instrumentista ter que ser super virtuoso.

Ouvindo o primeiro disco, consigo sacar uma coisa mais soturna, meio gótica até em alguns momentos. Mas as músicas mais novas que vocês já estão tocando em shows parecem apontar para um caminho um pouquinho mais diferente. O que vocês podem adiantar desse novo material?
Crystal: Ah, não tem como repetir o piloto, né? Tipo, “Veras I” tem uma vibe, é um ciclo fechado, é a introdução de um universo que a gente continua a expandir. “Veras I” parece um filme que você assiste e “Veras II” já é um mergulho no espelho. A gente começou se baseando nesse lugar imaginário, chamado Vulgária, e as paisagens imaginárias começaram a se refletir para mim em sentimentos. Esses lugares que compunham essa ilha, que tinha esse vulcão e essas pessoas que estavam sempre em frenesi de sexo e tudo isso foi se tornando várias coisas. O vulcão aparece como esse símbolo de borbulhar qualquer sentimento, seja ódio, seja tesão, as duplicidades do amor, você sentir se sentir bem, se sentir dando o melhor de você e ao mesmo tempo sentindo vergonha. Eu acho que o “Veras II” vai para esse lugar muito mais pessoal e muito mais rico, de certa forma. Já tem muito da gente no “Veras I”, mas o Rio de Janeiro é um lugar que existe, é uma coisa muito concreta e acho que é fácil de se esconder atrás dessa paisagem. Mas sinto que no “Veras II” a gente está levando pra uma viagem nova que é a gente. Não é para você ver o Rio de Janeiro, é para você ver um outro lugar.

Pek0: É meio que o nosso mundo, de certa forma.

Crystal: E ainda assim é uma expansão do “Veras I”.

Vickluz: É, enquanto o “Veras I” é um filme que a gente está ali como espectador, eu tenho a impressão de que o “Veras II” é um filme que passa dentro das nossas próprias cabeças. E aí nós somos espectadores, produtores e atores do filme que está dentro da nossa cabeça.

Peko: Um grande diferencial que sinto no “Veras II” é que, diferente do “Veras I”, é a experiência que a gente tem agora. A gente está mais consciente da nossa potência, do nosso lugar e assim a gente vem explorando muito bem. Eu pelo menos sinto e gosto muito disso, porque quando a gente fala sobre Vulgária, esse lugar imaginário, na minha cabeça eu penso em baterias com tambores. Eu tenho a minha interpretação e cada uma vai indo pra sua interpretação e traduzindo isso que está no nosso imaginário e transformando isso em som, em algo que é concreto, que transmite sentimentos e sensações. Enfim, é isso aí (risos).

Crystal: O queacho que é uma expressão chave para esse álbum seria “dor de crescimento”. A gente está trabalhando nessa música ainda, que se chama “Prantos”. Tem essa frase “uma heroína de um filme de terror depois que vence o monstro”. E eu acho que esse é o momento que as Veras estão, sabe? A gente fez o primeiro álbum, lançou, teve o nosso boom e agora é esse próximo momento, depois que a gente fez um bagulho que parecia meio que impossível. Parecia meio que “opa, sobe o crédito do filme”, sabe? Mas não, a coisa continua. E Vulgária é esse lugar de vulgarização das emoções, quando você expõe tudo, sabe? E fazer música e arte no geral, não deixa de ser você expondo um terreno, né? Abrir a sua paisagem pro outro e falar assim: “olha aqui, habita aqui também”. Então é muito interessante para mim essa base que a gente começou a trabalhar de um lugar imaginário. Esse próprio nome Vulgária e o fato da gente permear lugares do pop por nossa sonoridade. Acho que esse lugar do vulgar pode ser várias coisas e também pode ser pessoal.

Vickluz: Tem algo que é a coisa do gozo, que eu acho que também é uma coisa boa para falar sobre Vulgária.

Crystal: Sim, o gozo como um conceito filosófico. O gozo é super complexo, dá para levar para vários lugares e ao mesmo tempo é uma coisa tão simples, também material e gráfica. E é exatamente isso: a vulgarização de uma coisa que é transcendental, espiritual e filosófica, que é o gozo, como a razão da nossa sobrevivência. E ao mesmo tempo é uma mancha num banco de carro, num chão de cinema (risos).

Vickluz: Essa coisa do tesão e do gozo é uma coisa que a sociedade percebe que vai se perdendo. As pessoas têm cada vez menos tesão, né? E não digo tesão de foder não. É tesão na vida. E para mim fica super pertinente a gente estar nesse caminho, porque situa a gente num contexto também.

Crystal: É muito sobre fazer música sobre o agora. Querendo ou não, a gente está vivendo muito isso, do agora. E muito do que a gente escutou sobre o “Veras I” foi “ah, é esse soco de vitalidade, é esse sopro de loucura que todo mundo precisa”. Então a gente mergulha mais nisso, vem mais loucura, mais maluquice ainda. E eu acho que esse é o lugar das Veras, completamente não dicotômico, que pega uma coisa feia e fala que ela é bonita, uma coisa filosófica e transforma ela em banal, como essa imagem do gozo. Acho que isso é o nosso escopo para ver o mundo e isso une completamente o primeiro disco ao segundo.

Vickluz: Eu acho que é isso: canibalizar esses códigos, palavras, assuntos e sentimentos que não são abordados ou falados.

Pek0: Eu acho que de certa forma são falados sim. O funk, por exemplo, fala muito sobre isso.

Crystal: Não da forma como a gente fala, mas cada um tem a sua forma de falar. Um monte de gente vai falar sobre isso, mas com a gente tem a ironia e tal. E eu acho que uma coisa super específica nossa e que eu bato muito na tecla é esse lugar extremamente não dicotômico, porque bem e mal, nojo e prazer, todas essas coisas, para mim tem o mesmo cerne.

Vocês já têm uma data de lançamento para esse disco novo?

Crystal: Não, não… (risos)

Pek0: O disco está em processo ainda. Tem muito processo a ser feito…

Crystal: Mas vem aí, né? A gente quer lançar até o fim do ano. Nos aconselharam que até novembro deve ser bom lançar, mas a gente vai fazer uns shows agora e tem que tirar uns meses para focar e lançar o álbum. Mas vai depender do tempo que a gente levar. Acho muito importante a gente lançar esse ano, mas talvez a gente só reforme o show pro ano que vem, dependendo de quando sair o álbum novo. Tem todo o tempo de transformação técnica do nosso show e isso leva tempo e nós estamos só como quatro velhinhas viajando para tocar e produzindo e indo e voltando e tentando (risos). Mas a nossa expectativa de ter uma coisa nova para mostrar pro público, pras pessoas curtirem, ouvirem mais e mergulharem mais na gente é ainda esse ano, sim.

E como ele deve ser? As faixas já estão prontas e gravadas ou vocês ainda estão gravando?
Crystal: Elas estão gravadas em formato de rascunho. Algumas mais finalizadas que outras, mas a gente ainda está trabalhando estrutura e vendo a melhor forma. Algumas a gente já gosta muito, depois volta e fala: “Pô, podia mudar isso”. Então ainda está em processo mesmo. Tem umas que já estão bem finalizadas e tem outras que ainda estão ali germinando, mas está acontecendo. No geral, a gente precisa organizar as estruturas e decidir o que a gente quer, sentar nós quatro, ficar ali e ter um tempinho para pensar sobre isso e parar um pouco de viajar e fazer show para poder focar nisso, senão nunca sai.

Pek0: E a gente segue nesse mesmo processo do “Veras I”, que é o improviso. A gente se junta, tira um tempo e aí vai puxando uma corda assim “aumenta o BPM” “manda esse timbre” e “ih, peraí que eu tenho uma letra meio assim”…. Só que assim, eu acho que o que a gente está aprendendo é que tem o processo de jam, jogar as letras, mas depois tem que passar por um processo grosso de decupagem desse material gravado.

Vickluz: É, exato. A nossa ironia vai até certo ponto, porque a gente tem que pensar sobre tudo isso, né?

Crystal: As jams ficam com uns 14 minutos. As faixas ficam gigantes, depois a gente tem que picotar, entender a estrutura delas. Às vezes eu escrevo letra de um jeito, mas aí pela jam, pelo formato que está a música, vai de outro jeito e depois tem que reorganizar. Então assim, é um processo que leva tempo e que a gente ainda está entendendo como profissionalizar também, sabe? A gente está fazendo esse trabalho. A gente já reouviu as jams, decupou, e agora a gente já está num estágio mais final de ter faixas de bons tamanhos, só que a gente está tipo, “pô, a estrutura não é essa, isso é o refrão, troca isso com aquilo, troca a bateria”, entendeu? Agora a gente já está meio que numa fase mais avançada dessa decupagem, mas ainda falta faixa para acertar.

Pek0: Eu acho que o legal de pensar os processos e de como eles se repetem é que sempre vai gerar coisas fixas que se criam nesse primeiro improviso e coisas que a gente repensa ao longo do tempo. E é legal de entender que esse é o processo das Veras, de buscar uma sonoridade, de buscar algo que não existe concretamente. De pegar o que foi improvisado e pensar “hum, isso que a gente gerou é meio assim, então isso combina com tal instrumento”. E desse lugar de realmente construir juntas. E aí agora nessa segunda fase, a gente está nesse processo de se revisitar, de repensar o caminho que já foi construído,

Crystal: Já passou da primeira fase e agora a gente já entendeu, já está ali fermentando o pão, daqui a pouco vai pro forno e depois fica pronto, sabe?

Pek0: Mas já está nisso, já tem algumas partes que já estão no processo final de voz.

Crystal: Tem muita coisa que a gente tem que decidir o que a gente vai trabalhar para ir pro álbum e o que que a gente deixa para trabalhar depois. Tipo “deixa esse rascunho aqui, depois a gente retoma, porque não faz tanto sentido com esse álbum”, por exemplo. A gente está nesse momento de decidir quais a gente vai levar mais à frente e dentro de umas faixas que a gente já decidiu, gostou e levou e quais vamos deixar na geladeira mais um pouquinho.

Dei uma pesquisada sobre vocês e vi que a Crystal estudou cinema. Pela forma que estava falando do disco, dá para perceber que você enxerga o conjunto de faixas com uma linguagem meio cinematográfica. Faz sentido?
Crystal: Ah, com certeza. Pô, cinema é uma coisa que fica na gente, né? Se você trabalha e estuda isso, não consegue esquecer nunca. E eu sempre gostei muito. Eu estudei para ser roteirista. Até hoje escrevo roteiro, mas fui fazer artes visuais e mestrado justamente para elaborar essa parte específica de ter ideias, porque cinema é uma coisa gigante. Eu queria alguma coisa que pudesse fazer sozinha e ver imediatamente o resultado das minhas ideias. E aí fui para artes visuais, mas o que fui percebendo é que são só outras formas de eu escrever e de fazer cinema. Essas divisões não existem de verdade. Assim, existem mais no mercado e na academia do que pro artista. Então, com certeza todos os meus processos se embolam, tudo que eu faço acaba transbordando de uma coisa para a outra. É tudo a mesma pessoa. Essa ideia de que é tudo segmentado não é real. E o cinema está na minha prática das Veras, na minha prática de artes visuais, na minha prática de escrita, na minha forma de ver o mundo, porque foi uma coisa que criou afinidade comigo, que tenho um afeto. Inclusive, depois de fazer artes visuais e o mestrado, eu fiquei tipo: “Ah, quero voltar a trabalhar com cinema”.

Mas você prefere não misturar muito a sua carreira de cinema com a questão da banda? 

Crystal: Meu problema é que eu quero fazer tudo ao mesmo tempo, entendeu? Então já escrevi roteiros para amigos meus, trabalhei na cena independente, fiz meu curta que ficou travado na fase de pós-produção por falta de dinheiro. Trabalhei no curta de outras pessoas, escrevi editais, escrevi roteiros para outras pessoas. Mas fiquei muito focada em artes visuais, fiz um portfólio inteiro em dois anos, expus igual uma maluca, fiz projeto na rua, entreguei panfleto, peguei trampo de produção, tipo um milhão de coisas. Então muita coisa aconteceu. Escrevi um livro de poesia, escrevi artigo, eu fiquei “ah, eu gosto de tudo isso, eu quero fazer tudo isso”. Depois de dois anos imersa na academia expondo e correndo atrás, tendo bolsa CAPES e correndo atrás de editais, eu sinto saudade do cinema. E parte do que eu odiava nele é parte do que eu senti falta: a correria, a pressão, enfim, tudo. É essa forma de construir todo um universo imagético. E finalmente agora eu sinto que depois de tantos anos eu acumulei conhecimento suficiente, sabe? Na correria.

Vickluz: A Crystal não falou, mas ela escreveu o roteiro do nosso clipe “Vera Fischer Era Clubber” que a gente acabou de gravar. E ela também dirigiu e produziu. Ela é uma profissional da área muito foda. E é uma coisa que vai continuar na vida dela.

Crystal: E é só o início, né? É só o início da minha vida (risos).

Pek0: Tive o prazer de estar com Crystal nesse curta que ela fez enquanto ela estava se formando, fazendo a preparação dos atores, estava na trilha sonora também. E eu posso dizer com propriedade que de fato sempre tem o tom da ironia nas obras dela. O trabalho de Crystal sempre está recheado com isso. Eu acho que isso é muito incrível, porque quando a gente estava fazendo o curta, por exemplo, a gente ainda nem tinha a banda, mas essa linguagem irônica já era muito concreta no trabalho e de certa forma as Veras dão vazão a isso.

Vickluz: Eu acho que essa questão é uma coisa que nós compartilhamos. Nas nossas obras fora das Veras, tanto Pek0 no trabalho dela solo e Crystal, no que veio antes da banda e no que continua fazendo. E tem essa questão da relação com estética, que é também muito o rolê do cinema, mas também é muito o meu rolê e da Pek0, de quem teve uma introdução com moda e estudou essas coisas. Eu e a Pek0 estávamos conversando esses dias sobre isso, que o fato da gente ter entregue o trabalho que a gente entregou tem muito mais a ver com uma noção estética do que com virtuosidade musical. E a moda parece que foi o que mais ajudou a gente a encontrar isso com mais facilidade ou buscar as referências e os parâmetros para seguir, e outros não.

Crystal: Eu acho que as pessoas confundem qualidade de produção com qualidade de obra artística e isso para mim tem uma diferença clara. Principalmente no cinema. Na verdade, o cinema como arte ajuda a perpetuar essa mentira. Nas músicas, uma pessoa virtuosa de qualidade técnica é incrível, mas existem coisas simplérrimas que soam tão bem quanto, são tão belas quanto e isso é indiscutível. Você tem compositores e musicistas virtuosíssimos que compõem harmonias simples em canções por questão do som ou beleza estética. Eu acho que as pessoas confundem muito isso, sabe? E eu acho que não tem nada de errado. Acho que a gente está sempre aprendendo e se aperfeiçoando. O principal para você fazer qualquer arte é o ímpeto de fazer. Porque o mito do criador que chega lá e arrasa é mentira. Todo mundo se fodeu muito para chegar no básico que sabe. E é isso; como artista independente, o meu trabalho me formou mais do que tudo. Eu escolhi sempre fazer a minha parada e investir nela porque é isso: quando você tem uma coisa para dizer, você tem que vender o seu próprio peixe e tem que fazer o seu. Você tem que ficar batendo na porta das pessoas, subindo na mesa e falando: “Ei, eu tô aqui, eu tenho isso, eu tenho aquilo”. Porque ninguém vai te pedir para mostrar nada, ninguém vai te pedir para falar nada nunca, sabe? Pelo contrário, as pessoas vão querer que você entre no moedor de carne e cale a boca. Tudo bem, fiz estágio, trabalhei, fiz trampos, mas acho que muito do que eu sei fazer de parte técnica, foi muito mais sobre o meu próprio trabalho. Até para começar a trampar, eu aprendi as coisas fazendo meu próprio trabalho, edição de vídeo, edição de foto, produção… O artista independente acaba sendo forçado a ser muito mais completo e isso é bom e ruim por causa da exaustão e tudo, mas no geral, é isso. As pessoas confundem muito qualidade de produção com qualidade estética, com qualidade musical, com o que faz elas sentirem alguma coisa. Eu acho que o meu objetivo como artista, e eu acho que o objetivo das Veras também, é fazer as pessoas sentirem alguma coisa, atravessar as pessoas com som e performance. Eu não acho que isso é uma coisa que tem que se discutir a partir de quem toca mais ou toca menos. Com certeza tem mil cantoras mais virtuosas, tecladistas mais virtuosas, bateristas mais virtuosas que nós. Mas não é sobre isso. Ser o melhor em alguma coisa é extremamente subjetivo. Você só pode ser você. As Veras estão aí porque a gente é a gente, temos uma coisa para dizer e isso teve ressonância com outras pessoas. E que bom, isso é maravilhoso. Mas é isso: a gente não está aqui porque somos melhores em nada não. Não é sobre ser melhor do que ninguém. Não é sobre ganhar troféu em primeiro lugar. A vida não é isso.

Vickluz: A gente está só fazendo o nosso.

Crystal: É simplesmente sobre não seguir uma receita de bolo e viver a sua vida. Eu acho que a nossa música é muito sobre isso.

Vickluz: E propositalmente não buscar essa receita de bolo, é tentar fazê-la sozinha. Não que a gente vai conseguir, todo mundo vai ter as suas referências de uma forma inconsciente, mas é um esforço para também negar um pouco essa receita, sabe? E eu acho que essa receita pode ser muito uma corda para se enforcar, né? Uma ligação do início da engrenagem, sabe?

Crystal: Eu acho que parte do hate que a gente recebeu na internet, eu sinto que vem desse lugar, entendeu? A receita de bolo, ela vai para todos os lugares da forma que você tem que seguir a sua vida, de quem você é, do que é música, do que é arte. É uma coisa que se estende para mil complexidades que formam a imagem da sociedade como ela é. E quando eu vejo a indignação das pessoas em relação ao nosso corpo e coisas assim, eu penso “o quê? foda-se”, sabe? A pessoa está parando o seu dia para falar isso. A indignação com as músicas, com os assuntos, e eu fico tipo: deve ser muito frustrante você passar sua vida inteira tentando acertar, fazendo um caminho que é isso aí, e de repente você vê outra pessoa tão viva quanto você, usufruindo dos mesmos direitos de estar e existir e transitar, fazendo tudo que você nunca fez porque você achou que não pudesse fazer, porque você achou que o seu direito de existir e pertencer era baseado nisso. É, deve doer mesmo. E é isso que eu percebo. E eu acho que também por isso que é esse lugar do próximo álbum falar de gozo: porque gozo é realmente uma vitalidade essencial, é uma coisa que as pessoas têm medo e é uma coisa que as pessoas querem e ao mesmo tempo que elas querem, quando chega é o terror da vida delas. (risos)

Eu até ia entrar já nessa parte do hate um pouquinho mais para frente, mas já que você tocou nesse assunto: o que vocês acham que foi a coisa mais equivocada que já falaram de vocês nessa questão toda?
Pek0: Os dois milhões ou bilhões da Lei Rouanet que dizem que a gente recebeu. Olha, eu queria que essa fosse a realidade, entende? (risos) Essa eu li e fiquei assim: “ai que ódio, cara. Sério, tipo, realmente vocês acreditam nisso?” (risos)

Crystal: Mas isso parte de pessoas que não têm noção de como funcionam as leis de cultura. E Lei Rouanet é uma lei federal, não tem nada a ver. São muitas coisas equivocadas, não existe “mais equivocado”. E qualquer coisa que você fala sobre um corte de dois minutos na internet é equivocado, porque todo mundo é muito mais complexo do que isso, entendeu? Então todas as concepções são equivocadas. As pessoas têm o direito de tirar as conclusões loucas delas e falar o que quiserem. E isso é muito doido, porque obviamente elas falam o que elas querem, como discurso de ódio e tal. Tudo isso está envolvido e não deveria ser permitido, mas estou falando mais no sentido de elas olharem e falarem: “Ah, essas garotas moram em mansão”, “essas garotas estão aí porque elas pagaram a Roberta Martinelli”. Entendeu? Tipo, nada impede elas de falarem isso, tirarem conclusões. De certa forma, a internet é para isso, sabe? Para você dar opiniões equivocadas.

Pek0: Mas eu acho que essa falta de embasamento é insuportável. E aí a gente conversa sobre isso do tipo “caralho amiga, o que a gente fez para acharem que a gente é milionária? Nossa, a gente deve estar arrasando muito nos looks” (risos)

Crystal: Mas as pessoas não têm noção como essas coisas funcionam e acontecem, entendeu? E essa imagem nas redes te descola, te desumaniza. No mundo real, as pessoas te veem ali no Rio e elas não estão nem aí. Se elas olhassem na sua cara, elas jamais falariam isso para você. Se elas assistissem ao seu show, talvez elas até aplaudiriam e não falariam nada, entendeu? É essa posição do comentador anônimo, da pessoa que está ali, que passa uma coisa no Instagram. É um despejo de ódio que é um um reflexo da própria pessoa, entendeu? Do que ela tem dentro dela, de como ela passa os dias dela. Enfim, eu acho isso tudo muito doido, mas eu também acho que é sintoma da época que a gente vive. Não tem o que fazer. E também sintoma de se tornar uma imagem, que é um um lugar inevitável de fazer arte hoje em dia. Querendo ou não, a sua arte chegar nas pessoas é muito parte do desejo do artista. Você produz, você escreve, você quer ser lido, você faz música, você quer ser ouvido, você quer compartilhar com as pessoas, senão você não faria, sabe? Você só pensava em fazer ou fazia e deixava quieto, mas uma vez que lançou, você quer que as pessoas vejam. Então é isso, né? É de novo essa duplicidade das coisas. É bom e ruim. Pô, foi foda a gente ter se transformado em uma imagem no celular e ter chegado na casa de várias pessoas e várias delas terem se apaixonado pelo nosso som. Você viu lá a galera que estava lá no show do (festival) 5 Bandas cantando. Isso é muito emocionante, é muito lindo. Mas também tem esse lado negativo: você se tornou uma imagem ali, a pessoa não está nem aí para quem você é. Ela viu teu rosto por dois segundos e vai tirar a conclusão dela, vai falar “foda-se”.

Vickluz: Uma coisa que eu ia pontuar é que as coisas que surgem da MPB são tão clichês, né? As coisas são tão pautadas dentro de um formatinho, principalmente essa coisa da MPB carioca. A coisa está tão dentro de um aspecto de expectativa ou do que as pessoas esperam receber, que quando receberam nosso som, acho que entraram numa confusão mental, sabe? “Como que isso pode acontecer? Como que isso pode existir? Ah, só pagando pra aparecer”. Aí colocaram a gente numas caixinhas que não são as nossas, mas eu acho que isso se dá muito por conta de uma cena que também não entrega coisas inéditas. Não que nós sejamos assim tão inéditos, mas talvez sejamos para esse pessoal que nos viu nesse lugar.

Pek0: Quando a gente começou a existir como banda, a tocar e sair do circuito de Niterói, começamos a tocar no Rio, tinha um desencaixe. A gente não se encaixava, não era como se o que a gente estava fazendo tinha uma outra galera fazendo também, né?

Entendo. Queria perguntar se já rolou algum convite para gravar algo com a Vera Fischer, participar de um show ou coisa assim. Já tentaram? 

Crystal: A gente está esperando ela ir no show. É só ela ir no show.

Pek0: Ah, não existe isso! Não existe isso de esperando ela, né?

Crystal: Existe sim. Pek0, parou! A gente poderia mandar um e-mail, só que a gente já chamou ela no show, ela sabe que a banda existe, só que ela está rodando por aí com teatro…

Vickluz: Ela está rodando por aí com teatro, ela tem a vida dela. Mas eu não imagino ela indo num show nosso, sabe?

Crystal: Ela é uma diva, para que que ela ia querer parar e fazer isso?

Vickluz: A gente sonha com isso, aí se um dia ela for, vai estar lá numa área vip pra ela, entendeu? Mas esse show ainda não chegou.

Crystal: Eu acho que um dia ela vai colar quando a gente estiver num lugar bem babado e a agenda dela tiver batendo com a nossa, sabe? Tipo um lugar que não seja um inferninho pra gente tocar, sabe? Que seja um lugar mais maneiro. Acho que ela iria. Eu acho, ela falou que iria.

Pek0: Mas é assim, nunca existiu esse contato, esse contato realmente concreto.

Crystal: Eu já mandei um vídeo para ela dizendo que amava ela, já estive com o maluco que contracena com ela na peça.

Pek0: Mas não, não é um contato direto.

Crystal: Não é um contato direto? O maluco contracena com ela na peça, eu pedi para mandar um vídeo para ela. Ela está sabendo horrores, né?

Pek0: Não, ela está sabendo sim! Mas o contato direto de você falar com ela: “Oi, Vera Fischer!”, nunca existiu isso.

Vickluz: Ah, mas teve o vídeo que ela gravou com Angelina pra gente, né?

Crystal: Teve o comentário dela no post do Popload. “Sucesso, meninas”. Eu acho que ela comentou isso. Que ela postou que ouviu a nossa música também. Enfim é um flerte aí que existe. Ela sabe que a gente existe, mas só não estivemos com ela ainda. Mas vai acontecer.

Malu: Eu acho que ela ainda não teve tempo de estar ali com a gente. Mas é uma progressão e aos poucos vamos chegando lá. A gente vai se aproximando aos poucos.

Crystal: Esses dois planetas ainda vão se colidir. É isso!

Onde vocês acham que a Vera Fischer era Clubber se encaixa hoje na música brasileira?
Pek0: Música eletrônica. Música eletrônica experimental.

Vickluz: Eu acho que é rock. Porque pra mim rock, punk é atitude. Rock não é só um sonzinho que você faz assim ou assado…

Malu: Eu acho que está entre o experimental e o pop. São as coisas que mais se destacam, mas é difícil…

Vickluz: O pop é cheio de atitudes e códigos do rock. Então para mim, Vera Fischer Era Clubber está recontextualizando o que é rock hoje, sabe?

Pek0: Não, eu acho que não é rock não. Acho que nós somos o pop brasileiro. Acho que a gente está junta com o pop de certa forma.

Crystal: Ah, eu não acredito nisso de gênero musical. Acho que tem pessoas que produzem música de gênero, mas eu acho que as fronteiras já se misturaram há muito tempo, entendeu? Você tem indie porque é independente, indie gênero porque e as coisas vão desenvolvendo características próprias enquanto elas vão existindo no mercado e se tornando linguagem. Então assim, “AAAA eu não sei!”, mas eu acho que eu concordo com todas, entendeu? É experimental para caralho, tem uma coisa do pop do chiclete, com certeza tem punk para caralho sim. É eletrônico também, Pek0. É tudo isso ao mesmo tempo e não é nada, entendeu? É tipo assim, “AAAA” todos esses alfabetos.

Pek0: Eu acho que quem misturou muito bem todos esses elementos é o pop. E eu acho que o que de certa forma conecta a gente é o pop…

Crystal: Porque o que é pop também, sabe?

Vickluz: O pop é uma coisa que muda de tempos em tempos né?

Pek0: É porque a gente nasce na geração do pop…

Crystal: Tudo bem, a gente consome as referências de atitude, de destruição, de música até pode ser, mas assim, não sei, é difícil dizer porque assim, quando você olha a cena pop brasil é Marina Sena, é Anitta, é Duda Beat…

Pek0: E não encaixa muito bem com a gente, não encaixa…

Crystal: Não encaixa em lugar nenhum, mas eu entendo. A gente dialoga com elementos pop, faz parte, a gente usa desse alfabeto também.

Vickluz: Eu acho que a gente cria narrativas em cima desse universo, constrói letra e tal…

[Nesse momento todas as integrantes começam a falar ao mesmo tempo para dar suas próprias opiniões e o áudio fica confuso e difícil de acompanhar ou transcrever com exatidão o papo todo, abaixo é o melhor esforço desde repórter para tentar traduzir isso]

Vickluz: A gente pode ter códigos do universos pop, mas tem a releitura irônica, a gente não faz pop tanto em performance quanto som. Por mais que possa ter uma música tipo “A Gata Agora”, vai ter uma pegadinha assim.

Crystal: Eu sou filha da Britney, pode fazer o teste de DNA!

Vickluz: Amiga, quem escuta são as gays, as monas e as…
Crystal: Não, teve um cara que mandou um heterossexual curtindo. Porra, Pek0…

Vickluz: A gente está agradando. É uma coisa mais universal…

Pek0: É o quê?

Vickluz: Acho que para ser pop às vezes tem que ser uma coisa mais universal assim.
Pek0: Arca não é um pop experimental?

Malu: (rindo)

Vickluz: Não! Arca nunca foi pop!

Crystal: Arca é 100% experimental.

Vickluz: Mas é experimental ou música eletrônica?

Malu: Pega leve! (rindo) 

Pek0: Eu acho meio pop.

Crystal: Mas ela traz esses elementos para, enfim, mastigar e canibalizar.

Vickluz: É como eu acho que esse ponto da gente brinca com isso, entende? Da mesma forma que ela brinca com essa…

Crystal: Mas assim. Será que ela vai ler essa matéria? Mami beejoo. Ai gataaaa.

Pek0: Ela é a pura “ A Gata Agora”.

Crystal: Você queria isso, né, Alexandre? [Crystal fala e olha sério pra câmera]

Só para falar a minha percepção, quando vocês estavam falando o que faz parte do processo de ideias de composição de vocês, me veio na cabeça algo punk. Esse lance de procurar unir o que cada um gosta, não primar por uma técnica e procurar fazer algo diferente me vem muito a coisa do punk na cabeça. Talvez vocês sejam punk em essência, mas não necessariamente no som.
Crystal: Não, tudo bem.

Vickluz: Eu acho que é por aí também. Eu concordo com você, é bem por aí.

Pek0: É bem por aí, sim. É completamente por aí.

Ainda dentro na questão das músicas: vocês começam com as jams, uma coisa bem de experimentação e tal, mas existe uma vontade de dialogar com o pop mais mainstream? Vocês estão procurando isso?
Crystal: Eu acho que não é uma coisa que a gente busca conscientemente, não. Eu acho que a gente só está tentando fazer música sobre o agora, aí tudo fica junto nesse mesmo zeitgeist.

Vickluz: Eu tenho um pouco isso com a questão instrumental sim, mas não trazendo referências diretas do que está acontecendo e tentando me posicionar naquilo que estou produzindo instrumentalmente. Mas acho que tenho uma afinidade por isso. Eu gosto, esse universo me encanta. Então, querer fazer uma música, como eu sinto que foi fazer “A Gata Agora”, talvez fosse sobre encarar esse pop mainstream, porque é a faixa que a gente teve mais ouvintes. Eu acho que até tenho esse flerte, mas não é de uma forma tão consciente assim. Eu deixo as coisas irem mais a princípio de uma forma mais relaxada. Mas conforme a gente vai ali rebuscando a parada, tem um apelo em fazer com que os acordes sejam chicletes, e encontrar harmonias que grudem. Com “Fantasmas” e “A Gata Agora” acho que têm um apelo mais assim.

Pek0: Eu acho que tem uma coisa legal que vejo e interpreto é que as Veras é um laboratório experimental de ir pesquisando juntas. Nesse nosso novo processo que estamos, com novos equipamentos e coisas do tipo, estamos explorando sonoridades e não necessariamente com pop mainstream, mas mais com coisas mais conscientes. Vamos explorar um house e aí vamos entender tecnicamente o que que é um house, mas como a gente pode se apropriar disso e fazer coisas desse tipo, sabe? Mas sempre de uma forma muito lúdica.

Sobre essa questão lúdica e de teatralidade, cinema, etc. Quando vão se apresentar ao vivo, vocês interpretam um tipo de papel no palco ou são aquilo mesmo?
Vickluz: Eu acho que é uma coisa meio espiritual. O palco é uma descarga emocional…

Crystal: Essa pergunta é engraçada… Eu acho que não existe isso de interpretar um papel no palco. Tipo, eu nem sei o que é ser a mesma pessoa no palco e o que que é ser eu. Mas assim, definitivamente palco e câmera são coisas que fazem você agir diferente. É da índole da coisa, não tem como fazer diferente, entendeu? Mas é um lugar de responsabilidade, de fazer, morrer ou matar. Então é um outro tipo de pique de cabeça, sabe? Não é como se você ficasse em casa de um jeito assistindo TV e se de repente seu ar condicionado pega fogo, você fica de outro. O palco é um outro estado de espírito. Mas não tem esse negócio de não ser a mesma pessoa. É, sei lá…

Vickluz: E tipo assim, para mim é sempre isso. Tem essa coisa da pessoa que eu sou depois do show, tem a que eu era, a que eu sou antes. E acho que está tão preocupado e carregado do nosso próprio corpo, das nossas emoções, de estar em cima do palco, sabe? Isso gera uma série de recompensas para nós mesmos e modifica a gente. Então, acho que a gente tem que considerar sim que somos pessoas diferentes no palco, porque na vida a gente assume de certa forma alguma coisa, mas não é um personagem, é o nosso corpo conversando com aquela dinâmica.

Crystal: A minha mãe sempre fala para mim que é um personagem…

[nesse momento a ligação do Google Meet cai e voltamos minutos depois para encerrar o papo]

Eu acho que talvez a Crystal não tenha curtido muito a pergunta que eu fiz, mas vou fazer meu mansplaining e comentar o porque fiz essa pergunta. Eu pergunto porque sou um cara tímido e reservado, mas também toco em bandas e faço shows, mas pra mim estar no palco é muita adrenalina, passa muito rápido e já me disseram que pareço outra pessoa. E o David Bowie, por exemplo, quando subia no palco, também encarnava personagens porque era uma pessoa tímida. Não foi no sentido de dizer que vocês não são pessoas verdadeiras no palco ou coisa do tipo. Foi mais nesse sentido de assumir uma postura diferente que eu quis dizer.
Crystal: Não, não é isso de não gostar da pergunta! É aquilo que te falei, né? Você com essas suas coisas de “verdade”, “quem é você quando você tá no palco”, se você é “outra pessoa”. É que eu não acredito nessas coisas. Acredito que o que você está sendo ali no palco, é uma faceta de você. Eu também não acredito nesse conceito de “quem é você?”. Eu não sei quem eu sou. É isso. A minha mãe disse para mim, “não, você é um personagem no palco”, ela afirma, com certeza, mas eu não acho que ela sabe quem eu sou, entendeu? Se eu não sei, como é que ela vai saber? Então, é porque eu acho que ser alguém realmente não é um conceito fixo. Sim, a gente se apega a algumas coisas, mas eu constantemente me surpreendo comigo mesma, com os meus limites e me recuso a descreditar a ideia de que aquilo sou eu, de que eu preciso fantasiar uma personalidade. Eu acho que todas as personalidades são fantasia, sabe? A gente age o tempo todo no presente, num modo meio… desesperado mesmo, né? Enfim, eu acho meio difícil. É um ato de muita consciência se descrever. E muito limitante também de certa forma. Mas eu amei essa pergunta (risos).

Pek0: Eu não sei o que eu acho. Eu, por exemplo, venho do teatro. E nas Veras, eu tenho uma dificuldade de performar. Eu fico ali tão concentrada, tão presa ao que eu tenho que fazer, a me agarrar no “não errar”, que acho que me desmonto um pouco visualmente. Às vezes, se danço um pouquinho, me desconcentro e falo: “Meu Deus, não vou errar”. Ui, fico nervosa. Acho que são relações diferentes.

Esse próximo disco vai sair por um selo ou independente?
Malu: Continua independente, apesar de sair pela Palatável Records.

Crystal: Sim, eles também são independentes, mas a gente ama e lança com eles.

Pek0: A gente continua independente. E a Palatável ajuda no nosso corre. O Augusto Félix dá todo esse amparo técnico e ajuda a gente para caramba, a divulgar show também. Mas o trabalho criativo e da concepção criativa é muito nosso, temos muita autonomia. E isso que é o legal de ser independente, de conseguir ter as nossas escolhas, a nossa liberdade. Mas quando as pessoas vêem a gente no Cultura Livre, parece que a gente está muito bem. Pelo recorte que as pessoas vêm, parece que é muito glamour, que é muito lindo, sabe?

Crystal: Mas foi-se a época onde ter um selo significava que você está muito bem, onde um selo também era uma grande coisa. As pessoas hoje em dia gravam e fazem selo em casa.

Vickluz: Exatamente isso. Pessoas que olham de fora, não tem noção dessa precarização. Aconteceu em todas as áreas e também para os artistas. Estar na televisão não significa mais porra nenhuma, né? Há um tempo atrás, estar na televisão significava que você tinha vencido, que você estava com dinheiro. Hoje não…

Pek0: É, mas estamos vencendo, gente. É mais sobre isso.

Eu sei que não tem nada de glamour porque vi vocês saindo no final do festival 5 Bandas carregando os próprios equipamentos. Então, quem vê vocês aparecendo no Cultura Livre, pensa que devem estar ricas por aí, mas nada a ver (risos). Mas em termos de agenda de shows, o que vocês podem divulgar?
Crystal: A gente vai em agosto para Goiás, tocar no Festival Bananada.

Tem alguma coisa específica que vocês gostariam de falar nessa entrevista que eu não perguntei?
Malu: Uma coisa que vem aí é um feat com Katy da Voz e As Abusadas. Ainda não tem data para sair, mas vamos decidir com a Palatável e vai ser muito foda e estamos muito animadas para isso.

Crystal: Vai ser um hino, vai ser a pior música do mundo. Escreve isso!

Pek0: Queria deixar um apelo assim para chamar a gente pra trabalhar, porque as Veras querem trabalhar. (Risos)

Vickluz: Isso, a gente precisa rodar por aí e tocar mais.

Crystal: As Veras tem que sentar o cu, trabalhar e fazer o álbum sair, sabe?

Pek0: Mas as Veras querem dinheiro também. Elas querem fazer show por onde tiver.

Mas vocês não estão ricas com a Lei Rouanet, etc e tal? (risos)
Vickluz: Pior que não estamos! A gente precisa mesmo é trabalhar!

Pek0: Chamem a gente! (risos)

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.

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